O Quarto do Alfa Minha Irmã e Meu Alfa · Capítulo 6 de 12
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O Quarto do Alfa

A ala de Nikolai ficava acima do salão menor, atrás de uma escada curta guardada por duas portas de carvalho. Lia subiu sem aceitar o braço de ninguém, embora o ombro ferido reclamasse a cada degrau e o casaco do Alfa pesasse de calor em volta dela. Maura vinha atrás com a caixa de ferro nas mãos, Ian seguia à frente com uma lanterna, e Nikolai caminhava ao lado de Lia em uma distância medida, bastante perto para a marca manter a luz baixa, bastante longe para não oferecer aos conselheiros outro prato de comentário. A casa parecia acordada por completo. Criadas olhavam por frestas, guardas desviavam o rosto, e cada corredor carregava a notícia antes mesmo de alguém falar.

A porta do quarto dele abriu com uma chave preta pendurada no pescoço de Ian. O lugar tinha menos luxo do que Lia esperava e mais disciplina. Havia uma cama grande, intacta, com colcha escura esticada sem uma ruga, uma escrivaninha coberta por mapas, três facas alinhadas sobre um pano, botas limpas junto à parede, livros empilhados por assunto e uma única cadeira perto da lareira. Nenhum retrato de família. Nenhum objeto de vaidade. O cheiro dele estava em tudo, couro, pinho, neve antiga, sangue lavado às pressas. Lia entrou e parou dois passos depois, porque a loba dentro dela respondeu ao quarto com uma aceitação vergonhosa, quase doméstica.

Branca chegou por último, carregando uma sacola de ervas que soltava cheiro amargo. “Ele dorme pouco”, disse, olhando em volta. “Quarto de homem que acha que descanso é dívida.” Nikolai fechou a porta e passou a chave para Ian. “A porta fica vigiada por fora.” Maura colocou a caixa de ferro sobre a escrivaninha. A pulseira de Cecília bateu lá dentro uma vez, fraca, insistente. Lia sentiu o pulso latejar. “Tire a faixa”, ordenou Branca. Lia obedeceu. As linhas prateadas haviam subido mais um pouco pelo antebraço, perto da dobra do cotovelo, e o desenho agora parecia buscar uma forma maior, algo que o corpo ainda não compreendia.

“Sente”, disse Nikolai, apontando para a cadeira. Lia olhou para a cama intacta, depois para ele. “Na única cadeira do quarto? Muito generoso.” Ian soltou um som discreto, quase tosse, e Maura fingiu não ouvir. Nikolai manteve o rosto sério. “Você perdeu sangue.” Lia sentou porque a tontura escolheu o mesmo lado dele na discussão. Branca desamarrou o casaco do Alfa dos ombros dela e examinou o corte. “Mordida raspou. Ombro vai doer feito promessa mal feita, porém fecha.” A velha aplicou uma pasta verde que ardeu sem delicadeza. Lia apertou o braço da cadeira e não deu a Cecília, ausente, o prazer imaginário de um gemido.

Nikolai tirou a própria camisa ao lado da lareira para que Ian limpasse o flanco. Lia tentou olhar para a mesa, para os mapas, para qualquer superfície que não fosse pele. Falhou. O ferimento aberto seguia pela lateral das costelas dele em quatro linhas fundas, cercadas por manchas roxas. O corpo de Nikolai tinha cicatrizes antigas, algumas finas, outras largas, uma no ombro esquerdo com desenho de mordida. O lobo branco parecia invencível na neve; o homem diante dela carregava provas de que liderança custava carne. Ele percebeu o olhar dela e não fez comentário. Isso, por alguma razão, tornou a cena mais difícil.

Maura abriu um dos mapas na escrivaninha e prendeu as bordas com dois pesos de metal. “Os sem brasão vieram da encosta norte. Não chegaram por acaso. Alguém sabia que Lia sairia ou queria que qualquer pessoa ligada à pulseira tentasse alcançar Branca.” Ian terminou de limpar o ferimento de Nikolai e jogou o pano manchado em uma tigela. “A trilha que ela usou era conhecida por pouca gente.” Lia levantou a cabeça. “Nina conhece.” Ian respondeu de imediato: “Nina conhece porque trabalha em silêncio e escuta portas. Não porque planeja ataque.” Havia proteção na voz dele. Lia guardou isso. Em uma casa de leis duras, até uma menina da cozinha precisava de aliados discretos.

Branca pegou a caixa de ferro e aproximou do pulso de Lia. A marca reagiu antes que a tampa fosse aberta. A luz subiu pelas linhas, e Lia mordeu a parte interna da bochecha. Nikolai deu um passo, parou, fechou a mão. Branca olhou para ele sem paciência. “Se vai sofrer com a dor dela, sofra quieto. A marca já tem ruído demais.” Maura arqueou uma sobrancelha. Ian olhou para o chão. Lia quase riu, e a tentativa de riso ajudou a suportar a queima. Branca abriu a caixa. A pedra leitosa da pulseira estava cinza, turva, presa em uma prata que parecia mais escura do que no salão. “Ela está procurando de novo o caminho antigo.”

