II — O palácio ao sol
Ao dobrar uma rua, enquanto o jovem padre virava a cabeça para outro lado, um pajem negro, vestido de maneira estranha, aproximou-se de mim e me entregou, sem parar em sua corrida, uma pequena caderneta com cantos de ouro cinzelado, fazendo sinal para que eu a escondesse; deslizei-a para dentro da manga e a mantive ali até estar sozinho em minha cela.
Abri o fecho de um golpe; havia apenas duas folhas com estas palavras: “Clarimonde, no palácio Concini.” Naquele tempo, eu conhecia tão pouco as coisas da vida que não sabia quem era Clarimonde, apesar de sua celebridade, e ignorava por completo onde ficava o palácio Concini. Fiz mil conjecturas, cada qual mais extravagante que a outra; mas, na verdade, desde que pudesse revê-la, pouco me preocupava com o que ela pudesse ser, grande dama ou cortesã.
Aquele amor, nascido havia um instante, se enraizara de maneira indestrutível; nem sequer pensei em tentar arrancá-lo, tão impossível isso me parecia. Aquela mulher se apoderara inteiramente de mim; um único olhar bastara para me transformar; ela soprara em mim sua vontade; eu já não vivia em mim, mas nela e por ela. Cometia mil extravagâncias, beijava em minha mão o lugar que ela tocara e repetia seu nome durante horas inteiras.
Bastava fechar os olhos para vê-la tão distintamente como se estivesse realmente presente, e eu repetia a mim mesmo aquelas palavras que me dissera sob o portal da igreja: “Infeliz! Infeliz! O que você fez?” Compreendia todo o horror de minha situação, e os aspectos fúnebres e terríveis da condição que acabara de abraçar se revelavam claramente a mim.
Ser padre! Isto é, ser casto, não amar, não distinguir sexo nem idade, desviar-se de toda beleza, arrancar os próprios olhos, rastejar sob a sombra gelada de um claustro ou de uma igreja, só ver moribundos, velar junto a cadáveres desconhecidos e carregar o próprio luto na batina preta, de modo que se possa fazer de nossa roupa um pano para nosso caixão!
E eu sentia a vida subir dentro de mim como um lago interior que se avoluma e transborda; meu sangue pulsava com força nas artérias; minha juventude, comprimida por tanto tempo, irrompia de repente como o aloés que leva cem anos para florescer e se abre com um estrondo de trovão.
Como fazer para rever Clarimonde? Eu não tinha nenhum pretexto para sair do seminário, pois não conhecia ninguém na cidade; nem sequer devia permanecer ali, onde só esperava que me designassem a paróquia que deveria ocupar. Tentei desprender as grades da janela; mas ela ficava a uma altura assustadora e, como eu não tinha escada, era inútil pensar nisso.
E, além disso, eu só poderia descer à noite; como me orientaria no inextricável labirinto das ruas? Todas aquelas dificuldades, que nada seriam para outros, eram imensas para mim, pobre seminarista, apaixonado desde a véspera, sem experiência, sem dinheiro e sem roupas.
Ah, se eu não fosse padre, poderia vê-la todos os dias; seria seu amante, seu marido, dizia a mim mesmo em minha cegueira; em vez de estar envolto em minha triste mortalha, teria roupas de seda e veludo, correntes de ouro, uma espada e plumas, como os belos jovens cavaleiros. Meus cabelos, em vez de desonrados por uma larga tonsura, brincariam ao redor de meu pescoço em cachos ondulantes. Eu teria um belo bigode encerado, seria um valente.
Mas uma hora passada diante de um altar, algumas palavras mal articuladas, me excluíam para todo o sempre do número dos vivos, e eu mesmo selara a pedra de meu túmulo, empurrara com minha própria mão o ferrolho de minha prisão!
Fui à janela. O céu estava admiravelmente azul, as árvores tinham vestido sua roupa de primavera; a natureza fazia alarde de uma alegria irônica. A praça estava cheia de gente; uns iam, outros vinham; jovens elegantes e jovens beldades, de dois em dois, seguiam para o lado do jardim e dos caramanchões. Companheiros passavam cantando refrões de bebida; era um movimento, uma vida, uma animação, uma alegria que faziam sobressair dolorosamente meu luto e minha solidão.
Uma jovem mãe, à soleira da porta, brincava com seu filho; beijava-lhe a boquinha rosada, ainda salpicada de gotas de leite como pérolas, e, provocando-o, fazia-lhe mil daquelas divinas criancices que só as mães sabem inventar. O pai, de pé a alguma distância, sorria docemente para aquele grupo encantador, e seus braços cruzados apertavam sua alegria contra o coração.
