“Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro,desperta.”

Carl Jung

NOTAS DO AUTOR

Cada história que chega até nós pode ser, em verdade, um espelho, considerando que nas linhas e entrelinhas re- conhecemos fragmentos de nossas lutas, das nossas dores e das nossas buscas. A Pena Azul nasce desse entendimento. É um reflexo das camadas da existência que a visão comum não alcança, mas que ressoam na alma.

No universo deste livro, você encontrará uma paisa- gem de sentimentos. A cada capítulo, há uma nova porta a se abrir e um chamado a desbravar o labirinto interior, aquele lugar onde a penumbra e o fulgor coexistem. Para além de um traçado a seguir, é um convite para desvendar as perguntas que, de algum modo, carregamos.

Esta obra é um estímulo a olhar para dentro, a ques- tionar o que nos prende e a encontrar a coragem para assu- mir as rédeas da transformação. Que a jornada apresentada neste escrito ultrapasse o ato de ler e se torne uma inspira- ção para a (re)descoberta da luz que insiste em ser parti- lhada, mesmo quando parece que tudo é escuridão. Porque, no fim, a maior das viagens é o retorno a si mesmo.

Marcelo Rocha Nasser Hissa

AGRADECIMENTOS

A Deus, pela centelha que se acendeu em silêncio e me con- duziu até estas páginas. Que cada palavra seja reflexo de uma luz que não é minha, mas que me atravessa e insiste em ser partilhada.

À minha família, que é meu porto seguro. À Priscilla, por seu amor paciente e companheiro, e aos meus filhos, Marília e Marcelo, por me lembrarem diariamente do sentido mais puro da vida. Vocês são meu chão e também minhas asas.

Aos meus pais, Miguel Hissa e Ana Sofia Hissa, que me ensi- naram com sua vida a força do amor, da disciplina e da fé.

À minha editora, Cléia Silva, pela imensa presteza e generosi- dade com que sempre me atendeu, guiando cada passo deste pro- cesso com carinho e profissionalismo.

Ao casal Davi e Tara, que me mostrou a porta para o mundo maior e, sob as dores do meu autorreconhecimento, me ajudou a atravessá-la.

Aos amigos e leitores que, mesmo antes do livro existir, acre- ditaram na força de uma boa história.

Àqueles que me incentivaram quando as palavras pareciam não vir, e aos que, sem saber, serviram de inspiração em momentos de silêncio.

À espiritualidade, que me ensinou que nada é acaso e que até as dores guardam sementes de transformação.

E, por fim, àqueles que escolherem abrir estas páginas. Que encontrem aqui não apenas uma história, mas também um convite a olhar para dentro e descobrir que, mesmo em meio à sombra, sem- pre há uma pena azul a nos lembrar quem somos.

Sumário

CAPÍTULO 1 – O DESPERTAR FÍSICO - 10 CAPÍTULO 2 – ENTRE QUATRO PAREDES - 19 CAPÍTULO 3 – PROMESSAS SILENCIOSAS - 27 CAPÍTULO 4 – DIA DA PROVA - 32

CAPÍTULO 5 – CORRENTEZA - 38

CAPÍTULO 6 – O QUE HABITA POR TRÁS - 43 CAPÍTULO 7 – PROMESSAS RASCUNHADAS - 50 CAPÍTULO 8 – A CONSULTA - 54

CAPÍTULO 9 – OS PROBLEMAS CONTINUAM - 61 CAPÍTULO 10 – A ÚLTIMA GOTA - 67

CAPÍTULO 11 – UMENCONTRO FAMILIAR - 71 CAPÍTULO 12 – ENTRE O VIVER E O SABER - 79 CAPÍTULO 13 – A BORBOLETA - 85

CAPÍTULO 14 – ENCRUZILHADAS - 89

CAPÍTULO 15 – O RETORNO - 95

CAPÍTULO 16 – O PESO E OACOLHIMENTO - 101 CAPÍTULO 17 – A REAPROXIMAÇÃO – 108 CAPÍTULO 18 – VIRGÍNIA - 115

CAPÍTULO 19 – O BARULHO E O SILÊNCIO - 120 CAPÍTULO 20 – SILÊNCIO DENTRO DO SILÊNCIO - 125 CAPÍTULO 21 – ENTRE ONDAS E OVAZIO - 130 CAPÍTULO 22 – FIM DE UMCICLO - 135 CAPÍTULO 23 – PORTAS ENTREABERTAS - 139 CAPÍTULO 24 – APRENDENDO A AGRADECER - 145 CAPÍTULO 25 – RITMO DE LUZ - 151

CAPÍTULO 26 – LIÇÃO SILENCIOSA - 155

CAPÍTULO 27 – NA SALA DE ESPERA - 161

CAPÍTULO 28 – TESTEMUNHAS DO MESMO CAMINHO - 165

CAPÍTULO 29 – A CONSULTA - 170

CAPÍTULO 30 – VELHA AMIGA - 176

CAPÍTULO 31 – REENCONTRO COMA FONTE - 181 CAPÍTULO 32 – O DESVELAR DOEU - 185 CAPÍTULO 33 – UMA CONCLUSÃO - 189


Capítulo 1

O Desperta Físico

Júlio despertou lentamente, com os olhos ainda pesados e a garganta seca. Aluz branca do teto do pronto-socorro do hospital pa-

recia mais agressiva do que deveria. Umbip ritmado de monitor cardí- aco ecoava ao fundo, e emseu braço esquerdo uma agulha trazia a flu- idez fria da solução salina misturada à insulina intravenosa. Ele não pre- cisava de explicações médicas —já conhecia aquele cenário. Era fami- liar. Familiar demais.

A cabeça latejava em uma névoa, como se seus pensamentos estivessem submersos em água turva. Tentou puxar da memória os momentos da noite anterior, mas tudo o que encontrou foram frag- mentos soltos: risos abafados, copos que se repetiam, rostos que se mis- turavam, a ausência da caneta de insulina emalgum instante esquecido.

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Ovazio emsua lembrança era tão incômodo quanto a dor no corpo. E o pior: aquela não era a primeira vez. Nem a segunda, nem a terceira, duvidava, ainda, se teria forças para evitar as próximas.

