Cláusula de Saída
Olívia convocou nova reunião com pauta técnica, sem avisar que já havia enviado cópias de documentos a um promotor conhecido. A sala dezenove estava cheia antes do horário. Renata trouxe advogado próprio. O representante do comprador chegou com arrogância de quem assinara negócios piores em salas melhores. Daniel ficou ao lado da janela, calado, deixando que Olívia conduzisse a apresentação. Ela começou pelas duplicidades contábeis, passou pelas empresas vazias e terminou na noite da morte do fundador. Cada dado apareceu limpo, datado, difícil de reduzir a drama familiar.
Renata tentou interromper três vezes. Na quarta, Daniel perdeu a calma e acusou-a de ter matado o pai. Olívia fechou a pasta com força suficiente para calar a sala. Disse que acusação sem sequência documental ajudava a defesa, e que qualquer pessoa interessada em justiça deveria aprender a respirar antes de entregar munição. Daniel obedeceu, humilhado e grato. O comprador tentou retirar a proposta, alegando quebra de confidencialidade. Olívia mostrou a cláusula de crime superveniente que ela mesma inserira na versão final do acordo. Pela primeira vez naquela semana, o homem rico leu contrato antes de fingir superioridade.
Quando a polícia chegou, Renata ainda segurava a caneta de assinatura. O promotor entrou com mandado para recolher computadores, notas e registros de farmácia. A diretora olhou para Olívia com ódio íntimo, acusando-a de ter sido comprada por Daniel. Olívia respondeu que seria maravilhoso receber tanto por fazer o mínimo. A frase arrancou riso nervoso dos sócios. Daniel esperou no corredor, tremendo de raiva adiada. Quando ficaram sozinhos na sala dezenove, ele pediu desculpa por quase destruir a estratégia. Olívia aceitou e finalmente puxou-o pela camisa. O beijo veio sem delicadeza falsa, cheio de cansaço, vitória parcial e perigo encerrado tarde demais.