A Assinatura Rasgada
A coletiva aconteceu no teatro do Aurora, por sugestão de Beatriz e desespero calculado da assessoria. Se a imprensa queria romance, sabotagem e queda de CEO, receberia tudo sob luz perfeita, com documentos projetados no palco e microfones funcionando. Beatriz revisou cada lâmpada antes de sentar à mesa. Davi entrou depois, acompanhado de Helena, da advogada dela e de um perito digital. O conselho tentou impedir até o último minuto. Davi desligou o celular quando a mãe mandou mensagem pedindo discrição.
Beatriz falou primeiro. Explicou a contratação, a adulteração do contrato, o uso fraudulento do certificado e a ligação de Mauro com Sérgio. Mostrou horários, prints, laudos e registros do sistema de iluminação. Não citou o beijo. Não pediu piedade. Quando um repórter perguntou se ela mantinha relação com Davi, Beatriz olhou para ele por um segundo e respondeu que sua vida afetiva não alterava a prova técnica, porém mentir sobre ela interessava justamente a quem adulterou documentos para controlá-la.
Davi assumiu a palavra. Disse que Beatriz foi contratada por competência, que a sabotagem visava derrubar a reinauguração e que a cláusula adicionada ao contrato era falsa. Depois rasgou diante das câmeras a cópia impressa com a assinatura adulterada. O gesto não tinha valor jurídico, e todos sabiam. Tinha valor visual, que às vezes trabalha mais rápido que cartório. Beatriz sentiu vontade de rir, chorar e beijá-lo ali mesmo. Escolheu beber água, porque ainda restava imprensa demais na sala.
As perguntas vieram agressivas. Mauro negava. Sérgio negava. O conselho avaliava. A polícia confirmava investigação. Helena, para surpresa de parte da diretoria, afirmou que recomendaria manter Davi na presidência do projeto até a reinauguração. Disse que liderança se mede pela forma de tratar prova quando o escândalo chega, principalmente quando a ausência de escândalo só protege quem fraudou o processo. Beatriz percebeu que Davi também se surpreendeu. A noite anterior custara caro a todos, porém algumas pessoas finalmente escolheram lado em voz alta.
Depois da coletiva, Beatriz encontrou Davi no corredor do teatro. Ele perguntou se tinha sido imprudente rasgar o papel. Ela respondeu que sim, muito. Ele perguntou se ela odiara. Beatriz disse que tecnicamente sim. Davi sorriu com alívio errado. Ela segurou a lapela dele, arrumou a dobra feita por nervoso e falou baixo que não queria ser prêmio de coragem pública. Davi ficou sério. Disse que queria jantar, conversar, errar pouco, acertar sem plateia e aprender o ritmo dela fora de crise. Beatriz soltou a lapela e aceitou o jantar.