A Casa Valença
Davi levou Inês à Casa Valença no dia seguinte, sob pretexto de mostrar fotografias antigas que ajudariam na restauração. O casarão funcionava no centro velho, entre uma igreja sem fiéis e um hotel de fachada descascada. Dentro, lustres baixos, tapetes caros e funcionários silenciosos davam ao lugar uma aparência de cenário alugado para família que precisava convencer visitantes. Inês caminhou entre cristaleiras, relógios e quadros de mulheres sérias, ciente de que seu vestido simples e suas mãos marcadas por agulha destoavam de tudo ali. Davi percebeu e ofereceu café. Ela aceitou, porque recusar daria a ele o prazer de notar desconforto.
As fotografias estavam no escritório do segundo andar. Em uma delas, a mãe de Davi usava o casaco vermelho numa festa de noivado. Ao lado, Augusto Valença, patriarca morto havia seis meses, mantinha a mão fechada no ombro dela. No canto, uma mulher jovem olhava para a câmera com expressão desafiadora. Inês reconheceu a inicial antes de Davi dizer o nome. Lúcia, antiga assistente da casa, desaparecida na semana do casamento. Davi falou baixo, com raiva contida. Disse que o leilão venderia objetos escolhidos pela tia, guardiã da versão oficial. Se o bilhete viesse a público, a família chamaria falsificação, chantagem, delírio de funcionária pobre.
Inês perguntou por que ele queria descobrir a verdade agora. Davi fechou a porta do escritório e tirou do cofre uma segunda carta, escrita pela mãe dele pouco antes de morrer. A carta pedia que o casaco fosse procurado e que Lúcia recebesse perdão, caso ainda estivesse viva. Inês leu devagar, sentindo Davi atrás dela, perto o bastante para que a respiração dele tocasse sua nuca. Nenhum dos dois se afastou. Quando ela virou, o rosto dele estava a poucos centímetros, e a atração veio sem cerimônia, adulta, inconveniente, com cheiro de papel guardado e café frio. Davi pediu que ela ficasse para o jantar. Inês aceitou sabendo que aquela decisão cobraria preço.