Não pude suportar aquele espetáculo; fechei a janela e me atirei na cama, com um ódio e um ciúme pavorosos no coração, mordendo os dedos e a coberta como um tigre em jejum havia três dias.
Não sei quantos dias permaneci assim; mas, ao me voltar num movimento de espasmo furioso, avistei o padre Sérapion de pé no meio do quarto, considerando-me atentamente. Senti vergonha de mim mesmo e, deixando cair a cabeça sobre o peito, cobri os olhos com as mãos.
“Romuald, meu amigo, alguma coisa extraordinária se passa em você”, disse-me Sérapion depois de alguns minutos de silêncio; “seu comportamento é verdadeiramente inexplicável! Você, tão piedoso, tão calmo e tão manso, se agita em sua cela como uma fera.
“Tome cuidado, meu irmão, e não escute as sugestões do diabo; o espírito maligno, irritado porque você se consagrou para todo o sempre ao Senhor, ronda ao seu redor como um lobo voraz e faz um último esforço para atraí-lo. Em vez de se deixar abater, meu caro Romuald, faça para si uma couraça de orações, um escudo de mortificações, e combata valentemente o inimigo; você o vencerá. A provação é necessária à virtude, e o ouro sai mais puro da copela.
“Não se assuste nem desanime; as almas mais bem guardadas e mais firmes tiveram momentos assim. Reze, jejue, medite, e o mau espírito se retirará.”
O discurso do padre Sérapion me fez voltar a mim mesmo, e fiquei um pouco mais calmo. “Vim anunciar sua nomeação para a paróquia de C***; o padre que a ocupava acaba de morrer, e Sua Excelência, o bispo, me encarregou de ir instalá-lo ali; esteja pronto para amanhã.” Respondi com um aceno de cabeça que estaria, e o padre se retirou.
Abri meu missal e comecei a ler orações; mas aquelas linhas logo se confundiram sob meus olhos; o fio das ideias se enredou em meu cérebro, e o volume escorregou de minhas mãos sem que eu percebesse.
Partir amanhã sem tê-la revisto! Acrescentar ainda outra impossibilidade a todas as que já existiam entre nós! Perder para todo o sempre a esperança de encontrá-la, salvo por um milagre! Escrever-lhe? Por quem faria chegar minha carta? Com o caráter sagrado de que estava investido, a quem me abrir, em quem confiar? Eu sentia uma ansiedade terrível.
Depois, voltava-me à memória o que o padre Sérapion dissera dos artifícios do diabo; a estranheza da aventura, a beleza sobrenatural de Clarimonde, o brilho fosforescente de seus olhos, a impressão ardente de sua mão, a perturbação em que me lançara, a mudança súbita que se operara em mim, minha piedade dissipada num instante, tudo aquilo provava claramente a presença do diabo, e aquela mão acetinada talvez fosse apenas a luva com que ele cobrira sua garra.
Aquelas ideias me lançaram num grande pavor; recolhi o missal que rolara de meus joelhos para o chão e voltei às orações.
No dia seguinte, Sérapion veio buscar-me; duas mulas nos esperavam à porta, carregadas com nossas escassas malas; ele montou uma, e eu a outra, com dificuldade. Enquanto percorríamos as ruas da cidade, eu olhava para todas as janelas e todos os balcões, para ver se avistava Clarimonde; mas era cedo demais, e a cidade ainda não abrira os olhos. Meu olhar procurava penetrar por trás das persianas e através das cortinas de todos os palácios diante dos quais passávamos.
Sérapion sem dúvida atribuía aquela curiosidade à admiração que me causava a beleza da arquitetura, pois diminuía o passo de sua montaria para me dar tempo de olhar. Por fim, chegamos à porta da cidade e começamos a subir a colina. Quando alcancei o alto, voltei-me para olhar mais uma vez os lugares onde Clarimonde vivia.
A sombra de uma nuvem cobria inteiramente a cidade; seus telhados azuis e vermelhos se confundiam numa meia-tinta geral, sobre a qual flutuavam aqui e ali, como brancos flocos de espuma, as fumaças da manhã. Por um singular efeito de óptica, desenhava-se, loiro e dourado sob um único raio de luz, um edifício que superava em altura as construções vizinhas, inteiramente mergulhadas na névoa; embora estivesse a mais de uma légua, parecia muito próximo.
Distinguiam-se seus menores detalhes, as pequenas torres, os terraços, as janelas, e até os cata-ventos em cauda de andorinha.
“Que palácio é aquele que vejo lá ao longe, iluminado por um raio de sol?”, perguntei a Sérapion. Ele pôs a mão sobre os olhos e, depois de olhar, respondeu-me: “É o antigo palácio que o príncipe Concini deu à cortesã Clarimonde; coisas pavorosas acontecem ali.”
