O Homem da Ala Oeste Contrato de Pele · Capítulo 3 de 12
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O Homem da Ala Oeste

Lívia passou o polegar pela fotografia deixada sobre o travesseiro até quase amassar o canto da imagem. A frase no verso não tinha assinatura, só tinta azul e uma letra inclinada que tentava parecer neutra. Pergunte a Raul quem pagou Tadeu. A pergunta ficou dentro do quarto com mais presença que qualquer pessoa. Ela fechou a porta, empurrou a cadeira contra a maçaneta e abriu a mala para conferir o bolso onde guardava o dinheiro em espécie, a carteira, o carregador e uma lâmina pequena usada para raspar excesso de cola em molduras. Tudo estava no lugar. O alívio não durou. Alguém entrara ali mesmo assim, tocara na cama, escolhera o travesseiro, saíra sem pressa. A chave de Beatriz repousava na cômoda ao lado do envelope, e o metal gasto parecia ter passado a noite inteira esperando que ela aceitasse o peso de uma história que não lhe pertencia.

Ela desceu depois do banho usando o vestido preto mais simples que trouxera, cabelo preso baixo, pasta de couro apertada contra o corpo. O jantar seria servido na sala comprida do térreo, segundo Eugênia informara por bilhete, e Raul esperava ao pé da escada com uma impaciência mal disfarçada. Ele olhou para o vestido, para a pasta, para a mão dela vazia. A chave estava no bolso interno, presa por um lenço dobrado. Lívia ergueu a fotografia diante dele antes que qualquer saudação atrapalhasse. Raul leu a frase e sua expressão mudou de modo tão rápido que ela quase acreditou na inocência dele. A boca fechou, o maxilar endureceu, os olhos procuraram o corredor atrás dela. Ele perguntou quem deixara aquilo no quarto. Lívia respondeu que a casa dele parecia cheia de mãos úteis. Raul pediu a foto. Ela guardou de volta na pasta.

A conversa precisou acontecer em movimento, porque Eugênia surgiu no corredor chamando-os para a sala. Raul caminhou ao lado de Lívia, perto o bastante para falar baixo. Disse que conhecia Tadeu Amarante por relatórios, não por acordo. Tadeu comprava dívidas de oficinas, cobrava juros ilegais e oferecia proteção contra o próprio medo que espalhava. Raul afirmava ter tentado comprar a dívida dela naquela manhã para tirá-la das mãos dele, e alguém usara isso para transformar ajuda em ameaça. Lívia perguntou por que ele se achava autorizado a mexer na vida dela sem pedir licença. Ele não respondeu de imediato. Quando chegaram diante das portas duplas da sala de jantar, Raul tocou de leve o cotovelo dela, um contato breve que deveria ter sido apenas aviso. O corpo de Lívia recebeu o gesto com raiva e atenção. Ele disse que naquela casa pedir licença às vezes chegava tarde.

A sala de jantar repetia a pintura do segundo quadro com precisão desconfortável. A mesma mesa longa, os mesmos castiçais, a mesma parede forrada de retratos voltados para dentro, agora iluminada por lâmpadas baixas. Na cabeceira, Honório Ferraz esperava sentado numa cadeira alta adaptada, coberto por um robe de veludo escuro, uma manta sobre as pernas e um anel de ouro no dedo mínimo. A doença aparecia no tremor leve da mão esquerda, no lado da boca que obedecia menos, na pele fina grudada aos ossos. O resto era mando. A sala inteira se organizava em torno dele, inclusive Raul, que parou dois passos atrás da cadeira destinada a Lívia. Eugênia ficou de pé junto ao aparador, com a corrente da aliança verde escondida sob a gola. Honório sorriu para Lívia sem cordialidade e disse que restauradores tinham mania de acreditar em sujeira removida.

Lívia sentou sem pedir permissão. Honório gostou ou fingiu gostar, porque soltou uma risada curta que terminou em tosse. O jantar veio em pratos pequenos, caros, quase intocados por todos. Ele perguntou sobre o ateliê dela, sobre a dívida, sobre o pai ausente, sobre a mãe que vendia doces para igrejas no interior. Cada informação saía da boca dele limpa, recolhida por alguém antes, guardada para aquele instante. Lívia respondeu pouco. Raul bebia água ao lado dela e mantinha os dedos fechados junto ao copo. Quando Honório mencionou Tadeu, a mão de Raul se moveu. O velho percebeu. Disse que filho generoso costumava causar despesa dobrada, porque pagava a dívida e ainda comprava gratidão. Lívia virou o rosto para Raul. Ele a encarou por um segundo, firme, incomodado, e depois olhou para o pai com uma espécie de cansaço que nenhum homem jovem deveria carregar.

Honório pediu que Lívia mostrasse as mãos. O pedido foi feito com voz baixa, sem ameaça direta, e por isso soou pior. Ela pousou os talheres e abriu as mãos sobre a mesa. Tinha manchas antigas de tinta perto das unhas, uma pequena queimadura de solvente no polegar, cortes finos que o trabalho deixava e que ninguém via quando a obra voltava bonita para a parede de algum cliente rico. Honório inclinou a cabeça, satisfeito. Disse que a pele das mãos denunciava o que a boca tentava organizar. Raul empurrou a cadeira para trás, produzindo um ruído seco no piso. Honório não olhou para ele. Continuou falando com Lívia, dizendo que Beatriz também tinha mãos inquietas, sempre abrindo gavetas, escondendo bilhetes, tocando portas que não deviam ser tocadas. O nome da mulher morta fez Eugênia encostar o copo no aparador com força demais.

