Capítulo XXX Três Semanas · Capítulo 31 de 32
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Capítulo XXX

Alguns leitores considerarão justa a morte dela porque não viveu segundo a moral convencional. Outros, como Paul, acreditarão que foi a mais nobre das mulheres que já usaram uma coroa. De qualquer modo, está além de nossos pequenos julgamentos.

O que fez dentro de Paul continuou vivo, embora durante muitos meses esse legado quase desaparecesse sob ódio, dor e revolta. Depois daquele dia de junho, ele não suportava a companhia humana. Sir Charles e Grigsby deixaram o iate sob seu comando e permitiram que navegasse sozinho com a tripulação.

Ninguém saberia contar as horas que Paul atravessou então. Uma pergunta dominava todas as outras: por que não voltara naquela primeira noite? Por que obedecera? Por que Vasili tivera a satisfação de matar o assassino da rainha e Paul, não?

A lembrança do filho não o alcançava. O menino estava seguro sob os cuidados do grão-duque Peter, rei aos quatro meses de idade. Tronos, países e herdeiros significavam pouco diante da perda. A mulher morrera para salvar Paul de quê? Três bêbados armados, pensava ele, homens que teria sentido prazer em enfrentar.

Havia momentos em que a raiva se tornava física. Paul se contorcia no beliche, dominado por uma necessidade inútil de voltar no tempo e refazer aquela noite. O pensamento de que ela escolhera conscientemente o risco por ele tornava a dor ainda pior. Meses se passaram antes que conseguisse dominar-se o suficiente para regressar à Inglaterra.

Lady Henrietta, que já ficara assustada com a aparência do filho depois da febre em Veneza, agora quase não encontrou palavras. Paul voltara com o rosto endurecido. A dor parecia ter transformado em pedra o que antes era juventude. Continuava gentil com a mãe, permitia carinhos e cuidados, respondia com educação, porém nada chegava realmente até ele. Nem a alegria de Pike atravessou aquela rigidez. O mundo parecia inimigo. Paul estava vivo e a companheira não.

Depois da violência veio a apatia. A existência perdeu sabor. Parlamento, Inglaterra, propriedades, ambição, casa, tudo parecia igualmente distante. Apenas a caça ainda conseguia provocar alguns minutos de reação quando a corrida era rápida, o salto perigoso ou o cavalo difícil o suficiente para obrigar o corpo a se concentrar. Fora disso, os dias eram vazios.

Às vezes Paul pensava na pequena pistola de Dmitry. Bastaria um gesto e haveria sono, talvez silêncio definitivo. Alguma coisa profunda, formada por criação, orgulho e instinto de sobrevivência, sempre interrompia o pensamento antes que se transformasse em ato.

Sir Charles sofria em silêncio. Lady Henrietta passava horas entre lágrimas e orações. O marido lhe dissera apenas que Paul atravessara uma dor enorme e que precisavam respeitá-lo. As festas de jovens desapareceram de Verdayne Place, assim como os planos de casamento e netos. Grigsby continuou sendo o visitante constante porque sabia.

Um ano passou.

Por fim, Paul decidiu viajar ao redor do mundo. A obrigação quase brutal de continuar sendo homem começava a chamá-lo; talvez a mudança de países, climas e perigos afrouxasse o domínio da dor. Não afrouxou.

Tempestades no mar, situações arriscadas e a necessidade imediata de agir conseguiam distraí-lo por algumas horas. Assim que tudo voltava à calma, o vazio reaparecia. Mulheres gentis tentavam aproximar-se, ofereciam simpatia, admiração e afeto. Paul conversava, era cortês, às vezes até agradável. Nada tocava a parte mais funda.

Uma paisagem de montanha ou a cor das faias bastavam para abrir novamente o Bürgenstock dentro dele. O perfume de tuberosas era pior. Em Nova York, certa noite, precisou abandonar uma ópera porque uma mulher do grupo usava as flores no vestido.

Ainda assim, sem perceber, continuava a cumprir uma parte dos desejos da rainha. Lia muito. Estudava governos, povos, história, economia e costumes. Aplicava a clareza de raciocínio dela aos problemas que encontrava. Era como se o mundo tivesse sido escrito em cifra e ela lhe houvesse dado a chave pouco antes de desaparecer.

A mente se tornou tão incansável quanto o corpo. Paul viajou por continentes, conheceu chefes de Estado, aristocratas, aventureiros, soldados e homens de pensamento. Era recebido entre pessoas influentes e aprendia depressa.

O conhecimento, porém, não produzia esperança. Existia nele uma dureza quase mineral. Não acreditava em destino, recompensa ou consolo; não tinha ambição. Analisava tudo com a frieza de um cirurgião. Se restava algum objetivo, era atravessar a vida até chegar ao esquecimento. Às vezes pensava no filho. Quando isso acontecia, fechava a lembrança depressa.

Sentir era sofrer. Essa se tornou quase a única crença.

Na Índia, anos depois, ocorreu uma fissura inesperada nesse sistema. Paul participava de uma caçada ao tigre organizada por um rajá conhecido. Um animal magnífico apareceu muito perto e Paul atirou por instinto. O tigre caiu.

Quando se aproximou e viu o corpo poderoso imóvel, uma náusea tomou conta dele. Nenhuma criatura lembrava tanto a mulher perdida. Voltou de uma vez a tarde em Lucerna, o tigre estendido diante da lareira, ela sobre a pele, os olhos brilhando. A frase também voltou: conheço seus sentimentos e paixões; agora tenho sua pele para o prazer da minha. Paul ficou olhando para o animal morto. Nunca mais mataria um tigre.

Durante semanas, a lembrança rompeu a calma artificial que construíra. A dor regressou com a mesma violência dos primeiros dias.

Assim os anos seguiram. País algum e viagem alguma diminuíam a certeza da perda. Uma frase banal se repetia dentro da cabeça: nunca mais.

Nunca mais os braços dela.

Nunca mais a voz.

Nunca mais.

Havia períodos em que a revolta contra o destino quase o levava outra vez à loucura. Paul fugia das cidades e procurava desertos, montanhas, selvas, qualquer lugar em que não precisasse representar normalidade. Depois vinha a letargia, até algum cheiro, cor ou lembrança reacender tudo. Tinha força de vontade; nem sempre bastava.

Passara mais de dois anos fora da Inglaterra quando recebeu na América a notícia da morte de tio Hubert. A primeira sensação foi alívio. Nenhum comentário casual, nenhuma frase diplomática ou lembrança de corte poderia agora trazer à tona a mulher por acidente. Em seguida, Paul lembrou que Lady Henrietta amara muito o irmão e escreveu à mãe uma carta terna. A resposta dela, por alguma razão, conseguiu tocá-lo.

Paul começou a pensar nos pais. A vida podia ser um terreno morto para ele, porém não tinha direito de transformar em terreno morto a velhice dos dois seres que o amavam desde o nascimento. Voltou à Inglaterra.

Sir Charles e Lady Henrietta receberam o terceiro retorno do filho com uma alegria quieta, quase cautelosa. Paul aceitou a rotina como um animal selvagem que aprende temporariamente alguns movimentos de circo. Voltou a jantar com conhecidos, comparecer a compromissos e participar da vida da propriedade. A ideia do Parlamento ressurgiu, porém ele recusou. Ainda não suportava vínculos. Permaneceria em casa boa parte do ano; quando a antiga angústia viesse, precisaria ter liberdade para desaparecer. Lady Henrietta começou a acreditar que a grande dor desconhecida enfim perdia força. Não perdia. Apenas ganhava uma superfície mais dura.

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