A Fita de Dimas
A fita de Dimas chegou à delegacia dentro de um envelope plástico, acompanhada por uma médica, duas assinaturas e o cheiro persistente da clínica São Vítor grudado nas roupas de todos. Marta não permitiu que o áudio fosse ouvido em corredor, sala aberta ou aparelho comum. Levou Lívia, Raul, o delegado e um perito para uma sala pequena no fundo do prédio, onde havia isolamento ruim, cadeiras de plástico e uma mesa com gravador digital conectado por cabos novos. Dimas fora encaminhado ao hospital público sob custódia e sedação leve, desta vez registrada por médica indicada pela polícia. Honório estava em outra ala, sob escolta, tratando a própria prisão como inconveniente administrativo. Raul ficou parado junto à parede, longe da cadeira vazia à frente do gravador. Lívia percebeu que ele não queria sentar para ouvir a mãe. Sentar daria àquilo forma de sessão, de audiência, de castigo repetido.
O perito explicou que faria uma escuta inicial para confirmar conteúdo, depois preservaria o material para laudo completo. Falou de degradação magnética, ruído de fundo, velocidade irregular, cortes possíveis. Lívia ouviu as palavras técnicas com alívio estranho. Técnica mantinha as mãos ocupadas quando a vida queria virar grito. Marta acionou a gravação. Primeiro veio chiado. Depois um impacto baixo, talvez porta, talvez corpo contra madeira. A voz de Beatriz entrou fraca, apressada, próxima demais do microfone. Ela dizia o nome de Raul. Pedia que ele ficasse no quarto. Em seguida, outra voz masculina apareceu, rouca, descontrolada. Dimas chamava Honório de doutor e dizia que não tocaria nela. A frase seguinte saiu de Beatriz, mais alta, com medo e raiva inteira. Honório, tire esse homem da escada.
Raul fechou os olhos. Lívia viu o maxilar dele contrair, viu a cicatriz no antebraço aparecer quando a mão dele apertou a manga. A fita continuou. Honório falava longe do gravador, baixo o bastante para que cada palavra exigisse esforço. Mandava Dimas resolver antes que Beatriz chegasse à rua. Dimas recusava. Havia passos, respiração, a voz infantil de Raul chamando a mãe. O som do impacto veio seco e rápido, sem a lentidão imaginada durante anos. Depois Beatriz gritou o nome de Honório. A sala inteira parou nesse grito. Não havia interpretação elegante capaz de limpar aquilo. Não havia advogado bastante caro para transformar ordem em acidente. Raul abriu os olhos quando a voz da mãe perdeu força. O rosto dele não se desfez. Ficou muito quieto, e Lívia entendeu que a libertação podia machucar quase no mesmo lugar da culpa.
Marta desligou o aparelho antes do fim da fita. Disse que bastava para registro preliminar e que o restante seria ouvido em laudo, com perito presente e duplicação segura. Raul não protestou. Lívia achou que ele talvez nem tivesse ouvido a decisão. O delegado, um homem de barba curta e camisa amarrotada, passou a mão no rosto e pediu a prisão preventiva de Honório, Augusto e todos os envolvidos na remoção de Dimas. Marta já digitava no celular. A delegacia, que horas antes parecia pequena diante do sobrenome Ferraz, começava a produzir peso próprio. Ainda era pouco. Honório tinha médicos, advogados, empresas, gente treinada para trocar culpa por papel. Ainda assim, aquela fita colocava a voz de Beatriz dentro do procedimento, e uma voz morta, registrada antes da queda, não podia ser dispensada com o mesmo desprezo reservado a boato familiar.
O primeiro ataque veio pela saúde de Honório. O advogado apresentou laudos, relatórios de neurologia, receitas, alegações de confusão mental progressiva e risco cardíaco. Queria prisão domiciliar imediata, sigilo do caso e suspensão de qualquer divulgação sobre o vídeo. Marta respondeu com a fotografia recente encontrada no apartamento de Augusto, aquela em que Honório assinava papéis com a mão firme, sem enfermeiro, sem manta, sem a fragilidade calculada que exibia em público. O perito médico da polícia foi chamado às pressas. Lívia viu o advogado perder a paciência pela primeira vez. A perda foi pequena, um vinco perto da boca, uma pergunta repetida alto demais. Bastou para que ela compreendesse o valor de cada detalhe recolhido. Aquela história não cairia por grande revelação única. Cairia por soma, recibo, marca de tinta, mentira médica, assinatura, imagem, fita, depoimento.
