III — A rosa branca A Morta Apaixonada · Capítulo 3 de 6
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III — A rosa branca

Não o deterei por mais tempo nessas derrotas e vitórias interiores, sempre seguidas de recaídas mais profundas, e passarei imediatamente a uma circunstância decisiva. Uma noite, tocaram com violência a campainha de minha porta. A velha governanta foi abrir, e um homem de pele acobreada, ricamente vestido, mas à moda estrangeira, com um longo punhal, desenhou-se sob a luz da lanterna de Barbara.

Seu primeiro movimento foi de susto; o homem, porém, a tranquilizou e lhe disse que precisava falar comigo imediatamente sobre algo que dizia respeito a meu ministério. Barbara o fez subir. Eu estava prestes a me deitar. O homem me disse que sua senhora, uma dama de altíssima posição, se encontrava às portas da morte e desejava um padre. Respondi que estava pronto a acompanhá-lo; tomei comigo o necessário para a extrema-unção e desci às pressas.

Diante da porta, dois cavalos negros como a noite pateavam de impaciência, lançando sobre o peito duas longas ondas de vapor. Ele segurou o estribo e me ajudou a montar num deles; depois saltou sobre o outro, apoiando apenas uma mão no arção da sela. Apertou os joelhos e soltou as rédeas de seu cavalo, que partiu como uma flecha. O meu, cuja brida ele segurava, também tomou o galope e se manteve rigorosamente a seu lado.

Devorávamos o caminho; a terra corria sob nós, cinzenta e riscada, e as silhuetas negras das árvores fugiam como um exército em debandada. Atravessamos uma floresta de escuridão tão espessa e gelada que senti um arrepio de terror supersticioso percorrer minha pele.

Os tufos de faíscas que as ferraduras de nossos cavalos arrancavam das pedras deixavam à nossa passagem uma espécie de rastro de fogo; se alguém nos tivesse visto àquela hora da noite, a mim e a meu condutor, teria nos tomado por dois espectros montados no pesadelo. Fogos-fátuos atravessavam de vez em quando o caminho, e as gralhas gritavam lastimosamente no denso bosque, onde brilhavam, aqui e ali, os olhos fosforescentes de alguns gatos selvagens.

As crinas dos cavalos se revolviam cada vez mais, o suor escorria por seus flancos e a respiração saía ruidosa e apressada de suas narinas. Mas, quando os via fraquejar, o escudeiro soltava, para reanimá-los, um grito gutural que nada tinha de humano, e a corrida recomeçava com fúria.

Por fim, o turbilhão parou; uma massa negra, salpicada de alguns pontos luminosos, ergueu-se de súbito diante de nós. Os passos de nossas montarias ressoaram com mais força sobre um piso reforçado com ferro, e entramos sob uma abóbada que abria sua boca sombria entre duas torres enormes. Grande agitação reinava no castelo; criados com tochas nas mãos atravessavam os pátios em todas as direções, e luzes subiam e desciam de um patamar a outro.

Entrevi confusamente construções imensas, colunas, arcadas, escadarias e rampas, um luxo arquitetônico verdadeiramente real e feérico. Um pajem negro, o mesmo que me entregara a caderneta de Clarimonde e que reconheci no mesmo instante, veio ajudar-me a desmontar; um mordomo, vestido de veludo preto, com uma corrente de ouro ao pescoço e uma bengala de marfim na mão, avançou ao meu encontro. Grandes lágrimas transbordavam de seus olhos e corriam pelas faces até a barba branca.

— Tarde demais! — disse ele, balançando a cabeça. — Tarde demais, senhor padre! Mas, já que não pôde salvar a alma, venha velar o pobre corpo. — Tomou-me pelo braço e me conduziu à câmara mortuária; eu chorava tanto quanto ele, pois compreendera que a morta era aquela mesma Clarimonde que eu amava tanto e com tamanha loucura.

Um genuflexório estava disposto junto à cama; uma chama azulada, tremulando sobre uma taça de bronze, espalhava pelo quarto uma claridade fraca e incerta e, aqui e ali, fazia cintilar na sombra alguma aresta saliente de móvel ou de cornija.

