Janelas Abertas
Três meses depois, o hotel ainda não estava salvo, o que Maitê considerava bom sinal. Salvação rápida demais costuma esconder contrato ruim. O Miraluz Valença Santoro enfrentava auditoria, disputa de herança, curiosidade pública e uma fila de investidores que agora fingiam compromisso social. Davi rejeitara os piores com uma calma nova, menos defensiva. Maitê continuava no projeto, oficialmente como consultora de reposicionamento institucional, extraoficialmente como a mulher que conhecia cada rachadura da família e cada atalho para a suíte vinte. O quarto de Irene virara arquivo temporário. As cartas de Beatriz foram catalogadas, a fita restaurada, e as janelas permaneciam abertas durante o dia por ordem que ninguém ousava contrariar.
O envolvimento dos dois exigiu uma política interna, porque Maitê se recusava a virar fofoca sem governança. Redigiu uma declaração de conflito, afastou-se das decisões diretamente ligadas a Davi e indicou Júlia para parte da condução operacional. Davi assinou tudo sem tentar romantizar descuido. Isso, para ela, valeu mais que flores. Ainda havia desejo, agora sem a urgência do subsolo, porém com uma constância que se infiltrava nos horários. Um jantar depois de reunião. Uma mão na nuca dentro do elevador vazio. Uma madrugada revisando documentos na cama da suíte ao lado, sem fingir que o contrato era a única razão para permanecerem acordados. Maitê não gostava de perder controle. Descobriu que gostava menos ainda de negar o óbvio.
A memória de Beatriz continuava ambígua. Davi visitava o túmulo da avó sem saber se levava flor ou acusação. Maitê foi com ele uma vez. Não disse que perdoasse. Não disse que condenasse. Apenas ficou ao lado, porque algumas heranças não admitem conselho útil. Davi contou que Beatriz lhe ensinara a caminhar pelos corredores do hotel de madrugada para ouvir o prédio respirar. Maitê respondeu que talvez a velha soubesse que edifício com culpa fazia barulho. Ele riu pouco. Depois segurou sua mão diante do jazigo, gesto simples e público, sem fotógrafo. Maitê deixou. No retorno, passaram pela nova placa da fachada, onde o nome de Irene aparecia em letras limpas. O hotel parecia menos bonito e mais verdadeiro.
Celina tentou uma última manobra, enviando aos jornais mensagens íntimas entre Maitê e Davi, obtidas por funcionário comprado. O plano falhou por falta de surpresa. Maitê divulgou antes a linha do tempo do relacionamento, as medidas de compliance, as datas das decisões e a origem criminosa do vazamento. Transformou escândalo em aula pública de transparência, com gráficos que deixaram dois comentaristas de negócios visivelmente frustrados. Davi assistiu à apresentação da primeira fila. Quando ela terminou, mandou mensagem dizendo que nunca vira alguém destruir chantagem com planilha tão elegante. Maitê respondeu que elogio com planilha tinha alto potencial erótico em nichos específicos. Ele riu no meio da reunião, o que virou boato mais simpático que qualquer nota oficial.
Na noite de reinauguração parcial, o salão nobre recebeu funcionários, herdeiros localizados de Irene, jornalistas e moradores antigos do centro. Não houve tapete vermelho. Houve discurso curto, comida boa e uma fotografia de Irene na entrada, não escondida no vigésimo andar. Davi falou pouco. Chamou o hotel de reparação em andamento e não de legado. Maitê aprovou a escolha. Depois subiu sozinha à suíte vinte, levando uma taça de espumante que não pretendia terminar. O quarto estava quieto, cortinas abertas, penteadeira limpa. Sobre o espelho oval, uma marca de dedos apareceu no vapor da noite. Obrigada. Maitê ergueu a taça para o reflexo e disse que, se Irene voltasse a interferir em coletiva, cobraria participação.
Davi a encontrou na varanda. Tirara o paletó, dobrara as mangas, e já não parecia o homem frio da primeira noite, embora mantivesse perigo suficiente para interesse futuro. Perguntou se ela ficaria no projeto depois do contrato. Maitê disse que ficaria enquanto houvesse trabalho real e vontade própria. Ele aceitou os termos. Aproximou-se devagar, dando a ela tempo de recuar, hábito que ela aprendera a valorizar. Maitê não recuou. O beijo teve calma e escolha, sem vazamento, sem conselho, sem fantasma exigindo justiça no espelho. Mais tarde, quando a cidade já tinha diminuído lá embaixo, ela abriu o notebook para revisar a última nota pública. Davi reclamou. Maitê respondeu que desejo não revogava prazo. Ele disse que aprendia. Ela sorriu. No vigésimo andar, com janelas abertas, ambos enfim pareciam menos interessados em salvar reputações e mais dispostos a construir uma verdade que suportasse luz.