Júlio estava cansado. Mais do que cansado, estava resignado. O olhar perdido no teto, sem reação, sem revolta, sem lamento. Apenas o silêncio interno de quem se acostumou a cair. Seu espírito, antes inqui- eto, agora parecia encolhido em umcanto escuro, sem forças para rea- gir. Era, talvez, o fundo do poço —não aquele dramático das histórias, mas o sutil, o cotidiano, o que se cava aos poucos compequenas desis- tências.

Com esforço, Júlio virou o rosto para a lateral da maca, procu- rando algum sinal de presença conhecida. Um amigo, talvez. Alguém que estivesse ali apenas para dizer que tudo ficaria bem, mesmo que mentindo. Queria dividir a dor e, quem sabe, rir de algum trecho da noite anterior —tentar dar contorno épico ao que, no fundo, ele sabia ser apenas mais umcapítulo triste de uma repetição doentia.

Mas não havia ninguém. Nemumavoz familiar, nemum olhar solidário. Ocelular, desligado ou perdido. Aquelas pequenas esperan- ças, que brotaram por instinto, logo se dissolveram no ar estéril do hos- pital. Era sempre assim. Júlio mesmo vivia dizendo aos amigos que, se

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algo acontecesse, bastava deixá-lo no pronto-socorro. Nada de visitas, nada de esperas. “Não quero ser peso morto para ninguém”, repetia como mantra. Eeles aprenderam a ouvir.

Ainda assim, naquela manhã pálida, um resquício de humani- dade ansiava por companhia. Por um gesto que desmentisse suas pró- prias palavras. Mas as consequências do orgulho, mesmo disfarçado de independência, são frias. Júlio estava só. Etalvez precisasse estar.

Foi então que uma figura familiar rompeu a solidão do quarto. A enfermeira, com jaleco amassado, passos apressados e olheiras que denunciavam a exaustão, se aproximou com um leve sorriso no canto dos lábios. Apesar do semblante cansado, havia no olhar dela uma cen- telha de compaixão —o tipo de empatia que não se aprende nos livros de enfermagem.

—Bom dia, Cinderelo —disse em tom brincalhão, ao notar que Júlio a observava. —Mais uma noite de farra, hein? Queria eu ter metade do tempo para curtir um terço da festa de vocês, jovens. Para um diabético com necessidade de insulina, sua vida até que tá bem... auto-suficiente.

Júlio tentou sorrir, mas seu rosto apenas se curvou em um es- boço de reação. Aquela abordagem leve, quase maternal, oferecia um

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conforto singelo, como umcobertor sobre umcorpo ainda trêmulo. Comgestos rápidos, a enfermeira pegou o glicosímetro e furou levemente odedo de Júlio. Esperou alguns segundos até que o aparelho mostrasse o número. Ao ver o resultado, sorriu com naturalidade, como quem já esperava por aquilo:

—Bem... vou chamar omédico plantonista para dar sua alta. Já está na hora de ir para casa.

Porque ele não sabia ao certo onde era esse "casa" que deveria representar abrigo. A republica estudantil? O lugar onde as garrafas ainda não haviam sido recolhidas? Ou, quem sabe, um lugar que ele ainda nem conhecia —dentro de si?

Minutos depois, Dr. Roberto surgiu na porta do quarto, com os braços cheios de prontuários e passos marcados pela exaustão de quemjá viu de tudo. Aose aproximar da cama de Júlio, abriu a ficha — já bastante grossa —e leu algumas páginas em silêncio. Orosto sério denunciava a preocupação, difícil de esconder quando se carrega tantos pacientes com histórias parecidas e finais difíceis.

Sem pressa, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do leito. —Olá novamente, Júlio. Talvez você não se lembre de mim,

mas já lhe atendi em duas ocasiões diferentes no passado… com o

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mesmoquadro de hoje. Aparentemente, você tem certa dificuldade em manter o diabetes sob controle.

Essas palavras, ditas sem tom de acusação, atingiram Júlio em cheio. Ele já ouvira aquilo antes —dos médicos, dos pais, de si mesmo —mas ouvir a verdade dita com calma, ali, cara a cara, era como levar umtapa suave e inevitável.

—Eu sei, doutor... —disse Júlio, desviando o olhar — estou tentando...

Afrase saiu mais rápida do que gostaria, carregada por uma im- paciência que ele próprio percebeu assim que terminou de falar. Não era irritação com o médico —era com ele mesmo. Com a dificuldade de manter uma linha reta num caminho cheio de tentações, recaídas e julgamentos internos.

Desde os sete anos de idade, quando foi diagnosticado, Júlio carregava opeso deumaeducação rígida e alarmista. Ospais, por medo, aplicaram uma verdadeira lavagem cerebral, pintando a diabetes como uma sentença de mutilações, agulhas e sofrimentos. Uma tentativa de protegê-lo que, com o tempo, se transformou em fardo. E o maior medo dele ainda era real: perder a função dos rins, precisar de diálise. Só pensar nisso já apertava o peito.

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Mas naquele instante, Júlio não sentiu medo —sentiu cansaço. Umcansaço profundo de viver em guerra com o próprio corpo.

Dr. Roberto folheou mais algumas páginas do prontuário, de- pois voltou o olhar sério para Júlio.

—Nomomento, sua glicemia está controlada osuficiente para que possa receber alta. Mas os exames mostram que isso é uma exce- ção. Os últimos três meses indicam um descontrole importante. Júlio, como estão seus pés? Sente dormências, dores?

Júlio hesitou. Por alguns segundos, quis dizer que não, que es- tava tudo bem —como fazia costumeiramente nas consultas. Mas a verdade já não era mais tão fácil de esconder. Há alguns meses, vinha sentindo como se usasse uma meia apertada o tempo todo. Uma dor- mência estranha, constante, nos dois pés. Eultimamente, até pequenas dores.

Não era preciso ser médico para entender o que aquilo signifi- cava. Os sinais estavam ali, claros: os nervos começavam a sofrer. A glicose em excesso, silenciosa e persistente, já deixava suas marcas.

—Doutor, não se preocupe. Foi só um deslize. Já tenho uma consulta marcada com meu endocrinologista para daqui a um mês. — Era mentira. E mentir doía em Júlio. Mas, naquele instante, qualquer

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preço que precisasse pagar para sair dali o mais rápido possível, ele es- tava disposto a pagar.