Sobre a mesa, mergulhada numa urna cinzelada, havia uma rosa branca murcha, cujas pétalas, com exceção de uma só que ainda se prendia à flor, tinham todas caído ao pé do vaso, como lágrimas perfumadas; uma máscara preta quebrada, um leque e disfarces de toda espécie estavam espalhados pelas poltronas e mostravam que a morte chegara àquela morada suntuosa de surpresa, sem se fazer anunciar.

Ajoelhei-me sem ousar lançar os olhos sobre a cama e comecei a recitar os salmos com grande fervor, agradecendo a Deus por ter colocado o túmulo entre mim e o pensamento daquela mulher, para que eu pudesse acrescentar às minhas preces seu nome, agora santificado. Pouco a pouco, porém, esse ímpeto arrefeceu, e caí em devaneio. Aquele quarto nada tinha de uma câmara de morte.

Em lugar do ar fétido e cadavérico que eu costumava respirar naquelas vigílias fúnebres, uma fumaça lânguida de essências orientais, um perfume amoroso de mulher que eu não saberia definir, flutuava suavemente no ar morno. Aquela pálida claridade parecia antes uma meia-luz preparada para a volúpia que a lamparina de reflexo amarelo que tremula junto aos cadáveres.

Eu pensava no singular acaso que me fizera reencontrar Clarimonde no momento em que a perdia para sempre, e um suspiro de pesar escapou de meu peito. Pareceu-me que alguém também suspirara atrás de mim, e me voltei involuntariamente. Era o eco. Nesse movimento, meus olhos caíram sobre o leito de aparato que até então tinham evitado.

As cortinas de damasco vermelho com grandes flores, recolhidas por cordões entrançados de ouro, deixavam ver a morta estendida em todo o seu comprimento, com as mãos unidas sobre o peito. Cobria-a um véu de linho de brancura deslumbrante, ainda mais realçada pela púrpura escura das cortinas, e de tamanha finura que em nada ocultava a forma encantadora de seu corpo; permitia acompanhar aquelas belas linhas ondulantes como o pescoço de um cisne, que nem a própria morte conseguira enrijecer.

Parecia uma estátua de alabastro feita por algum escultor hábil para ser colocada sobre o túmulo de uma rainha, ou ainda uma jovem adormecida sobre quem tivesse nevado.

Eu já não podia suportar aquilo; a atmosfera de alcova me embriagava, aquele perfume febril de rosa meio murcha me subia à cabeça, e eu caminhava a passos largos pelo quarto, detendo-me a cada volta diante do estrado para contemplar a graciosa morta sob a transparência de sua mortalha. Pensamentos estranhos me atravessavam o espírito; imaginava que ela não estava realmente morta e que aquilo era apenas um fingimento de que se servira para me atrair a seu castelo e me contar seu amor.

Por um instante, cheguei a acreditar que vira seu pé se mover na brancura dos véus, desfazendo as pregas retas do sudário.

Então eu dizia a mim mesmo: “Será mesmo Clarimonde? Que prova tenho? Aquele pajem negro não poderia ter entrado a serviço de outra mulher? Sou um louco por me desesperar e me agitar assim”. Mas meu coração me respondeu com uma batida: “É ela, sim, é ela”. Aproximei-me da cama e contemplei com atenção redobrada o objeto de minha incerteza.

Devo confessar-lhe? Aquela perfeição de formas, embora purificada e santificada pela sombra da morte, me perturbava mais voluptuosamente do que deveria, e aquele repouso se parecia tanto com o sono que seria fácil confundi-los. Eu esquecia que viera para um ofício fúnebre e me imaginava um jovem esposo entrando no quarto da noiva, que esconde o rosto por pudor e não quer se deixar ver.

Dilacerado de dor, perdido de alegria, tremendo de medo e prazer, inclinei-me para ela e tomei uma ponta do lençol; ergui-a lentamente, prendendo a respiração por medo de despertá-la. Minhas artérias pulsavam com tanta força que eu as sentia zunir nas têmporas, e o suor me escorria pela testa como se eu tivesse levantado uma laje de mármore.

Era, de fato, Clarimonde, tal como eu a vira na igreja durante minha ordenação; estava igualmente encantadora, e a morte parecia nela mais um artifício de sedução.

