Capítulo 7

Promessas Rascunhadas

Mais umasemana começava. Mais umaleva de promessas feitas a si mesmo. Júlio não tinha muita convicção de que cumpriria todas —

talvez nem a maioria —,mas ainda assim as fazia. Era quase um ritual. Umjeito de não desistir por completo.

Comoumgesto de boa fé —ou de tentativa de se levar a sério —, agendou para a quarta-feira uma consulta online com seu endocri- nologista. Sabia que precisava. Sabia que tinha passado do ponto. Mas não sentia nenhum entusiasmo com a ideia.

Não era medo do diagnóstico. Era do sermão. Dr. Marcos não tinha papas na língua, e Júlio sabia que ouviria tudo o que já sabia, mas com mais firmeza —e menos paciência. Só de imaginar, já ficava sua cabeça já latejava. Ainda assim, marcou. Porque, no fundo, algo nele

50 APena Azul

queria tentar de novo.

Osdias que antecederam a consulta foram calmos por fora, agi- tados pordentro. Durante odia, Júlio seguia a rotina —estudos, tarefas, alimentação mais controlada. Tudo parecia sob controle. Mas, à noite, os sonhos voltavam. Sonhos lúcidos, sempre com a mesma presença reluzente (pelo menos agora os “sugadores cinzentos” haviam desapa- recido).

Às vezes, ela apenas ficava ali, em silêncio, observando, sor- rindo. Outras vezes, repetia a frase que já ecoava dentro de Júlio com uma familiaridade estranha:

—Lembre-se de quem você realmente é.

Era como um mantra, uma lembrança constante, sutil, insis- tente. Nãotrazia medo, nemangústia. Mastambémnão deixava espaço para distrações. Era uma presença firme, que exigia atenção. EJúlio co- meçava a se perguntar se, talvez, essa consulta marcada —e tantas ou- tras pequenasdecisões recentes —nãofossem exatamente isso: o início de umprocesso de lembrança.

Nos dias que antecederam a consulta, Júlio passou a se organi- zar. Nãopor vontade, maspor necessidade. Começoua medir a glicose com regularidade. Anotava tudo: jejum, pós-refeição, antes de dormir.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 51

Tambémpassou a registrar sintomas —formigamentos, cansaço, vari- ações de humor. Sabia que Dr. Marcos perguntaria sobre cada detalhe. Fez coleta de exames. Queria —e temia —levar ao médico

umquadro completo. Não era só para evitar bronca. Era também para se encarar no papel, nos números, nos dados frios que não deixavam espaço para desculpas. Preparava-se como quem se prepara para um julgamento. Mas, no fundo, sabia: não havia júri. Era ele com ele mesmo. EDr. Marcos, no máximo, como espelho.

Dr. Marcos era quase tão paternal quanto opróprio pai de Júlio. Estava presente desde o começo —no diagnóstico, há mais de uma década atrás. Acompanhou a primeira fase: a da negação, quando nem Júlio nem os pais conseguiam aceitar a palavra diabetes sem raiva. Na- quela época, o nome da doença virava xingamento, castigo, sentença. Os pais, desesperados, chegaram a se apoiar em terapias alternativas, empurrados por promessas vazias de médicos charlatões. E Dr. Mar- cos, firme, permaneceu.

Ficou quando veio a depressão. Quando Júlio se calou, se iso- lou, se perdeu por um tempo. Persistiu até o começo da aceitação — lenta, parcial, nunca completa, mas suficiente para começar a viver de novo.

52 APena Azul

Marcos já passava dos sessenta. Alto, de voz firme, entradas marcadas no cabelo, barba e fios brancos por toda parte. Era um rosto que trazia anos pacientes em seus olhos. Muitos casos, muitas quedas, muitas histórias parecidas. Mas mesmo com a rotina cheia, era sempre ele quemaparecia nas internações —chegava ao hospital antes mesmo do pai de Júlio. Nunca falhava. Prestativo. Atencioso. Direto. E hoje, mais uma vez, ele estaria lá. Só que agora, pela tela do computador. Júlio aguardava a consulta comoumatleta aguarda as instruções

de seu técnico: já sabia o que deveria fazer, mas ansiava por palavras de incentivo e por ideias novas para abordagem de velhos problemas. E talvez um pouco de acolhimento disfarçado de bronca. Prometia a si mesmo que seguiria quaisquer estratégias sugeridas.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 53


Capítulo 8

A Consulta

“Pelo menos a consulta é online”, pensou Júlio. Diante do que sentia naquele momento, até preferia que fosse assim. Atela do celular funcionava como um anteparo — amortecia a intimidade. Dessa forma, seria mais fácil se esquivar das amarguras que poderiam vir com as palavras do médico.

Aconsulta começou como sempre. Cumprimentos calorosos, aquele tom de voz calmo que carregava mais tempo do que pressa. Dr. Marcos sabia como abordar Júlio. Não começava pelas taxas, nem pe- los números frios dos exames.

