A Voz no Subsolo Contrato de Pele · Capítulo 6 de 12
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A Voz no Subsolo

A voz de Beatriz saiu do rádio velho com falhas, arranhada pelo mofo da fita e pela pressa de Raul ao apertar o botão. Ainda assim, cada pessoa no subsolo entendeu o bastante. Ela falava o nome de Dimas Keller, o anel de pedra verde, a escada, o dinheiro entregue no cartório, a ordem de Honório para que nada chegasse à polícia. Lívia viu a mão do velho fechar sobre o braço da cadeira de rodas. A doença abandonou o rosto dele por alguns segundos, deixando à mostra uma lucidez dura, quase jovem, e essa visão deu mais medo que o robe escuro, a manta, o enfermeiro parado atrás. Tadeu avançou para o rádio. Raul ergueu o aparelho acima do ombro, e o som de Beatriz encheu o corredor baixo, batendo nas paredes de pedra, nos lençóis empilhados, no rosto branco de Eugênia.

Honório mandou desligar aquela porcaria. Ninguém obedeceu de imediato. O enfermeiro olhou para Eugênia, Eugênia olhou para Tadeu, Tadeu olhou para Lívia com a irritação de quem descobre que uma devedora aprendeu a perder na hora errada. A voz de Beatriz prosseguia. Dizia que Raul vira a queda, que Honório ordenara sedação depois, que a criança repetira a história verdadeira até ser deixada dias inteiros em quarto fechado. Raul ficou imóvel, segurando o rádio com força demais. Lívia percebeu a pele dos dedos dele clarear ao redor do plástico. A prova que ele procurara a vida inteira feria antes de libertar. Ela se aproximou, colocou uma das mãos no antebraço dele e sentiu o músculo tremer sob a manga dobrada. Ele não olhou para ela. Continuou ouvindo a mãe morrer de novo diante de todos.

O telefone do enfermeiro tocou outra vez, insistente. O rapaz atendeu com a voz baixa, repetiu sim, senhor, depois avisou que duas viaturas aguardavam no portão principal e que os policiais pediam autorização de entrada por denúncia de cárcere e ameaça. Honório recuperou o domínio do rosto. Disse que a mansão possuía advogados para lidar com vizinhos impressionáveis e que ninguém abriria portão sem ordem assinada. A frase acomodou cada funcionário de volta ao medo antigo. Tadeu sorriu de lado, aliviado, e Eugênia guardou a seringa no bolso com uma calma renovada. Lívia entendeu a armadilha. A polícia podia estar a poucos metros da casa, porém o muro, as câmeras, os seguranças e o nome Ferraz ainda trabalhavam para o homem sentado na cadeira. Prova guardada dentro de um subsolo não saía andando sozinha.

Nair apareceu no fim do corredor carregando uma cesta de roupa limpa, tratando a madrugada como uma sequência comum de serviço. O rosto dela não mostrava susto. Mostrava cálculo. Passou por Tadeu antes que ele percebesse a intenção e deixou a cesta cair sobre os pés dele. Enquanto ele praguejava, Nair enfiou a mão sob a prateleira das toalhas e puxou um molho de chaves preso por barbante. Eugênia avançou, e Lívia se moveu antes de pensar. Segurou o pulso da assistente com a mão livre e sentiu a tampa plástica da seringa bater contra seus dedos. As duas ficaram próximas, rosto a rosto. Eugênia cheirava a perfume caro e álcool hospitalar. Lívia apertou até a outra mulher soltar um som curto. Raul colocou o rádio sobre a prateleira, ainda tocando, e empurrou Tadeu para longe da porta quando ele tentou recuperar o equilíbrio.

A briga durou menos do que Lívia imaginaria depois. Tadeu era forte, acostumado a intimidar gente sem plateia, e Raul tinha a força desordenada de quem acumulou anos de humilhação sem treino para usar o corpo. Bateram contra a parede, derrubaram pacotes de lençóis, quase esmagaram o rádio sob os sapatos. Honório gritava ordens que se contradiziam, exigindo que parassem e que calassem a fita ao mesmo tempo. Nair enfiou uma chave na porta de serviço do subsolo e girou duas vezes. Eugênia tentou alcançar a seringa com a outra mão. Lívia bateu o pulso dela contra a quina da prateleira. A seringa caiu, rolou pelo chão e parou perto da cadeira de Honório. O velho olhou para o objeto com ódio, pois aquela pequena falha administrativa parecia uma ofensa pessoal.

Quando a porta de serviço abriu, entrou ar frio de garagem e chuva. Nair empurrou Lívia primeiro, depois Raul, que veio segurando Tadeu pelo colarinho até derrubá-lo contra uma pilha de caixas. O rádio ficou para trás por um segundo. Lívia voltou dois passos para pegá-lo, apesar do grito de Raul. A fita ainda girava, e Beatriz começava a citar Aurora Batista. Lívia não deixaria aquela voz ser pisada no chão. Ao se abaixar, sentiu uma mão prender seu tornozelo. Tadeu havia caído perto o bastante para alcançá-la. Ele apertou com raiva, chamando-a de ingrata, dizendo que dívida não acabava porque madame velha chorava em fita mofada. Lívia chutou a mão dele com o outro pé, agarrou o rádio e correu para a garagem, mancando, com o aparelho preso contra o peito.

