A Sala das Provas Contrato de Pele · Capítulo 9 de 12
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A Sala das Provas

A delegacia recebeu o quinto quadro com luz fria, café velho e uma pressa que ninguém admitia em voz alta. Marta mandou levar a tela para uma sala pequena, sem janela para a rua, onde havia uma mesa de metal, duas cadeiras e um armário de arquivos com a pintura descascada. O lugar parecia indigno para Beatriz, para Aurora, para todos aqueles anos de silêncio, porém Lívia preferiu a indignidade pública ao luxo abafado da mansão. A tela foi apoiada sobre espuma limpa, fotografada de todos os ângulos, medida, lacrada por partes e registrada em vídeo. Raul ficou do lado de fora durante os primeiros minutos, porque Marta queria separar emoção de prova. Lívia entendeu a razão e odiou mesmo assim. A porta de vidro fosco deixava ver apenas a sombra dele no corredor, imóvel, de braços cruzados, parecendo um homem que aprendera a esperar castigo sem se sentar.

Marta tomou o depoimento de Lívia antes do nascer completo do sol. A sala cheirava a papel úmido, desinfetante e eletricidade quente. Lívia contou tudo outra vez, agora sem chuva, sem fuga, sem Honório olhando de uma cadeira alta. A repetição deixava os fatos mais duros. O e-mail de Eugênia, o contrato, o adiantamento, o quarto de Beatriz, a caixa de Aurora, a Muralha, Tadeu, o quinto quadro, Augusto ao telefone. Cada palavra precisava caber em frases que um delegado, um perito e um juiz pudessem ler sem sentir a mão de Honório no ombro. Quando Marta pediu que explicasse por que aceitara morar na mansão, Lívia respondeu olhando para a mesa. Dívida, medo, trabalho. Disse também que o dinheiro não comprava consentimento para cárcere nem autorizava falsificar assinatura. Marta anotou sem levantar os olhos, e esse silêncio profissional foi o primeiro abrigo real daquela manhã.

Raul depôs em outra sala, com a porta aberta e um policial sentado perto. Lívia ouvia pedaços quando Marta saía para buscar documentos. Ele falava pouco, parava muito, corrigia a própria memória com cuidado. Contou da mão enfaixada, do quarto trancado, dos remédios que Honório mandava dissolver no leite, das vezes em que tentara repetir o nome de Dimas e recebera em troca médicos, escolas longe de casa, viagens longas e relatórios sobre instabilidade. A voz dele não quebrava. Pior. Ficava lisa, treinada para não dar prazer a quem esperava descontrole. Lívia fechou as mãos sobre o copo plástico até deformar a borda. Ela queria ir até a outra sala, tocar o ombro dele, dizer que a criança no alto da escada agora tinha testemunha. Em vez disso, respondeu à pergunta seguinte de Marta e deixou o desejo virar paciência.

O advogado de Honório chegou às sete e quinze, acompanhado por dois homens de terno que não se apresentaram. O prédio inteiro pareceu diminuir quando eles passaram pelo corredor. Falavam baixo, entregavam cartões, pediam nomes completos, solicitavam cópia de registro e insinuavam irregularidade em cada passo que Marta havia dado. Um deles tentou entrar na sala das provas sem autorização. Marta barrou com o corpo e pediu mandado. O homem sorriu, ofendido, e disse que a família Ferraz colaboraria com a investigação desde que a polícia não se prestasse a encenação de herdeiro perturbado com restauradora oportunista. Lívia ouviu a palavra oportunista e sentiu algo quente subir pela nuca. Raul, encostado na parede oposta, deu um passo. Ela balançou a cabeça uma vez, quase nada. Ele parou. O advogado percebeu o gesto entre os dois e guardou essa informação com olhos satisfeitos.

Tadeu foi o primeiro a ceder. Não por remorso. Por cálculo. A cela provisória e a ausência de telefone tornaram a coragem dele menos rentável. Disse que recebera instruções de Augusto Ferraz havia três meses, com pagamentos pela Muralha e ordens para comprar dívidas de pequenas oficinas de restauração até encontrar alguém com sobrenome Batista ou ligação com Aurora. O nome de Lívia apareceu depois, entregue por um contador que trabalhara para a mãe dela em inventário antigo. Tadeu recebera extra para pressionar sem quebrar, assustar sem chamar polícia, manter a vítima disponível para uma proposta salvadora. Quando Marta trouxe essa informação, Lívia sentiu vergonha antes de sentir raiva. Vergonha por ter sido conduzida, por ter contado moedas, por ter achado que sua decisão era só dela. Marta fechou a pasta e disse que vergonha pertencia a quem montara a armadilha. Lívia tentou acreditar.