Começava com perguntas simples.

—Como você tem se sentido? —E o sono? —Tem conse- guido estudar com regularidade?

54 APena Azul

Para qualquer outro, poderiam parecer trivialidades. Mas ali ha- via estratégia. Dr. Marcos, com a experiência de quem já viu muitos Júlios ao longo da vida, sabia onde olhar. Sabia que a glicemia fora de controle raramente se explicava apenas pela insulina ou pela comida. Sabia que o descontrole estava quase sempre misturado com

medo, desânimo, cansaço. E por isso observava tudo: a postura de Jú- lio, o ritmo da fala, as pausas. Cada detalhe ajudava a montar o quadro que o laboratório não mostrava.

Contudo, ao começar a analisar os exames, a expressão de Dr. Marcos começou a mudar. Não foi brusco. Para alguém desatento, tal- vez nem fosse perceptível. Mas Júlio conhecia aquele rosto. Já o tinha observado dezenas de vezes, emdiferentes contextos, ao longo de mui- tos anos. Ereconheceu, quase de imediato, a alteração sutil.

Oolhar antes caloroso se tornou mais contido. As sobrancelhas se uniram levemente. A voz diminuiu o ritmo. A acolhida inicial deu lugar a uma apreensão discreta, quase fria —como quem já sabe que vai ter que dizer algo que o outro não quer ouvir. Havia também um toque de apatia, não por indiferença, mas por cansaço. Ummédico que já viu aquele mesmo padrão muitas vezes e que, apesar de se importar, já não tem mais palavras novas para dizer. Júlio sentiu isso como um

Marcelo Rocha Nasser Hissa 55

peso. Pesava mais do que qualquer resultado numérico.

Dr. Marcos apoiou os óculos no alto do nariz, clicou na tela e ficou emsilêncio por alguns segundos. Júlio não perguntou nada. Ape- nas esperou.

—Júlio... —começou, com umtom mais seco do que o habi- tual. —Sua hemoglobina glicada está muito elevada. Isso indica um descontrole contínuo... de pelo menos três meses.

Júlio apenas assentiu coma cabeça, sem olhar diretamente para o médico.

—E o pior é que isso... —continuou passando o dedo pela tela —não é novo.

—Você sabe disso. Nas últimas quatro consultas que fizemos —e isso já tem mais de três anos —a situação era a mesma. A mesma curva de glicemia errática, os mesmos sintomas. Os mesmos alertas. Silêncio.

—Nãoé só umaquestão de números, Júlio. Éopadrão. Ele se repete. Você melhora por um tempo, depois cai de novo. E cada vez que volta, volta umpouco mais fundo.

Dr. Marcos parou. Respirou fundo.

56 APena Azul

—Eu não estou dizendo isso para te culpar. Mas porque, ho- nestamente, estou preocupado. E começo a me perguntar: o que mais eu posso fazer que ainda não fiz?

Júlio permaneceu calado. Sabia que aquelas palavras não eram ditas por desprezo. Eramditas por alguém que ainda se importava, mas estava cansado de ver a mesma cena se repetir.

Uma apatia silenciosa começava a tomar as rédeas da postura de Dr. Marcos. Já não havia o mesmo brilho no olhar, nem o esforço habitual para suavizar as palavras. Falava pausadamente, sem entona- ção, como quem já desistiu de tentar encontrar novas formas de dizer o que já foi dito.

—Júlio, eu... —ele hesitou por um instante — sinceramente, não sei mais como abordar isso de outro jeito. Eu te conheço desde garoto. Agente já passou por todas as fases juntos. Mas essa... essa re- petição está te machucando. E, para ser honesto, começa a me desgas- tar também.

Fez uma pausa longa, tirou os óculos, esfregou os olhos.

— Não se trata mais de ajustar dose de insulina. Você sabe disso. Se trata de retomar o controle da sua vida. Oupelo menos tentar. Porque, se continuar assim, a gente já sabe oque vemdepois. Enão vai

Marcelo Rocha Nasser Hissa 57

ser só uma internação.

Avoz não era agressiva. Era só cansada. Carregava aquele tom amargo de quem se importa, mas já viu a mesma história se desenrolar vezes demais, com finais difíceis demais.

Dr. Marcos folheou os últimos exames na tela e fez um leve movimento comos ombros, comoquemjá sabia oque precisava dizer, mas hesitava. Oolhar desviou da câmera por uminstante antes de vol- tar a encarar Júlio.

—Júlio... queria te sugerir algo —começou, com cuidado nas palavras. — Talvez seja hora de procurar um endocrinologista aí mesmo, na cidade onde você está morando. Alguém que possa te acompanhar de perto. Ver como você está, de verdade.

Júlio não respondeu de imediato. Encostou-se na cadeira, des- viou o olhar da tela.

—Entendi —disse apenas, seco.

