O Lobo Branco Minha Irmã e Meu Alfa · Capítulo 4 de 12
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O Lobo Branco

Lia esperou Nikolai sair do quarto e contou até cem antes de respirar direito. O número não tinha poder algum, exceto o de ocupar a cabeça enquanto as guardas retomavam posição no corredor e a casa voltava a ranger em seus horários antigos. Branca seria chamada antes do amanhecer, disse Maura. Cecília guardava uma pulseira capaz de abafar ou deslocar vínculo, disse Nikolai. Dário havia pago por um pacto antes da cerimônia, disse a própria boca dele atrás da grelha. Tudo dentro daquela noite tinha nome, testemunha e objeto. Lia olhou para o robe cinza, para as botas grandes demais e para a porta escondida atrás do biombo. Esperar o conselho decidir por ela significava entregar a Cecília tempo, e Cecília sempre soubera usar tempo melhor que qualquer arma.

Nina apareceu pela passagem pouco depois, com uma cesta de lenha no braço e o rosto sério de quem carregava segredo pesado demais para a idade. Lia abriu a parede antes da menina bater, guiada pela marca que aquecia junto ao entalhe. “Você devia estar dormindo”, sussurrou. Nina entrou, deixou a cesta perto da lareira e tirou debaixo dos gravetos um pedaço de pão escuro embrulhado em pano. “Quem fica presa precisa comer. Minha mãe dizia isso.” A menina falou sem pedir pena, e essa secura deu a Lia vontade de ajoelhar para ouvi-la melhor. “Sua mãe conhecia Branca?” Nina assentiu. “Conhecia a trilha. Branca não vem quando chamam com guarda. Ela vem quando alguém chega sangrando ou com verdade na mão.”

O conselho, então, talvez esperasse até tarde demais. Lia pegou o pão, partiu em dois e devolveu metade para Nina. “Existe saída pelo corredor de serviço?” A menina avaliou as botas grandes, o robe, a marca no pulso. “Existe. Depois das cozinhas, tem uma porta para o pátio da madeira. Os cães ficam presos até a quarta sineta, porque o vento muda e eles brigam com os lobos de patrulha.” Lia olhou para a janela escura. A neve caía mais fina, quase horizontal, empurrada do norte. “Quanto falta para a quarta sineta?” Nina ergueu quatro dedos, abaixou dois. “Pouco.” A resposta bastou. Lia tirou a camisa branca emprestada, vestiu outra blusa de lã encontrada no armário, prendeu o robe por baixo de um casaco verde-escuro e escondeu o pulso marcado com uma faixa.

Nina guiou o caminho sem lamparina, usando a casa com a naturalidade de quem nascera sob mesas e escadas. A passagem secreta desembocou atrás da tapeçaria do corredor, depois em uma escada estreita até as cozinhas. Ali, a noite tinha cheiro de gordura fria, cebola cortada e cinza. Uma cozinheira dormia sentada perto do fogão, com as mãos cruzadas sobre o avental. Lia passou por ela segurando a respiração. No pátio da madeira, o frio bateu no rosto com força limpa, arrancando qualquer resto de salão da pele. A neve cobria toras, barris e pegadas antigas. Ao longe, lobos da patrulha se moviam entre tochas. Nina apontou para a linha escura de pinheiros além do muro baixo. “A trilha começa depois da pilha quebrada. Siga os galhos com pano vermelho.”

“Você não vem.” Lia disse antes que a menina oferecesse. Nina apertou a cesta vazia contra o corpo. “Eu sei. Tenho doze anos e juízo, apesar do que dizem na cozinha.” A frase arrancou de Lia um riso curto, quase humano. Ela tocou o ombro da menina com cuidado. “Se perguntarem, eu estava dormindo.” Nina olhou para as botas grandes demais. “Se perguntarem direito, a senhora nunca saiu da ala norte.” Era uma mentira formulada com precisão Ravena. Lia cruzou o pátio da madeira agachada junto às toras, esperando o vento cobrir o ruído das botas. Quando alcançou o muro baixo, a marca queimou sob a faixa. Não havia luz prateada visível, apenas calor e uma direção teimosa, apontando para o bosque.

Os panos vermelhos nos galhos eram velhos, desbotados, quase marrons. Lia seguiu o primeiro, depois o segundo, entrando entre pinheiros carregados de neve. A casa ficou para trás depressa demais. Sem as tochas, a noite se reduziu a branco, preto e respiração. Ela conhecia inverno, conhecia trilhas, conhecia patrulhas da casa Montenegro, porém aquele bosque parecia guardar regras próprias. O chão afundava sob seus pés. Galhos batiam no casaco. Em alguns troncos havia marcas de garras mais altas que sua cabeça, largas o bastante para pertencer a lobos de sangue antigo. Lia pensou em voltar ao quarto e esperar uma explicação menos perigosa. A lembrança da pulseira no pulso de Cecília empurrou essa fraqueza para longe.

