A Mordida Falsa Minha Irmã e Meu Alfa · Capítulo 9 de 12
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A Mordida Falsa

O salão ficou suspenso depois da última gota de sangue de Cecília tocar o chão. Ninguém se moveu de imediato, nem os músicos no balcão, nem os chefes junto à mesa alta, nem os lobos que haviam formado guarda diante de Lia. Dário segurava a filha pela cintura com firmeza calculada, afastando-a de Nikolai e, ao mesmo tempo, impedindo que Maura chegasse perto demais da mão ferida. Lia viu o pensamento do pai se organizar atrás dos olhos dele. O fragmento de prata, o sangue da filha preferida, a lei antiga buscando resposta. Dário perdera o baile, porém ainda tentaria transformar perda em procedimento.

“Cecília precisa de curativo”, disse ele. A voz saiu estável, quase gentil, o tipo de voz que sempre antecedia uma ordem doméstica ruim. “Ela sangra diante de todos enquanto vocês fazem teatro com lobos.” Maura desceu dois degraus da mesa alta. “Ela sangra porque trouxe prata escondida para uma prova pública.” Dário ajeitou Cecília contra o próprio corpo. A irmã de Lia tremia menos por fraqueza e mais por falta. Os dedos dela buscavam algo dentro da palma vazia. Branca, perto da porta, farejou o ar e fechou a expressão. “Tire essa mão de perto do sangue dela, conselheiro.”

A advertência chegou tarde. Dário já tinha puxado de dentro da manga um objeto pequeno, escuro, preso a uma corrente de couro. Lia não reconheceu de início. Parecia uma presa antiga, polida pelo uso, com a ponta envolta em prata escurecida. Branca soltou um palavrão baixo que fez Nina deixar cair a bolsa de ervas. Nikolai avançou, porém dois conselheiros Montenegro entraram no caminho, usando o próprio corpo como desculpa de protocolo. Dário ergueu a presa diante do salão. “A lei prevê reparação de mordida quando a apresentada é ferida durante julgamento. Se o Alfa recusa cumprir dever, a casa paterna invoca testemunha de sangue.”

Maura ficou pálida de uma raiva antiga. “Essa cláusula morreu há três gerações.” Dário sorriu sem alegria. “Morreu nos costumes, não no texto.” Lia percebeu o perigo antes de entender todos os termos. A mordida de aceitação deveria vir do Alfa, pela boca do lobo ou pelo corte autorizado, selando proteção entre duas pessoas e alcateia. Dário segurava uma presa de lobo morto envolta em prata, uma imitação capaz de ferir a pele de Cecília e empurrar sangue para dentro de uma mentira. A palavra falsa ainda não havia sido dita. O salão inteiro, porém, já sentia o gosto dela.

Cecília olhou para a presa com medo e desejo ao mesmo tempo. “Papai.” A palavra saiu pequena, infantil. Dário baixou a boca perto do ouvido dela. Lia não ouviu a frase, só viu a irmã apertar os olhos e oferecer o ombro esquerdo, afastando a gola do vestido com dedos trêmulos. A imagem bateu em Lia com violência. Cecília havia escolhido muita coisa, escondido muita coisa, ferido muita coisa. Ainda assim, naquele segundo, o pai a segurava feito peça de mesa, ajustando-a para caber em outra manobra. Lia deu um passo. Os lobos abriram passagem sem esperar ordem.

“Não faça isso com ela”, disse Lia. Dário olhou para a filha menor com um desprezo cansado. “Agora quer salvar a irmã que acusa?” “Quero que você pare de cortar filhas para chamar de política.” O rosto dele endureceu. A frase alcançou Cecília. Por um instante, a irmã olhou para Lia, e o salão viu a dúvida passar pelos olhos dela sem precisar de palavra. Dário sentiu essa dúvida e apertou a presa contra o ombro de Cecília antes que alguém chegasse perto. A prata tocou pele. A marca de Lia apagou de novo, atingida pelo choque.

