A Irmã Escolhida Minha Irmã e Meu Alfa · Capítulo 2 de 12
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A Irmã Escolhida

O salão demorou a aceitar o silêncio depois da ordem de Nikolai. As pessoas continuavam de boca aberta, com taças suspensas e olhos ansiosos pela primeira palavra capaz de transformar escândalo em versão oficial. Lia manteve o pulso erguido por mais alguns segundos, o bastante para todos verem a pequena coroa de lua acesa em sua pele. Depois baixou a mão, fechou os dedos sobre a marca e sentiu o calor dela bater contra a palma. O bilhete de Cecília se desfazia dentro da bacia de prata, misturado ao sangue do Alfa e à água do lago. Aquela imagem, mais que a luz no braço, parecia ofender a irmã escolhida.

Maura Ravena bateu a bengala no piso pela segunda vez. “Os convidados permanecem no salão até que seus nomes sejam registrados como testemunhas. Nenhuma carruagem deixa a propriedade antes da assinatura do livro antigo.” A anciã falava com uma calma de tribunal, e até os lobos armados junto às portas endireitaram a postura. Dário tentou se aproximar da filha menor, porém Nikolai ocupou o espaço entre os dois com um passo curto. A mão ferida do Alfa ainda pingava sangue. “Ela é minha responsabilidade”, disse Dário, baixo o bastante para parecer privado e alto o suficiente para alcançar os conselheiros da primeira fileira. Nikolai respondeu sem alterar a voz: “Nesta casa, durante um julgamento de marca, ninguém toca nela sem autorização da lei.”

Cecília soltou uma risada breve, seca, feita para recolocar a sala sob domínio. “Julgamento de marca? Estamos falando da minha irmã, tia Maura. Lia desmaiava em treinamento quando a neve entrava pela gola. Ela passou a vida esperando um sinal que nunca veio e hoje aparece justamente na minha cerimônia com uma luz no pulso. Isso merece exame, claro, porém também merece prudência.” A palavra prudência saiu bonita, redonda, quase respeitável. Lia reconheceu a técnica. Cecília sempre escolhia uma virtude antes de ferir alguém. Quando chamava de prudência, queria dizer suspeita. Quando chamava de zelo, queria dizer controle. Quando falava em família, preparava a faca.

“Você me vestiu de azul para eu parecer menor”, disse Lia. A frase não saiu alta, ainda assim encontrou caminho entre as mesas. Algumas primas se mexeram nos assentos. Cecília arregalou os olhos com perfeição suficiente para uma pintura. “Eu mandei um vestido porque você não teria escolhido nada adequado.” Lia tirou a mão do corpete e mostrou a ponta úmida do papel que sobrara na bacia. “Mandou junto uma frase. Devo pedir a Maura que leia o que a água ainda conservou?” O rosto de Cecília perdeu a cor por um instante. Dário virou-se para a filha mais velha, irritado com a exposição da crueldade doméstica, não com a crueldade em si.

Maura estendeu a mão para Ian, e o beta cruzou a sala com o livro antigo preso contra o peito. A capa era de couro escuro, rachada nas bordas, com fechos de prata gastos por muitas gerações. Ele abriu a página marcada por uma fita vermelha e colocou o volume sobre a mesa central, longe da água manchada. “Cecília Montenegro foi apresentada como prometida”, declarou Maura, molhando uma pena no tinteiro. “Lia Montenegro manifestou sinal de vínculo durante o juramento. Nikolai Ravena reconheceu a incidência da lei ao ordenar permanência sob proteção da casa.” A pena riscou o papel com som miúdo. Lia ouviu seu nome ser escrito e sentiu uma vertigem estranha, quase ridícula. Sua existência, sempre tratada como detalhe administrável, acabava de entrar no livro que os clãs respeitavam mais que certidões civis.

Dário apertou a mandíbula. “A permanência dela pode ser feita em uma ala reservada. Minha filha está confusa, os convidados estão exaltados, e Cecília não será transformada em alvo por uma interpretação precipitada.” Nikolai virou apenas o rosto. “Cecília continuará segura.” A resposta parecia conceder algo, porém não entregava o que Dário queria. “E Lia?” perguntou Maura. O Alfa olhou para o pulso de Lia, depois para o rosto dela, e aquela demora irritou Cecília mais que uma recusa franca. “Lia ficará no corredor norte, com guarda Ravena. Receberá alimento, fogo e janela trancada por dentro. Ninguém entra sem minha ordem ou sem a sua, tia.” Maura inclinou a cabeça, satisfeita com a formulação. Dário respirou fundo pelo nariz, reconhecendo a derrota parcial.