Já fazia mais de dois anos e meio desde a última vez que con- sultara seu médico. Não havia nenhum agendamento previsto — nem tampouco vontade de marcar. Não com aquelas taxas atuais de glicose. Dr. Roberto fechou o prontuário, com umsuspiro leve.

—Bem, vou lhe prescrever uma vitamina para os nervos. Não resolve tudo, mas ajuda. E, por favor, procure seu endocrinologista o quanto antes. É importante que isso não continue evoluindo. Você ainda tem tempo, Júlio.

Tempo. A palavra ecoou por dentro, ocupando espaços que Júlio nem sabia que estavam vazios. Ainda tenho tempo, dissera o mé- dico. Mas tempo para quê? Para viver ou apenas sobreviver?

A mente de Júlio começou a girar em círculos. Ter tempo sig- nificava podervoltar a viver comoos outros jovens —aproveitar festas, sair, beber, esquecer a insulina por umanoite e fingir que era “normal”? Ouseria apenas tempo para continuar caminhando sobre o fio estreito de uma doença incurável, onde cada passo exigia atenção, controle e renúncia? Tempo. Apalavra pesava mais do que soava.

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Pensar em marcar uma consulta com o endocrinologista já re- virava seu estômago. Havia anos desde a última visita. Nãoera por des- conhecimento, e sim por exaustão. Júlio sabia exatamente oque ouviria —como sempre soube. Oproblema era que não sabia quão duro seria osermão dessa vez. Dr. Marcos era conhecido por sua sinceridade bru- tal. Quando o assunto era negligência com o tratamento, ele não pou- pava palavras. Dizia o que precisava ser dito —e Júlio, no fundo, res- peitava isso. Mas temia. Temia encarar não só o médico, mas o reflexo de suas próprias escolhas.

Pouco depois, uma funcionária do hospital entrou no quarto empurrando umapequena caixa plástica. Dentro, estavam os pertences de Júlio: a carteira, o celular descarregado, a roupa amassada da noite anterior e a caneta de insulina esquecida no fundo, como um lembrete silencioso.

Assinou os papéis da alta com mãos trêmulas. Omédico já ha- via dadooparecer, a glicemia estava dentro doaceitável. Nãohavia mais motivo clínico para permanecer ali. Estava liberado. Livre para ir em- bora.

Vestiu-se em silêncio, com os movimentos lentos e a cabeça ainda pesada. Sentia-se estranho dentro das próprias roupas, como se

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voltasse a um corpo que não reconhecia completamente. Pegou seus pertences sem olhar muito para eles. A caneta de insulina, jogada no fundo da caixa, parecia zombar em silêncio. Não havia alívio, nem cla- reza. Apenas umcansaço profundo —físico, mental, moral.

Saiu doquarto compassos arrastados, sem pressa de chegar em lugar algum. Estava de alta. Era hora de voltar para casa. Seja lá o que isso significasse naquele momento.

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Capítulo 2

Entre Quatro Paredes

Júlio voltou para casa sem dizer uma palavra. Optou por ir a pé —ohospital ficava a apenas cinco quadras da república, e ele não tinha

ânimo para lidar com o esforço de procurar um táxi ou chamar um transporte. Asimples ideia de precisar resolver qualquer coisa já lhe pa- recia umfardo. Ocorpo seguia otrajeto conhecido pelas ruas da cidade, mas a mente permanecia embaçada, envolta no torpor da ressaca — não apenas a física, mas a mais pesada: a moral. Não se lembrava com clareza do que havia feito na noite anterior, mas também não buscava lembrar. Já conhecia opadrão: começo animado, exagero no meio, fim confuso. Agora, só restava o dissabor.

Chegar ao quarto na república estudantil seria um pequeno alí-

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vio. Ainda que dividisse o apartamento com dois colegas de curso, ali havia ao menos a promessa de alguma privacidade. Osamigos também eram estudantes de medicina, todos vindos de cidades distantes, carre- gandonas malas a mesmamistura de sonhos, cansaço e saudade da casa dos pais.

Entre eles, Júlio se via como parte de umgrupo “responsável”, apesar das festas ocasionais. Justificava os excessos como uma válvula de escape. Afinal, cursar medicina exigia demais: noites sem dormir, provas difíceis, contato precoce com o sofrimento humano. Era quase lógico, em sua cabeça, que um fim de semana de descontrole fosse o preço por tantos dias de cobrança e pressão.

Chegou ao apartamento já no fim da manhã. A porta rangeu com o mesmo som de sempre, e umleve cheiro de café velho e fritura pairava no ar. Na sala, Rafael estava sentado no sofá, cercado de livros e anotações, de cabeça baixa, concentrado. Levantou os olhos ao per- ceber Júlio entrando.

Rafael, com seus 26 anos, era o mais aplicado do grupo. Mo- reno, de olhar calmo e quase ingênuo, carregava uma serenidade rara entre estudantes de medicina. Era conhecido pelas notas altas, pela dis- ciplina silenciosa e pela memória invejável. Estudar, para ele, parecia

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menos um esforço e mais um hábito natural. Mas, curiosamente, isso não o impedia de gostar de uma boa bebedeira nos fins de semana. Era como se vivesse em equilíbrio entre o rigor dos livros e a leveza das garrafas.

Nacozinha, Andréainda preparava algo para comer.Erao mais velho do grupo —ninguém sabia muito bem sua idade, mas suspeita- vam que rondava os 35 anos —e sua experiência se expressava mais nas histórias que contava do que em qualquer tipo de maturidade evi- dente. Naquela manhã, porém, parecia abatido. As olheiras fundas e a expressão arrastada denunciavam que a noite anterior também não ti- nha sido generosa com ele. Estivera na mesma festa. Talvez por cami- nhos diferentes, chegara ao mesmo destino: o cansaço.

Júlio foi recebido comolhares afetuosos e perguntas cautelosas. Sabia que os amigos se importavam de verdade, mastambémsabia que não osuficiente para passarem a noite ao lado de umamaca de hospital. Rafael foi o primeiro a quebrar o silêncio, ainda com o tom leve de quem tenta amenizar o peso da situação:

—E aí, cara, está tudo bem com você? Como está a glicose? Tomou quantas unidades de insulina dessa vez? —Deu umsorriso de canto. —Rapaz, ontem... misturar cerveja comaguardente não foi uma

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boa ideia.