O primeiro rosnado veio baixo, escondido pelo vento. Lia parou e girou devagar. Nada se moveu entre as árvores. O segundo rosnado veio à esquerda, acompanhado por estalo de galho. A loba dentro dela levantou-se de uma vez, enchendo seu peito com uma urgência física. Lia soltou a faixa do pulso para enxergar a marca. As linhas prateadas brilhavam pouco, só o suficiente para revelar neve suja perto de uma pedra e pegadas fora do padrão da patrulha Ravena. Três conjuntos, talvez quatro. Lobos sem brasão, lembrou das palavras do arco. Animais expulsos, homens em forma, gente que atacava onde a lei ainda não havia escolhido nome para a vítima. Ela apanhou um pedaço de madeira caído e segurou com as duas mãos.

O primeiro lobo saiu entre os pinheiros com o pelo cinza manchado e uma orelha rasgada. Não usava tira de patrulha no pescoço, não carregava cheiro de casa reconhecida, não hesitava diante de uma mulher marcada. Lia recuou até as costas baterem em um tronco. O lobo mostrou dentes escuros. Atrás dele, outro corpo se moveu, maior, quase preto. A marca no pulso de Lia se acendeu de repente, e a luz fez os animais hesitarem. Ela aproveitou para bater a madeira contra o tronco, gritando o nome de Nikolai sem planejar. O som saiu cru, engolido pela neve, e por um instante ela se odiou por chamar justamente o homem que a trancara para medir reações de casa e sangue.

O lobo cinza saltou. Lia ergueu a madeira, sentiu o impacto subir pelos braços e caiu de lado na neve. A dor abriu uma linha quente no ombro. Ela rolou antes que o segundo atacasse, chutando neve e pedra. A loba dentro dela exigia mudança, pele rasgando, ossos assumindo outro desenho, porém o corpo de Lia não respondia por inteiro desde a adolescência. Sempre faltava um último passo, uma porta interna que não se abria. Raiva encheu sua boca com gosto de ferro. Ela agarrou um punhado de neve e lançou nos olhos do lobo cinza, ganhando um segundo miserável. O animal preto avançou, e a noite explodiu em branco.

Um lobo enorme bateu contra o atacante no ar. O pelo dele vinha branco absoluto, sem cinza, sem creme, sem prata de luar, com espessura marcada por sangue fresco na altura do peito e olhos escuros demais para um animal daquela cor. O impacto derrubou o lobo preto contra uma pedra. O som de ossos e rosnados atingiu Lia de maneira brutal. O lobo branco colocou-se entre ela e os outros, abaixando a cabeça, as patas dianteiras firmes na neve. Os lobos sem brasão recuaram, inquietos. Um deles tentou circular pela direita. O branco girou com velocidade impossível, mordeu a lateral do pescoço do agressor e o jogou contra os pinheiros. O bosque inteiro pareceu se curvar ao domínio dele.

Lia soube que era Nikolai antes da razão alcançar a certeza. Não pelo tamanho, nem pela autoridade, nem pelo modo como os outros lobos temiam chegar perto. Soube porque a marca em seu pulso respondeu ao lobo branco com uma dor quente e limpa, descendo até a palma, subindo pelo braço, chamando a loba dela para perto da pele. Ela tentou levantar. A perna falhou. O lobo branco virou a cabeça por meio segundo, e naquele olhar havia repreensão, alívio e uma fúria dirigida a tudo menos a ela. Esse descuido quase custou caro. O lobo cinza, recuperado da neve nos olhos, avançou pela lateral. Lia gritou. Nikolai virou tarde, recebendo os dentes no flanco.

A reação dele veio sem som humano. O branco girou, esmagou o agressor contra o chão e manteve a mordida até o outro animal parar de lutar. Os demais recuaram para o escuro, um a um, abandonando o ataque sem honra. Lia ficou ajoelhada na neve, tremendo, com o ombro molhado de sangue e o cabelo preso ao rosto. O lobo branco continuou parado entre ela e a mata, respirando forte. Depois veio até ela devagar. Era grande demais visto de perto, maior que qualquer lobo da casa Montenegro, com o pelo tão claro que a neve parecia suja ao redor dele. Lia ergueu a mão marcada. Ele baixou o focinho e tocou a faixa solta no pulso com cuidado quase impossível para aquelas presas.