Nikolai rompeu a barreira dos conselheiros com um movimento seco. Ian segurou um deles pelo colarinho e o jogou para longe da mesa. Maura gritou uma ordem que os guardas demoraram a obedecer, porque ninguém queria ser o primeiro a derrubar um conselheiro diante de clãs convidados. A ponta da presa já havia aberto um corte curto no ombro de Cecília. Dário pressionou o objeto contra a ferida com precisão cruel, fazendo a prata tocar sangue. Cecília gritou. A voz dela quebrou a música parada, os murmúrios, a compostura dos chefes. A caixa de ferro no salão menor respondeu de longe com três batidas audíveis.

Lia caiu de joelhos antes de entender a própria dor. O braço marcado queimou do pulso até o peito. As linhas prateadas, que haviam perdido luz, voltaram de uma vez, porém turvas, manchadas por sombras finas. Branca correu até ela, jogando ervas no chão, enquanto Nina segurava a bolsa aberta com as duas mãos. “Mordida falsa”, disse a velha, alto o bastante para a ata, para os chefes, para os lobos. “Ele está tentando prender a chamada verdadeira em uma ferida comprada.” O salão reagiu com horror atrasado. Dário continuava segurando Cecília, e a irmã de Lia, pálida, mordia o lábio para não pedir que ele parasse.

“Diga que aceita”, ordenou Dário ao ouvido de Cecília. “Diga diante deles.” Cecília respirava com dificuldade. O corte no ombro brilhava em vermelho e cinza, uma borda suja se formando onde a prata tocara. Lia, ajoelhada no chão, encontrou os olhos da irmã. Tudo entre elas estava ali: os vestidos, as mesas, as pulseiras, o pai escolhendo uma e esvaziando a outra, a inveja alimentada por anos até virar direito. Cecília abriu a boca. Por um momento, Lia achou que ela repetiria a mentira. Em vez disso, a irmã soltou um som de dor e tentou empurrar a mão de Dário.

O gesto dela bastou para Nikolai. Ele alcançou Dário pelo pulso e torceu até a presa cair no chão. O objeto quicou uma vez perto dos sapatos de Maura. Ian chutou a presa para longe, e um guarda Ravena a prendeu sob uma lâmina. Dário tentou reagir. Nikolai o segurou pelo colarinho e o empurrou contra a mesa com tanta força que o livro antigo saltou. “Você usou prata em uma mulher sob proteção da minha casa.” A voz do Alfa estava baixa, e por isso mesmo o salão pareceu encolher. Dário, mesmo preso, ainda teve insolência suficiente para responder. “Usei lei esquecida contra histeria recente.”

Maura ergueu a bengala e bateu na mesa, não no chão. O som foi duro, definitivo. “Registre-se: Dário Montenegro invocou cláusula extinta, feriu a apresentada com presa adulterada e tentou simular resposta de vínculo durante prova suspensa.” Um dos chefes do vale leste se levantou. “A cláusula só permite reparação com consentimento da apresentada.” Branca, ainda ao lado de Lia, apontou para Cecília. “Perguntem se aquilo parece consentimento.” Cecília estava sentada no chão, longe do pai, segurando o ombro com a mão limpa. O sangue escorria entre os dedos. O fragmento de orgulho que sustentara seu rosto no baile havia rachado por completo.

Lia levantou com ajuda de Branca e recusou a segunda mão oferecida. Caminhou até Cecília, devagar, porque o braço doía e a sala inteira acompanhava cada passo. Nikolai ainda mantinha Dário preso contra a mesa. O pai olhou para Lia com fúria. Ela passou por ele sem parar. Ajoelhou diante da irmã e tirou a própria faixa do pulso para comprimir o corte no ombro dela. Cecília tentou recuar, depois deixou. “Não finja bondade agora”, sussurrou. Lia apertou a faixa com firmeza. “Não estou fingindo. Estou escolhendo o que você nunca escolheu por mim.”