“Cecília está sem a peça”, disse Maura. “E sob guarda.” Branca segurou a pulseira com pinças de ferro. “Guarda não segura hábito. Quem viveu anos com chamada emprestada acorda sentindo falta de parte do próprio corpo. Se a menina for orgulhosa, vai culpar Lia. Se for desesperada, vai procurar qualquer ferramenta. Se for as duas coisas, teremos uma noite longa.” Lia encarou a pulseira. “Ela sabia desde os treze?” Branca olhou para Dário ausente dentro da pergunta. “Aos treze, talvez não. Depois, sim. Certas mentiras mudam a postura da pessoa. Você começa enganada, um dia percebe vantagem, e então passa a proteger a mentira com unhas bonitas.”

A frase encontrou um lugar feio dentro de Lia. Ela lembrava de Cecília ainda menina, escovando o cabelo da mãe com cuidado antes do enterro, e também da irmã adolescente escondendo o pulso sob mangas longas em pleno verão. As duas imagens não combinavam bem, e Lia detestou a vontade de compreendê-la. “Eu não quero ter pena dela.” Branca fechou a caixa. “Então não tenha. Pena costuma ocupar espaço que a decisão precisa usar.” Nikolai olhou para Lia de modo rápido, intenso, e ela viu nele algo parecido com reconhecimento. Talvez ele também soubesse como era separar dano de desculpa. Talvez estivesse tentando fazer isso com o próprio acordo assinado.

Maura guardou o mapa e endireitou a postura. “Até o amanhecer, Lia permanece aqui. Ian, escolha duas guardas que não tenham ligação com os Montenegro. Branca fica no quarto lateral com a caixa. Nikolai, você não deixa a ala sem avisar.” O Alfa cruzou os braços. “Eu devo comandar a busca pelos sem brasão.” Maura encarou o sobrinho com a autoridade de quem trocou fralda e enfrentou conselho. “Você comanda depois de parar de sangrar na minha frente.” Lia abaixou os olhos para esconder a satisfação. Nikolai viu mesmo assim. “Acha divertido?” Ela ergueu o rosto. “Um pouco. Homens obedecendo tias costumam melhorar a noite.”

Ian saiu para organizar a guarda. Maura e Branca foram para o quarto lateral levando a caixa, a sacola de ervas e uma lista de ordens. A porta fechou atrás delas, e o quarto de Nikolai ficou pequeno demais. Lia continuava na cadeira perto da lareira, com o ombro enfaixado e o pulso exposto. Nikolai permaneceu junto à escrivaninha, sem camisa, uma faixa limpa agora presa ao flanco. O espaço entre eles estava cheio de coisas não ditas: a forma branca no bosque, o casaco dele sobre ela, a cama intacta, a promessa de que ele dormiria em outro cômodo. A casa inteira podia estar vigiando, e ainda assim aquela era a primeira vez que a noite parecia realmente perigosa.

“Você pode usar a cama”, disse ele. Lia olhou para a colcha lisa. “Ela parece menos usada que a sala do conselho.” Nikolai seguiu o olhar dela. “Durmo pouco.” “Branca percebeu.” “Branca percebe coisas que não foram oferecidas.” Lia levantou devagar, testando o ombro. A proximidade da cama a incomodava. O quarto dele a incomodava. A calma com que a marca aceitava estar ali a incomodava mais. Ela caminhou até a escrivaninha e observou os mapas. Um deles marcava a trilha de Branca, a cozinha, o pátio da madeira, e também o quarto norte. Havia um risco recente em vermelho entre o quarto dela e a passagem secreta. “Você marcou meu caminho antes de eu sair?”

Nikolai se aproximou da mesa. “Marquei depois que Ian encontrou a fita azul que você deixou no puxador.” Lia fechou os olhos por um instante. “Então você sabia antes de chegar ao bosque.” “Soube que você encontrou a passagem. Não sabia para onde iria.” A resposta era precisa demais para acalmar. “E mesmo assim me alcançou.” Ele tocou o mapa perto da trilha norte, sem encostar nela. “A marca puxa dos dois lados.” Lia sentiu o pulso responder, irritantemente fiel. “Isso não é explicação aceitável.” “Também não é algo que eu controle.” A admissão saiu baixa. Lia preferia quando ele comandava. Comando dava alvo. Falta de controle fazia os dois ficarem parecidos demais.