Era sempre assim. As festas começavam com cervejas geladas, risadas e música alta. Mas, quando o dinheiro começava a escassear, a turma partia para algo mais “eficiente” —e mais barato. A transição para a aguardente marcava, quase sempre, o início do fim. Júlio já sabia que a amnésia da noite geralmente começava nesse ponto, quando os goles deixavam de ser celebração e passavam a ser descontrole. Ainda assim, entre um deslize e outro, sentia-se, de certo modo, sortudo. Nunca havia se envolvido com drogas mais pesadas, e mesmo o uso recreativo de maconha—algo que experimentara emraras ocasiões — jamais se tornara hábito. Sua relação com os excessos era confusa, mas ele ainda acreditava guardar algum limite. Ou, pelo menos, gostava de pensar assim.

André, mexendo o café na xícara, foi direto ao ponto, como de costume:

—Tua namorada já ligou umas quatro vezes. A gente cansou de mentir que você ainda estava dormindo.

Júlio ergueu os olhos devagar, a testa franzida:

—Vocês não disseram que eu estava no hospital, né? Capaz dela pegar o primeiro voo e aparecer aqui.

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—Não, relaxa. Nessa última ligação dissemos que você acor- dou cedo, saiu para padaria e ia ligar quando voltasse.

Maisessa agora, pensouJúlio, sentando-se nosofá comum sus- piro cansado. Outro novelo que ia precisar desenrolar. E, naquele mo- mento, não havia ânimo algum para lidar com Virgínia. Nem com ex- plicações, nem com promessas.

Virgínia era sua namorada havia quatro anos, mas há três ela ficara para trás, emsua cidade natal, quando Júlio se mudou para cursar medicina a mais de quinhentos quilômetros de distância. Desde então, orelacionamento se tornara à distância —sustentado por chamadas de vídeo, mensagens trocadas entre uma aula e outra e visitas esporádicas durante os feriados.

Ela era loira, bonita, de olhos claros —o tipo de garota que sempre atraía olhares no colégio. Muito disputada entre os garotos, pa- recia ter escolhido Júlio mais por ternura do que por paixão. Talvez te- nha se encantado pela fragilidade disfarçada dele, pela doença que des- pertava nela uminstinto protetor quase maternal.

Comotempo, essa proteção virou umfardo. Virgínia lembrava os pais de Júlio —ou pior. Suas ligações eram, quase sempre, variações

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damesmapreocupação: quantasunidadesde insulina vocêaplicou? Co- meu muito carboidrato hoje? Já mediu a glicose? Fazia isso mais por medo do que por embasamento, numa tentativa de cuidado que, aos poucos, foi se tornando vigilância. Aignorância sobre a diabetes não a impedia de opinar com firmeza. Júlio se sentia sufocado —e, agora, cansado. No fundo, já não acreditava que o relacionamento duraria muito, e também não era exatamente fiel em sentimento. Mas ainda assim o mantinha. Pela inércia dos dias, pelo medo do rompimento ou simplesmente pela comodidade de ter alguém do outro lado da linha. Ligar para ela naquele momentoera só mais umatarefa que exi-

giria esforço. Explicar mais uma internação, reconstituir uma noite es- quecida, justificar o que nem ele mesmo entendia. Não havia ânimo. Nemespaço interno para mais um peso.

Assim, partiu para as últimas tarefas antes de tentar descansar —e, com alguma sorte, encontrar forças para estudar antes do anoite- cer. Primeiro, teria que convencer Virgínia de que passou a noite estu- dando, por isso acordara tão tarde. Depois, preparar uma versão mais amena para os pais, explicando que ouso do plano de saúde se deu por conta de uma crise de gastrite, provocada pelo estresse e pelo excesso de dedicação aos estudos.

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Odiava ter que mentir. Mas odiava ainda mais passar uma hora inteira justificando comportamentos que nem ele conseguia entender direito. Não suportava mais aquele ritual de explicações, perguntas re- petidas e conselhos bem-intencionados. Preferia encerrar o assunto comfrases curtas, moldadas para dar a impressão de controle. Afinal, o que já havia acontecido não podia ser desfeito —e mais preocupações só ampliariam a culpa.

Nofim daquela tarde, Júlio se recolheu ao quarto e, sem muito esforço, adormeceu. Ocorpo pedia descanso, mas a mente não encon- trava paz. Deitou-se com o peso incômodo da consciência —a sensa- ção de estar falhando consigo mesmo. Mais do que o medo de novas broncas ou de cobranças externas, era o medo da própria doença que o assombrava. Sabia o que o descontrole poderia causar. Sabia de cor os nomes das complicações. Sabia até demais.

Ovazio o corroía. Um sentimento silencioso, persistente, que já não se escondia atrás das festas ou do riso fácil. Júlio começava a per- ceber —ainda que vagamente —que estava preso. Preso em padrões automáticos de pensamento e emoçãoqueapenas repetiam os mesmos ciclos, os mesmos erros. Como quem afunda em um mar escuro, achava-se em dificuldades para romper a superfície.

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Ofegava por ar fresco, mas o mundo ao redor parecia um labi- rinto de ilusões. Eele, perdido dentro de si mesmo, buscava uma saída que ainda não conseguia ver.

Naquela noite, Júlio teve um sono sem sonhos. Um descanso vago, raso, como a sensação que carregava nos dias. Nada o visitou na escuridão —nemmemória, nemimagem, nemdesejo. Apenas o silên- cio de um corpo cansado e de uma alma que, pouco a pouco, parecia se distanciar de si mesma.

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Capítulo 3

Promessas Silenciosas

Nada como um dia após o outro —e uma lista interminável de tarefas —para permitir que o véu do esquecimento atuasse sobre as

dores e os arrependimentos recentes. Era segunda-feira, e a rotina aca- dêmica voltava com força total. As aulas, os plantões, as discussões clí- nicas e a grande quantidade de conteúdos médicos pareciam não dar trégua. Aspromessas de provas difíceis na sexta-feira mantinham todos os alunos emestado de alerta permanente.

