A Chave de Beatriz Contrato de Pele · Capítulo 4 de 12
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A Chave de Beatriz

Eugênia chamou Lívia outra vez pelo corredor, com uma doçura tão limpa que parecia ensaiada diante do espelho. No salão escuro, Raul manteve a mão sobre a boca de Lívia por um segundo além da prudência, e ela sentiu o calor da palma dele, o cheiro de sabonete e a respiração contida roçando sua têmpora. A proximidade deveria ter produzido apenas medo. Produziu medo, raiva e uma atenção física que a deixou furiosa consigo mesma. Ela afastou a mão dele com cuidado, sem ruído, e apontou para a bancada onde os documentos de Nair permaneciam espalhados. Raul balançou a cabeça, pegou a fotografia de Beatriz na escada e dobrou o papel dentro do paletó. Do lado de fora, a maçaneta girou de novo. A fechadura interna segurou a tentativa com um clique pequeno, quase delicado.

Nair respondeu antes que qualquer um dentro da sala respirasse alto demais. Sua voz veio do corredor com a aspereza habitual, dizendo que a restauradora estava passando mal por causa do jantar e que o senhor Raul havia mandado buscar água. Eugênia perguntou por que a porta estava trancada. Nair disse que algumas mulheres trancavam portas quando queriam vomitar em paz. A frase teve a vulgaridade útil das pessoas que sabem proteger alguém sem parecer heroicas. Lívia quase riu, e Raul colocou um dedo diante dos lábios, tão perto que a unha dele tocou o ar diante da boca dela. A porta deixou de ser testada. Os passos de Eugênia se afastaram devagar, depois pararam no fim do corredor. Ela continuava por perto. Nair pigarreou, bateu duas vezes na madeira e seguiu adiante, levando consigo o único aviso possível.

Raul acendeu a lanterna do celular sob a bancada e mostrou uma passagem estreita atrás de um armário de materiais. Lívia o observou empurrar a peça pesada sem esforço aparente, as mangas dobradas subindo até os cotovelos, a cicatriz do antebraço cortando a pele clara. Ela detestou reparar nisso em plena fuga. O corpo dele dizia urgência, e a casa parecia aceitar seus movimentos com a memória de anos. A passagem desembocava numa copa desativada, cheia de caixas, louça quebrada e cheiro de pano guardado. Lívia apertou a pasta de couro contra o peito. Raul estendeu a mão para ajudá-la a passar por cima de uma pilha de molduras. Ela recusou com o olhar, pisou errado, sentiu o tornozelo falhar e segurou o ombro dele para não cair. O contato durou pouco. Bastou para que os dois ficassem sérios demais.

Foram pelos corredores de serviço, sem luz, seguindo um caminho que fugia das câmeras principais. Raul conhecia cada ponto cego, cada degrau solto, cada porta que rangia se fosse aberta pela metade. Lívia perguntou quantas vezes ele escapara daquela casa quando criança. Ele respondeu que criança rica aprendia outro tipo de fuga, ficava no quarto, calava na mesa, escondia cartas dentro de livros caros e sorria em aniversário com a mão enfaixada. A resposta veio seca, sem pedido de pena. Isso a atingiu com mais força. Ao chegarem perto da ala oeste, o ar mudou. Havia cheiro de remédio, madeira encerada e flor morta. Dois enfermeiros conversavam ao longe, diante de uma televisão baixa. Raul esperou a risada deles, puxou Lívia por um corredor lateral e parou diante de uma porta estreita, pintada da mesma cor da parede.

A chave de Beatriz entrou na fechadura sem resistência. Lívia tinha imaginado ranger, poeira, qualquer sinal dramático de abandono. A porta abriu com facilidade, revelando um quarto limpo demais para vinte anos de luto. A cama estava feita com colcha clara, as cortinas fechadas, a penteadeira organizada com escova, frascos vazios e um batom seco de cor vinho. Sobre a cadeira havia um casaco feminino protegido por uma capa transparente. A casa preservara Beatriz da maneira mais cruel, retirando dela a bagunça, o uso, a desordem comum de uma pessoa viva. Raul ficou no batente. Não entrou. Lívia percebeu que aquela era a primeira regra dele sem voz. Ela acendeu o abajur e encontrou, sobre a mesa pequena ao lado da janela, uma caixa de madeira com o mesmo desenho de estrela riscado no recibo de Aurora Batista.

Dentro da caixa havia cartas amarradas por uma fita azul, recibos antigos, dois negativos fotográficos e um caderno de capa preta. Lívia abriu primeiro as cartas. A letra de Aurora, inclinada e firme, aparecia em folhas envelhecidas. Ela escrevia para Beatriz com respeito de profissional e uma intimidade cautelosa. Falava de vernizes retirados, de sinais escondidos sob tinta recente, de nomes que poderiam ser recuperados caso os quadros fossem tratados por alguém da família. Em uma folha, Aurora mencionava uma neta pequena que gostava de dormir embaixo da mesa do ateliê enquanto a avó trabalhava. Lívia passou o dedo por essa frase e sentiu uma dor baixa, sem grandiosidade, feita de saudade emprestada. Raul entrou no quarto nesse momento. A presença dele ocupou o espaço ao lado dela, quente, silenciosa, diferente do dono da casa que ela conhecera no primeiro dia.