A mudança começou diante dela. Lia desviou os olhos por pudor e por respeito, embora já tivesse visto transformações em arenas de treino. Mesmo assim, a passagem de Nikolai da forma de lobo para a humana não parecia exercício ou demonstração. Parecia algo arrancado de um lugar antigo, doloroso, cheio de controle. Quando ela voltou a olhar, ele estava ajoelhado na neve, nu até a cintura, vestindo apenas a calça rasgada que restara da patrulha, com sangue no flanco e a respiração curta. O frio não parecia tocá-lo. “Você saiu da casa”, disse ele. A frase poderia ser acusação. A voz estragada pela mudança tornava tudo mais baixo, mais perigoso. Lia apertou o ombro ferido. “Você me deixou em um quarto que abria para metade dos seus segredos.”

Nikolai fechou os olhos por um segundo. “A trilha até Branca fica vigiada por razão.” Lia olhou para os lobos mortos ou caídos entre as árvores. “Por eles?” Ele se levantou, pegou de um galho um casaco de patrulha que devia ter deixado ali antes da mudança e cobriu os ombros dela primeiro, apesar do sangue no próprio corpo. O gesto irritou Lia por ser prático demais para rejeitar. “Por gente que sabe quando a casa está dividida.” Ele amarrou o casaco junto ao pescoço dela, os dedos rápidos perto da pele marcada. “A pulseira apareceu e os sem brasão atacaram na mesma noite. Isso não é coincidência.” Lia segurou o pano pesado do casaco para não tremer. “Então me leve até Branca.”

Ele soltou uma risada sem humor, olhando para o céu pesado. “Você quase morreu em dez minutos fora do muro.” Lia deu um passo adiante, ignorando a dor no ombro. “Quase morri dentro do muro antes de nascer direito, se aquela pulseira fez o que você acha. Minha irmã usa uma peça que talvez tenha roubado meu vínculo, meu pai pagou por isso, e sua casa sabia o bastante para esconder portas que respondem à minha pele. Não me peça para voltar ao quarto e esperar chá.” Nikolai fitou o rosto dela por tempo demais. A proximidade deles, no meio do sangue e da neve, tinha uma indecência que nenhuma cerimônia alcançaria. “Você entende que Branca pode confirmar algo pior que fraude?”

“Pior para quem?” Lia perguntou. O lobo dentro dela pressionava as costelas, desperto pelo cheiro de sangue, pelo frio, pelo homem diante dela. Nikolai passou a mão pela neve manchada e apagou parte do rastro com o pé. “Para todos que assinaram o pacto. Para Cecília. Para mim.” Lia entendeu a parte omitida. Se o vínculo fosse anterior à pulseira, Nikolai não apenas escolhera a irmã errada por cálculo. Ele havia sido conduzido a isso por uma mentira com raízes mais fundas que a cerimônia. “Você quer que eu tenha pena?” Ele olhou para o bosque de onde os atacantes fugiram. “Quero que você saiba que, depois desta noite, ninguém vai aceitar sua marca sem tentar possuir a versão dela.”

Um uivo distante cortou o vento. Nikolai ficou imóvel. Outro uivo respondeu, mais perto da casa. Ian, talvez, ou uma patrulha. Lia viu o Alfa medir caminhos, ferida, tempo, riscos, todos ao mesmo tempo. Então ele a pegou pelo braço bom e a conduziu para uma depressão entre as pedras, onde os pinheiros escondiam melhor os dois corpos. “Fique atrás de mim até eu mandar correr.” Lia puxou o braço de volta. “Eu não corro por ordem.” Ele olhou para ela, e por um momento o homem e o lobo branco dividiram a mesma expressão. “Então corra por inteligência quando chegar a hora.” A marca em seu pulso respondeu outra vez, aceitando a voz dele antes que ela aceitasse. Isso a enfureceu. Isso também a manteve viva.

A patrulha apareceu entre as árvores com lanternas, Ian à frente, dois lobos marrons ao lado e Maura montada em um cavalo escuro que parecia velho demais para aquele terreno. A anciã olhou para os corpos no chão, para o sangue no flanco de Nikolai e para o casaco dele sobre os ombros de Lia. “Eu mandei trazer Branca”, disse Maura, seca. “Não mandei mandar a menina até ela.” Nikolai não desviou. “A menina saiu sozinha.” Lia apertou o casaco contra o peito. “A menina está aqui e escuta muito bem.” Maura a encarou com uma dureza que lembrava pedra molhada. Depois seus olhos desceram para a marca acesa no pulso. “Então escute isto: Branca já está na casa. E ela pediu para ver primeiro a pulseira de Cecília.”

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