Júlio, como os demais, mergulhou nos livros. Havia muito o que recuperar. Sentia-se cansado, mas funcional —e isso bastava para seguir. Aproveitou a onda de produtividade forçada para, entre um re- sumo e outro, fazer mais uma promessa —uma que já conhecia bem, mas que naquele momento soava

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sincera: dessa vez vou cuidar melhor da diabetes.

Era o tipo de compromisso que ele renovava de tempos em tempos. Vinha acompanhado de breves momentos de motivação, de planos mentais, de listas improvisadas que nunca chegavam a se con- cretizar. Ainda assim, no silêncio da própria mente, Júlio repetia o voto, como se fosse possível reiniciar a própria história apenas pela força da vontade.

Decidiu que, naquela semana, teria duas prioridades inegociá- veis: controlar rigorosamente sua diabetes e se preparar para as difíceis provas da sexta-feira. Nenhuma tarefa era simples, mas ambas pare- ciam, naquele momento,umcaminhopossível para retomar algum tipo de controle sobre a própriavida. Ainda que por impulso, oupela ressaca da culpa, algo dentro dele havia se reacomodado.

Passou a aplicar as insulinas com mais atenção, registrar as gli- cemias antes das refeições e evitar as escolhas alimentares mais impul- sivas. Montou umpequeno cronograma de estudos, rabiscado às pres- sas em uma folha de caderno, e tentou segui-lo à risca. Otempo livre, antes preenchido por distrações, agora era disputado entre livros e au- tocuidados.

Para alguém de fora, nada parecia diferente. Júlio continuava

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sendo o mesmo estudante silencioso, de olhar cansado e postura reser- vada. Aparentemente, seguia a mesma rotina dos últimos meses. Mas, por dentro, algo se movia. Ainda tímido, aindaembrionário —mas real. Era como uma faísca acesa no fundo de umporão escuro. Algo queria mudar.

Virgínia continuava presente — ou melhor, constante. Suas mensagens diárias vinham sempre carregadas de cobranças disfarçadas de cuidado: lembretes sobre a insulina, perguntas sobre a alimentação, sugestões que encontrava na internet sobre como “viver bemcom dia- betes”. Alheia às nuances da mudança que começava a surgir dentro de Júlio, ela seguia repetindo os mesmos gestos, como se a distância física exigisse umcontrole emocional ainda maior.

Para Júlio, aquelas interações, antes toleradas com paciência, agora soavam como ruído. Sentia que o relacionamento, embora ainda existisse, já não ocupava lugar de prioridade emsua vida. Estava ali, mas por hábito —por comodidade. Ovínculo não trazia mais direção, nem desejo de futuro. E, nofundo, ele sabia que algo precisava ser feito. Mas fazer exigia energia. Exigia coragem. E Júlio, naquele momento, mal conseguia manter o próprio corpo funcionando direito.

Focar nosestudos era, mais umavez, umafuga útil. A avalanche

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de conteúdo, as revisões constantes, as vésperas de prova —tudo isso servia para relegar o pensamento incômodo de que estava deixando o namoro se arrastar por pura inércia. Sabia que não podia continuar as- sim. Mas, como em tantas outras áreas da vida, adiava a decisão. Dei- xava para depois. Eodepois, ele bemsabia, quase semprechegava tarde demais.

Os dias da semana passaram com uma velocidade incomum para Júlio. Arotina intensa, dividida entre glicemias, estudos e tentativas de disciplina, preenchia o tempo com uma densidade nova. Não era fácil —cada pequena vitória exigia esforço consciente. Mas, pelo me- nos por enquanto, ele conseguia manter o foco onde havia decidido: nos estudos e no cuidado com a saúde.

Se esforçava tanto por que sabia uma verdade simples e brutal: para se formar emmedicina, dois requisitos básicos eram indispensáveis —passar emtodas as provas e continuar vivo. Soava como uma piada interna entre estudantes, mas, para ele, carregava um peso muito real. O risco de não estar mais ali, de se perder no meio do caminho por conta da própria negligência, já nãoera ummedoabstrato. Eraum dado concreto, do qual ele não podia mais escapar.

Mesmo com as fragilidades, as pressões e os tropeços internos,

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aquela semana parecia oferecer uma trégua provisória. Júlio ainda não sentia que estava, de fato, retomando o rumo —a sensação era de que caminhava em meio à neblina. Mas havia algo que lhe impunha foco: as responsabilidades acadêmicas o chamavam com urgência, exigindo sua concentração total. Sabia que não podia falhar. E, nesse cenário, suas inquietações espirituais, as dores nas pernas e até os conflitos inter- nos eram momentaneamente empurrados para o escanteio.

Era como se a mente, ao ser absorvida pelas leituras, anotações e revisões, encontrasse uma distração útil. Durante as horas de estudo, Júlio experimentava algo curioso: o corpo se aquietava, a ansiedade se diluía, e por alguns momentosele se sentia funcional, quase inteiro. Não por ter resolvido seus dilemas, mas porque estava, por fim, se entre- gando a uma responsabilidade concreta —e isso, ainda que não cu- rasse, o sustentava.

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Capítulo 4

Dia da Prova

stou mesentindo confiantemente preparado para a prova de

hoje —disse Rafael, fechando o fichário com uma precisão quase ceri- monial.

Para Júlio, aquilo não era nenhuma surpresa. Rafael sempre de- monstrava segurança. Sua facilidade para assimilar conteúdos comple- xosgerava admiração…eumacerta pressão silenciosa sobre os colegas. Especialmente sobre Júlio, que precisava de muito mais tempo e es- forço para alcançar o mesmo nível de compreensão.

André, por outro lado, funcionava como umtermômetro mais confiável da realidade da turma. Tomando umcafé preto e esfregando os olhos ainda pesados, soltou sua análise:

—O assunto é extenso…. Mal tive tempo de estudar tudo,

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quanto mais revisar. Essa prova vai ser o que Deus quiser.

Era otipo de frase típica deAndré—pés nochão, um realismo quase bruto que Júlio nunca soube classificar direito. Às vezes soava pessimista, outras apenas lúcido. Talvez as duas coisas.

