A Mesa de Vidro
Olívia entrou na sala dezenove às oito e quinze, carregando uma pasta preta, dois contratos impressos e a paciência profissional de quem já vira herdeiro rico discutir por cadeira de reunião. A clínica Santa Aurora ocupava três andares de um prédio médico, com corredores claros, recepção silenciosa e uma dívida grande o bastante para justificar a venda a um grupo de investimentos. Olívia fora contratada para conduzir a mediação entre os sócios, preparar a assinatura e impedir que ressentimentos familiares contaminassem o preço. Sua regra era simples. Gente que gritava perdia tempo, gente que escondia documento perdia dinheiro.
Daniel Sardenha chegou atrasado e sem pedir desculpa. Era o sócio minoritário, cirurgião afastado, filho do fundador morto e principal obstáculo à venda. Vestia camisa azul, olheiras fundas e uma hostilidade elegante que Olívia reconheceu de longe. Disse que a venda era fraude, que a diretora financeira manipulava exames de caixa e que o comprador sabia disso. Os outros sócios riram com cuidado, riso de quem já combinara versão antes da reunião. Olívia pediu provas. Daniel colocou sobre a mesa um pendrive e uma cópia de prontuário antigo. Antes que ela pegasse, a luz falhou por três segundos e o pendrive desapareceu.
A reunião terminou em acusações, café frio e uma ordem de silêncio do advogado do comprador. Olívia manteve o rosto neutro, porém guardou a imagem da mão que se aproximara da mesa durante a queda de energia. A diretora financeira, Renata, usava anel de pedra verde e perfume caro. Daniel percebeu que Olívia também vira. Encontrou-a no corredor de serviço e pediu uma conversa fora da clínica. Ela recusou por protocolo. Ele respondeu que protocolo era útil até alguém falsificar a realidade com carimbo. A frase irritou Olívia. A boca dele irritou também, por motivos menos defensáveis, e ela decidiu aceitar dez minutos no café em frente.