Marcos continuou, como mesmo tom calmo, mas mais direto: —Não é que eu não queira te atender mais... continuo aqui, se precisar. Mas... talvez um acompanhamento mais próximo te ajude a sair desse ciclo. Agente já vem nessa repetição há tempo demais, Júlio. Houve uma pausa. Júlio ajeitou a postura e falou com firmeza

58 APena Azul

contida:

—Eutô bem.Posso lidar comisso. Se for necessário, eu marco com alguém, sim.

Avoz era segura, masos olhos... não escondiam o desconforto. Por dentro, algo nele se apertava, comose estivesse sendo deixado para trás. Dr. Marcos notou.

—Isso não é desconfiança. É cuidado —disse, com sinceri- dade. —Você precisa de alguém que te acompanhe de verdade. Isso aqui, pela tela, temlimites. Esair desse padrão... vocêsabe, nãoé simples fazer sozinho.

Júlio assentiu levemente, tentando manter ocontrole da expres- são. Mas a frase escapou, mais baixa, quase como umpensamento dito sem filtro:

—Só... parecia que você ainda acreditava que eu ia conseguir. Dr. Marcos segurou o olhar por alguns segundos, sem pressa. — Eu ainda acredito, Júlio. Mas agora é você quem precisa acreditar também.

A consulta seguiu por mais alguns minutos, mas já não havia muito a ser dito. Dr. Marcos repassou algumas orientações técnicas, su- geriu ajustes, pediu para que Júlio lhe enviasse os próximos exames. O

Marcelo Rocha Nasser Hissa 59

tomera omesmode sempre —educado, profissional, até gentil — mas Júlio sentia a diferença. Ocalor tinha desaparecido. Aligação terminou com umaceno cordial de ambos os lados.

A tela se apagou. Júlio ficou parado, encarando o próprio re- flexo no monitor escuro. Levantou-se devagar, como se algo tivesse afundado por dentro. Nãosabia ao certo oque doía mais —os exames ruins, o futuro incerto ou o que acabara de acontecer ali. Porque, para ele, havia sido claro.

Dr. Marcos —seu médico, seu quase-pai, aquele que esteve ao seu lado desde o início —havia desistido. Talvez não com palavras. Talvez nemcomconsciência plena. Mashavia desistido. Júlio sentia isso no silêncio do fim da consulta, no peso das pausas, no jeito cauteloso com que fora “encaminhado” para outro médico. Ele empurrou tanto os próprios limites, bagunçou tanto o próprio caminho, que até o ho- memque mais acreditava nele… agora recuava.

Ele conseguiu. Conseguiu afastar até quem mais ficou. E, pela primeira vez em muito tempo, Júlio sentiu medo. Não da doença. Mas da possibilidade de, realmente, estar ficando sozinho.

60 APena Azul


Capítulo 9

Os Problemas Continuam

Avida de Júlio seguia em espiral, como se uma força invisível o puxasse para baixo —sempre um pouco mais. A consulta com Dr.

Marcos deixara marcas que ele tentava ignorar, mas estavam ali — pe- sando no peito, ocupando espaço nos pensamentos.

E, comose não bastasse, a próxima calamidade já espreitava no horizonte: a divulgação da nota da prova, marcada para o dia seguinte. Era mais do que ansiedade acadêmica — era medo real. Uma nota abaixo do corte significaria perder metade das férias. Quinze dias intei- ros que ele poderia passar na casa dos pais, longe de tudo, seriam troca- dos por recuperação e mais estudo.

Voltar para sua cidade natal era seu último refúgio emocional. Ali, mesmo com cobranças e lembranças difíceis, havia algo de estável,

Marcelo Rocha Nasser Hissa 61

de seguro. Perder isso seria como ficar sem nenhuma margem de es- cape. E, naquele momento, Júlio sentia que estava cada vez mais perto da borda.

Curiosamente, o que ainda oferecia algum acalento ao espírito de Júlio não vinha das conversas com os amigos, nem das promessas instáveis de mudança. Era à noite, quando o corpo cansado finalmente cedia ao sono, que algo diferente acontecia. Oser luminoso voltava a aparecer.

Todas as noites, sem falhar, aquela presença silenciosa habitava seus sonhos. Às vezes, apenas o observava. Outras vezes, repetia o mesmo chamado, sempre com a mesma ternura firme: “Lembre-se de quem você realmente é.”

Júlio ainda não entendia a insistência. Não compreendia o sig- nificado exato daquele lembrete, nem por que vinha justamente agora, quando tudo parecia mais desorganizado. Mas, pela primeira vez, não resistia. Ouvia compaciência. Às vezes, até comumaestranha gratidão. Adivulgação das notas chegou com a frieza de um boletim ci- rúrgico: Júlio havia ficado abaixo da média. A consequência era auto- mática —quinze dias das tão esperadas férias seriam dedicados à recu- peração. Nada de voltar para casa, nada de descanso merecido. Apenas

62 APena Azul

mais pressão, mais dias preso longe dos poucos vínculos que ainda lhe ofereciam algum abrigo.

