O Cobrador no Corredor Contrato de Pele · Capítulo 5 de 12
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O Cobrador no Corredor

Lívia ficou imóvel atrás do biombo, com a pasta apertada contra o peito e a mão de Raul fechada sobre a sua. Eugênia entrou no quarto de Beatriz primeiro, erguendo a seringa com cuidado de enfermeira e olhando para a cama arrumada, para a penteadeira, para a caixa aberta sobre a mesa. Tadeu Amarante veio logo depois, grande demais para o espaço estreito, molhando o tapete com a barra da calça e trazendo para dentro da mansão o cheiro de rua, cigarro barato e chuva. Ele não parecia constrangido por estar ali. Parecia contratado, o que era pior. Lívia conhecia aquele jeito de ocupar uma sala. Ele fazia silêncio antes de cobrar, deixava a pessoa completar sozinha o tamanho do medo, depois sorria com os dentes pequenos e dizia que solução custava menos que teimosia.

Eugênia passou os dedos pela caixa de madeira e notou o vazio onde as fitas tinham estado. A serenidade dela sofreu uma rachadura tão breve que apenas alguém escondido poderia perceber. Tadeu perguntou se precisava mesmo procurar a restauradora naquele museu de defunto, e Eugênia respondeu que a moça levava documentos capazes de criar despesa para muita gente. A palavra despesa saiu sem peso moral, como contabilidade de escritório. Pelo alto-falante, Honório ordenou que ninguém quebrasse nada no quarto de Beatriz. A voz dele tinha paciência de proprietário. Raul apertou a mão de Lívia em aviso. Ela sentiu o pulso dele bater rápido contra seus dedos, uma prova pequena de que o homem ao lado dela também estava preso em algo que dinheiro nenhum comprara de volta.

Tadeu se aproximou do biombo por acaso ou instinto. Lívia viu os sapatos dele pelo vão inferior, couro molhado, sola suja de barro, passos lentos. Raul soltou sua mão, apanhou um frasco de perfume seco sobre uma mesinha e lançou o vidro para o canto oposto do quarto. O estalo fez Eugênia virar. Tadeu também, amaldiçoando a escuridão e a velhice daquela casa. Raul aproveitou o movimento para empurrar Lívia na direção da janela. A veneziana estava emperrada, porém cedeu quando ele pressionou um fecho escondido sob a moldura. Ar frio entrou de uma vez. Do lado de fora havia uma sacada estreita, quase decorativa, ligada por uma borda de pedra ao banheiro antigo. Lívia olhou para baixo e viu o jardim muitos metros abaixo, molhado e sem proteção.

Raul passou primeiro, mantendo o corpo junto à parede, e voltou a mão para ela. Dessa vez Lívia aceitou sem discutir. O salto do sapato escorregou na pedra, a pasta bateu contra a janela, e Tadeu ouviu. Ele gritou o nome dela com satisfação, já correndo para o biombo. Raul puxou Lívia pela cintura antes que ela perdesse o apoio. O gesto foi brusco, necessário, íntimo demais para aquela altura. O corpo dela bateu no dele, e por um segundo ficaram presos entre a parede fria e o vazio, rosto contra rosto, respiração contra respiração. Tadeu apareceu na janela quando eles alcançaram o banheiro. Eugênia surgiu atrás dele, sem pressa, e sorriu ao ver que a sacada terminava ali. Raul fechou a veneziana por dentro e girou a tranca velha com tanta força que a madeira rangeu.

O banheiro de Beatriz tinha banheira de pés dourados, espelho manchado e armários baixos com toalhas dobradas há anos. Raul abriu uma portinhola junto ao chão e revelou um duto de roupa suja largo o bastante para uma pessoa descer com esforço. Lívia olhou para ele, para a pasta, para o vestido preto agora manchado de poeira. Disse que a família Ferraz possuía um talento vulgar para esconder mulheres em buracos. Raul recebeu a frase sem defesa. A vergonha passou pelo rosto dele antes da urgência voltar. Do quarto vinha o som de Tadeu empurrando a porta do banheiro. Lívia jogou a pasta no duto, sentou na borda e desceu primeiro, raspando o cotovelo na madeira interna. Raul veio atrás, fechando a portinhola segundos antes de Tadeu entrar chutando o rodapé.

A queda terminou num depósito de roupas de cama no subsolo, escuro, abafado, cheio de sabão antigo e madeira úmida. Lívia caiu sobre uma pilha de lençóis e prendeu um grito entre os dentes quando o tornozelo latejou. Raul desceu com menos jeito do que esperava, bateu o ombro na parede e ficou alguns segundos deitado ao lado dela, respirando fundo. A pasta estava aberta no chão, papéis espalhados, caderno de Beatriz salvo por pouco. Lívia quis xingá-lo. Quis rir. Quis afastar o rosto dele, que ficara perto demais quando ele se virou para perguntar se ela se machucara. Em vez de escolher uma reação digna, ela tocou o corte no queixo dele, aberto na descida, e viu o sangue marcar a ponta do próprio dedo. Raul fechou os olhos por um instante, vencido por um carinho que ela não havia planejado oferecer.

