A Coletiva
A coletiva começou no salão nobre às nove da manhã, com arranjos florais, café caro e jornalistas convidados para assistir a um enterro administrativo. Celina Santoro usava vestido claro, pérolas discretas e a expressão compassiva de quem praticara diante do espelho. Falou de responsabilidade, continuidade, proteção dos empregos e afastamento temporário de Davi até que auditoria independente verificasse todas as condutas. Maitê assistia do fundo da sala, de blazer preto, cabelo preso, a fita de Irene digitalizada em três nuvens diferentes e os documentos de Otávio preparados para distribuição. Davi estava ao lado dela, não no palco, por decisão estratégica. Herdeiro acusado falando primeiro pareceria desespero. Prova falando depois pareceria faca limpa.
Celina anunciou a venda do Miraluz para um grupo internacional e pediu compreensão diante de notícias sensíveis que poderiam surgir sobre a família. Essa frase abriu a porta. Maitê levantou a mão e se apresentou como consultora contratada pelo próprio grupo Santoro, com mandato ainda válido e dever de preservar evidências ligadas à crise. Celina tentou cortar o microfone. Júlia, da cabine técnica, já havia trocado o controle do som. A voz de Maitê saiu clara pelo salão. Disse que a crise atual tinha origem em uma fraude patrimonial antiga, mantida por setores da família e reativada para justificar venda apressada. Jornalista sente cheiro de sangue documentado. Todas as câmeras viraram.
Davi subiu ao palco apenas quando Maitê exibiu a escritura de Irene Valença. Não falou de si. Falou dela. Disse que metade do terreno do Miraluz pertencera a uma mulher apagada dos arquivos, confinada no próprio hotel até assinar documentos sob ameaça. Disse que a avó Beatriz participara da ocultação por medo, amor e covardia, e que Otávio Santoro enriquecera com a fraude. Celina riu com desprezo calculado, chamando aquilo de delírio conveniente. Maitê acionou o áudio. A voz de Irene preencheu o salão nobre. Não era fantasma. Era prova. Tremia pelo tempo, pela fita antiga, porém cada palavra permanecia compreensível. O salão, treinado para luxo, ouviu crime.
A reação veio em ondas. Primeiro silêncio. Depois flashes. Depois perguntas simultâneas. Celina perdeu a expressão compassiva e tentou sair pelo corredor lateral. Davi a chamou pelo nome. O modo como ele falou bastou para fazê-la parar. Perguntou se ela sabia. Celina disse que herdara problemas, não pecados. Maitê respondeu que vender imóvel alheio depois de conhecer a fraude transformava problema em escolha. Um repórter perguntou sobre a fotografia vazada de Davi. Maitê exibiu os metadados, a origem do arquivo, o pagamento feito a um segurança e a ordem enviada do gabinete de Celina. O escândalo mudou de dono diante de todos. Davi olhou para Maitê, e a gratidão no rosto dele quase atrapalhou seu profissionalismo.
Quando o salão parecia controlado, as luzes apagaram. O espelho antigo atrás do palco, peça decorativa do tempo de Beatriz, ficou iluminado sozinho. Nele apareceu a suíte vinte, vazia, com as janelas fechadas. Uma mulher morena caminhou até a varanda e abriu as cortinas. Irene. O salão inteiro viu. Celina caiu sentada, pálida. Maitê, que preferia prova material a manifestação sobrenatural, aceitou a ajuda por eficiência. Irene não falou. Apenas colocou a mão no vidro do espelho, e sobre a superfície apareceu uma frase escrita de dentro para fora. Meu nome na fachada. Davi respirou fundo. Diante das câmeras, prometeu que o hotel se chamaria Miraluz Valença Santoro até que a justiça definisse restituição completa aos herdeiros de Irene, se existissem.
A frase foi manchete antes do almoço. A venda travou. Celina perdeu apoio do conselho. O Ministério Público pediu documentos. Funcionários antigos começaram a falar. A suíte vinte foi lacrada oficialmente, embora Maitê soubesse que lacre nenhum segurava mulher decidida a abrir cortina depois de décadas. No fim do dia, ela encontrou Davi na varanda da suíte, olhando a cidade. Ele parecia exausto e aliviado, perigoso de outro jeito. Agradeceu sem discurso. Maitê disse que enviaria nota de honorários com adicional por coletiva assombrada. Ele perguntou se o beijo do subsolo entraria na fatura. Ela respondeu que aquilo era despesa pessoal, ainda em análise. Davi se aproximou. Dessa vez, não havia público, microfone nem crise imediata. O beijo veio mais lento, com a cidade acesa abaixo e Irene, em algum lugar do quarto, mantendo as janelas abertas.