A Peça Devolvida O Bilhete no Casaco Vermelho · Capítulo 1 de 4
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A Peça Devolvida

Inês recebeu o casaco vermelho numa manhã de calor indecente, dentro de uma caixa de papelão cara demais para a oficina estreita onde ela recuperava roupas antigas. A lã era pesada, importada, com botões de madrepérola e uma mancha escura no punho esquerdo. O mensageiro pediu assinatura, deixou um cartão da Casa Valença e saiu sem olhar para as araras entupidas de vestidos de noiva, ternos de formatura e saias que carregavam décadas de perfume barato. Inês reconheceu o nome da leiloeira porque toda a cidade conhecia. Rico vendia objeto de família quando a família já tinha vendido a própria vergonha.

O pedido parecia simples. Limpar, reforçar o forro e entregar até sexta, antes de um leilão privado. Inês colocou luvas, abriu a junção interna com paciência e encontrou um bilhete dobrado em quatro, protegido por plástico fino. A letra era feminina, inclinada, escrita com tinta azul. Dizia que o casaco deveria voltar ao quarto de hóspedes antes do jantar, porque Augusto descobriria tudo se visse a peça no corpo errado. Havia uma data de vinte anos atrás e uma inicial no fim, apenas L. Inês não gostava de segredo de cliente, porém gostava menos ainda de segredo escondido em roupa que chegava à sua mesa com urgência paga em dobro.

Davi Valença apareceu à tarde, sem avisar, ocupando a porta da oficina com terno claro, barba feita e o tipo de educação que vira ameaça quando chega sorrindo demais. Perguntou se ela encontrara algo incomum. Inês segurou o bilhete dentro do bolso do avental e disse que encontrou mofo, suor antigo e pressa. Ele riu, aproximou-se da bancada e tocou o casaco com a ponta dos dedos, muito perto da mão dela. O gesto foi pequeno, porém suficiente para mudar a temperatura do balcão. Davi explicou que aquela peça pertencia à mãe dele. Inês respondeu que então ele deveria saber por que alguém pagaria tanto para restaurar uma roupa destinada a desaparecer num leilão fechado.

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