Dimas acordou no hospital pouco depois do meio-dia. Marta levou Lívia e Raul apenas depois de autorização médica e com a condição de que ninguém exigisse lembrança em voz alta. O quarto tinha parede clara, monitor cardíaco, janela aberta para uma área de serviço e um vaso de flores deixado por alguma enfermeira piedosa. Dimas parecia menor fora da cadeira da clínica. A idade dele não combinava com a pele, nem com os olhos, nem com o modo como procurou Raul assim que a porta abriu. Eugênia estava em outra sala, vigiada, pedindo para ver o irmão. O pedido fora negado. Raul parou no pé da cama. Dimas tentou dizer o nome dele. Saiu apenas uma sílaba quebrada. Raul se aproximou sem tocar. Disse que ouvira a fita. Dimas chorou, e dessa vez o som veio baixo, irregular, cheio de ar.
A médica trouxe uma prancha de letras. Dimas usava a mão esquerda com dificuldade, apontando uma letra por vez. Marta registrava tudo em vídeo. Raul ficou ao lado da cama, e Lívia permaneceu atrás dele, próxima o suficiente para segurá-lo caso a verdade o atingisse pelas costas. Dimas formou primeiro o nome de Beatriz. Depois, perdão. Raul baixou a cabeça. Disse que o perdão não era dele para conceder sozinho. Dimas fechou os olhos, aceitando a resposta com uma dor sem defesa. A frase seguinte veio lenta. Honório mandou Augusto guardar o vídeo inteiro. Marta pediu confirmação, letra por letra. Dimas confirmou. Depois formou outra sequência, mais difícil. Cofre do relógio. Lívia sentiu Raul virar o rosto. Ela conhecia aquele tipo de indicação em casa antiga. Relógio de coluna, sala principal, fundo falso, compartimento feito para carta, dinheiro ou confissão que ninguém queria destruir.
Raul explicou que a mansão tinha um relógio de mogno no corredor entre a biblioteca e a escada. Honório mandava dar corda nele toda segunda-feira, apesar de todos os relógios digitais da casa funcionarem melhor. Beatriz odiava o som, segundo uma lembrança que voltou a Raul ali, sem aviso, enquanto Dimas apontava letras na prancha. Dizia que o pêndulo parecia contar mentiras. Lívia guardou essa frase. Beatriz falava por imagens concretas, por objetos, por coisas que ficavam quando pessoas eram caladas. Marta pediu novo mandado para busca no relógio. O delegado autorizou equipe imediata. Raul quis ir. Marta recusou. Ele abriu a boca, fechou, olhou para Dimas no leito e escolheu ficar. A escolha lhe custou visivelmente. Lívia viu o preço e achou essa permanência mais corajosa do que qualquer corrida de volta à mansão.
Quando ficaram alguns minutos no corredor, Raul apoiou as costas na parede e deixou a cabeça pender para trás. A luz do hospital era cruel com a exaustão. Mostrava barba, olheiras, a pele marcada por noites sem sono e anos sem resposta. Lívia ficou ao lado dele segurando dois copos de água da máquina, um para cada um, embora nenhum dos dois bebesse. Raul disse que passara a vida querendo uma prova que o livrasse da culpa e agora sentia raiva por ela ter chegado com Dimas vivo daquele jeito. Lívia respondeu que raiva não precisava ser justa para ser verdadeira. Ele olhou para ela, surpreso pelo pouco enfeite da frase. Ela entregou o copo. Os dedos deles se tocaram, e o contato simples, embaixo de uma placa de silêncio hospitalar, teve uma força que a deixou sem ar por um instante.
O mandado na mansão encontrou o relógio parado. Nair, convocada para abrir a casa, contou por telefone que Honório mandara retirar o pêndulo na manhã anterior, antes da ambulância. Mesmo assim, o compartimento existia. Dentro dele havia um envelope de couro com duas chaves, uma lista de pagamentos e uma fotografia de Augusto jovem ao lado de Dimas, ambos diante de um carro da Muralha. Havia também uma carta de Beatriz nunca enviada, endereçada a um promotor falecido, narrando a ameaça de Honório caso ela tentasse sair com Raul. A carta não provava a queda, porém provava medo anterior, planejamento de fuga e conhecimento sobre a Muralha. Marta leu os itens por telefone, e Lívia viu Raul fechar os olhos. Cada papel tirava Honório do pedestal e o colocava no chão, junto de recibos, horário, cúmplices e fechaduras. Era menos poético. Era melhor.
Eugênia pediu acordo formal no fim da tarde. O rosto dela, visto pela divisória de vidro da sala de depoimento, tinha perdido a disciplina do coque, da gola fechada, das luvas sempre limpas. Ainda havia cálculo nela. Havia também medo por Dimas, e Marta soube usar os dois. Eugênia entregou a conta usada para pagar Elias Monteiro pela cópia falsa, a ordem de Augusto para vazar o vídeo parcial e o nome do médico que assinou sedação irregular de Raul na infância. Quando perguntaram por que guardara o anel verde, ela respondeu que era a única coisa do irmão que Honório não levou. Lívia ouviu sem pena pronta. Eugênia fora vítima em uma parte da história e instrumento cruel em outra. As duas coisas cabiam no mesmo corpo, e talvez por isso a presença dela incomodasse tanto. Era mais fácil odiar uma mulher inteiramente má. A realidade cobrava mais atenção.