A garagem dava para uma rampa coberta por trepadeiras e câmeras pequenas. Dois seguranças surgiram no alto, indecisos entre obedecer Honório e entender por que Tadeu gritava no subsolo. Raul levantou as mãos antes que eles sacassem qualquer coisa. Disse que havia policiais no portão e que toda câmera ligada naquele momento viraria prova contra quem os impedisse de sair. A palavra prova fez o serviço que ameaça comum não faria. Um dos seguranças recuou meio passo. O outro levou a mão ao rádio preso no ombro. Nair passou entre eles com a autoridade cansada de quem servira três gerações de homens ricos e abriu o portão lateral de manutenção usando outra chave do molho. Do lado de fora, a chuva caía fina sobre uma passagem de pedra que descia até a rua de trás. Lívia pensou no ateliê, na mala deixada no quarto, no dinheiro na conta, e continuou andando.

Não chegaram ao portão principal. Antes da curva final, Eugênia apareceu pela saída da estufa com os sapatos enlameados e o cabelo solto pela primeira vez desde que Lívia a conhecera. A elegância controlada havia quebrado, deixando um rosto estreito, agressivo, quase faminto. Ela segurava o caderno de Beatriz. Em algum momento da fuga, conseguira apanhá-lo da pasta. Lívia parou. Raul também. Eugênia ergueu o caderno sobre uma poça e disse que papel antigo virava lixo depressa quando molhado. A voz de Beatriz continuava baixa no rádio, já falhando, e o som da chuva cobria trechos inteiros. Lívia sentiu a fotografia escondida junto ao corpo, o cartão da Muralha na manga, o recibo de Aurora preso sob a alça do vestido. Eles ainda tinham peças. O caderno, porém, trazia contas, nomes, datas, a parte que podia transformar memória em acusação organizada.

Raul pediu que Eugênia entregasse o caderno. Ela riu com desprezo. Disse que Raul sempre soubera pedir, obedecer e cair de joelhos depois, que a única coisa nova naquela noite era a plateia. A frase entrou nele com precisão. Lívia viu. Viu também Tadeu surgindo atrás da assistente, segurando o braço machucado e trazendo nas mãos a seringa caída. Honório não aparecia, porém sua presença vinha pelos rádios dos seguranças, por ordens partidas, por nomes de advogados, por pedidos para bloquear as viaturas no portão principal. Lívia respirou devagar. Aproximou-se de Raul e falou baixo, sem tirar os olhos de Eugênia. Se ela queria plateia, teriam de dar uma. Raul compreendeu antes que ela explicasse. Tirou o próprio celular do bolso, ativou a câmera e apontou para Eugênia, Tadeu, o caderno erguido e a seringa na mão do cobrador.

Eugênia percebeu tarde. Avançou para derrubar o aparelho, e Lívia ligou o rádio no volume máximo. A voz de Beatriz saiu rachada, citando o nome de Dimas Keller e dizendo que a aliança verde ficara com a irmã dele depois do pagamento. Os olhos de Eugênia saltaram para a própria garganta, onde a corrente escondia o anel sob a blusa. Esse gesto bastou. Raul gravou. Nair, parada perto do portão lateral, começou a gritar para os policiais na rua de trás. Dois homens responderam do outro lado do muro. Um deles mandou abrirem imediatamente. Tadeu xingou, puxou Eugênia pelo braço e tentou correr para a estufa. Lívia não pensou. Jogou a pasta vazia contra as pernas dele. O cobrador tropeçou, caiu de joelhos na lama e perdeu a seringa, que se quebrou contra uma pedra.

O portão lateral abriu com um solavanco. Dois policiais entraram primeiro, capas encharcadas, lanternas acesas, uma mulher de cabelo preso dando ordens com voz firme. Nair correu para eles, falando rápido, apontando para Lívia, para Raul, para Tadeu no chão, para Eugênia junto à estufa. Raul entregou o celular à policial antes que alguém pedisse. Lívia entregou o rádio. A fita parou naquele exato instante, tragada pelo aparelho com um ruído seco. Honório surgiu na rampa em sua cadeira de rodas, empurrado por outro enfermeiro, coberto por um guarda-chuva preto. A cena inteira se ajustou à presença dele. Até os policiais olharam duas vezes. O velho sorriu com esforço e disse que estava feliz pela chegada da autoridade, pois o filho sofrera um surto e sequestrara a restauradora dentro da propriedade familiar.

A mentira veio pronta, limpa, alimentada por anos de treino. Tadeu começou a gemer no chão, chamando Raul de agressor. Eugênia cobriu o rosto com as mãos, fingindo choque. Os seguranças recuaram para parecerem neutros. Raul deu um passo para frente, furioso, e Lívia agarrou a manga dele antes que Honório ganhasse a imagem que queria. A policial olhou para os dois, depois para o rádio, para o celular, para a seringa quebrada, para Nair. A decisão dela ainda não existia. Precisava ser fabricada ali, com provas molhadas, vozes antigas e pessoas assustadas demais para falar em ordem. Lívia puxou do vestido a fotografia de Beatriz na escada e entregou à policial. Disse que a mulher morta tinha nome, que a assinatura dela fora falsificada no contrato e que a dívida com Tadeu saíra da empresa de Honório. O velho continuou sorrindo até Lívia mostrar o cartão da Muralha com as datas. O sorriso apagou antes da chuva levar a tinta azul do verso.

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