Capítulo XXI
Algum dos que leem já voltou à vida depois de quase atravessar a fronteira da morte? Voltou para encontrar o mundo privado daquilo que o tornava belo? Depois de horas de delírio, despertar em fraqueza extrema para a certeza da perda, para dias de vazio doloroso, para a lembrança de coisas mais vastas que a morte e mais queridas que a própria vida? Quem atravessou esse vale talvez compreenda o que significaram para Paul os primeiros dias de consciência.
Ele nunca duvidou realmente da decisão contida na carta. Sentia que aquela partida significava para sempre. Ainda assim, a esperança que insiste em sobreviver nos seres vivos inventava argumentos, possibilidades e improbabilidades dentro da mente enfraquecida, aumentando a inquietação. A recuperação foi lenta.
Durante todo esse tempo, Sir Charles e Tompson cuidaram dele no velho palácio veneziano com uma dedicação silenciosa. Os criados italianos haviam sido pagos por um mês e deixados na casa, porém a mulher e todo o séquito russo desapareceram sem rastro.
Sir Charles e Tompson conheciam quase toda a história pelas palavras delirantes de Paul. Nenhum dos dois comentava o assunto. Tompson apenas completou alguns trechos que faltavam ao pai.
— Era a dama mais esplêndida que um homem poderia desejar ver, Sir Charles. Os criados adoravam a senhora. Se o senhor Verdayne está doente agora, pelo menos adoeceu por alguém que não era menos que uma rainha. — O fato consolava profundamente Tompson. Para Sir Charles, não havia consolo algum.
A dificuldade maior fora impedir Lady Henrietta de descer imediatamente para Veneza. Ela jamais deveria conhecer aquele episódio da vida do filho; pertencia ao tipo de inteligência que não conseguiria compreendê-lo. Excelente, amorosa e convencional, carregaria o choque e a vergonha até o fim da vida.
Assim que o perigo imediato diminuiu, Sir Charles tratou de reduzir a gravidade da doença nas cartas para casa. Ele e Paul estavam aproveitando Veneza, dizia; logo voltariam. Quando precisou mencionar a febre, atribuiu tudo aos perigos sanitários do estrangeiro e aos malditos encanamentos continentais. Lady Henrietta esperou com paciência educada e absoluta ignorância.
Foram dias exaustivos para todos. Doía ao pai ver Paul reduzido à fraqueza de uma criança, toda a juventude e a força derrubadas pela tempestade. Durante o delírio, uma súplica voltava sem cessar:
— Darling, volte para mim. Darling... minha rainha.
Mesmo depois de recuperar a consciência, era difícil vê-lo deitado sem força, branco, com sombras azuis na pele que antes parecia cheia de sol. As mãos, sobretudo, impressionavam Sir Charles: magras, transparentes, inúteis sobre o lençol.
Ao menos o pai compreendia uma coisa. Não podia ter sido uma mulher comum a causar um choque capaz de derrubar aquele jovem Hércules depois de apenas três semanas de emoção contínua. A Tiger Queen devia ter valido alguma coisa. Num dia, contrariando a própria reserva habitual, Sir Charles perguntou a Tompson:
— Que aparência tinha ela? — O criado não fingiu ignorar de quem falavam.
— Era uma mulher muito forte de aparência, Sir Charles. Um homem não conseguia dizer direito quando chegava perto, porque ela meio que ofuscava. Cabelos pretos, rosto branco e... olhos de bruxa. Era muito gentil e ao mesmo tempo dominadora, altiva e generosa. Qualquer pessoa saberia que era rainha.
— Jovem? — Tompson alisou o queixo.
— Não saberia dizer, Sir Charles. Alguns dias parecia ter uns vinte e cinco, outros passava dos trinta. Se tivesse de dizer a verdade, talvez trinta e três a trinta e cinco.
— Bonita? — Os olhos de Tompson se arredondaram.
— Era tão fascinante que não sei dizer, Sir Charles. Às vezes parecia a dama mais linda que já vi.
— Hum.
Sir Charles tornou ao silêncio. Tompson interpretou o som como possível desaprovação e acrescentou, cauteloso, que ela tinha um marido detestável, talvez um rei, certamente nenhum cavalheiro. Os criados falavam pouco e não dominavam o inglês, porém Vasili dissera numa mistura de línguas que provavelmente ainda teria de matar o homem algum dia. A enorme cicatriz no rosto de Vasili, explicou Tompson, fora recebida no ano anterior quando defendera a rainha da brutalidade do marido bêbado.
— E o senhor Verdayne é tão bonito... Não admira, Sir Charles...
— Basta, Tompson. — Sir Charles franziu a testa.
A carta fatal, colocada cuidadosamente num novo envelope, e o estojo de couro estavam guardados na caixa de documentos dele. Tompson entregara os dois assim que chegara a Veneza. Alguns dias depois, quando Paul já podia ser levado para uma chaise longue na loggia lateral, Sir Charles decidiu devolver o que pertencia ao filho.
A apatia de Paul era quase paralisante. Desde que o pequeno médico italiano o declarara fora de perigo, atravessava os dias numa quietude lânguida e sem fim. Era educado, indiferente e entorpecido; nada despertava interesse.
— Precisamos acordá-lo agora — disse Sir Charles ao médico. — Está quente demais em Veneza. Quero levá-lo para um clima mais forte. — O médico concordou.
Numa tarde muito quente, quando a chegada de junho já tornara necessárias as cortinas contra mosquitos, Sir Charles entrou na loggia onde Paul descansava.
— Tenho uma carta e um pacote seus. É melhor olhar. Pretendemos partir para o norte em um ou dois dias; você precisa de ar mais vigoroso. — Empurrou os objetos para dentro da cortina de proteção e se virou, oferecendo ao filho a privacidade possível.
O sangue subiu ao rosto de Paul e desapareceu logo depois, deixando-o mortalmente pálido. Quebrou o selo. A pequena esfinge no canto do papel pareceu zombar dele: a vida realmente se transformara num enigma de dor. Leu a carta inteira. Depois leu outra vez.
Passado o primeiro horror da despedida, as palavras apaixonadas agora traziam também calor. Uma frase que mal conseguira perceber antes se destacou:
“Sweetheart, não sofra. Pense sempre no futuro e na nossa esperança. Nosso amor não morreu com a separação; um dia haverá um sinal vivo.” A ideia foi como bálsamo.
Um sinal vivo. Só que como saberia?
Paul voltou-se então para o estojo de couro. Os dedos ainda estavam tão fracos que teve dificuldade para pressionar a pequena mola.
Olhou para as costas do pai, recortadas contra os arcos da loggia. Sir Charles parecia dedicado com determinação absoluta à contemplação dos oleandros abaixo. Paul conseguiu abrir o estojo.
Dentro havia uma coleira de cão feita de pequenas placas flexíveis de ouro batido, montadas sobre couro russo, trabalho delicado e perfeito. Junto dela, um papel escrito pela mão que Paul reconheceria entre milhares:
“Isto é para Pike, meu amado. Faça com que ele use sempre. Um presente meu.” Na própria coleira, finamente gravadas, estavam as palavras:
“Pike, pertencente a Paul Verdayne.” As comportas da alma entorpecida se abriram. Um soluço enorme subiu no peito. Paul cobriu o rosto com as mãos e chorou como criança. Ela pensara em Pike. No pequeno amigo dele.
Sir Charles fingiu não ver. Saiu silenciosamente da loggia, o rosto rude contraído por um instante e os olhos perspicazes úmidos.