Contrato no Escuro Contrato no Escuro · Capítulo 12 de 12
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Contrato no Escuro

A reinauguração oficial do Hotel Aurora aconteceu vinte dias depois da noite do blecaute, com gerador revisado, teatro liberado, contrato novo e imprensa tentando fingir que sempre se interessou por iluminação cênica. Beatriz chegou cedo, de macacão preto, equipe alinhada e tablet na mão. Davi a recebeu no palco vazio, antes da entrada dos convidados. Nenhum dos dois se beijou ali. Havia técnicos, garçons e advogados demais por perto. Ainda assim, a forma como ele olhou para ela fez o teatro parecer aceso antes da primeira lâmpada.

Mauro assinou acordo preliminar depois que o rastro digital ficou impossível de negar. Sérgio enfrentava investigação por fraude e sabotagem. Renato, o terceirizado, entregou mensagens e pagamentos em troca de acordo. O conselho descobriu que escândalo controlado com prova causa menos dano que silêncio elegante seguido de processo. Helena ganhou força interna. Davi manteve a presidência do projeto e aprendeu a dizer que não sabia tudo sem perder autoridade. Beatriz voltou ao hotel como profissional, com nota fiscal, escopo fechado e respeito público.

Quando as portas abriram, os convidados entraram pelo átrio sob uma luz quente que devolvia cor ao mármore antigo. O restaurante parecia íntimo sem ficar escuro. A escadaria central brilhava o suficiente para guiar, nunca para cegar. No teatro, Beatriz preparou o último efeito para homenagear Isadora Arantes. A cortina subiu, mostrando no fundo do palco uma fotografia da atriz jovem, projetada sobre luz suave. Davi ficou na primeira fileira, ao lado da tia idosa em cadeira de rodas, e chorou sem esconder a tempo.

Depois da cerimônia, Beatriz encontrou Davi no elevador panorâmico. Desta vez, a cabine subiu sem falha, exibindo o átrio cheio de gente, taças e conversas. Davi apertou o botão da cobertura e, quando a porta fechou, entregou a ela uma cópia do primeiro contrato, aquele assinado na madrugada, agora marcado com anotações dela, laudos e correções. No rodapé, ele escrevera uma frase simples. Nenhuma cláusula substitui consentimento, verdade e luz acesa. Beatriz leu, dobrou o papel e perguntou se aquilo era pedido de desculpa ou flerte jurídico.

Davi respondeu que era aprendizado documentado. Beatriz riu e o beijou quando a cabine passou pelo sexto andar, exatamente onde tudo havia começado a sair do controle. O beijo foi breve, porque a porta abriu na cobertura e a festa esperava. Lá fora, a cidade brilhava em janelas, faróis e letreiros. Beatriz caminhou ao lado dele até o terraço, sem esconder a mão entrelaçada à dele. O contrato que valia estava assinado em outro lugar, naquela escolha pública, sem blecaute, sem fraude e sem medo de acender a luz.

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