A Assinatura Falsa Contrato de Pele · Capítulo 2 de 12
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A Assinatura Falsa

Lívia passou a madrugada sentada no chão do quarto, de costas para a cama, com a cópia do contrato apoiada sobre os joelhos e a chave deixada no tapete fechada dentro do punho. A casa havia se aquietado depois dos passos no corredor, porém aquele silêncio tinha trabalho por trás, tinha alguém esperando que ela pensasse bastante no dinheiro recebido, no aluguel vencido, em Tadeu Amarante e na multa escrita com letra jurídica. Ela aproximou a folha do abajur e comparou a assinatura forjada com a que fizera na biblioteca. A falsificação acertava a inclinação do nome, a demora no final do sobrenome, até a pequena pausa antes da última letra. Só errava uma coisa que pouca gente notaria. Lívia sempre pressionava a caneta quando estava nervosa, deixando uma marca funda no papel. A cópia tinha tinta igual, gesto igual, sem peso nenhum.

O envelope também trazia uma fotografia cortada ao meio. Na parte preservada aparecia a mulher do primeiro quadro diante de uma janela, usando o mesmo vestido azul escuro e segurando uma xícara de porcelana com flores vermelhas. O rosto estava intacto na foto, fino, cansado, bonito de um jeito sério. Atrás dela, em segundo plano, havia um menino de oito ou nove anos apoiado à mesa, com a mão enfaixada e os olhos baixos. Lívia reconheceu Raul antes de aceitar que era Raul. A semelhança adulta estava no maxilar, no cuidado em não sorrir, na postura de quem aprendeu cedo a ocupar pouco espaço quando alguém poderoso respirava perto. No verso, uma letra inclinada registrava apenas um nome e um ano. Beatriz, mil novecentos e noventa e oito. A data colocava o acidente da escada longe demais para ser fofoca de família, perto demais para ter deixado todos inteiros.

Pela manhã, Eugênia bateu duas vezes e entrou levando uma bandeja sem esperar autorização. O café vinha em xícara fina, acompanhado de pão, fruta cortada e dois comprimidos brancos sem embalagem. Lívia perguntou para que serviam. A assistente respondeu que eram para dor de cabeça, caso a primeira noite tivesse sido difícil. A naturalidade da frase causou nela um nojo prático, desses que ajudam o corpo a acordar. Lívia empurrou os comprimidos para a borda da bandeja e pediu que Eugênia chamasse Raul. A outra mulher sorriu com paciência de enfermeira contratada para lidar com parentes ruins e disse que o senhor Ferraz estava indisponível até o almoço. Senhor Ferraz. Na boca dela, o título parecia pertencer a outro homem, alguém mais velho, alguém que Raul talvez precisasse obedecer mesmo dentro da própria casa.

Lívia tentou sair antes das nove. Vestiu o casaco, guardou o envelope na pasta de couro, enfiou a chave vermelha no bolso e desceu pela escada lateral, evitando o vestíbulo onde os retratos virados faziam companhia aos móveis escuros. O cartão magnético liberou o primeiro corredor, falhou no segundo e morreu no terceiro com uma luz vermelha indiferente. Ao fundo, depois de uma porta de vidro, ela via o jardim molhado e o caminho de pedras que levava ao portão. Estava perto o bastante para sentir o ar frio vindo pelas frestas. Quando puxou a maçaneta, um alarme discreto piscou no painel preso à parede. Nada tocou. Nenhuma sirene, nenhum grito. Apenas a certeza de que alguém, em alguma sala, acabara de ser avisado. Raul apareceu menos de um minuto depois, descendo a escada com o cabelo úmido e a camisa ainda aberta no colarinho.

Ele parou a poucos passos dela, sem bloquear a passagem com o corpo inteiro, fazendo pior, deixando espaço suficiente para que a saída parecesse uma escolha possível. Lívia ergueu o contrato forjado e perguntou se aquele era o método dele para manter funcionárias na casa. Raul pegou a folha, leu as páginas marcadas e ficou com os olhos mais escuros. Ela conhecia homens fingindo surpresa, e aquilo não tinha o ar teatral de culpa preparada. Tinha raiva. Ele perguntou onde ela encontrara o envelope. Lívia respondeu que alguém o deixara no quarto junto com a chave. Raul olhou para a chave no punho dela e, por um instante, pareceu esquecer o resto. Era pequena, antiga, de latão gasto, com uma cabeça oval gravada por uma letra B. Ele estendeu a mão, pediu a chave, e Lívia fechou os dedos com mais força. A reação dele confirmou que o objeto valia mais que o papel.

Raul a levou para a copa de serviço, um cômodo comprido onde a luz da manhã entrava sem beleza e uma funcionária lavava louça com os ombros rígidos. A mulher se chamava Nair, tinha cabelos brancos presos por grampos pretos e mãos fortes, vermelhas de sabão. Quando viu a chave na mão de Lívia, deixou um prato escapar dentro da pia. Raul pediu café para dois, e Nair obedeceu sem olhar para ele. A cena inteira tinha códigos antigos, passagens de autoridade que Lívia ainda não lia. Raul sentou à mesa, indicou a cadeira à frente e disse que a assinatura falsa não saíra dele. Lívia perguntou por que deveria acreditar. Ele respondeu que, se quisesse prendê-la, não teria dado metade do pagamento antes. A resposta irritou pela lógica e pelo insulto. Ela disse que o adiantamento também podia ser parte da armadilha. Raul aceitou a acusação com um movimento mínimo de cabeça, e essa aceitação tornou a conversa menos simples.

