A Cláusula da Madrugada
Beatriz retirou a mão primeiro e pediu que Davi parasse de agir feito protagonista de desastre caro. Ele soltou uma risada curta, a primeira da noite, quase um erro no personagem impecável que apresentara no salão. A cabine continuava parada, suspensa sobre o átrio escuro, com a cidade refletida no vidro e nenhum funcionário respondendo ao interfone. Beatriz usou a lanterna do celular para examinar o painel. Davi encostou no canto oposto, obediente por necessidade e atento demais ao jeito dela se mover no espaço pequeno.
O manual de emergência ficava atrás de uma tampa presa por dois parafusos. Beatriz pediu uma moeda. Davi ofereceu o cartão metálico de acesso à cobertura. Ela ergueu uma sobrancelha e usou o cartão para abrir a tampa, arranhando a superfície sem dó. Ele observou o dano com uma dor silenciosa que quase a divertiu. Dentro do painel, a linha de alimentação auxiliar estava desligada, cortada de propósito por alguém que conhecia o sistema recém-instalado. Aquilo deixava de ser falha e começava a virar recado.
Davi ligou a lanterna do próprio celular para ajudar. A luz bateu no rosto de Beatriz, nos olhos concentrados, na boca sem batom, no colar pequeno que sumia dentro da camisa branca. Ele desviou a luz depressa, tarde o suficiente para ela perceber. Beatriz perguntou se o grupo Arantes colecionava inimigos ou se aquilo era privilégio pessoal dele. Davi respondeu que toda família com dinheiro velho compra desafeto junto com imóvel. A frase saiu seca, sem vaidade. Pela primeira vez, ele pareceu menos CEO e mais alguém cercado.
Quando a cabine voltou a se mover, desceu apenas até o sexto andar e parou com a porta abrindo para um corredor de serviço. Beatriz saiu primeiro. Davi a segurou pelo braço ao ouvir passos no escuro. O contato foi rápido, quente, educado demais para ser grosseiro e íntimo demais para ser neutro. Um funcionário cruzou o corredor correndo com capuz e mochila. Beatriz viu o brilho de uma ferramenta na mão dele. Davi saiu atrás, porém a porta corta-fogo bateu antes que o alcançasse.
No escritório provisório, horas depois, a equipe jurídica colocou sobre a mesa um contrato revisado. Havia uma cláusula de confidencialidade ampliada, multa severa e proibição expressa de relações pessoais que prejudicassem a reinauguração. Beatriz leu em silêncio, ainda com a marca dos dedos de Davi no braço. Ele ficou de pé junto à janela, fingindo que a cláusula era rotina. Ela assinou porque precisava do trabalho e porque alguém tentara sabotar seu projeto antes mesmo de começar. Ao devolver a caneta, avisou que madrugada nenhuma entraria no contrato.