VI — O preço da paz A Morta Apaixonada · Capítulo 6 de 6
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VI — O preço da paz

Embora todas aquelas visões fossem involuntárias e eu delas não participasse de modo algum, faltava-me coragem para tocar o Cristo com mãos tão impuras e um espírito manchado por semelhantes devassidões, reais ou sonhadas.

Para evitar cair nessas alucinações fatigantes, eu procurava me impedir de dormir, mantinha as pálpebras abertas com os dedos e permanecia de pé ao longo das paredes, lutando contra o sono com todas as forças; mas logo a areia da sonolência me rolava nos olhos e, vendo que toda luta era inútil, deixava cair os braços de desânimo e cansaço, e a corrente me arrastava de novo para aquelas margens traiçoeiras.

Sérapion me dirigia as exortações mais veementes e me repreendia duramente pela fraqueza e pelo pouco fervor. Um dia em que eu estivera mais agitado que de costume, disse-me: “Para livrá-lo dessa obsessão, existe um único meio e, embora extremo, precisamos empregá-lo: para grandes males, grandes remédios.

Sei onde Clarimonde foi enterrada; precisamos desenterrá-la para que veja em que estado lastimável se encontra o objeto de seu amor. Assim perderá a tentação de sacrificar sua alma por um cadáver imundo, devorado pelos vermes e prestes a se desfazer em pó; isso certamente o fará voltar a si.” Quanto a mim, eu estava tão cansado daquela vida dupla que aceitei; queria saber de uma vez por todas qual dos dois, o padre ou o gentil-homem, era vítima de uma ilusão. Estava decidido a matar um dos dois homens que existiam em mim em benefício do outro, ou a matar ambos, pois uma vida assim era impossível de prolongar.

O padre Sérapion se muniu de uma picareta, uma alavanca e uma lanterna, e à meia-noite nos dirigimos ao cemitério de ***, cuja localização e disposição ele conhecia perfeitamente. Depois de fazer a luz resguardada da lanterna percorrer as inscrições de vários túmulos, chegamos por fim a uma pedra meio escondida pelo capim alto e tomada de musgos e plantas parasitas, onde deciframos este começo de inscrição:

Aqui jaz Clarimonde

Que foi, enquanto viveu,

A mais bela do mundo.

“É aqui mesmo”, disse Sérapion e, pousando a lanterna no chão, enfiou a alavanca na fresta da pedra e começou a erguê-la. A pedra cedeu, e ele se pôs a trabalhar com a picareta. Eu o observava, mais sombrio e mais silencioso que a própria noite; ele, curvado sobre sua obra fúnebre, estava banhado de suor, ofegava, e sua respiração apressada parecia o estertor de um moribundo.

Era um espetáculo estranho, e quem nos tivesse visto de fora teria nos tomado antes por profanadores e ladrões de mortalhas que por sacerdotes de Deus. O zelo de Sérapion tinha algo de duro e selvagem, que o fazia parecer mais um demônio que um apóstolo ou um anjo, e seu rosto de grandes traços austeros, profundamente escavados pelo reflexo da lanterna, era bem pouco tranquilizador.

Eu sentia o suor gelado formar gotas sobre meus membros, e meus cabelos se eriçavam dolorosamente na cabeça; no íntimo, considerava a ação do severo Sérapion um sacrilégio abominável, e desejava que das entranhas das nuvens escuras, que rolavam pesadamente acima de nós, saísse um triângulo de fogo que o reduzisse a pó.

As corujas pousadas nos ciprestes, inquietas com o brilho da lanterna, vinham fustigar pesadamente seu vidro com as asas empoeiradas, soltando gemidos lastimosos; as raposas ganiam ao longe, e mil ruídos sinistros se desprendiam do silêncio.

Por fim, a picareta de Sérapion atingiu o caixão, cujas tábuas ressoaram com um ruído surdo e sonoro, com aquele terrível ruído que o nada produz quando o tocamos; ele derrubou a tampa, e vi Clarimonde pálida como mármore, as mãos unidas. Sua mortalha branca fazia uma única prega da cabeça aos pés. Uma pequena gota vermelha brilhava como uma rosa no canto de sua boca descolorida.

Ao vê-la, Sérapion se enfureceu: “Ah, aí está você, demônio, cortesã impudica, bebedora de sangue e de ouro!” E aspergiu água benta sobre o corpo e o caixão, no qual traçou a forma de uma cruz com seu aspersório. Assim que o orvalho sagrado tocou a pobre Clarimonde, seu belo corpo se desfez em pó; restou apenas uma mistura horrivelmente informe de cinzas e ossos meio calcinados.

“Eis sua amante, senhor Romuald”, disse o padre inexorável, mostrando-me aqueles tristes despojos. “Ainda sentirá a tentação de passear no Lido e em Fusine com sua bela dama?” Baixei a cabeça; uma grande ruína acabava de se produzir dentro de mim. Voltei ao presbitério, e o senhor Romuald, amante de Clarimonde, separou-se do pobre padre a quem fizera, durante tanto tempo, uma companhia tão estranha.

Entretanto, na noite seguinte, vi Clarimonde; ela me disse, como da primeira vez, sob o portal da igreja: “Infeliz! Infeliz! O que você fez? Por que ouviu aquele padre imbecil? Você não era feliz? E o que eu lhe fiz para que violasse meu pobre túmulo e expusesse as misérias de meu nada? Toda comunicação entre nossas almas e nossos corpos está rompida de agora em diante. Adeus, você sentirá minha falta.” Dissipou-se no ar como fumaça, e foi a última vez que a vi.

Ai de mim! Ela disse a verdade: senti sua falta mais de uma vez e ainda sinto. A paz de minha alma foi comprada a um preço bem alto; o amor de Deus estava longe de ser demais para substituir o dela. Eis, irmão, a história de minha juventude. Jamais olhe para uma mulher e caminhe sempre com os olhos fixos no chão, pois, por mais casto e sereno que seja, basta um minuto para fazê-lo perder a eternidade.

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