O Forro Aberto
Inês terminou a restauração na noite anterior ao leilão, deixando o forro aberto apenas no trecho onde o bilhete estivera escondido. Davi apareceu na oficina depois das dez, sem terno, com a exaustão de quem passara o dia enfrentando advogados da própria família. Trouxe uma notícia. Lúcia vivia numa cidade pequena do litoral, sob outro sobrenome, e aceitara falar se pudesse ver o casaco. Inês colocou a peça sobre a mesa, e por alguns minutos nenhum dos dois disse nada. O vermelho parecia intenso demais sob a lâmpada branca, quase insolente, objeto bonito cercado por gente feia de intenção.
Lúcia chegou ao casarão na manhã seguinte, magra, elegante, com cabelo grisalho preso e uma firmeza que calou até os funcionários. Contou que amara a mãe de Davi antes do casamento, que Augusto descobrira a relação e usara dinheiro, ameaça e vergonha para separar as duas. O casaco fora dela, emprestado na noite em que tentaram fugir. A mãe de Davi voltou para proteger Lúcia de uma denúncia falsa. Lúcia fugiu sozinha e passou vinte anos acreditando que havia sido abandonada. Beatriz sabia de tudo, guardou cartas, vendeu silêncio e tentou sumir com o casaco para impedir que a história alcançasse o nome da família.
O leilão foi cancelado. Beatriz saiu escoltada por advogados, ofendida não pela mentira, e sim pela perda do controle. Davi doou parte do acervo a um museu local e manteve o casaco fora de qualquer vitrine, guardado para Lúcia decidir seu destino. Inês voltou à oficina com a sensação prática de quem salvou uma peça e abriu uma casa ao mesmo tempo. À noite, Davi apareceu com comida, vinho barato e nenhuma proposta grandiosa. Pediu apenas para ficar. Inês deixou. Na bancada onde antes houvera linha, tesoura e segredo, os dois se despiram com calma, rindo baixo das próprias cautelas, até que o casaco vermelho deixasse de ser prova e virasse lembrança sobrevivente.