Oestresse pré-prova era tanto que, como de costume, a turma já havia combinado a tradicional comemoração depois do exame — o famoso “bebe-esquece”, marca registrada das semanas de prova mais pesadas. Júlio, no início da semana, havia feito a promessa de que não iria. Mas agora, comocansaço acumulado e a tensão crescendo, já acei- tava a ideia de comparecer. “Irei, mas não vou beber nada alcoólico”, repetia para si mesmo, como uma cláusula de proteção que sabia que poderia falhar.

Pontualmente às duas da tarde, a prova teve início. O silêncio que se instalou na sala foi quase sepulcral, quebrado apenas pelo farfa- lhar das folhas e pelo som metálico das canetas deslizando apressadas. Aavaliação era longa, comvárias questões dissertativas que exigiam não apenas conhecimento, masdedicação plena à arte de memorizar — um verdadeiro calvário para Júlio.

Conforme lia as perguntas, sentia o estômago arder. Não era fome, tampouco ansiedade pura. Era oesforço brutal de tentar resgatar,

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sobpressão, tudo oque absorvera das linhas densas e intermináveis dos livros. Os nomes complicados, os mecanismos bioquímicos, os deta- lhes clínicos... tudo misturado emumborrão mental difícil de organizar. Oincômodo no corpo não era só dele. Bastava olhar ao redor:

alguns colegas franzindo a testa, outros coçandoa cabeça, e muitos com aquela postura retraída, típica de quem luta contra o branco mental. A prova, mais do que um teste de conteúdo, parecia cobrar um preço fí- sico e emocional. Júlio tentava manter o foco. Controlava a respiração, rabiscava ideias no canto da folha antes de escrever de fato. Fazia o que podia.

E por mais que estivesse tentando manter o controle — da prova, daglicemia, desi mesmo—sentia que tudo aquilo era, no fundo, um esforço para provar que ainda estava presente. Que ainda estava tentando.

Pouco a pouco, os alunos foram entregando as provas e saindo da sala em silêncio —alguns aliviados, outros com expressão de der- rota, a maioria apenas exausta. Dolado de fora, os grupos começavam a se formar, e as conversas se voltavam imediatamente para o inevitável: conferir respostas, compararargumentos, revisar mentalmentecada de- talhe.

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Júlio não foi o primeiro a sair, nem o último. Fez questão de revisar tudo com calma, mesmo sem muita confiança. Quando final- mente deixou a sala, foi direto para ogrupo que se reunia na sombra do bloco, onde os colegas se amontoavam em torno da fonte mais fide- digna possível até a publicação do gabarito oficial no dia seguinte: Ra- fael.

Com o rosto suado e o semblante tenso, Rafael comentava as questões com a mesma precisão de sempre — mas sem a habitual calma. Pela primeira vez emmuito tempo, parecia tão esgotado quanto o restante da turma. Falava rápido, os olhos inquietos, os ombros cur- vados comoquemcarregava opeso de umaexpectativa não totalmente cumprida.

Júlio escutava tudo em silêncio, tentando comparar mental- mente suas respostas comas de Rafael. Acertava uma,errava outra. Em algumas, nem lembrava mais o que havia escrito. Mas, ao contrário do que esperava, não se sentia aliviado ao ver que Rafael também estava abalado. Aquilo só tornava mais real opeso da prova —se até ele estava assim, então a prova tinha sido mesmocruel. Nofundo, Júlio sabia que já não havia o que fazer. Aprova estava entregue. Eagora, como sem- pre, restava apenas o cansaço, a ansiedade... e a tão esperada fuga.

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A vibração na turma era estranhamente uniforme —uma es- pécie de cansaço denso pairava no ar, como se a sala de prova ainda estivesse impregnada de tensão. Não era apenas o esgotamento indivi- dual, mas algo quase coletivo, uma psicosfera de exaustão que envolvia todos os colegas. Oalívio de ter terminado a prova não era suficiente para dissipar o peso acumulado nas últimas semanas. Ninguém come- morava, ninguém sorria com entusiasmo. Era como se todos compar- tilhassem o mesmo tipo de torpor.

Foi André quem quebrou o silêncio, comsua voz grave e sem- pre direta:

—Pessoal, vamos para o “bebe-esquece” agora mesmo. Se eu for para casa, vou cair na cama e só terei ânimo de sair amanhã.

—Correto —respondeu outro, quase de imediato. —Já basta essa tempestade que acabamos de enfrentar. Agora, um pouco de bo- nança.

Muitos concordaram com acenos e murmúrios de aprovação. Ninguém queria pensar demais, apenas desligar a mente por algumas horas.

Júlio observava a movimentação com certa apreensão. Não ti-

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nha trazido a insulina de uso noturno na mochila. Sabia que seria im- prudente prolongar muito aquela saída. Mas, num pensamento rápido —e talvez ingênuo —, confortou-se com a ideia de que, se começas- sem cedo, também terminariam cedo. Estaria de volta a tempo para aplicar a dose corretamente, manter a glicemia sob controle.

Só umpouco, pensou. Só para não ficar de fora.

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O

Capítulo 5

Correnteza

fim de tarde começava como tantos outros, repetindo um

roteiro já conhecido. Júlio sentia o peso dessa repetição: a expectativa vaga dos colegas, a promessa implícita de esquecer tudo por algumas horas, a facilidade com que tudo virava exagero. Sabia, com incômodo crescente, comoaquilo provavelmente terminaria. Mas, dessa vez, havia um incômodo diferente. Não queria se perder de novo. Não queria mais acabar em um hospital com soro na veia e glicemias descontrola- das. Havia umdesejo —ainda frágil, massincero —de viver uma noite comum, sem ferir o próprio corpo, sem se anular no meio da festa. Mesmoassim, ele sabia queainda nãotinha força suficiente para

nadar contra a correnteza. Ainfluência dos amigos era sutil, mas pode- rosa. Estavam todos ali, como sempre, se preparando para mais uma

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noite que “eles mereciam”. Júlio tentava se convencer de que consegui- ria manter o controle, masa dúvida já oacompanhava antes mesmo do primeiro gole.