O caderno de capa preta continha registros de pagamentos, datas, iniciais e números de contas. Beatriz havia anotado o nome de Honório em várias páginas, seguido de depósitos para uma clínica, para um perito, para uma firma de segurança e para uma empresa chamada Muralha Administradora. Lívia reconheceu esse nome nos documentos trazidos por Nair. Era a mesma empresa usada para seguir seu ateliê e antecipar o pagamento a Tadeu. Raul apoiou as duas mãos na mesa e abaixou a cabeça. A raiva dele perdeu forma por alguns segundos e virou cansaço puro. Lívia perguntou se ele conhecia a Muralha. Ele respondeu que sim, que Honório usava a empresa para resolver assuntos que o sobrenome Ferraz precisava negar. A dívida de Lívia, as câmeras na rua, a foto sobre o travesseiro, tudo vinha daquele caixa sujo.

Um dos negativos estava guardado dentro de um envelope marcado com o nome de Raul. Lívia o ergueu contra a luz do abajur e viu uma cena incompleta, de contraste duro. Um menino parado no alto da escada, a mão direita enfaixada, o rosto voltado para baixo. No degrau inferior, Beatriz aparecia de lado, segurando o corrimão. Atrás dela havia um homem cuja mão mostrava o anel de pedra verde. O rosto dele ficava fora da imagem. Raul pegou o negativo com tanto cuidado que os dedos quase tremiam. Disse que durante anos lembrara apenas de gritos, vidro quebrado e da mãe mandando que ele corresse para o quarto. Honório chamara aquilo de trauma infantil, depois de fantasia, depois de ingratidão. Lívia olhou para o homem adulto diante dela e entendeu que a prova tinha chegado tarde demais para devolver qualquer coisa, e ainda assim podia impedir que tirassem mais.

Raul percebeu sangue no dedo dela antes que ela notasse o corte. Uma lasca da caixa abrira uma linha fina perto da unha. Ele pediu a mão dela com voz baixa. Lívia hesitou, entregou. Ele tirou um lenço do bolso, pressionou a pele ferida e esperou. O quarto, a cama arrumada, as cartas da mãe dele e da avó dela, tudo ficou suspenso ao redor daquele gesto simples. Raul ergueu os olhos e perguntou se podia. A pergunta saiu incompleta, e mesmo assim Lívia entendeu. Poderia recusar. Poderia lembrar Tadeu, Honório, Eugênia, as câmeras, o contrato falso, a multa. Poderia fazer o corpo obedecer à prudência. Em vez disso, inclinou o rosto um pouco, o suficiente para que ele precisasse escolher o resto. O beijo veio sem pressa. Tinha cuidado, fome guardada e uma tristeza antiga que ele tentou esconder tarde demais.

Lívia se afastou primeiro, porque alguém precisava continuar pensando. Raul não tentou prendê-la. Esse detalhe importou. Ele permaneceu perto, a testa quase tocando a dela, e pediu desculpa por ter comprado a dívida sem pedir. Ela respondeu que desculpa nenhuma apagava invasão, e que ele ainda lhe devia a verdade inteira. A voz saiu rouca, traindo um pouco do beijo. Raul aceitou. Contou que Beatriz planejara fugir levando provas contra Honório e Eugênia, que a assistente naquela época trabalhava para o cartório da família e usava o anel verde do irmão, um homem que desaparecera semanas depois da queda. Honório guardara o caso dentro da casa, pagando todos em volta, inclusive médicos. O dinheiro mantinha cada pessoa em seu lugar. Lívia pensou em seu próprio adiantamento e sentiu o estômago apertar.

A primeira gaveta da penteadeira cedeu quando Raul pressionou um fecho escondido sob o tampo. Dentro havia um pequeno gravador antigo e três fitas cassete. A etiqueta da primeira trazia a letra de Beatriz. Raul viu. A segunda dizia Escada. A terceira tinha apenas o nome Aurora. Lívia colocou o gravador sobre a mesa e verificou as pilhas, antigas, inúteis. Raul abriu outra gaveta e encontrou um adaptador moderno, prova de que alguém visitara o quarto recentemente. Antes que pudessem testar a fita, um alto-falante oculto no teto estalou. A voz de Honório surgiu baixa, arranhada, muito próxima. Ele disse que Beatriz sempre confundia coragem com espetáculo. Depois chamou Raul de filho e pediu que abrisse a porta antes que a restauradora se machucasse por ignorância.

Raul apagou o abajur, guardou as fitas no bolso interno e empurrou Lívia para trás do biombo perto da janela. Ela segurou a pasta, o caderno e os negativos contra o corpo. Do corredor veio o som de cadeiras arrastadas, ordens dadas em voz baixa, passos de enfermeiros que deixavam de fingir neutralidade. Honório falava pelo alto-falante com calma de homem servido a vida inteira. Disse que a chave de Beatriz sempre encontrava mulheres teimosas, e que mulheres teimosas davam trabalho caro. Lívia sentiu Raul procurar sua mão no escuro. Desta vez, aceitou sem brigar. A fechadura da porta recebeu uma chave do lado de fora. O trinco cedeu devagar. Quando a fresta se abriu, Eugênia entrou primeiro, segurando uma seringa protegida por tampa plástica e sorrindo para o quarto vazio. Atrás dela, Tadeu Amarante apareceu com a camisa molhada de chuva, e Lívia entendeu que sua dívida acabara de ganhar pernas dentro da mansão.

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