O Cartão da Muralha Contrato de Pele · Capítulo 7 de 12
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O Cartão da Muralha

A policial de cabelo preso pegou a fotografia com duas mãos, protegendo o papel da chuva enquanto Honório observava cada movimento. Chamava-se Marta Lemos, segundo a placa pequena presa ao colete, e tinha o tipo de rosto que não prometia proteção antes de medir a sala inteira. Pediu que todos se afastassem de Lívia, recolheu a seringa quebrada com luvas novas e mandou dois agentes separarem Tadeu de Eugênia. O velho tentou interromper, lembrando que estavam em propriedade privada e que havia uma pessoa doente exposta ao frio. Marta olhou para a cadeira de rodas, para o guarda-chuva preto, para o enfermeiro atrás dele, depois para a lama no joelho de Tadeu e para a manga rasgada de Raul. Disse que propriedade privada ficava menor quando alguém denunciava cárcere, ameaça e falsificação. Pela primeira vez desde que Lívia chegara à mansão, Honório precisou ouvir uma ordem que não nascera dele.

A garagem lateral virou posto de triagem improvisado. Um agente fotografou o cartão da Muralha, outro embalou a seringa, outro tentou fazer o rádio velho funcionar de novo sem destruir o pouco que restava da fita. Nair falou rápido, quase atropelando palavras, explicando as chaves, o subsolo, o quarto de Beatriz e o portão lateral. Eugênia pediu advogado com a voz limpa de sempre, porém a mão direita tremia dentro da luva. Tadeu reclamou do braço, chamou Lívia de caloteira e disse que entrara na casa para buscar dinheiro, nada além disso. Raul ficou ao lado dela, tão perto que o ombro dele quase tocava o seu, e mesmo essa distância pequena parecia vigiada por todos. Lívia sentia a fotografia úmida nas mãos de Marta e lutava contra a vontade infantil de pedir que a policial acreditasse logo, antes que a casa recuperasse sua força.

Honório recuperou a fala com a chegada do advogado por chamada de vídeo. O telefone do enfermeiro foi colocado diante dele, e uma voz masculina começou a organizar a mentira com termos calmos. Raul sofria instabilidade emocional desde a infância. A restauradora aceitara um contrato de residência. A família temia extorsão. Beatriz era uma ferida antiga usada por gente interessada em dinheiro. Marta ouviu sem interromper, anotando em um bloco molhado. Lívia percebeu o perigo daquela linguagem. Tudo ali tinha aparência razoável quando dito por alguém sem lama nos sapatos. O contrato existia, a dívida existia, Raul de fato se alterara, Beatriz morrera havia muitos anos. A verdade precisava de documentos fortes o bastante para sobreviver fora da boca de quem tremia. Marta desligou a chamada antes que o advogado terminasse e pediu a sala mais seca da casa para colher depoimentos.

A biblioteca recebeu policiais, Nair, Lívia e Raul sob retratos virados para a parede. Honório foi levado para o quarto sob protesto médico, Tadeu seguiu algemado para uma viatura, e Eugênia permaneceu sentada no corredor, acompanhada por uma agente que não aceitava conversa. Lívia contou tudo desde o e-mail da coleção Ferraz, sem enfeitar a própria decisão de aceitar o dinheiro. Falou da assinatura falsa, da chave de Beatriz, da primeira frase sob o verniz, da aliança verde e da gravação. Quando mencionou Aurora Batista, Marta ergueu os olhos. Pediu que repetisse o nome. Lívia repetiu. A policial anotou devagar, e esse gesto mudou a temperatura da sala. Raul também percebeu. Marta explicou que uma denúncia anônima enviada naquela noite trazia o nome de Aurora junto ao endereço do ateliê de Lívia. A denúncia não viera de Nair, nem de Raul, nem de nenhum telefone identificado na casa.

A notícia abriu um buraco novo no enredo daquela noite. Alguém de fora sabia onde procurar Lívia, conhecia Aurora Batista e chamara a polícia no momento exato. Marta queria ir ao ateliê antes que qualquer pessoa chegasse lá primeiro. Honório, ao ouvir a decisão pelo corredor, gritou que as telas eram patrimônio da família e que nenhuma funcionária sairia levando material privado. Marta respondeu que Lívia não estava presa a contrato nenhum até a perícia examinar a assinatura, e que Raul prestaria depoimento fora da propriedade por segurança. A palavra segurança fez Honório rir do quarto, um riso velho, sem humor, que correu pela casa feito água suja por baixo de porta. Lívia sentiu Raul endurecer. Tocou de leve o pulso dele, não para acalmá-lo, e sim para lembrá-lo de que ainda estavam sendo observados. Ele virou a mão e prendeu os dedos dela por um segundo, aceitando a ordem silenciosa.

Saíram da mansão pela primeira vez depois da meia-noite. A chuva diminuíra, deixando o jardim brilhando sob as luzes frias das viaturas. Lívia entrou no banco traseiro ao lado de Raul, com Marta na frente e um agente dirigindo. A cidade, vista depois do muro, parecia indecente de tão comum. Postes acesos, padaria fechada, água correndo na sarjeta, um entregador de capa amarela parado no sinal. Lívia olhou para as próprias mãos manchadas de lama e verniz, para a unha quebrada, para o corte pequeno perto do dedo. Raul tirou um lenço limpo do bolso e entregou sem falar. Ela aceitou. A intimidade daquele gesto, dentro de uma viatura, sob o olhar atento de Marta pelo retrovisor, lhe deu vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Raul disse baixo que sentia muito pelo ateliê, antes mesmo de saber se havia algo errado lá. A frase chegou com culpa suficiente para preparar o pior.