E, comose a frustração nãobastasse, naquela mesmanoite, Vir- ginia ligou. Avoz dela veio carregada de mágoa, impaciente.

—Júlio, sinceramente… de novo? Você sabia que essa prova era importante. Agora a gente vai passar metade das férias sem se ver. Eu fico esperando, me planejando… e você simplesmente não conse- gue se organizar?

As palavras de Virginia não eram perguntas —eram sentenças. Júlio apenas escutou, deixando que cada sílaba se acomodasse sobre um espaço já apertado. Nãohavia espaço para explicações. Nemforça para reagir.

Nosdias anteriores, tudo vinha se acumulando: oolhar contido de Dr. Marcos, a lembrança dos exames, a frustração com a prova, a decepção dos amigos, as exigências da namorada. Cada evento parecia empurrar umpouco mais algo dentro dele.

Havia uma pressão crescente, silenciosa, que se espalhava pelas bordas do seu pensamento. Não fazia estardalhaço, mas estava ali, constante, pesando. Bastava um estalo —um só —para que tudo ce- desse. EJúlio, no fundo, já começava a sentir as primeiras rachaduras.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 63

Júlio se sentia esvaziado. Não era apenas cansaço —era como se a energia vital que move as vontades tivesse se diluído, aos poucos, sem que ele percebesse. Estava ali, olhando os livros empilhados sobre a escrivaninha, sabendo que precisava estudar para recuperar as notas..., mas não conseguia sequer abrir o caderno.

Controlar a diabetes parecia uma missão distante, quase ab- surda. Aplicar insulina, anotar refeições, medir glicose —tarefas sim- ples, mas agora tão pesadas quanto mover montanhas. Até mesmo ter- minar o relacionamento com Virginia — que há tempos parecia mais obrigação do que afeto —era algo que exigia mais força do que ele tinha. Tudo pesava. Tudo exigia. Eele… não tinha mais de onde tirar. A mente de Júlio, cada vez mais cansada, começava a se con-

fundir com suas emoções densas. Já não conseguia distinguir se aquele abatimento era apenas passageiro ou se, de fato, o definia. Sentia-se en- volto por uma nuvem espessa de apatia e, de certo modo, começou a aceitar que talvez fosse aquilo mesmoque era: alguém fraco, falho, sem- pre à beira do colapso.

Por alguns instantes, pensou em desistir. Não da vida — ainda nãocomesse peso —masdocurso, da cidade, daluta diária que parecia maior do que ele. Queria voltar para casa. Pegar oprimeiro avião, largar

64 APena Azul

tudo ali mesmoe se enterrar na velha cama doquarto dos fundos, onde o silêncio da infância ainda existia.

Só queria dormir. Dormir por dias, talvez semanas. E acordar num mundo onde todos os seus problemas já tivessem desaparecido por conta própria —como se alguma força invisível tivesse vindo, no intervalo entre umsonho e outro, resolver tudo por ele.

Asconfabulações de Júlio foram interrompidas por André, que surgiu no quarto já trocado e com o semblante típico de quem tenta parecer animado, mas carrega o peso nos ombros.

—Bora, Júlio. Hoje tem festa com a galera do oitavo semestre. Rafael já tá pronto —disse, apoiado na porta, tentando parecer casual. Júlio levantou os olhos, surpreso. Nãocomoconvite, mas com

a constatação de que o mundo ao redor ainda continuava funcionando —pessoas indo, vindo, vivendo.

Rafael ia comemorar mais um semestre completo. André, por outro lado, ia para tentar esquecer que também perdera metade das fé- rias. Os dois marchavam para o mesmo destino, mas com mapas dife- rentes.

Júlio sem saber porque aceitou. Levantou-se pegando a pri-

Marcelo Rocha Nasser Hissa 65

meira roupa limpa que viu pela frente. Não porque queria —mas por- que, de algumaforma confusa, precisava. Seu“sim”saiu comoum grito abafado, uma revolta muda contra o ciclo em que sentia estar preso. Talvez fosse umatentativa dese sentir vivo. Outalvez sómais um gesto de rendição.

66 APena Azul


O

Capítulo 10

A Última Gota

carro de Rafael cruzava as ruas da cidade como um foguete

emmissão festiva. Nemhaviamchegadoejá estavam três dosesà frente da maioria. Era tradição —ou vício —chegar à festa com o corpo aquecido e o riso fácil.

Rafael dirigia com uma das mãos, enquanto a outra equilibrava uma latinha já quase vazia. André, no banco do passageiro, soltava comentários exageradamente engraçados, daqueles que só fa- zem sentido quando há álcool envolvido. Júlio, no banco de trás, ria mais do que devia. Ocopo plástico emsua mãojá era osegundo, talvez o terceiro.

