A Dona do Hotel
Davi não tentou tomar a carta da mão de Maitê. Isso contou a favor dele. Ficou parado no meio da suíte, olhando a frase com a expressão de quem acabara de receber cobrança de uma morta que ainda conhecia o andar. Maitê fotografou o verso com outro aparelho, um celular reserva que nunca conectava à rede do cliente. O arquivo salvou. Ela gostou do pequeno triunfo técnico. Davi perguntou quantos celulares ela carregava. Ela respondeu que homens ricos costumavam derrubar sinal quando ficavam nervosos, e que prudência era mais barata que confiança. Ele quase sorriu. A porta do quarto continuava aberta um centímetro, oferecendo a escuridão com paciência indecente.
O quarto da suíte vinte parecia ter sido congelado em outra década. Cortinas pesadas, penteadeira de madeira, cama arrumada com colcha vinho, espelho oval coberto por lençol e um armário antigo com chave na porta. Maitê passou a lanterna pelas superfícies e encontrou pó acumulado, exceto na penteadeira. Ali havia marcas recentes de dedos e uma escova de cabelo com fios grisalhos presos nas cerdas. Davi disse que ninguém entrava ali desde a morte de Beatriz. Maitê abriu o armário antes que ele terminasse a frase. Dentro havia vestidos embalados, caixas de sapato e uma fotografia grande de Beatriz jovem ao lado de uma mulher morena, de vestido claro, olhando para a câmera com intimidade que nenhum release de hotel chamaria de parceria.
Irene, provavelmente. Maitê disse o nome em voz baixa. O espelho coberto respondeu com um estalo. Davi puxou o lençol antes que ela impedisse. No vidro, a suíte não refletia o quarto atual. Mostrava uma festa antiga no terraço, garçons passando com bandejas, música sem som, Beatriz rindo com a cabeça inclinada para Irene. Havia desejo na imagem, claro demais para virar nota de rodapé. Davi observou sem piscar. Maitê viu o impacto nele. Talvez a fundadora reverenciada pela família tivesse amado uma mulher no prédio que todos agora queriam vender. Talvez esse amor explicasse contratos, quartos fechados e o nome apagado. O espelho escureceu quando uma terceira figura apareceu atrás das duas mulheres, um homem de bigode fino e olhar proprietário.
Davi reconheceu o homem. Otávio Santoro, irmão de Beatriz e primeiro diretor financeiro do Miraluz. O nome constava em placas, atas e retratos no salão nobre. Segundo a família, fora responsável por salvar o hotel em anos difíceis. Segundo o espelho, segurava o braço de Irene com força suficiente para fazê-la perder o sorriso. Maitê pediu acesso aos arquivos de Otávio. Davi disse que ficavam no subsolo, em sala trancada pelo conselho. Ela perguntou quem controlava a chave. Ele respondeu que a tia, Celina Santoro, presidente interina e principal defensora da venda. O desenho ficava nítido. Crise pública, planilhas vazadas, fotografia constrangedora, pressão por venda e um segredo antigo no vigésimo andar.
A proximidade entre eles mudou depois do espelho. Davi deixou de tratá-la como prestadora externa e passou a acompanhá-la com atenção demais. Maitê percebia cada gesto. A mão dele abrindo passagem sem tocar sua lombar. A respiração baixa quando ela se inclinava sobre a penteadeira. O olhar que ele desviava tarde. Ela conhecia desejo em ambiente profissional, geralmente na versão pobre, previsível e inconveniente. Aquilo era diferente porque havia reciprocidade e perigo real. Piorava porque Davi parecia lutar contra o próprio impulso com competência. Maitê respeitava competência. Desejava ainda mais quando ela falhava.
Na penteadeira, dentro de um compartimento escondido, encontraram uma escritura parcial do hotel. Metade do terreno pertencia a Irene Valença, não a Beatriz. Havia também um bilhete. Se Otávio vencer, tranque meu nome no quarto. Se Beatriz vencer, abra as janelas. Maitê leu duas vezes. Davi encostou as mãos na borda da penteadeira, perto das dela. Disse que a família construíra fortuna sobre uma ausência. Maitê respondeu que famílias costumavam chamar ausência de tradição quando o dinheiro chegava limpo ao banco. Ele riu sem alegria. A mão dele tocou a dela por acidente ou escolha. A pele de Maitê reagiu antes da prudência. Nenhum dos dois se afastou no mesmo instante.
O interfone da suíte tocou. Davi atendeu com a voz áspera. Do outro lado, Celina Santoro pediu que ele descesse para uma reunião emergencial com o conselho. Disse que Maitê deveria permanecer na suíte, longe dos documentos internos, até que a diretoria revisasse seu contrato. Maitê pegou outra carta de Beatriz, dobrou e colocou no bolso do blazer. Davi viu e não disse nada. Quando desligou, perguntou se ela obedeceria. Maitê respondeu que dependia de quanto ele gostava de perder hotel por educação familiar. Ele pegou o paletó. Na porta, virou e disse que não confiava em quase ninguém. Ela respondeu que fazia bem. Ele acrescentou que queria confiar nela. Maitê sustentou o olhar dele por tempo demais. Disse que aquilo era problema dele, mas que naquela noite ela aceitaria usar o problema a favor do caso.