Augusto continuava fora do alcance. O celular descartável encontrado perto do ateliê apontava para compra em dinheiro, o carro prata usava placa adulterada e a voz no telefone fixo chegara por desvio digital. Mesmo assim, ele cometera vaidades úteis. Falara o próprio nome pela boca de Raul, deixara o pen drive, usara um adolescente local, acionara uma conta antiga da Muralha para pagar o serviço. Marta dizia que homens acostumados a mandar por outros erravam quando precisavam correr com as próprias pernas. Lívia ouviu enquanto limpava, com autorização, uma borda mínima da pintura para estabilizar a tinta exposta. A tarefa mantinha suas mãos longe do tremor. Raul observava do corredor. A cada vez que ela trocava algodão ou ajustava a lâmpada, ele acompanhava o movimento com atenção. Não era vigilância. Era outra coisa, paciente e perigosa, que ela ainda não queria nomear em prédio policial.

Às oito e quarenta, o vídeo parcial apareceu em dois sites de fofoca política antes de chegar aos jornais. A manchete chamava Raul de herdeiro suspeito, falava em disputa por coleção milionária e citava uma restauradora contratada para alterar pintura antiga. O rosto de Lívia estava borrado em uma imagem tirada na entrada da mansão. O de Raul, não. O trecho mostrava o menino no alto da escada, Beatriz abaixo, o movimento incompleto. Sem a pintura ao lado, a mentira respirava. Marta praguejou baixo, coisa rara nela, e ligou para o delegado. O advogado de Honório cruzou o corredor minutos depois, fingindo surpresa diante dos telefones que vibravam. Raul olhou a tela do aparelho de um agente e perdeu cor. Lívia pegou o celular da mesa, abriu a gravação feita no ateliê e colocou diante dele. Disse que aquela era a resposta. Ele olhou para a pintura na tela pequena, depois para ela, e a gratidão quase virou beijo no meio da delegacia.

Marta decidiu gravar um depoimento técnico preliminar de Lívia em vídeo, com a pintura ao fundo, para anexar ao inquérito e conter a versão adulterada. O delegado autorizou com relutância, pressionado pela repercussão que crescia rápido demais. Lívia sentou diante da câmera sem maquiagem, com o cabelo preso de qualquer jeito, marcas de lama no vestido e curativo improvisado na mão. Explicou a diferença entre imagem pintada, fotografia de referência, suporte oculto e inscrição sob verniz. Mostrou que o ângulo do vídeo divulgado cortava Dimas Keller e removia Honório da cena. A fala saiu firme porque era trabalho, e trabalho ela conhecia melhor que medo. Quando terminou, Marta pediu que Raul também gravasse. Ele aceitou, sentou na cadeira ainda quente de Lívia e olhou para a lente com uma calma que custava caro. Disse que tinha oito anos quando sua mãe morreu, e que não pediria desculpa por ter tentado alcançá-la.

A frase circulou antes do almoço, primeiro em grupos pequenos, depois em perfis maiores. Não resolveu o caso, porém feriu a narrativa de Honório. A polícia recebeu três ligações de ex-funcionários da mansão, uma delas de um jardineiro aposentado que lembrava ter visto Dimas Keller sair pela garagem na noite da queda. Eugênia, ao saber que Tadeu falara, pediu acordo. Marta não prometeu nada e ouviu mesmo assim. A assistente entregou uma informação que mudou o rumo da sala. Augusto guardava arquivos da família em um apartamento vazio no centro, registrado em nome de uma empresa extinta. Ali ficava a cópia integral do vídeo da escada e o recibo de pagamento feito a Dimas antes de seu desaparecimento. Eugênia deu o endereço sem olhar para Raul. Disse que Honório planejava destruir o lugar assim que percebesse que Augusto perdera o controle. Pela primeira vez, o inimigo parecia assustado também.