Cecília riu, rouca, quase chorando. “Você acha que eu queria isso?” Lia olhou para o ombro dela, para a marca suja deixada pela presa. “Eu acho que você queria tanto o lugar que aceitou parar de perguntar o preço.” A irmã fechou os olhos. “Aos dezesseis eu soube.” A confissão saiu baixa. Branca levantou a cabeça. Maura fez sinal para Ian registrar. Cecília continuou olhando para Lia, talvez por medo de encarar o pai. “A pulseira fazia você falhar. Eu sabia. Não no começo. Depois, sim. Eu via você no pátio e ficava aliviada quando nada acontecia.”

A frase entrou em Lia sem grito. Doeu de um jeito mais limpo que a prata falsa. Durante anos, ela imaginara a irmã cruel por natureza, feita de um material mais frio. A confissão mostrava coisa pior: uma menina assustada que percebeu vantagem e decidiu chamá-la de destino. Lia soltou a faixa por um segundo, depois reapertou o curativo. “Obrigada por dizer.” Cecília abriu os olhos, espantada. “Você me perdoa?” Lia sentiu a marca palpitar sob o sangue das duas. “Não. Eu só prefiro verdade sangrando a mentira vestida de branco.” Cecília virou o rosto, e uma lágrima caiu antes que ela conseguisse impedir.

Dário riu atrás delas. “Bonito. Duas filhas fracas descobrindo ternura diante dos clãs.” Nikolai bateu o punho dele contra a mesa. Não quebrou os dedos por pouco. Lia se levantou e encarou o pai. “Você perdeu o direito de chamar isso de fraqueza.” Dário cuspiu a resposta com os dentes cerrados. “Eu mantive nossa casa em pé. Sem mim, Cecília seria apenas uma menina bonita e você seria um erro luminoso.” A sala inteira ouviu. Pela primeira vez, nenhum conselheiro correu para transformar a frase em razão política. Nem mesmo os aliados Montenegro pareciam prontos para segurar aquela sujeira.

Maura ordenou que Dário fosse retirado da mesa e colocado sob guarda formal até o conselho decidir punição. Ele resistiu quando os guardas tocaram seus braços, chamando aquilo de abuso, de golpe Ravena, de farsa comandada por uma menina marcada. Lia ouviu tudo sem piscar. Cecília, ainda no chão, não chamou por ele. Esse silêncio feriu Dário mais que qualquer algema. Quando o levaram para a porta lateral, ele olhou para a filha mais velha esperando súplica. Cecília abaixou a cabeça. A ruptura entre eles aconteceu sem ruído dramático. Um pai saiu do salão sem ser seguido pela filha que havia moldado.

Branca examinou a marca suja no ombro de Cecília e depois a luz irregular no braço de Lia. “A mordida falsa não completou o roubo, porém deixou veneno nas duas.” Maura fechou o livro antigo com cuidado. “Qual é a cura?” Branca encarou a porta por onde Dário saíra. “Não aqui. A casa está cheia de lei, e lei não cura tudo que deixa acontecer.” Lia entendeu antes que a velha completasse. “Sua casa fora da vila.” Branca assentiu. “Lá existem registros que os Ravena preferiram esquecer e os Montenegro nunca deveriam ter tocado. Se querem saber de onde veio a primeira dívida, vão ter de sair do salão.”

Nikolai aproximou-se de Lia, sem tocar. O cuidado dele já não parecia controle; parecia uma pergunta aprendendo educação. “Você consegue andar?” Lia olhou para Cecília, sentada no chão com o vestido manchado e a mão presa ao próprio ombro. A irmã ergueu os olhos. Não havia pedido de desculpa neles, ainda. Havia medo, e pela primeira vez esse medo não usava coroa. Lia respirou devagar. “Consigo.” Branca recolheu a presa falsa com pinças e a colocou em outra caixa de ferro. “Então andem antes que alguém descubra uma cláusula ainda mais idiota.” A frase quase arrancou riso de Nina. Lia segurou essa pequena vida no meio da ruína e seguiu para a porta.

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