Naquele momento, ainda não sei se foi uma realidade ou uma ilusão, julguei ver deslizar pelo terraço uma figura esbelta e branca que cintilou por um segundo e se apagou. Era Clarimonde!
Oh, saberia ela que, àquela hora, do alto daquele caminho áspero que me afastava dela e que eu não deveria mais descer, ardente e inquieto, eu acariciava com os olhos o palácio em que ela morava, e que um jogo zombeteiro de luz parecia aproximar de mim, como para me convidar a entrar ali como senhor? Sem dúvida, ela sabia, pois sua alma estava ligada à minha por uma afinidade tão profunda que não poderia deixar de sentir seus menores abalos, e fora esse sentimento que a levara, ainda envolta em seus véus de noite, a subir ao alto do terraço, sob o orvalho gelado da manhã.
A sombra tomou o palácio, e restou apenas um oceano imóvel de telhados e coberturas, no qual nada se distinguia além de uma ondulação montanhosa. Sérapion incitou sua mula, cuja marcha a minha logo acompanhou, e uma curva do caminho me ocultou para sempre a cidade de S…, pois eu não deveria voltar a ela.
Ao fim de três dias de viagem por campos bastante tristes, vimos despontar entre as árvores o galo do campanário da igreja que eu deveria servir; e, depois de seguir algumas ruas tortuosas, ladeadas de casas com telhados de palha e pequenas hortas, encontramo-nos diante da fachada, que não era de grande magnificência.
Um pórtico ornado de algumas nervuras e de dois ou três pilares de arenito grosseiramente talhados, um telhado de telhas e contrafortes do mesmo arenito dos pilares, era tudo: à esquerda, o cemitério inteiramente coberto de capim alto, com uma grande cruz de ferro no meio; à direita, à sombra da igreja, o presbitério. Era uma casa de extrema simplicidade e de uma limpeza árida.
Entramos; algumas galinhas bicavam no chão uns poucos grãos de aveia; aparentemente acostumadas à roupa preta dos eclesiásticos, não se assustaram com nossa presença e mal se afastaram para nos deixar passar. Ouviu-se um latido áspero e rouco, e vimos um velho cão chegar correndo.
Era o cão de meu antecessor. Tinha o olhar apagado, o pelo grisalho e todos os sinais da velhice mais avançada a que um cão pode chegar. Acariciei-o suavemente com a mão, e ele logo começou a caminhar a meu lado com um ar de satisfação inexprimível. Uma mulher bastante idosa, que fora governanta do antigo pároco, também veio ao nosso encontro e, depois de me fazer entrar numa sala de teto baixo, perguntou-me se eu pretendia mantê-la.
Respondi-lhe que a manteria, assim como o cão, as galinhas e todos os móveis que seu patrão lhe deixara ao morrer, o que a lançou num transporte de alegria, pois o padre Sérapion lhe entregou na mesma hora o preço que ela pedia pela mobília.
Concluída minha instalação, o padre Sérapion voltou ao seminário. Fiquei, portanto, sozinho, sem outro apoio além de mim mesmo. O pensamento de Clarimonde voltou a me obcecar e, por mais esforços que fizesse para afastá-lo, nem sempre conseguia.
Certa noite, enquanto passeava pelas alamedas ladeadas de buxos de meu pequeno jardim, pareceu-me ver através da sebe de carpinos uma figura de mulher que acompanhava todos os meus movimentos, e, entre as folhas, cintilarem os dois olhos verde-mar; mas era apenas uma ilusão e, passando para o outro lado da alameda, não encontrei nada além de uma pegada na areia, tão pequena que dir-se-ia o pé de uma criança.
O jardim estava cercado de muros muito altos; percorri todos os seus cantos e recantos; não havia ninguém. Nunca consegui explicar aquela circunstância, que, de resto, nada era diante das coisas estranhas que ainda deveriam me acontecer. Vivia assim havia um ano, cumprindo com exatidão todos os deveres de minha condição, rezando, jejuando, exortando e socorrendo os enfermos, dando esmolas a ponto de me privar das necessidades mais indispensáveis.
Mas sentia dentro de mim uma aridez extrema, e as fontes da graça me estavam fechadas. Não desfrutava daquela felicidade que o cumprimento de uma missão santa proporciona; meu pensamento estava em outro lugar, e as palavras de Clarimonde voltavam muitas vezes aos meus lábios como uma espécie de refrão involuntário.
Ó irmão, medite bem sobre isto! Por ter levantado uma única vez o olhar para uma mulher, por uma falta aparentemente tão leve, sofri durante vários anos as mais miseráveis agitações: minha vida foi perturbada para sempre.