Uma batida leve veio da porta. Ian entrou sem esperar muita autorização, trazendo uma bandeja com pão, carne fria, água e um copo de infusão escura. Atrás dele, Nina apareceu com lenha, os olhos rápidos buscando Lia. “A cozinha mandou comida”, disse Ian. Lia notou que a bandeja tinha duas canecas, duas facas pequenas, dois pratos. Nikolai notou também e olhou para o beta. Ian manteve o rosto neutro. “Branca disse que os dois precisam comer. A marca gasta corpo.” Nina deixou a lenha perto da lareira e sussurrou para Lia, sem mover muito a boca: “Cecília quebrou um espelho.” Depois saiu antes que alguém perguntasse qualquer coisa.

Lia segurou a informação com os dentes. Nikolai fechou a porta. “O que ela disse?” “Que sua casa tem espelhos frágeis.” Ele aceitou a resposta falsa por meio segundo, depois caminhou até a bandeja. “Cecília?” Lia pegou uma caneca e sentiu o cheiro amargo da infusão. “Quebrou um espelho.” Nikolai ficou quieto. A falta de surpresa o denunciou. “Isso já aconteceu antes?” “Com pessoas tiradas de objetos de contenção, sim. A imagem demora a obedecer.” Lia colocou a caneca de volta com cuidado. “Você sabe muita coisa para quem assinou um pacto sem ler os detalhes.” O golpe foi merecido. Ele recebeu sem defender Dário, Cecília ou a si mesmo.

“Eu li contratos políticos”, disse ele. “Não li a vida da mulher oferecida nesses contratos.” Lia sentiu a frase bater no quarto. “Mulher oferecida. Bela descrição da minha irmã.” “Também serve para você, se eu permitir que decidam onde sua marca deve caber.” Ela virou-se para ele, e a irritação veio misturada a algo quente, impróprio. “Você fala de fora da decisão.” Nikolai deu um passo. “Eu estou no centro dela. Essa é a parte que me torna perigoso para você.” A honestidade deveria afastá-la. Em vez disso, o corpo dela registrou a distância menor, o cheiro de sangue limpo, a respiração controlada dele, a marca pedindo pele com uma teimosia humilhante.

Lia recuou primeiro, mais por orgulho que por prudência. A cama tocou a parte de trás de suas pernas. Ela se sentou sem planejar, e a colcha perfeita finalmente ganhou uma dobra. Nikolai olhou para essa dobra com uma expressão difícil de ler. “Eu vou para o quarto lateral.” “Branca disse que você fica na ala, não que precisa fugir do próprio quarto.” “Ficar aqui complica a noite.” Lia soltou uma risada baixa. “A noite já tem pulseira roubando vínculo, lobos sem brasão e minha irmã quebrando espelho. Sua presença no tapete não chega ao topo da lista.” Ele quase sorriu. Quase. A tentativa morreu quando a marca dela acendeu de novo, mais forte, em resposta a alguma batida dentro da caixa no quarto ao lado.

A dor levou Lia para frente. Nikolai chegou antes que ela caísse, segurando-a pelos cotovelos. O toque acalmou a marca com uma rapidez absurda. Lia odiou esse alívio. Odiou depender dele. Odiou ainda mais perceber que ele também tremia, pouco, apenas nos dedos. “Solte”, ela pediu, sem força. Ele soltou imediatamente, embora permanecesse perto. “Desculpe.” A palavra veio simples, sem verniz de Alfa. Lia respirou até o calor no pulso diminuir. “Pelo toque ou pelo resto?” Nikolai olhou para a mão aberta, depois para ela. “Ainda estou listando.” A resposta a desarmou por um segundo. Não perdoava nada. Também não fingia inocência.

Do quarto lateral veio a voz de Branca, rouca e satisfeita: “Se os dois terminarem de fingir que conseguem dormir separados, avisem que a pulseira está batendo no ferro.” Maura resmungou algo que a porta abafou. Lia cobriu o rosto com a mão boa, entre vergonha e vontade de rir. Nikolai virou-se para a lareira, rígido demais. “Branca fala demais.” “Branca diz a verdade antes da sobremesa”, Lia lembrou. O canto da boca dele cedeu, mínimo, cansado. Por alguns segundos, a casa cheia de inimigos ficou longe. Havia fogo, comida intocada, sangue secando, uma cama marcada por uma dobra e duas pessoas tentando descobrir onde terminava a lei e começava o desejo.

A batida na caixa parou de repente. O silêncio novo trouxe a noite de volta. Nikolai abriu a porta lateral, e Branca apareceu segurando a pulseira com as pinças. A pedra leitosa tinha clareado. Maura vinha atrás, pálida de raiva. “Cecília saiu do quarto dela”, disse a anciã. Ian surgiu no corredor quase ao mesmo tempo. “A guarda caiu dormindo. Sem ferimento.” Lia levantou-se, ignorando o ombro. A marca no pulso apontou para baixo, na direção dos corredores internos. Branca olhou para a pulseira, depois para Lia. “Ela não está fugindo.” Nikolai pegou uma faca sobre a escrivaninha. Lia entendeu antes dele dizer. Cecília vinha procurar o vazio que a prata deixara.

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