O Elevador Panorâmico Contrato no Escuro · Capítulo 3 de 12
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O Elevador Panorâmico

Na manhã seguinte, o blecaute já tinha virado rumor controlado. A assessoria do grupo chamava aquilo de oscilação técnica, a diretoria exigia relatório, e Davi caminhava pelo hotel com a serenidade tensa de quem dormira pouco e escolhera não mostrar. Beatriz chegou antes dos eletricistas, prendeu o cabelo, subiu no elevador panorâmico outra vez e fotografou cada parafuso do painel. Quem cortou a linha auxiliar sabia que a cabine seria usada no teste. Isso reduzia a lista a poucas pessoas, todas caras demais para serem tratadas como suspeitas comuns.

Davi entrou na cabine sem pedir licença. Beatriz percebeu pelo reflexo do vidro e continuou trabalhando. Ele trazia café em dois copos, um sem açúcar para ela, informação que não havia autorizado. Ela perguntou quem fornecera esse dado. Davi respondeu que assistentes sabem tudo, inclusive preferências de consultoras que recusam bajulação e aceitam cafeína. Beatriz pegou o copo porque orgulho nenhum paga conta de energia. A cabine subiu devagar, agora funcionando, exibindo o átrio iluminado pela luz fria provisória que ela odiava.

No oitavo andar, Beatriz descobriu uma câmera de manutenção virada para a parede. Davi chamou segurança. Enquanto esperavam, ele contou que a compra do hotel contrariou parte da família e quase todos os investidores. O Aurora pertencia a uma antiga atriz, tia-avó dele, que deixara em testamento uma exigência incômoda. O prédio só poderia reabrir se preservasse o teatro interno, fechado havia vinte anos. Davi comprou a briga. A diretoria preferia demolir a área e vender apartamentos de luxo.

Beatriz gostou da resposta contra sua vontade. Homens bonitos ficam menos perigosos quando defendem algo que não rende lucro imediato, ou talvez fiquem piores. Ela pediu acesso ao teatro. Davi hesitou. A ala estava interditada desde um acidente ocorrido na primeira reforma, quando uma técnica caiu da passarela de luz. O caso fora arquivado, a seguradora pagou parte do prejuízo, e o assunto virou superstição interna. Beatriz olhou para ele com irritação limpa. Contratar uma designer e esconder o teatro era quase uma ofensa pessoal.

O teatro ficava atrás de portas duplas cobertas por lona. Ao entrarem, a poeira subiu em nuvem baixa, revelando poltronas vermelhas, palco pequeno e refletores antigos presos no alto. Beatriz acendeu uma lanterna e viu cabos recentes junto à passarela, escondidos atrás da cortina lateral. Davi subiu com ela pela escada metálica. Lá em cima, o espaço era estreito, e o corpo dele encostou no dela quando ambos se abaixaram para examinar uma caixa de disjuntores. Beatriz sentiu o calor antes de pensar. Davi pediu desculpa. Ela respondeu que desculpa útil vem com distância.

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