O Arquivo Perdido O Acordo da Sala Dezenove · Capítulo 2 de 4
Obra Menu

O Arquivo Perdido

Daniel contou sua versão diante de uma xícara intocada. O pai começara a desconfiar de desvio antes de morrer durante uma cirurgia simples, realizada dentro da própria clínica. O laudo apontou reação inesperada a anestésico. Daniel, que conhecia o prontuário do pai, jurava que a medicação registrada nunca fora administrada. Depois da morte, Renata acelerou a venda e convenceu os demais sócios de que o grupo comprador salvaria empregos. Olívia ouviu sem ceder expressão. Mediação exigia distância, e Daniel tinha um jeito perigoso de fazer a distância parecer covardia.

Na manhã seguinte, Olívia requisitou todos os anexos financeiros e cruzou notas fiscais com escala de plantão. Encontrou pagamentos repetidos a uma empresa de descarte hospitalar recém-aberta, endereço vazio e assinatura digital ligada ao advogado do comprador. Quando solicitou esclarecimento, Renata apareceu na sala dezenove com flores para a mesa, gesto delicado demais para ambiente de disputa. Disse que Daniel sofria luto complicado e que Olívia deveria cuidar para não virar instrumento de obsessão. A mediadora agradeceu a preocupação e pediu a planilha de acesso ao centro cirúrgico na noite da morte do fundador. Renata levou quatro segundos para sorrir.

À noite, Daniel esperou Olívia na garagem. Ela deveria ter achado invasivo. Achou imprudente, atraente e útil. Ele trouxe uma cópia parcial do prontuário original, escondida por uma enfermeira aposentada. O documento indicava medicamento trocado e assinatura de Renata autorizando compra emergencial. Olívia disse que aquilo podia derrubar a venda e abrir investigação criminal. Daniel perguntou por que ela parecia assustada com a possibilidade de fazer a coisa certa. Olívia respondeu que a coisa certa, quando mal conduzida, virava espetáculo para culpado escapar. Ele se aproximou. Ela não recuou. O beijo quase aconteceu entre decisão e erro, até um carro acender farol perto demais.

1/1
Menu

Fazer anotação