Contudo, à medida que as garrafas se multiplicavam, a corren- teza emque Júlio se encontrava tornava-se cada vez mais forte. Os ami- gos ficavam mais soltos, mais barulhentos, e a postura sóbria de Júlio começava a incomodar. As brincadeiras se tornavam insinuações, e logo vieram as falas mais diretas:

—Júlio, vamos tomar só um copo para relaxar. Sua diabetes não vai descompensar por tão pouco —disse um.

—No pior dos cenários, você está cercado de semi-médicos. Não tem nada tão sério que a gente não consiga ajudar — emendou outro, entre risos.

Ogrande sinal de alerta na cabeça de Júlio ainda estava aceso, mas a luz já não brilhava comtanta força. Nãohavia sido desligado por completo, mas pulsava de forma tênue, quase como se pedisse descul- pas por atrapalhar. Concessões começaram a surgir. Ummísero copo, talvez. Aquilo não faria diferença. Um segundo também não. Ainda dava tempo de ajustar depois, calcular, corrigir. Comumterceiro, a gli- cemia ainda podia ser controlada. Um quarto… talvez nem fosse tão

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grave assim.

E assim, a noite foi avançando. Os risos cresciam, as garrafas esvaziavam, e Júlio seguia ali, sentado no próprio impasse. Sabia exata- mente o que estava emjogo —não era só a glicemia, era a sensação de controle sobre si mesmo. Cada copo oferecido vinha acompanhado não apenas de álcool, mas de uma escolha. E cada escolha trazia con- sigo o desconforto da contradição. Ele queria ser alguém melhor. Que- ria cuidar de si. Mastambémqueria pertencer, não decepcionar, não ser o estranho da mesa.

As dores nas pernas, que ele conhecia bem desde os primeiros sinais da doença, vinham dando seus recados com mais insistência nas últimas semanas. Aquela noite, emparticular, elas pareciam se intensifi- car a cada gole. Eram como sinos discretos de alerta, ressoando em um corpo que suplicava por pausa, por cuidado. Mas nem isso o fez parar. Quando finalmente cedeu, não foi com alívio nem prazer —

foi com uma mistura amarga de rendição e vergonha. Não houve es- cândalo, nemdescontrole explícito. Mashouve fraqueza. EJúlio sentiu. Sentiu que, mais umavez, estava traindo ocompromisso que mal havia conseguido firmar consigo mesmo.

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Quando a noite parecia já descrever seu curso natural, algo in- terrompeu ofluxo previsível dos acontecimentos. Júlio ouviu, de forma nítida e quase cortante, uma voz feminina dentro da própria cabeça. Nãoera umalembrança. Nãoera umpensamento. Era umafrase clara, firme, quase maternal:

—Júlio, lembre-se de quem você é.

Aquilo soou como um disparo. Umalarme. Umpuxão invisí- vel. A frase, simples e direta, reverberou dentro dele com tanta força que, por um breve momento, Júlio perdeu o equilíbrio e quase caiu da cadeira. Segurou-se na mesa, assustado. Olhou ao redor, mas ninguém parecia ter notado. Tudo seguia igual —risos, garrafas, conversas des- conexas. Mas dentro dele, algo havia se rompido.

Quem disse aquilo? Eu ouvi? Ou pensei? Foi real?

As perguntas vieram emsequência, sem resposta imediata. Mas umacerteza surgiu, mais forte doque todas elas: aquilo não era comum. Aquilo não era parte da farra. Era algo que não vinha de fora —e, ao mesmotempo, parecia não vir apenas de dentro. Júlio ficou imóvel por

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alguns segundos, tentando recompor o fôlego, como quem subita- mente se vê desperto em meio a um sonho confuso demais para con- tinuar fingindo que era normal.

Aquela pergunta simples —lembre-se de quem você é — lan- çou uma corrente silenciosa dentro de Júlio. Algo começou a se movi- mentar. Não foi uma revelação grandiosa, nem uma explosão de emo- ções. Foi só umimpulso claro, direto: ainda dá tempo.

Estava perto de casa. Se saísse agora, se chamasse um táxi sem pensar muito, ainda chegaria a tempo de aplicar a insulina sem grandes atrasos. Ainda dava para fazer as coisas certas. Ainda podia, pelo menos naquela noite, sair pela tangente antes do naufrágio.

E, pela primeira vez em muito tempo, essa decisão não estava sendo tomada por medo ou culpa. Mas por um impulso real de reto- mada. Aresolução tinha que partir dele —e mais ninguém. Nem dos amigos, nem de Virginia, nem dos médicos. Era ele. E era agora. Sem dizer palavra, Júlio pagou o que devia e se levantou.

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Capítulo 6

O Que Habita Por Trás

Emmenos de dez minutos, Júlio chegou na república. Foi direto ao quarto e aplicou a insulina. Nãoqueria perder o horário. Estava can-

sado demais para qualquer outra coisa, então deitou-se para descansar. O sono veio rápido, consequência natural do cansaço físico e mental acumulado.

Quando abriu os olhos, estava de volta ao bar. Mas algo estava diferente.

Não havia mais barulho, nem música, nem o calor abafado da noite. Tudo parecia envolto por uma névoa tênue, quase irreal. Sentia- se umpouco mais leve, comose estivesse presente e, ao mesmo tempo, observando de fora. Osamigos estavam lá, sentados exatamente como

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lembrava —mesmos copos, mesmos gestos, mesmas expressões. Mas agora Júlio via algo que antes não estava visível.

Atrás de cada amigo, havia um ser. Criaturas acinzentadas, de forma humana, mas distorcidas —como se fossem feitas de fumaça condensada. Algumas dessas entidades estavam sozinhas; outras se agrupavam aos pares atrás de ummesmo colega. Oque mais chamava atenção era o movimento sutil: um vapor invisível saía das costas de cada amigo e terminava na boca do ser acinzentado logo atrás.

Júlio não sentia medo, mas um desconforto profundo, instin- tivo. Aqueles seres não eram ameaçadores —ao menosnão no sentido físico. Mas havia neles uma vibração de carência, uma fome silenciosa que parecia sugar não só energia, mas sentido. Era comose ressoassem uma sensação de insuficiência constante. Um desejo de mais, de algo que nunca bastava. E, ao perceber isso, Júlio sentiu aquilo dentro de si também. Umainquietação antiga, familiar.