Lia só percebeu que as pernas tremiam quando Ian se aproximou para conduzi-la. A marca diminuíra o brilho, transformando-se em linhas claras sob a pele, parecidas com cicatrizes recém-lavadas. O salão seguia cheio, e caminhar diante de todos exigiu mais esforço que suportar a dor no braço. Ela passou por Cecília sem olhar, porque sabia que a irmã preferiria qualquer reação a essa economia de rosto. Mesmo assim, Cecília agarrou seu pulso no último segundo. As unhas pintadas de vinho pressionaram a pele ao redor da marca. “Você vai se arrepender disso”, sussurrou. Lia olhou para os dedos da irmã, depois para os olhos dela. “Solte antes que o livro ganhe outra frase.”

Nikolai chegou antes de Ian. Não tocou em Cecília, apenas parou ao lado dela com uma proximidade suficiente para obrigá-la a largar Lia. “Vá para seus aposentos”, disse ele. Cecília abriu a boca, e por um segundo a sala viu a noiva sem treino, uma mulher ferida no orgulho, furiosa por ter sido corrigida diante dos clãs. “Eu sou sua prometida.” Nikolai deixou a mão ferida pender ao lado do corpo. “Você foi apresentada. A diferença passou a importar.” A frase cortou o ar com uma elegância cruel. Cecília recuou um passo, recompondo a postura em partes visíveis: ombros, queixo, boca, olhar. Lia guardou essa desmontagem na memória com o mesmo cuidado dado ao bilhete.

O corredor norte cheirava a pinho encerado, neve úmida e fumaça antiga. Ian caminhava meio passo atrás de Lia, educado demais para parecer carcereiro, atento demais para fingir outra função. As portas que eles cruzaram tinham brasões entalhados, cada um representando uma união antiga da Casa Ravena. Em alguns, lobos mordiam luas; em outros, mulheres seguravam lâminas, crianças ou ramos de pinheiro. Lia tentou manter o ritmo, apesar do sapato fino machucar o calcanhar a cada passada. Quando chegaram à última porta, Ian abriu com uma chave preta. “A lareira está acesa. Há água e roupa seca dentro do armário. Duas guardas ficam do lado de fora. Se precisar de atendimento, chame por mim.”

O quarto era maior que o dela na casa dos Montenegro e mais frio, apesar do fogo. Havia uma cama alta com colcha verde-escura, uma mesa de escrita, um biombo de madeira pintado com lobos correndo sob pinheiros e uma janela comprida voltada para o pátio interno. Lia entrou sem agradecer, porque gratidão a carcereiro parecia uma educação perigosa. Ian permaneceu no batente. “O Alfa vai falar com você quando terminar a primeira ata.” Ela soltou uma risada baixa. “Ele costuma terminar atas antes de explicar por que prende mulheres na própria casa?” O beta não sorriu, embora seus olhos tenham mudado. “Ele costuma impedir que mulheres marcadas sejam arrastadas pelos pais diante de cento e vinte testemunhas.”

A porta se fechou com um clique pesado. Lia ficou sozinha, enfim, e a força mantida no salão se soltou por dentro de maneira feia. Ela arrancou os sapatos, apoiou as mãos na mesa de escrita e respirou até o enjoo recuar. A alça do vestido escorregou outra vez, expondo a marca que agora alcançava o começo do antebraço. De perto, o desenho tinha detalhes que não apareciam no salão: três curvas principais, uma coroa mínima e pequenos pontos prateados alinhados ao pulso. Lia passou a ponta do dedo ao redor, sem tocar no centro. Sua loba respondeu com uma pressão lenta, alerta, satisfeita. Aquilo a assustou mais que a raiva de Cecília.

No armário, encontrou um robe de lã cinza e uma camisa branca dobrada com precisão. Trocou-se atrás do biombo, deixando o vestido azul cair no chão em volta dos pés. O bilhete já não estava com ela, e mesmo assim a frase parecia presa ao corpo. Use azul, combina com quem aceita ficar ao fundo. Lia empurrou o vestido com o pé até perto da lareira, resistindo à vontade de queimá-lo. Se o destruísse, Cecília venceria de outro jeito, porque a noite ficaria limpa demais para quem viesse contar depois. Em vez disso, dobrou a peça com cuidado e colocou sobre a cadeira, a alça frouxa voltada para cima, prova material de uma intenção pequena que terminara diante da lei antiga.

Nikolai entrou sem o aparato do salão, porém sem pedir licença. Trazia a mão direita enfaixada e o casaco aberto na gola, revelando a camisa escura colada ao peito pelo frio derretido. As guardas fecharam a porta atrás dele. Lia permaneceu junto à lareira, descalça, usando o robe cinza sobre a camisa emprestada, com o cabelo solto caindo pelos ombros. “Você sabia que isso aconteceria?” perguntou ele. Lia riu de verdade, sem humor. “Eu vim assistir minha irmã ser escolhida pelo homem que todos passaram meses dizendo que era impossível recusar. Vim ser lembrada do meu lugar. Se eu soubesse provocar uma marca diante de três clãs, teria escolhido sapatos menos cruéis.”