O ateliê estava com a porta de vidro trincada e a luz acesa. Lívia desceu antes que o agente terminasse de estacionar, ignorando a dor no tornozelo. Marta a segurou pelo braço e mandou esperar. Dois policiais entraram primeiro, lanternas erguidas, chamando por qualquer pessoa escondida. Ninguém respondeu. Quando liberaram a entrada, Lívia pisou sobre cacos pequenos e viu sua vida íntima de trabalho aberta à força. Gavetas no chão, molduras viradas, panos de limpeza espalhados, potes de pigmento quebrados, o café velho derramado sobre notas fiscais. A mesa de Aurora, pesada, marcada por anos de lâmina e solvente, tinha sido arrastada para o centro e deixada torta, com uma das pernas ferida. Lívia levou a mão à boca. Aquela mesa era o único móvel que ainda parecia tocar sua avó. Raul parou atrás dela e não pediu desculpa de novo. Por sorte. Desculpa teria sido pouco e irritante.

Marta fotografou tudo antes de permitir que Lívia tocasse em qualquer coisa. A denúncia anônima dissera para procurar sob a gaveta que emperrava. Lívia soube qual era antes de a policial terminar a frase. A gaveta inferior esquerda sempre precisava de um puxão lateral, uma teimosia herdada junto com a mesa. Com luvas, Marta a retirou do encaixe. Por baixo, presa com fita ressecada, havia uma chapa fina de madeira. Raul ajudou a levantar a mesa apenas o necessário, e Lívia, orientada pela policial, soltou a chapa com uma espátula. Dentro do espaço escondido havia um envelope pardo, achatado, selado com cera quebradiça e marcado por uma estrela igual à dos recibos de Aurora. Lívia sentiu a garganta fechar. Na frente do envelope, a letra da avó dizia para a neta que herdasse a mesa. Não havia o nome dela. Havia algo mais amplo e, por isso, mais triste.

O envelope guardava três folhas, um negativo protegido por papel vegetal e uma fotografia pequena de Beatriz ao lado de Aurora, as duas sentadas justamente naquele ateliê, diante de uma tela coberta. A imagem tinha uma data escrita no verso e um aviso curto. O quinto quadro não está na casa. Lívia leu em voz alta, e Raul pareceu perder o chão. Marta pediu calma, porém ela mesma se aproximou demais da fotografia. Nas folhas, Aurora registrava que Beatriz levara uma tela menor para restauração fora da mansão, escondida sob outro nome, por medo de que Honório mandasse destruir tudo. O quadro continha a única imagem sem dano da noite da escada, pintada por Beatriz semanas antes de morrer a partir de uma fotografia clandestina. A obra nunca voltara à família Ferraz. Aurora a guardara para a pessoa que entendesse as outras quatro telas.

Raul perguntou onde estaria o quinto quadro. Lívia fechou os olhos e pensou na oficina de molduras onde a mãe vendera parte dos objetos da avó, nos santos rachados que ainda recebia para restauração, nas caixas que nunca abrira por falta de tempo e coragem. Pensou também em uma moldura pesada encostada no banheiro do ateliê, embrulhada em papel kraft desde a morte da mãe. Estava ali havia dois anos, esperando reparo, esperando dinheiro, esperando que a vida permitisse olhar para heranças sem utilidade. Ela caminhou até o corredor estreito, Marta atrás, Raul logo depois. O embrulho continuava no mesmo lugar, coberto por poeira e uma toalha manchada. Lívia tocou o papel com cuidado. Alguém tentara rasgar a lateral durante a invasão e desistira, talvez por pressa. A fita antiga ainda segurava o centro.

Raul segurou a parte superior da moldura enquanto Lívia cortava o papel. A proximidade dos dois, naquele corredor apertado, tinha outro peso agora. Não era salão de mansão, quarto preservado ou fuga no escuro. Era o espaço dela, com cheiro de tinta barata, contas vencidas e café ruim. Ele estava dentro do que ela possuía de verdade, e isso a deixava mais exposta do que o beijo no quarto de Beatriz. O papel caiu em pedaços. Por baixo havia uma paisagem sem importância aparente, uma casa de campo com árvores tortas e céu claro. Marta franziu a testa. Lívia, porém, viu o verniz estranho no canto inferior e a moldura grossa demais para uma tela tão simples. Virou a peça com ajuda de Raul e encontrou no fundo uma etiqueta antiga da coleção Ferraz, arrancada pela metade, com o nome de Beatriz escrito a lápis.

Antes que pudessem remover o fundo, o telefone fixo do ateliê tocou. O aparelho quase nunca recebia chamadas, e o som fez todos virarem o rosto. Marta atendeu no viva-voz, sem se apresentar. Do outro lado, a respiração veio primeiro. Depois, uma voz masculina, baixa, diferente da de Honório, disse que o quinto quadro pertencia a quem ainda podia mandar prender Raul pela morte da mãe. Lívia segurou a borda da moldura com tanta força que sentiu farpas entrando na palma. Marta perguntou quem falava. A ligação ignorou. A voz disse que a restauradora tinha até o amanhecer para terminar o serviço iniciado por Aurora. Se chamasse perícia antes disso, o vídeo certo chegaria aos jornais. A chamada caiu. No silêncio, Raul olhou para Lívia, e ela entendeu que o vídeo não mostraria a verdade inteira. Mostraria apenas o menino no alto da escada, tempo suficiente para transformar uma criança ferida em culpado adulto.

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