Marta organizou uma diligência rápida. Queria Lívia longe, Raul protegido e a pintura guardada. Lívia recusou a parte que lhe cabia. Conhecia os sinais de Aurora, sabia identificar restauração falsa, etiqueta removida, compartimento escondido e documento disfarçado em moldura. O delegado achou absurdo levar uma civil. Marta olhou para a tela, para os papéis, para o vídeo, para o caos que havia nascido justamente porque uma restauradora viu o que outros ignoraram. Disse que Lívia iria acompanhada, sem entrar primeiro, sem tocar em nada sem autorização. Raul também pediu para ir. Marta negou. Ele insistiu, e o modo como disse o nome de Augusto fez o delegado erguer os olhos. Lívia tocou o braço dele antes que a discussão virasse favor para os Ferraz. Raul olhou para a mão dela, respirou, aceitou ficar. Aceitou mal, o que ainda era aceitar.

Antes de sair, Lívia foi até a sala onde ele aguardava. Havia uma máquina de café quebrada no canto e uma janela alta que deixava entrar luz branca sobre o rosto cansado dele. Raul segurava o recibo de Aurora dentro de um saco plástico, estudando a estrela desenhada pela mão da avó dela. Disse que passou a vida odiando a casa por guardar a mãe morta e agora devia a verdade a duas mulheres que guardaram melhor do que ele. Lívia respondeu que criança não guarda prova, criança sobrevive. Ele ouviu com os olhos baixos. Ela se aproximou, ajeitou o colarinho amassado da camisa dele e sentiu a respiração dos dois mudar por causa de um gesto pequeno demais para testemunha. Raul segurou a mão dela contra o próprio peito, bem no ponto onde o coração batia forte. Disse que, quando aquilo acabasse, queria conhecê-la sem contrato, sem dívida, sem corredor trancado. Lívia retirou a mão devagar e respondeu que ele teria de pedir de novo quando a casa parasse de falar por ele.

O apartamento de Augusto ficava no oitavo andar de um prédio antigo, acima de uma galeria de lojas fechadas. Marta levou dois agentes, Lívia e um técnico de informática. A porta abriu com chave apreendida de Eugênia. O lugar não tinha móveis de moradia. Tinha armários metálicos, caixas de arquivo, uma mesa com computador antigo e três quadros cobertos por lençóis brancos. Lívia parou diante deles antes de qualquer pedido. A polícia fotografou a sala inteira. Marta autorizou que ela levantasse a borda de um dos lençóis usando luvas. Por baixo havia uma cópia malfeita da pintura da escada, preparada para substituir o quinto quadro caso a tela verdadeira fosse encontrada. Na cópia, Dimas sumia na sombra, Honório desaparecia perto da biblioteca e Raul menino parecia mais perto da mãe. Lívia sentiu frio. Aquela falsificação não servia para enganar especialistas para sempre. Servia para criar confusão nos primeiros dias, o bastante para destruir reputações.

No computador, o técnico encontrou pastas protegidas por senha. Nos armários, Marta achou recibos, procurações, laudos médicos e uma fotografia recente de Honório assinando papéis com a mão firme, sem qualquer sinal da incapacidade alegada por seus advogados. Lívia examinava as molduras quando viu a estrela de Aurora riscada em uma etiqueta antiga reaproveitada no verso da cópia falsa. A etiqueta não pertencia àquela tela. Alguém a arrancara de outra obra e colara ali para construir origem falsa. Ela pediu autorização para soltar o canto. Debaixo da etiqueta havia um número de inventário da coleção Ferraz e a letra E escrita a lápis. Eugênia. Marta chamou o técnico. O computador apitou nesse momento, liberado por uma senha encontrada em um cartão preso sob a mesa. A primeira pasta aberta tinha o nome de Beatriz. A segunda, Raul. A terceira, Lívia Batista. Dentro desta havia fotos do ateliê tiradas durante meses.

O telefone de Marta tocou antes que alguém falasse. Ela ouviu por poucos segundos e fechou o rosto. Honório Ferraz havia sido removido da mansão por uma ambulância particular, com autorização médica assinada duas horas antes, e ninguém sabia para onde. O delegado mandara bloquear aeroportos e hospitais de luxo, porém o velho saíra antes do pedido judicial. No mesmo instante, o técnico encontrou um arquivo de vídeo nomeado com a data da morte de Beatriz. Marta mandou copiar sem abrir, mas Lívia viu a miniatura na tela. Honório em pé na biblioteca, Dimas na escada, Raul criança no alto, Beatriz virando o rosto. A verdade inteira estava ali, ao alcance de uma tecla, e o homem que comandara tudo acabara de deixar a própria casa pela porta da frente.

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