O Arquivo de Otávio O Acordo do Vigésimo Andar · Capítulo 3 de 5
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O Arquivo de Otávio

O subsolo do Miraluz tinha cheiro de produto de limpeza, concreto frio e passado caro escondido sem ventilação. Maitê desceu pela escada de serviço enquanto Davi segurava o conselho numa reunião que, segundo mensagem dele, começara com Celina perguntando se a consultora tinha experiência ou apenas pernas longas e reputação agressiva. Maitê salvou a mensagem para uso futuro, porque insulto de acionista era material útil. A sala de arquivos ficava atrás da lavanderia antiga. O cadeado novo destoava da porta velha. Maitê não arrombava fechadura. Terceirizava. Ligou para Júlia, sua assistente, que em três minutos obteve a senha digital enviada por um funcionário cansado e mal pago.

Dentro da sala, caixas de documentos subiam até o teto. Otávio Santoro era homem de papel. Guardara recibos, bilhetes, cópias, procurações, fotografias, tudo em pastas com etiquetas austeras. Maitê encontrou a primeira prova em uma caixa chamada reformas. Havia pagamentos a um médico, a um tabelião e a dois seguranças na mesma semana em que Irene Valença desaparecera dos registros públicos. Outra pasta trazia cartas não enviadas de Beatriz, todas falando de confinamento, chantagem e assinatura forçada. O hotel, em sua versão oficial, nascera do talento empresarial dos Santoro. Na versão de Otávio, nascera da apropriação de uma mulher apagada por amar a pessoa errada e possuir o terreno certo.

Davi apareceu na porta antes do previsto, gravata solta, rosto fechado. Maitê perguntou se a reunião terminara. Ele respondeu que a reunião continuava, apenas sem ele e com mais gritos. Celina pretendia rescindir o contrato de Maitê, interditar a suíte vinte e assinar a venda pela manhã. Ela mostrara ao conselho novas fotos de Davi, dessa vez no elevador com uma funcionária antiga, tentando pintar luto e cansaço como vida dissoluta. Maitê abriu a pasta de pagamentos diante dele. Disse que a venda era urgência porque as provas estavam acordando. Davi leu em silêncio. Depois fechou os olhos, e a raiva nele surgiu sem espetáculo. Ficava bonito furioso, o que Maitê considerou uma injustiça operacional.

A luz do arquivo piscou. Uma gaveta abriu sozinha do outro lado da sala. Davi e Maitê se aproximaram juntos. Dentro havia um molho de chaves, um lenço com iniciais I.V. e uma fita cassete. O gravador antigo estava na mesma gaveta, poeirento, ainda com pilhas dentro. Maitê apertou play esperando ruído. A voz que saiu era de Irene, baixa, firme, gravada talvez na última noite livre. Ela dizia que Otávio a trancara na suíte vinte até que assinasse a cessão do terreno, e que Beatriz tentava negociar sua saída. Dizia também que, se a gravação fosse encontrada, o hotel deveria devolver o nome dela à fachada ou cair por vergonha.

Davi sentou numa caixa, abalado de um jeito que retirou dele a pose executiva. Maitê desligou o gravador e ficou de pé à frente dele. Não tocou primeiro. Ele ergueu o rosto e pediu que ela não transformasse aquilo em plano antes de deixá-lo sentir. O pedido foi tão honesto que ela guardou o celular. Sentou ao lado dele, perto, ombro quase encostado. Davi falou da avó, das histórias que ouviu criança, da mulher forte que construiu o Miraluz, da ausência de qualquer Irene nos álbuns. Disse que talvez Beatriz tivesse amado e falhado. Maitê respondeu que amar alguém não impedia falha, apenas tornava a falha mais triste e menos desculpável. Davi aceitou a frase com um aceno lento.

O desejo entre eles, que Maitê se recusava a nomear em voz alta, ficou insustentável no arquivo. Davi virou o rosto, e a distância desapareceu sem nenhum dos dois tocar ainda. Ela disse que aquilo atrapalharia o trabalho. Ele respondeu que já atrapalhava. Ela disse que cliente com crise reputacional não devia beijar consultora no subsolo. Ele perguntou se a consultora queria ser beijada no térreo. Maitê riu, baixo, contra o próprio controle. O beijo aconteceu sem pressa e sem delicadeza falsa. Teve cansaço, raiva, descoberta, desejo guardado por horas longas demais. Quando se afastaram, ela manteve a mão no peito dele por um segundo, sentindo o coração rápido sob a camisa. Disse que agora ele tinha mais uma crise para administrar.

O celular de Maitê vibrou antes que Davi respondesse. Júlia enviara uma notícia urgente. O conselho acabara de anunciar coletiva para a manhã seguinte, acusando Davi de má gestão e afastando-o da presidência provisória. Celina assumiria e assinaria a venda em até vinte e quatro horas. Maitê levantou. O beijo ficou para depois, armazenado no corpo de ambos com inconveniência profissional. Ela pegou a fita, as cartas e os comprovantes. Disse que precisavam da suíte vinte, do espelho e de uma transmissão pública antes que Celina controlasse a versão. Davi perguntou se isso destruiria a família. Maitê olhou para as caixas de Otávio e respondeu que a família já tinha feito boa parte do serviço.

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