Lívia retirou as mãos da mesa e perguntou por que os rostos e as mãos nos quadros haviam sido apagados. A pergunta cortou o jantar inteiro. Nair, que servia vinho perto da porta, ficou imóvel com a garrafa suspensa. Raul disse o nome de Lívia em tom de aviso. Honório sorriu de novo, agora com prazer verdadeiro. Respondeu que algumas imagens envelheciam melhor quando perdiam detalhes. Disse que Beatriz gostava de exagero, que via violência onde havia disciplina, conspiração onde havia patrimônio, crime onde havia acidente doméstico e luto onde havia desobediência. Lívia ouviu sem baixar os olhos. O velho empurrou então um envelope pequeno pela mesa. Dentro havia um cheque nominal, assinado, com valor suficiente para quitar Tadeu, pagar o aluguel e fechar o ateliê por meses. Ele ofereceu saída imediata, carro até a cidade e silêncio de profissional bem paga.

O cheque ficou entre eles com a obscenidade tranquila do dinheiro fácil. Lívia pensou no ateliê, no teto manchado, na porta de vidro que precisava de conserto, nas mensagens de cobrança, nos dias em que aceitara restaurar santos rachados por preço de moldura porque qualquer entrada ajudava. Pensou também na primeira frase escondida sob o verniz, na aliança verde, na chave de Beatriz contra sua costela, na fotografia de Raul menino com a mão enfaixada. Honório observava tudo isso sem saber de tudo, e essa pequena vantagem deu a Lívia um prazer frio. Ela empurrou o cheque de volta com dois dedos. Disse que contrato assinado era coisa séria e que abandoná-lo no segundo dia mancharia a reputação dela. Raul soltou o ar devagar ao lado. Honório parou de sorrir. A ausência do sorriso tirou anos da sala e colocou um perigo antigo no lugar.

A reunião acabou sem sobremesa. Eugênia acompanhou Lívia até o corredor, porém Raul veio atrás antes que a assistente pudesse escolher o caminho. Os três pararam perto da escada, sob um lustre apagado. Eugênia disse que o senhor Honório apreciava obediência em prestadores de serviço. Lívia respondeu que apreciava pagamento em dia e fechadura honesta. Raul quase sorriu, e Eugênia percebeu. A assistente olhou para ele com uma intimidade hostil, de quem já o vira menor, ferido, dependente. Depois inclinou a cabeça para Lívia e avisou que o salão de restauração seria trancado à meia-noite por ordem médica da casa. Quando ela se afastou, Raul encostou a mão na parede e fechou os olhos por um instante. Lívia perguntou se ele pagara Tadeu. Ele disse que ordenara a compra da dívida, sim. A conta, porém, saiu de uma empresa ligada a Honório antes que o advogado dele concluísse a operação.

A confissão deveria aumentar a distância entre eles. Lívia quis se agarrar à raiva, porque a raiva era uma cadeira firme em sala cheia de portas falsas. Raul explicou que precisava impedir Tadeu de entrar no ateliê dela enquanto ela estivesse na mansão, porque a proposta enviada por Eugênia deixara rastros demais. Lívia perguntou por que a escolheram. Ele respondeu que Beatriz escolhera. A frase não veio acompanhada de teatro, e justamente por isso lhe atingiu o estômago. Raul a levou até o salão e mostrou, no verso do primeiro quadro, uma etiqueta antiga com três iniciais quase apagadas. L S B. Lívia Sardenberg não usava o B de Batista desde a adolescência, desde antes de assinar trabalhos, desde antes de ter ateliê. Raul disse que a mãe dele comprara, anos antes de morrer, uma pequena restauração feita por Aurora Batista, avó de Lívia. O nome de sua avó, ali, dentro daquela casa, pareceu uma porta aberta para trás.

Lívia lembrava de Aurora por fotografias e por duas histórias repetidas pela mãe. A avó restaurava imagens sacras, cantava enquanto limpava douramento antigo e guardava recibos em caixas de sapato. Morreu quando Lívia tinha cinco anos, deixando ferramentas, dívidas pequenas e uma mesa que agora ficava no ateliê. Raul contou que Beatriz procurara Aurora para avaliar os quadros antes do acidente e recebera dela uma orientação simples. Se algo acontecesse, as telas deveriam chegar a alguém da família Batista quando a casa voltasse a mexer nelas. Lívia queria duvidar, queria chamar tudo aquilo de coincidência comprada por gente rica, porém Raul abriu uma gaveta metálica e entregou a ela um recibo amarelado, assinado por Aurora, com o mesmo desenho de estrela que a avó riscava atrás das molduras. O papel tinha cheiro de armário fechado e óleo antigo. Lívia segurou aquele pedaço de passado com as duas mãos.

A porta do salão bateu antes que Raul terminasse de falar. Nair entrou sem fôlego, fechou a fechadura interna e entregou a Lívia um molho de papéis arrancados de algum arquivo. Disse que Honório mandara preparar o carro de Tadeu para buscar a restauradora às seis da manhã, com ou sem mala. Raul tomou os documentos e espalhou sobre a bancada. Eram notas de pagamento, cópias de mensagens, registros de câmera do ateliê de Lívia, todos assinados por uma empresa de fachada ligada a Eugênia. No fim do pacote havia uma foto de Beatriz no alto da escada, a boca aberta num grito sem som, a mão agarrada ao corrimão e, no canto inferior, uma sombra masculina usando o anel de pedra verde. Lívia levou a mão à chave no bolso. Do outro lado da porta, alguém tentou a maçaneta três vezes. Raul apagou a luz com um movimento rápido e puxou Lívia para junto da parede. No escuro, a boca dele ficou a poucos centímetros da dela, perto demais para ser proteção simples, e a voz de Eugênia passou pelo corredor chamando seu nome com doçura limpa.

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