Era como se todos os problemas tivessem ficado pre- sos do lado de fora daquele carro.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 67

Tudo agora parecia distante, abafado pela euforia que crescia com cada gole. Júlio nãoqueria apenas ir à festa. Elequeria se perder nela. Se afun- dar na própria amargura.

Afesta já fervilhava quando chegaram. Luzes pulsando, música estrondando pelos alto-falantes, corpos se movendo num ritmo des- compassado, mas sincronizados na mesma intenção: esquecer.

Júlio entrou como sempre —sorrindo mais do que sentia, fin- gindo estar presente. Ali dentro, tudoseguia umroteiro nãoescrito, mas já decorado: beber, dançar, reencher ocopo, conversar, paquerar, tentar a sorte comalguém, beber de novo, e por fim, ir embora como se nada tivesse acontecido.

Era comoviver emumciclo mecânico, automático, emque to- dos sabiam seu papel. As conversas eram rasas, os abraços efusivos de- mais, e o riso... o riso sempre um pouco exagerado. Não havia consci- ência, só movimento. Júlio se misturava aos outros como uma engre- nagem gasta —funcionando, mas sem propósito claro. Reagia, cum- pria, repetia. Mais uma festa. Mais um enredo.

Se antes Júlio se via como alguém entregue, agora se percebia tomado pela intensidade. Uma espécie de fogo insubmisso começou a se acender dentro dele —não era coragem, tampouco esperança. Era

68 APena Azul

raiva. Raiva do curso, da doença, da rotina e de tudo que o pressionava. Decidiu que resistiria ao presente, não importava o custo. O que lhe impunham como realidade —as regras, os limites, os cuidados — ele rejeitava com fúria silenciosa. Estava cansado de obedecer, de fingir aceitação. Nãoqueria mais ser paciente, não queria mais ser lúcido. Na- quela noite, faria exatamente o que bem entendesse. Porque sim. Por- que podia. Porque não aguentava mais ser o Júlio domesticado que tei- mava em fracassar.

Aagitação da festa crescia emrelação inversamente proporcio- nal à sensibilidade dele em relação ao seu redor. As imagens se torna- vamrasas, quase translúcidas —umfilme ruim passado diante de olhos cansados, forçados a assistir. O vazio começava a avançar pelas mar- gens da sua percepção, invadindo devagar cada sentido. A música, re- cheada de gritos, ruídos e mensagens vazias, tornava-se cada vez mais distante, como umeco mal sintonizado.

Aspessoas à sua volta se transformaram emborrões. Rosto ne- nhum parecia fixo, conhecido. Júlio não sentia mais nem o próprio corpo —apenas um leve deslocamento, como se estivesse sendo car- regado por uma força invisível no modo automático.

E então, simplesmente… desligou. Os olhos se fecharam. A

Marcelo Rocha Nasser Hissa 69

consciência se apagou. Seu corpo tombou no meio da pista, vencido por algo muito além do cansaço. Osom abafado da queda cortou bre- vemente a música, mas apenas por um segundo. Depois, tudo seguiu —menos Júlio.

70 APena Azul


Capítulo 11

Um Encontro Familiar

Sentiu que algo havia mudado. Ador, omedo, opeso que cos- tumava carregar como uma extensão do próprio corpo… haviam de- saparecido. Subitamente, sentia-se bem — absurdamente bem. Um bem-estar que não conhecia havia muito tempo, talvez desde a infância, talvez desde antes de tudo. Apaz que agora o envolvia era tão serena e profunda que só podia ser real. Não havia ruídos, nem urgências. Ape- nas ele —e um sentimento de plenitude que transbordava do peito como umrio calmo.

A escuridão ao seu redor começava a se dissipar, cedendo es- paço a uma claridade suave e estonteante. Não era uma luz como a do sol ou das lâmpadas; era viva, acolhedora, mas intensa. Brilhava com uma força que, paradoxalmente,

Marcelo Rocha Nasser Hissa 71

não cegava. Júlio abriu os olhos —ou o que quer que estivesse usando para ver ali —e soube, sem que ninguém lhe dissesse, que aquela luz não pertencia ao mundo que ele conhecia.

Conforme seus sentidos se ajustavam à claridade, Júlio perce- beu que estava sentado em um banco, bem no centro de uma praça. Aos poucos, os detalhes ao redor começaram a se revelar —e o que viu o deixou sem palavras. Um jardim o cercava por todos os lados, vibrando em cores que pareciam vivas, pulsantes, como se cada pétala exalasse sua própria luz. Os perfumes das flores dançavam no ar com precisão quase mágica, distintos e, aomesmotempo, perfeitamente har- monizados. Eracomose cada aromativesse sido compostopor alguém que entendia profundamente de beleza e delicadeza.