A palidez das faces, o rosa menos vivo dos lábios, os longos cílios abaixados, recortando sua franja castanha sobre aquela brancura, davam-lhe uma expressão de castidade melancólica e sofrimento pensativo, de um poder de sedução inexprimível; seus longos cabelos soltos, nos quais ainda se misturavam algumas pequenas flores azuis, serviam de travesseiro à cabeça e protegiam com seus cachos a nudez dos ombros; as belas mãos, mais puras e diáfanas que hóstias, estavam cruzadas numa atitude de repouso piedoso e prece silenciosa, que moderava o que poderiam ter de excessivamente sedutor, mesmo na morte, a primorosa redondeza e o lustro de marfim dos braços nus, dos quais não se haviam retirado os braceletes de pérolas.

Fiquei muito tempo absorto numa contemplação silenciosa; quanto mais a olhava, menos podia acreditar que a vida abandonara para sempre aquele belo corpo. Não sei se era uma ilusão ou um reflexo da lâmpada, mas parecia que o sangue começava a circular outra vez sob aquela palidez sem brilho; ela, no entanto, permanecia na mais perfeita imobilidade.

Toquei de leve seu braço; estava frio, mas não mais frio que sua mão no dia em que roçara a minha sob o portal da igreja. Retomei minha posição, inclinando meu rosto sobre o dela e deixando chover em suas faces o orvalho morno de minhas lágrimas. Ah, que sentimento amargo de desespero e impotência! Que agonia aquela vigília! Eu desejava poder reunir toda a minha vida numa só porção para entregá-la a ela e soprar sobre seu corpo gelado a chama que me devorava.

A noite avançava e, sentindo aproximar-se o momento da separação eterna, não pude me negar a triste e derradeira doçura de depositar um beijo nos lábios mortos daquela que recebera todo o meu amor. Oh, prodígio! Um sopro leve se misturou ao meu, e a boca de Clarimonde respondeu à pressão da minha; seus olhos se abriram e recuperaram um pouco do brilho, ela suspirou e, descruzando os braços, passou-os atrás de meu pescoço com uma expressão de arrebatamento indizível.

— Ah, é você, Romuald — disse ela, com uma voz lânguida e doce como as últimas vibrações de uma harpa. — O que está fazendo? Esperei tanto por você que morri; mas agora estamos prometidos um ao outro, poderei vê-lo e ir à sua casa. Adeus, Romuald, adeus! Amo você; era tudo o que queria lhe dizer, e devolvo-lhe a vida que seu beijo me restituiu por um minuto. Até breve.

Sua cabeça caiu para trás, mas ela continuava a me envolver com os braços, como se quisesse reter-me. Um turbilhão de vento furioso arrombou a janela e entrou no quarto; a última pétala da rosa branca palpitou por algum tempo como uma asa na ponta da haste, depois se desprendeu e voou pela janela aberta, levando consigo a alma de Clarimonde. A lâmpada se apagou, e caí desmaiado sobre o peito da bela morta.

Quando voltei a mim, estava deitado em minha cama, no pequeno quarto do presbitério, e o velho cão do antigo pároco lambia minha mão, estendida para fora da coberta. Barbara se agitava pelo aposento com um tremor senil, abrindo e fechando gavetas ou misturando pós em copos. Ao me ver abrir os olhos, a velha soltou um grito de alegria, o cão latiu e abanou a cauda; eu, porém, estava tão fraco que não pude dizer uma palavra nem fazer qualquer movimento.

Soube depois que permanecera assim durante três dias, sem dar outro sinal de existência além de uma respiração quase imperceptível. Esses três dias não contam em minha vida, e não sei aonde meu espírito foi durante todo esse tempo; não conservei deles lembrança alguma. Barbara me contou que o mesmo homem de pele acobreada que viera me buscar durante a noite me trouxera de volta pela manhã numa liteira fechada e partira imediatamente.

Assim que pude ordenar os pensamentos, repassei comigo todas as circunstâncias daquela noite fatal. A princípio, pensei ter sido o joguete de uma ilusão mágica; circunstâncias reais e palpáveis, porém, logo desfizeram essa suposição. Eu não podia acreditar que tivesse sonhado, pois Barbara vira, assim como eu, o homem dos dois cavalos negros e descrevia com exatidão seu traje e sua aparência.

Entretanto, ninguém nos arredores conhecia um castelo ao qual correspondesse a descrição daquele onde eu reencontrara Clarimonde.

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