Jantar de Família
O jantar reuniu poucos convidados, todos treinados na arte de sorrir para assuntos enterrados. Inês entrou como prestadora de serviço convidada, categoria social inventada para permitir presença sem conceder pertencimento. A tia de Davi, Beatriz, analisou a barra de seu vestido antes de perguntar por sua formação. Inês respondeu com o nome da avó, que lhe ensinara restauração sentada numa máquina Singer, e sustentou o olhar até a outra mulher desistir de rir. Davi serviu vinho, tocou discretamente o joelho dela sob a mesa e retirou a mão logo depois, deixando no corpo de Inês uma promessa irritante de continuidade.
Durante a sobremesa, Beatriz anunciou que o casaco vermelho seria retirado do leilão por decisão familiar. Davi perguntou desde quando ela se importava com memória da cunhada. A sala congelou por dentro, embora talheres continuassem em movimento. Beatriz disse que certas peças atraíam curiosidade vulgar. Inês pediu licença para ir ao banheiro e, guiada por uma empregada antiga, passou diante do quarto de hóspedes citado no bilhete. A porta estava trancada. A empregada, chamada Marta, sussurrou que Lúcia dormira ali na última noite em que foi vista. Depois entregou a Inês uma chave escondida dentro de um guardanapo dobrado.
Davi a encontrou no corredor pouco depois, e os dois entraram no quarto em silêncio. Havia móveis cobertos por lençóis, uma penteadeira e cheiro de madeira fechada. Atrás do espelho, Inês achou uma fotografia rasgada, preservando apenas metade do rosto de Lúcia e a mão de Augusto no braço dela. Beatriz tentou abrir a porta por fora. Davi puxou Inês para dentro do armário embutido, tão estreito que o corpo dele se encaixou no dela sem espaço para fingimento. Beatriz entrou, vasculhou gavetas, saiu praguejando. No escuro, Davi beijou Inês com fome e cuidado, e ela correspondeu antes de lembrar que desejo também podia ser prova contra a própria prudência.