Abeleza do jardim revelava as mãos de um verdadeiro mestre —alguém com paciência infinita e mãos capazes de tocar a alma das plantas. A brisa que acariciava seu rosto era fresca, pura, livre de qual- quer sinal da poluição urbana que ele tanto conhecia. Pela primeira vez emmuito tempo, respirava sem peso no peito.

A maior surpresa de Júlio, porém, não veio das flores nem da brisa —mas de quem dividia com ele aquele banco. Sentada ao seu lado, com as mãos repousadas no colo e um leve sorriso nos lábios,

72 APena Azul

estava uma senhora de aparência serena. Seus cabelos eram prateados como a luz que banhava a praça, e sua postura transmitia uma calma que parecia antiga.

Ela não lhe era conhecida e, ainda assim... havia algo ali. Um traço no olhar, a curva do sorriso, talvez o tom da pele —tudo nela evocava lembranças borradas, como fragmentos de um sonho antigo ou de umcarinho esquecido da infância. Júlio não conseguiu identificar de onde vinha aquela sensação, mas era impossível ignorá-la: ela lhe pa- recia estranhamente familiar. Como se, de alguma forma, já tivesse es- tado com ela antes —não nesta vida, talvez, mas emalgum lugar onde o tempo não se mede em dias.

—B-bom dia..? —Disse, a voz saindo fraca, hesitante de Júlio. Olhava ao redor tentando entender onde estava, mas tudo parecia alheio demais. Havia uma brancura suave em tudo, uma paz que não combinava com as últimas lembranças que tinha de si mesmo.

Seus olhos percorriam a paisagem com cautela, como quem busca nos detalhes uma pista de pertencimento. Voltou o olhar para a senhora ao seu lado. Ela o observava com atenção tranquila, como quem contempla a chegada de uma resposta inevitável. Eentão, como

Marcelo Rocha Nasser Hissa 73

quemjunta as peças de umquebra-cabeça commedo do que pode sur- gir na imagem final, a pergunta escapou de seus lábios:

—Eu… morri?

Asenhora sorriu comternura e soltou umarisada curta, de leve ironia e profundo carinho —o tipo de risada que apenas quem já viu muitas almas confusas poderia dar. Meneou a cabeça suavemente, como quem confirma que a dúvida era esperada, mas a resposta… ainda mais.

—Bomdia ounoite para vocêtambém—Respondeuem uma voz angelical. Sempre direto ao assunto, hein? Então, serei igualmente direta: não, você ainda está vivo. Seu corpo está apenas… se reabaste- cendo. Preparando-se para sustentar umanova quantidade de informa- ções que você está prestes a receber.

—Comoassim? —Parecendo cada vez mais confuso. — Que informações?

Ela olhou para ele com serenidade, sem pressa, como se cada palavra escolhida tivesse o peso exato.

— Não se preocupe. Nem tudo precisa ser compreendido agora. Algumas verdades não entram pela razão —chegam primeiro pelo sentimento. Só depois a mente acompanha.

74 APena Azul

—Mas…o que está acontecendo comigo? Onde é que eu tô? Isso aqui é um sonho?

Ela olhou emvolta, contemplando os jardins, o banco, a luz ao redor, e então voltou a fitar Júlio com ternura.

—Pode chamar de sonho, se quiser. Mas sonhos comuns não costumam deixar marcas tão profundas na alma. Você está entre mun- dos, Júlio. Num espaço onde sua mente pode descansar… e seu espí- rito, finalmente, escutar.

Por algum motivo que ele ainda não sabia explicar, Júlio sentiu vontade de escutar. E, mais ainda, de lembrar.

—Oque estou fazendo aqui? Como faço para voltar? Tenho muito assunto ainda para estudar antes das provas de recuperação… Asenhora balançou a cabeça com suavidade, ainda sorrindo. —Nãose preocupe com esses detalhes, Júlio. Otempo lá fora

cuida de si mesmo. Aqui, teremos aprendizados que nenhuma facul- dade é capaz de oferecer. E, sinceramente… você não veio até aqui por causa de provas.

Ela fez uma pausa breve, olhando-o nos olhos com firmeza gentil.

—Suas perguntas são válidas, sim. Mas não foram elas que te

Marcelo Rocha Nasser Hissa 75

trouxeram até aqui. Existe uma pergunta mais profunda, mais antiga… aquela que você carrega no peito sem saber direito como formular. É essa que você veio buscar. É essa que o seu espírito tem gritado por respostas.

—Pergunta? Que pergunta? —Júlio franziu o cenho, aper- tando os olhos comose a luz ao redor estivesse subitamente mais forte. —Eu não ando me perguntando nada! —rebateu, desconcertado. — Até onde eu sei, as únicas perguntas sem resposta são as que eu errei na prova da semana passada...

A senhora sorriu com ternura. Não era deboche —era com- preensão. Comoquemassiste a uma criança confundir umsussurro do coração com barulho de fundo.