O olhar dele desceu até os pés descalços, voltou ao pulso marcado e parou ali. “Posso ver?” Lia ergueu o braço sem se aproximar. Nikolai deu dois passos, o bastante para o calor dele disputar espaço com a lareira. Não tocou na pele. A mão enfaixada ficou suspensa a poucos centímetros da marca, e a cor prateada se acendeu de novo, discreta, obediente ao sangue por baixo da atadura. O maxilar dele contraiu. “A reação é verdadeira.” Lia sentiu irritação subir junto da vergonha. “Que alívio. Por um momento temi ter organizado um espetáculo sobrenatural entre o jantar e a sobremesa.” Ele aceitou a ironia sem piscar. “Cecília vai defender essa versão.”

“Cecília defenderia que a neve é quente se isso salvasse a coroa dela.” Lia baixou o braço e apertou a manga do robe sobre a marca. “Você também vai defender sua versão, Alfa? Vai dizer que foi enganado por uma Montenegro errada? Que sua noiva oficial continua sendo a opção mais conveniente enquanto eu fico em um quarto trancado esperando homens antigos decidirem se meu corpo mentiu?” Nikolai olhou para a janela antes de responder, e a demora dela veio cheia de cálculo. “Eu assinei acordos antes de saber que você tinha qualquer marca.” Lia sentiu a loba arranhar as costelas. “E antes de me olhar no salão?” Ele virou o rosto para ela. A resposta ficou no ar, presa entre os dois, inconveniente demais para o momento.

A maçaneta girou com violência. Cecília entrou usando um manto branco sobre o vestido de cerimônia, seguida por Dário e duas guardas que claramente preferiam estar em outro corredor. “Então é aqui que a lei antiga coloca a convidada especial”, disse ela. Nikolai ficou imóvel. “Eu ordenei que você fosse para seus aposentos.” Cecília ignorou a frase e caminhou até a cadeira onde o vestido azul estava dobrado. Passou os dedos pela alça caída, com o cuidado de quem toca uma acusação. “Ela sempre foi boa em parecer abandonada. Papai, veja. Até o vestido acusa a casa que o comprou.” Dário fechou a porta atrás de si. “Lia, vamos resolver isso com discrição. Você dirá ao conselho que sentiu uma dor e se confundiu. Maura registrará exame posterior. A cerimônia pode ser retomada em três dias.”

Lia olhou para o pai e percebeu que ele não perguntara se ela estava ferida. Não perguntara o que a marca fazia, quanto ardia, se a loba havia acordado inteira. Ele oferecia uma mentira organizada, com prazo curto e utilidade familiar. “Você quer que eu desminta meu próprio pulso.” Dário ajeitou o broche de ônix, gesto pequeno que usava quando precisava esconder pressa. “Quero que você preserve sua irmã e sua casa.” Cecília se aproximou, os olhos brilhando de raiva guardada. “Eu fui preparada para ser Luna desde os treze anos. Você não vai entrar com esse rostinho de vítima e tomar o que eu sustentei por uma vida inteira.” Lia sentiu a marca aquecer sob o robe. “Se era seu, por que a lei parou para olhar para mim?”

Cecília levantou a mão. O movimento foi rápido, nascido de uma infância inteira de impunidade. Nikolai segurou o pulso dela antes que o tapa alcançasse o rosto de Lia. A sala inteira pareceu diminuir ao redor desse gesto. Dário deu um passo à frente. As guardas prenderam a respiração. Cecília encarou os dedos do Alfa fechados em sua pele com espanto, depois com uma humilhação tão funda que Lia quase reconheceu ali uma irmã, não apenas uma adversária. Nikolai soltou-a devagar. “Você não encosta nela.” Cecília puxou o braço contra o peito. “Por causa de uma marca que apareceu há meia hora?” Ele respondeu olhando para Lia: “Por causa da lei que eu jurei cumprir antes de escolher qualquer mulher.”

Dário levou Cecília para fora com palavras baixas e urgentes. Ela saiu sem chorar, que era o modo mais perigoso de Cecília sofrer. No corredor, antes que a porta fechasse, Lia ouviu a irmã dizer a alguém que trouxesse a pulseira de prata guardada no estojo de viagem. A frase veio pequena, quase perdida entre passos e ordens, porém encontrou Lia com precisão. Nikolai também ouviu. O rosto dele mudou pouco, só o suficiente para Ian, surgindo no batente, endireitar a postura. Lia olhou para a própria marca e depois para o vestido azul dobrado na cadeira. A noite ainda tinha cheiro de vinho quebrado, neve e sangue. Do outro lado da porta, Cecília já procurava uma maneira de calar a lua.

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