Nair serviu o café com as xícaras batendo nos pires. Lívia reparou que a louça tinha as mesmas flores vermelhas da fotografia encontrada no envelope. Quando perguntou sobre Beatriz, a funcionária baixou os olhos para a bandeja. Raul disse o nome da mãe com cuidado, quase sem som, e o ar da copa perdeu temperatura. Beatriz Ferraz morrera naquela casa quando ele era criança. O laudo oficial falava em queda na escada, sonambulismo, remédio forte demais para dormir. Lívia tocou a borda da fotografia dentro da pasta e pensou na frase surgida sob o verniz. Raul continuou. O pai dele, Honório Ferraz, ainda morava na ala oeste, doente em público, lúcido em particular, cercado de advogados e de uma equipe paga para manter a casa funcionando segundo regras que ninguém escreveria em contrato. Se a frase no quadro era verdadeira, alguém havia preparado as telas para falar quando Honório já não pudesse controlar todas as mãos.

A revelação deveria ter afastado Lívia dele. Em vez disso, colocou Raul numa posição pior, a de homem adulto dentro de uma prisão herdada, rico o bastante para comprar silêncio e limitado demais para derrubar o próprio sobrenome. Ela detestou sentir pena, porque a pena podia amolecer decisões. Raul percebeu a mudança no rosto dela e se inclinou para frente, apoiando os braços sobre a mesa. O punho da camisa subiu, mostrando de novo a cicatriz no antebraço. A marca começava perto do pulso e desaparecia sob a dobra da manga. Lívia desviou os olhos tarde demais. Ele sorriu sem alegria, um sorriso curto, ferido pela intimidade involuntária do olhar dela. Disse que Beatriz tentara levá-lo embora duas semanas antes de morrer. Disse ainda que aquela chave abria o quarto que ela usava para guardar cartas, recibos e tudo que Honório mandava destruir.

Antes que Lívia respondesse, o telefone de Raul tocou. Ele olhou o visor e o rosto se fechou. Atendeu afastando-se da mesa, falando baixo, quase obediente. A voz do outro lado era masculina, velha, reduzida a ruído pelo aparelho, ainda assim suficiente para fazer Nair parar de enxugar as mãos. Lívia ouviu seu próprio nome, ouvido e devolvido com pronúncia lenta por alguém que não precisava conhecê-la para decidir sobre ela. Raul disse que a restauradora ficaria no salão até concluir a avaliação inicial. Pausa. Disse que a cláusula de permanência estava em revisão. Pausa maior. Depois desligou, guardou o aparelho e pediu a Nair que saísse. A funcionária deixou a copa levando a bandeja, e ao passar por Lívia murmurou, baixo o suficiente para parecer tosse, que a senhora Beatriz nunca tomava comprimidos brancos.

O segundo quadro estava coberto no salão quando Lívia voltou ao trabalho, acompanhada por Raul a uma distância que ela julgou ofensiva e útil ao mesmo tempo. A tela mostrava um jantar formal, dez pessoas em torno de uma mesa longa, castiçais acesos, talheres alinhados, taças de vinho escuro. Beatriz aparecia sentada à ponta oposta de Honório, com Raul menino à direita, quase escondido pela cadeira alta. O dano ali era diferente. Riscos finos, repetidos, tinham apagado apenas as mãos de três convidados. Lívia ajustou a lâmpada, aproximou a lente e percebeu que as mãos retiradas ocupavam pontos específicos da mesa, perto de envelopes lacrados. Alguém apagara dedos, anéis, talvez provas de presença. Raul permaneceu calado enquanto ela limpava um canto mínimo. Sob a tinta posterior surgiu uma aliança masculina com pedra verde, igual à que Eugênia usava pendurada numa corrente por baixo da blusa.

Lívia chamou Raul e apontou a descoberta sem tocar nele. Ele chegou perto, perto demais outra vez, e o espaço entre os dois passou a pedir uma decisão que nenhum contrato autorizava. Ela sentiu a respiração dele mudar quando seus ombros quase se encostaram. Raul perguntou se ela tinha certeza sobre a aliança. Lívia respondeu que restauração era feita de paciência, comparação e sujeira removida no tempo certo. Ele riu baixo, uma reação pequena, inesperada, e esse riso tirou alguns anos do rosto dele. Por um segundo, ela viu o menino da fotografia dentro do homem que a vigiava. Esse reconhecimento a incomodou mais que o desejo, porque desejo ela sabia nomear, esconder, negar depois no banho frio. Reconhecimento ficava parado no lugar errado. Quando Raul percebeu que ela olhava, o riso morreu, e ele voltou a ser o dono da casa.

No fim da tarde, Eugênia apareceu no salão com uma pasta nova e informou que Honório Ferraz exigia uma reunião com a restauradora depois do jantar. Raul recusou antes que Lívia abrisse a boca. Eugênia manteve o sorriso e disse que a exigência não fora dirigida a ele. A aliança verde em seu pescoço brilhava sob a gola, discreta e ofensiva. Lívia aceitou a reunião. Raul virou o rosto para ela com uma raiva que parecia medo. Quando Eugênia saiu, ele disse que Honório fazia perguntas até arrancar resposta, depois usava a resposta contra a pessoa. Lívia guardou a lente, fechou o estojo e respondeu que homens assim costumavam perder a paciência diante de gente que cobrava por hora. Ele segurou o riso, falhou, e a falha deixou o salão quente. À noite, ao abrir a porta do quarto, Lívia encontrou a cama arrumada de novo. Sobre o travesseiro havia uma fotografia recente dela entrando na mansão, tirada da rua, com uma frase escrita no verso em tinta azul. Pergunte a Raul quem pagou Tadeu.

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