Assinatura Nova
A investigação mostrou que Renata desviava dinheiro havia anos, lavava parte dos valores no contrato de venda e negociara com o comprador uma saída lucrativa. A morte do fundador entrou em inquérito separado após a perícia confirmar troca de medicamento. Os sócios restantes tentaram fingir surpresa, depois aceitaram que negligência também deixava recibo. A clínica quase fechou, sustentada por funcionários que sabiam trabalhar apesar da diretoria. Olívia encerrou formalmente a mediação, recomendou governança externa e recusou o convite para assumir cargo permanente. Gostava de resolver incêndio, não de morar dentro dele.
Daniel voltou ao centro cirúrgico aos poucos, primeiro como consultor, depois em pequenos procedimentos. Parou de falar do pai em tom de sentença e começou a falar em tom de saudade. Olívia via isso de longe, porque distância ainda era sua defesa preferida. Ele respeitou por duas semanas inteiras, marca que ambos consideraram impressionante. No décimo quinto dia, apareceu no escritório dela com comida tailandesa, uma garrafa de vinho e uma pergunta simples sobre jantar. Olívia disse que aquilo violava pelo menos três normas de prudência. Daniel respondeu que trouxe recibo, caso ela precisasse anexar ao processo da própria teimosia.
Meses depois, a clínica tinha conselho novo, auditoria aberta e uma placa discreta com o nome do fundador na entrada do centro cirúrgico. A sala dezenove virou espaço de treinamento, sem mesa de vidro, por insistência de Olívia. Ela e Daniel mantinham agendas difíceis, encontros tardios e uma honestidade que às vezes doía menos do que mentir bonito. Numa noite de chuva, voltaram à clínica para assinar a versão final do acordo entre sócios. Daniel colocou a caneta na mão dela, dizendo que todo lugar ruim merecia uma segunda assinatura. Olívia assinou como testemunha, depois o beijou diante da sala vazia, satisfeita por escolher, enfim, um risco sem fraude.