— Às vezes, Júlio, a pergunta não vem com palavras. Vem como cansaço, como aquele aperto no peito que não some. Vem quando você sente que está sobrevivendo, mas não vivendo. Quando tudo parece emordempor fora… e, ainda assim, algo por dentro segue vazio.

Ela virou levemente o rosto, olhando para o jardim.

—Essa pergunta não nasce da sua mente, mas da sua essência. Eé ela que te trouxe até aqui.

76 APena Azul

—Quem é você? —perguntou Júlio, tentando decifrar aquele rosto sereno. —Qual é o seu nome? Agente já se conhece?

A senhora inclinou levemente a cabeça, com um sorriso que misturava doçura e sabedoria.

—Aqui, onde estamos, nomes não têm a mesma importância que têm aí no seu mundo. Já tive muitos —alguns que talvez te soem familiares, outros que você nunca ouviu. Mas qualquer nome que eu dissesse agora não carregaria o peso do que realmente importa.

Fez uma pausa breve e repousou os olhos nos dele.

—Quanto a nos conhecermos… —disse em tom brando — acredito que você já tem essa resposta no coração. Nossa relação não começou nesta vida. Ela atravessa eras. Etalvez, no fundo, você esteja começando a lembrar.

Júlio assentiu, ainda um pouco confuso, mas algo dentro dele começava a fazer sentido. Era comose as palavras daquela senhora des- pertassem memórias que ele nem sabia que guardava.

—Júlio… —disse ela com voz firme e afetuosa —saiba que você não está aqui para me conhecer…

—…mas para me lembrar de quem sou —completou ele, quase em sussurro.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 77

Assim que as palavras saíram de sua boca, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Não foi medo —foi reconhecimento.

78 APena Azul


Capítulo 12

Entre o Viver e o Saber

Lembrar de quem eu sou… isso até parece fácil —disse Júlio, comumsuspiro. —Difícil mesmoé entender como vim parar aqui. Se não estou morto… e meu corpo está, como você disse, “se reabaste- cendo” emalgum outro lugar… então onde estou?

Fez uma pausa, olhando ao redor com um misto de desconfi- ança e deslumbramento. Aluz suave, a presença daquela senhora, o si- lêncio confortável e o perfume sutil das flores —tudo parecia real de- mais para ser sonho, mas irreal demais para ser vida.

—Morto, eu sei que não estou —continuou. —Sempre achei que, ao morrer, a gente teria todas as respostas. Eagora… eu só tenho mais perguntas.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 79

Asenhora ao seu lado sorriu com compaixão, como quem re- conhece naquela confusão o primeiro movimento de despertar.

—Que tal darmos uma caminhada, Júlio? —sugeriu ela, com umsorriso sereno. —Há tanta beleza por aqui… parece um desperdí- cio ficarmos presos a esse banco.

Júlio assentiu com naturalidade. Havia algo naquela mulher — e naquele lugar — que tornava tudo mais simples de aceitar. E, no fundo, uma parte dele estava ansiosa por descobrir o que mais aquele cenário escondia.

Levantou-se aolado dela e logo se viu imersoemuma paisagem de beleza quase impossível. Árvores altas, firmes, cobertas por folhas de umverde vivo, ofereciam sombras perfeitas —do tipo que convida à tranquilidade de umpiquenique emfamília. Flores brotavam em cada canto, em uma explosão de cores tão variadas e harmônicas que pare- ciam ter sido pintadas à mão por umartista inspirado.

Animais pequenos cruzavam o caminho sem pressa, como se soubessem que ali nada havia a temer. Nenhum fugia, nenhum sequer o olhava —sua presença era aceita, acolhida como parte da paisagem. Havia uma paz naquela cena que tocava algo profundo dentro dele. Poruminstante, Júlio lembrou-se de umapintura que vira ainda

80 APena Azul

criança, de Vincent Van Gogh —uma paisagem idealizada, cheia de movimento suave e cor. Na época, pensara que ninguém jamais veria algo assim na vida real.

—Gosta daqui, Júlio?

—Sim... tudo aqui é tão... harmônico —respondeu, após um instante de contemplação. —Parece que cada coisa está exatamente onde deveria estar.

Amulher sorriu, como quem saboreia uma resposta esperada. —Harmonia —repetiu suavemente. —Aharmonia costuma

trazer a serenidade.

—Serenidade... —Júlio suspirou. —Faz tempo que não sei o que é isso.

—Talvez porque lhe falte harmonia?

Ele hesitou antes de responder. As palavras estavam prontas, mas vinham acompanhadas de certa amargura.

—Comoposso ter harmonianaminhavida atual? Estudo num dos cursos mais difíceis da universidade. Estou cercado de amigos que só pensam em festa. E ainda tem isso —apontou para si, como se o corpo todo fosse umlembrete da condição que carregava. —Deus me deu a diabetes como se dissesse: “nem diversão você terá direito. ”

Marcelo Rocha Nasser Hissa 81

Comoé que eu me harmonizo com isso?

