O Jantar de Investidores
O jantar de investidores aconteceu no restaurante ainda sem acabamento, com flores caras escondendo andaimes e garçons treinados para sorrir diante de parede sem rodapé. Beatriz deveria apresentar o conceito de iluminação em dez minutos, sem mencionar sabotagem, teatro interditado ou a câmera virada. Davi a recebeu na entrada com terno azul escuro e gravata solta o bastante para parecer descuido calculado. Ela usava vestido preto simples, sapato confortável e brincos pequenos. O olhar dele desceu rápido demais até a curva do pescoço e voltou com disciplina atrasada.
A diretora financeira, Helena Prado, abriu a noite falando de retorno, experiência premium e reposicionamento de marca. Beatriz ouviu aquilo pensando em cabos mal escondidos no teatro. Quando chegou sua vez, projetou imagens do hotel com luz quente, corredores mais humanos, restaurante menos arrogante e teatro restaurado como coração do prédio. Alguns investidores reagiram bem. Outros trocaram olhares. Um homem chamado Sérgio Valente perguntou se o teatro não seria obstáculo caro para a rentabilidade. Beatriz respondeu que prédio sem memória vira cenário alugado por hora.
Davi apoiou a frase diante de todos. Disse que o Aurora reabriria inteiro, ou não reabriria sob sua gestão. A sala ficou educada e gelada. Beatriz reconheceu a coragem e também a imprudência. Depois da apresentação, Sérgio se aproximou dela com taça de vinho e sorriso de quem oferece armadilha embrulhada em elogio. Disse que Davi tinha tendência a contratar mulheres brilhantes por razões pouco técnicas. Beatriz pousou a taça sobre uma bandeja e respondeu que homens inseguros costumam confundir competência feminina com capricho de outro homem.
Davi viu a conversa de longe. Quando Sérgio se afastou, ele conduziu Beatriz até um corredor lateral sob o pretexto de mostrar o painel do bar. A luz ali ainda era fraca, dourada, desenhando sombras no rosto dele. Davi perguntou o que Sérgio dissera. Beatriz repetiu. A mandíbula dele endureceu. Ela esperava ordem, desculpa corporativa ou promessa de demissão futura. Recebeu silêncio e um pedido baixo para que nunca aceitasse humilhação naquele prédio em nome do contrato. A frase acertou um lugar que ela mantinha fechado desde o divórcio.
O primeiro beijo quase aconteceu perto da adega, entre caixas de taças e uma parede sem acabamento. Davi deu um passo, Beatriz ficou. A distância diminuiu até virar respiração compartilhada. Então o celular dela vibrou com uma mensagem anônima. A foto mostrava os dois no elevador durante o blecaute, iluminados pela lanterna, próximos o bastante para virar escândalo. A legenda dizia que a cláusula da madrugada já tinha testemunha. Beatriz mostrou a tela a Davi. O desejo recuou sem desaparecer. Agora tinha plateia.