Um sentimento de desespero começou a crescer em Júlio. Olhava ao redor sem entender comohavia parado ali de novo. Por que estava nobar? Quemeram aqueles seres atrás dos amigos? Por que nin- guém parecia notar?

Pensou em sair dali, mas o corpo parecia não responder como

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esperado. Aideia de estar preso dentro de algo que não controlava co- meçava a tomar conta. Será que era um sonho? Será que estava tendo umepisódio de glicose descontrolada e tudo aquilo era fruto de confu- são mental?

As perguntas vinham uma atrás da outra, sem resposta. O que mais oincomodava era a nitidez. Nãoparecia umsonho comum. Tudo era claro demais. Eodesconforto não vinha só docenário, mas daquela sensação estranha de que havia algo sendo drenado —não apenas dos outros, mas dele também.

Júlio começou a sentir um mal-estar real. Oestômago embru- lhado, as pernas fracas, uma ânsia estranha, como se precisasse vomitar algo que não era físico. Era como se todas as sensações ruins que vi- nham se acumulando nos últimos dias estivessem concentradas ali, agora, no centro do peito. As entidades que antes estavam focadas nos amigos perceberam sua presença. Pararam de sugar e voltaram-se para ele. Olhavam com um tipo de curiosidade cínica, como quem observa algo quebrado.

—Olha o diabético aí —disse uma delas, com a voz seca e zombeteira. —Não adianta sorver dele nesse estado.

—A vibração atual dele já é muito baixa, mesmo quando em

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corpo presente —completou outro.

—Esse tipo aí é de natureza fraca —disse uma terceira enti- dade, com um tom de desprezo calmo. —Está na estrada rápida para se juntar a nós do lado de cá.

As zombarias soavam como flechas ardentes no espírito de Jú- lio. As palavras ecoavam de forma repetitiva e cortante:

“...natureza fraca...” “...estrada rápida para se juntar a nós...” Aquelas palavras se infiltravam em sua mente como se estives-

semconfirmando algo que ele próprio já temia. Era comoouvir em voz alta os julgamentos que costumava fazer de si mesmo. Fraco. Perdido. Sem forças para reagir. Parte dele queria gritar, mas não conseguia. A outra parte apenas concordava em silêncio.

Oenjoo aumentava. Não sabia se era o medo, a culpa ou algo mais profundo —uma repulsa de si mesmo. Sentia-se preso, sujo, vul- nerável. Aquilo parecia mais do que um sonho. Era um espelho. E o pior: parte dele concordava com aquelas criaturas.

No auge do desespero, com o corpo fraco e a mente tomada por vozes que ocorroíam, Júlio percebeu algo pelo canto doolho. Uma silhueta. Branca. Brilhante. Estava à distância, quase no limite do que sua visão alcançava naquele cenário distorcido.

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Não sabia dizer se era homem ou mulher, se tinha rosto ou forma definida. Mas sabia, com certeza, que dali vinha algo diferente. Uma energia firme, silenciosa, que não zombava, não exigia, não dre- nava. Irradiava presença.

Aquilo se parecia com um farol em meio à tempestade. Um ponto fixo, calmo, emcontraste com o caos ao redor. E, para Júlio, era comose aquele brilho dissesse, sem palavras: ainda há para onde ir. Na- quele momento, parecia ser o único farol disposto a resgatar um mari- nheiro à deriva no mar.

Aluz começou a aumentar. Primeiro sutil, depois commais in- tensidade, como se aquela presença se aproximasse, ainda sem pressa, mas com firmeza. E, junto com a luz, veio novamente a voz — a mesma que Júlio ouvira no bar, como um sussurro que atravessava to- dos os ruídos:

—Lembre-se de quem você é.

Júlio respondeu quase porreflexo, coma voz trêmula e um tom de raiva contida:

—Eu sei quem sou... Nunca me esqueci. Sou Júlio. Estudante de medicina, futuro médico... Uma pessoa que vive com uma maldita doença que Deus me deu. Mas ainda estou aqui. De pé. Lutando.

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A luz permaneceu. Não houve julgamento. Não houve res- posta imediata. Apenasa mesmavoz, mais firme agora, quase cortando: —Não. Lembre-se de quem você realmente é.

Apesar da presença daquela silhueta emitir uma paz difícil de descrever, Júlio se sentia desconfortável. Não era raiva da figura em si, mas da sensação de estar sendo lembrado de algo que havia deixado para trás. Como se aquela entidade soubesse algo sobre ele que há muito havia esquecido.

Lembre-se de quem você realmente é.

Afrase ressoava comforça. Nãosoava comocrítica, nem como cobrança. Era apenas verdade. Edoía, não por ser violenta, maspor ser clara demais.

Júlio não havia enterrado sua essência —apenas a havia per- dido de vista. Esquecera com o tempo, comas pressões, comas falhas, comos medosacumulados. Esquecera entre provas, agulhas, festas, bo- letos e tentativas de ser o que esperavam dele. Agora, ouvir aquilo era como abrir uma porta que ele nem sabia que tinha fechado.

Era como se, por um instante, alguém o visse inteiro. E não comooestudante cansado, opaciente crônico ouonamorado culpado.

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Mas como algo anterior a tudo isso. Algo que ainda existia, quieto, es- perando.

Como sempre fazia diante dos obstáculos mais difíceis, Júlio tentava primeiro contornar. Procurava uma saída lateral, algo que o poupasse do confronto direto. Mas ali não havia para onde escapar. O desconforto crescia. Ador, agora interna, não era mais apenas emocio- nal —começava a queimar por dentro, real, física, urgente.

Tudo escureceu.

Abriu os olhos. Estava na cama, suando. Tremia. Sentia frio. O lençol molhado grudava na pele. Mediu a glicose e viu que a glicemia se encontrava em níveis perigosamente baixos. A ausência de um jantar substancioso agora cobrava seu preço. Não havia ninguém para ajudá- lo dessa vez. Arrastou-se até a geladeira, tonto, sem pensar. Abriu a porta com dificuldade. Pegou o primeiro doce que viu. Nem olhou o que era. Encheu a boca.

Açúcar. Qualquer açúcar. Precisava subir. Precisava ficar de pé.

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