O som de passos no andar superior os trouxe de volta. Raul sentou, pegou as fitas no bolso e verificou se nenhuma quebrara. Lívia recolheu o caderno e encontrou, preso entre duas páginas, um cartão de visita da Muralha Administradora com o nome de Tadeu escrito à mão no verso. Havia três datas ao lado, todas anteriores à proposta de Eugênia. A cobrança contra ela começara antes de o contrato chegar ao e-mail. Aquilo mudava a ordem das peças. Alguém criara a dívida certa, no tamanho certo, para empurrá-la até a mansão no momento em que os quadros seriam abertos. Raul leu o cartão e ficou pálido. Lívia perguntou se ele ainda chamaria aquilo de tentativa de ajuda. Ele respondeu que não, e dessa vez a palavra não abriu espaço para desculpa. Abriu espaço para culpa.

No depósito havia uma tomada antiga e um rádio com entrada para fita, largado sobre uma prateleira junto de sacos de lavanda seca. Raul testou o aparelho com mãos impacientes. O motor chiou, engasgou, depois aceitou a primeira fita. A voz de Beatriz saiu baixa, arranhada pelo tempo, e Lívia sentiu a pele dos braços se arrepiar. A mulher não chorava. Falava com a firmeza cansada de quem já repetira a mesma verdade muitas vezes e perdera plateias. Disse que Honório falsificara laudos, que Eugênia havia levado documentos ao cartório e que o homem do anel verde se chamava Dimas Keller. Disse também que Raul vira a escada, embora todos tentassem transformar sua memória em doença. Quando a gravação citou Aurora Batista, Lívia apertou a borda da prateleira. Beatriz dizia que só uma restauradora daquela família saberia onde procurar o último nome.

A fita parou antes de explicar qual era o último nome. O rádio mastigou a fita com um estalo feio, e Raul desligou o aparelho rápido demais. Lívia xingou baixo, com a raiva curta de quem perde prova por falta de pilha decente. Ele abriu o compartimento, soltou a fita com cuidado e prometeu que um técnico de confiança conseguiria recuperar o restante. Ela perguntou onde encontrariam alguém confiável se a casa controlava telefone, portão e funcionários. Raul olhou para o teto, acompanhando o som de passos que descia para o subsolo. Disse que Nair tinha um filho motorista e que esse filho devia a Beatriz a faculdade inteira. A frase quase pareceu esperança, até que Tadeu bateu na porta do depósito e chamou Lívia pelo apelido que usava nas mensagens de cobrança. Lili, abre. O jeito familiar dele sujou o ar.

Raul levantou, porém Lívia segurou seu braço. Não pela força, pela escolha. Tadeu queria que ele reagisse. Queria ruído, luta, prova para dizer que a restauradora fora seduzida, confundida, arrastada por um homem instável dentro da mansão. Lívia abriu a pasta, retirou o recibo de Aurora e o cartão com as datas, depois guardou a fotografia de Beatriz na escada dentro do sutiã, contra a pele. Raul acompanhou o gesto com os olhos e desviou depressa demais. Mesmo naquele depósito, cercados por dívida e caça, o desejo encontrou uma fresta indecente para existir. Lívia percebeu, e a percepção lhe deu coragem. Aproximou-se dele, ajeitou a gola de sua camisa manchada e disse que, se ele saísse primeiro com cara de herdeiro culpado, estariam perdidos. Ela sairia. Ele faria o papel que a casa esperava dele.

Quando a porta se abriu, Lívia apareceu sozinha, mancando de leve, com a pasta vazia em uma das mãos e o rosto mais calmo do que se sentia. Tadeu sorriu. Eugênia estava ao lado dele, seringa guardada agora no bolso do casaco, luvas novas nas mãos. Lívia disse que queria falar com Honório e negociar a saída sem espetáculo. Tadeu riu, chamando-a de esperta tarde demais. Eugênia examinou a pasta e encontrou apenas folhas sem importância. A satisfação dela confirmou que não imaginava a fotografia escondida junto ao corpo de Lívia, nem as fitas no bolso de Raul, que permanecia atrás da porta, fora do ângulo. Do corredor, veio a cadeira de rodas de Honório, empurrada por um enfermeiro jovem. O velho parou sob a lâmpada fraca do subsolo, elegante e podre naquele roupão escuro, e olhou para Lívia como quem avalia um quadro antes de ordenar corte na moldura.

Honório ofereceu uma última chance. A voz dele saiu cansada, embora os olhos continuassem atentos. Lívia deveria entregar papéis, negativos, gravações e chave, depois aceitar o carro de Tadeu até a cidade. Em troca, a dívida desapareceria, o ateliê receberia uma reforma e Raul seria protegido de si mesmo. Lívia ouviu tudo com o cartão da Muralha escondido na manga e a foto de Beatriz aquecida contra sua pele. Depois perguntou por que um homem inocente tinha tanto medo de uma restauradora endividada. Tadeu perdeu o sorriso. Eugênia deu um passo. Honório ergueu a mão e a sala parou. Antes que ele respondesse, o telefone do enfermeiro tocou alto demais. O rapaz olhou a tela, empalideceu e disse que havia polícia no portão. No mesmo instante, Raul saiu do depósito atrás de Lívia com o rádio velho na mão, apertou o botão de reprodução e deixou a voz de Beatriz preencher o subsolo.

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