À noite, Marta liberou Lívia para voltar ao ateliê acompanhada por escolta, buscar roupas e fechar a porta quebrada. Raul insistiu em ir. Marta quase negou, depois olhou para os dois e disse que havia dois policiais do lado de fora, câmeras novas na rua e ordem expressa para ninguém bancar herói. O ateliê estava menos caótico sob a luz amarela. Ainda ferido, ainda aberto demais, ainda com a mesa de Aurora deslocada do lugar. Lívia recolheu potes quebrados, separou ferramentas salvas e encontrou, sob uma pilha de panos, a caneca lascada que a mãe usava quando ajudava na limpeza. O objeto pequeno derrubou o que o dia inteiro não derrubara. Ela ficou parada com a caneca nas mãos, os olhos ardendo. Raul não tentou abraçá-la de imediato. Esperou que ela escolhesse virar. Quando ela virou, ele abriu os braços, e Lívia entrou neles com uma raiva cansada que finalmente não precisava trabalhar.
O abraço durou mais que o decoro recomendaria para duas pessoas cercadas por investigação, policiais na calçada e uma cidade inteira descobrindo o nome Ferraz em manchetes ruins. Raul segurou Lívia com cuidado, deixando espaço para que ela saísse a qualquer momento. Ela permaneceu. Sentiu a camisa dele áspera sob o rosto, o coração acelerado, a respiração tentando obedecer. Disse, contra o peito dele, que o ateliê tinha sido sua única casa durante anos e que agora parecia revistado por dentro. Raul respondeu que não compraria conserto nenhum sem ela pedir. A frase era pequena, e por isso acertou. Lívia se afastou o bastante para vê-lo. Disse que pediria orçamento, não favor. Ele assentiu. A vontade de beijá-lo veio limpa, sem mansão, sem quarto trancado, sem fuga. Ela beijou primeiro, na frente da mesa de Aurora, e o gesto teve menos perigo que verdade.
O telefone de Marta interrompeu antes que o beijo ganhasse descontrole. A policial ouviu do lado de fora, entrou no ateliê sem bater e encontrou os dois afastados, sem qualquer inocência convincente. Fingiu não notar. Disse que o juiz decretara preventiva de Honório e Augusto, busca nas empresas ligadas à Muralha e proteção formal a Lívia, Raul, Nair e Dimas. A notícia deveria aliviar. Aliviou um pouco. Em seguida, Marta acrescentou que Honório pedira para falar com Raul antes da transferência para o centro de custódia hospitalar. O advogado alegava tentativa de colaboração. Raul riu sem som. Lívia viu o riso morrer rápido. Honório não colaborava. Honório negociava terreno depois de incendiar a casa. Marta disse que a decisão cabia a Raul, com gravação, vidro entre os dois e equipe presente. Raul olhou para Lívia, e ela não respondeu por ele. Apenas segurou sua mão.
Raul aceitou a conversa no dia seguinte, pouco antes da transferência. Honório estava sentado em uma sala branca da delegacia, sem robe, sem manta elegante, usando roupa hospitalar e pulseira de identificação. Parecia menor, porém o olhar continuava mandando medir distâncias. Lívia ficou atrás do vidro com Marta, vendo Raul entrar sozinho. O áudio vinha por uma caixa pequena. Honório começou falando de patrimônio, de nomes que poderiam ser protegidos, de escândalos que destruiriam a mãe dele pela segunda vez. Raul ouviu em pé. O velho então ofereceu a casa, a coleção, as contas no exterior e uma carta assumindo parte dos crimes, desde que Raul dissesse que não se lembrava de Dimas e que a gravação de Beatriz fora manipulada por Augusto. Lívia sentiu o estômago fechar. Mesmo cercado, Honório ainda tentava comprar o filho com o túmulo da mãe.
Raul aproximou-se da mesa devagar, apoiou as duas mãos no tampo e disse que Honório não tinha mais nada que interessasse. O velho sorriu, quase com pena. Disse que todo homem tinha preço quando descobria o tamanho do próprio desejo, e olhou para o vidro. Lívia soube que ele a via ou adivinhava. Raul também soube. Por um instante, a sala inteira pareceu voltar à mansão, ao contrato, à mão no pulso, ao dinheiro usado para prender. Então Raul respondeu que desejo não era dívida, e que Lívia lhe ensinara isso sem assinar papel nenhum. Honório perdeu a expressão por um segundo, o primeiro segundo inteiro de derrota que Lívia viu nele. A gravação continuou. Marta sorriu apenas com os olhos. Raul saiu da sala sem olhar para trás, e quando encontrou Lívia no corredor não pediu abraço, beijo ou absolvição. Apenas colocou na mão dela a chave de Beatriz. Disse que agora ela deveria escolher o que abrir.