A Manhã Aberta
O jantar foi em um restaurante pequeno, longe do hotel, longe da família Arantes e perto demais do apartamento de Beatriz para fingirem acaso. Falaram de trabalho apenas nos primeiros vinte minutos. Depois vieram assuntos menos úteis, a infância dele entre salas de reunião, o casamento dela que começou com admiração e acabou em planilhas de ressentimento, a tia Isadora, a mãe de Beatriz, a vergonha de desejar algo em fase de desastre. Davi escutava com atenção real. Beatriz descobriu que atenção real, em adulto cansado, pode ser mais íntima que elogio.
Quando chegaram à porta do prédio dela, Beatriz não convidou Davi para subir de imediato. Ficaram na calçada, tarde demais para prudência e cedo demais para promessa. Ele tocou a mão dela, esperando. Beatriz pensou no contrato, no terraço, nas câmeras, nos anos em que confundiu autocontrole com punição. Subiram. No apartamento, a luz da sala acendeu suave, regulada por ela meses antes. Davi olhou em volta sem comentar preço, metragem ou vista. Comentou o abajur torto. Beatriz riu, e isso decidiu metade da noite.
O desejo entre eles deixou de ser acidente e virou escolha paciente. Beijaram-se no corredor, depois na sala, entre uma estante de livros e a mesa onde Beatriz assinava contratos. Davi tirou o relógio e colocou longe, gesto pequeno que ela entendeu sem explicação. Não havia pressa de hotel apagando, ameaça no celular ou conselho reunido. Havia mãos, respiração, cuidado, vontade e a liberdade estranha de dois adultos que conheciam o custo de abrir a porta. Quando Beatriz o levou para o quarto, a cidade ficou do lado de fora.
A manhã veio clara, indecente em sua simplicidade. Davi estava na cozinha tentando fazer café com a máquina dela e fracassando com respeito. Beatriz apareceu usando a camisa dele, cabelo solto, expressão de quem dormiria mais duas horas se não tivesse reunião com perito. Ele parou de lutar com a máquina. Ela perguntou se CEOs também tinham dificuldade com cápsulas. Davi respondeu que seu talento era delegar eletrodomésticos. Beatriz tomou a cápsula da mão dele, preparou dois cafés e deixou que ele beijasse seu ombro antes de entregar a xícara.
No celular, havia vinte e sete mensagens. Mauro fora intimado. Sérgio perdera apoio de parte dos investidores. O conselho aceitara manter a reinauguração. Helena queria Beatriz de volta como responsável técnica, agora com contrato novo, sem cláusula moral e com multa pesada contra interferência indevida. Beatriz leu tudo sentada no balcão, ainda com a camisa de Davi. Ele perguntou se ela aceitaria. Ela respondeu que aceitaria se o contrato fosse dela, sem favor e sem sombra de romance. Davi disse que faria questão de ser tratado como cliente difícil. Beatriz sorriu e avisou que cobraria adicional.