Amulher olhou-o com ternura e falou num tom calmo, quase inquisitivo:

—Então, pelo que vejo, você acredita que os outros — seus amigos, sua faculdade, suadoença, até Deus—deveriam ajustar-se para que você alcance harmonia?

Júlio abriu a boca, mas fechou logo em seguida. Sentiu o peso da pergunta. Não era fácil respondê-la sem tropeçar nas próprias justi- ficativas.

—Er... eu sei que tenho minha parcela de responsabilidade — disse por fim, desviando o olhar —, mas... tem gente que parece ter a vida toda mais fácil. Tudo flui melhor pros outros. Comigo, é sempre uma luta.

Depois de alguns segundos de silêncio, Júlio respirou fundo e falou com certo desânimo, mas também com umtraço de aceitação: —Então... aparentemente eu estou aqui para você me ensinar

a ter paz?

Amulher sorriu de novo, com ternura nos olhos e voz serena: —Júlio… nós não ensinamos a quem já sabe.

Ele franziu a testa, confuso.

82 APena Azul

—Mas se eu soubesse, não estaria aqui...

Ela inclinou levemente a cabeça, como quem convida à refle-

xão:

—Por que não busca suas verdades dentro de si? Há uma bi- blioteca imensurável aí dentro, cheia de sabedoria esquecida. Sóestá co- berta pela poeira da pressa, da dor, domedo. Talvez seja hora de folhear algumas páginas e reler com o coração o que sua alma já escreveu há muito tempo.

—Agora você tá parecendo cada vez mais o meu pai — res- mungou Júlio, cruzando os braços com leve ironia. —"Ah, eu tenho que ter responsabilidade... que os prejuízos caem só sobre mim... que preciso aceitar os obstáculos da vida e superá-los..." Já ouvi isso tantas vezes que poderia recitar de olhos fechados.

Amulher não se abalou. Seu sorriso permaneceu calmo, como a superfície de umlago sereno.

—E você acha que seu pai estava errado? —Perguntou com suavidade. —Pelo visto, a biblioteca dele não está tão empoeirada as- sim.

Júlio soltou umsuspiro, meio exasperado, meio resignado.

—Mas isso é tudo tão... clichê. Fácil de dizer, difícil de fazer.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 83

Ainda mais quando não é você que tá carregando esse peso todo.

—Você não poderia, sei lá…medar logo as respostas prontas? Umroteiro, talvez. Aí, quandoeu acordasse, era só seguir passo a passo. Seria muito mais fácil assim. —Júlio disse com um tom quase supli- cante, mas sem esconder a impaciência.

Amulher sorriu comgentileza, masseu olhar se manteve firme. —Júlio, acho que você ainda está esperando por um interrup-

tor mágico. Umbotão que dissolva todos os seus problemas, que limpe seus pensamentos turvos e traga de volta a clareza e a paz... Sinto dizer, mas, desde a última vez que procurei, esse botão ainda não foi instalado no espírito de ninguém.

Caminharam em silêncio até uma grande árvore, de tronco es- pesso e copa generosa. Sentaram-se sob sua sombra, e ali o ar parecia ainda mais leve. Borboletas coloridas voavam emvolta deles com graça e calma, como se dançassem entre os raios de sol que filtravam pelas folhas. Umadelas pousou suavemente sobre o joelho de Júlio.

84 APena Azul




Capítulo 13

A Borboleta

eja essa borboleta, Júlio. Ela não nasceu assim. Para chegar a

esse estado, passou por umprocesso longo, lento… silencioso.

Júlio a observava pousada emseu joelho, com as asas delicadas emtons de azul e dourado. Era impossível não se encantar. Masele não via beleza apenas ali —via um enigma.

—Você mencionou transformação… —disse Júlio, ainda sob a sombra da árvore. —Mas não entendo como isso funciona.

A senhora pousou o olhar gentil sobre ele, como quem falava com alguém que já sabia a resposta, mas apenas precisava recordá-la. —Primeiro, somoslagartas, Júlio. Nessa fase, vivemos para ab-

sorver. Équandotudo parece novoe, aomesmotempo, confuso. Nos-

Marcelo Rocha Nasser Hissa 85

sos sentidos ainda estão se afinando, e por isso nos entregamos à expe- rimentação. Éo tempo do tentar, do errar, do cair e levantar. Vivemos como quem tateia o mundo —sentindo, testando, escolhendo cami- nhos às cegas, guiados apenas pelo instinto de escapar da dor.

—Equando a dor é constante? —Perguntou Júlio.

—Então ela passa a ser mestra. É ela quem te mostra, com firmeza, os atalhos que não servem. Aos poucos, vamos aprendendo a identificar o que machuca e o que cura, o que aprisiona e o que liberta. Énessa fase queabrimos os olhos para as primeiras perguntas... mesmo sem sabermos ainda que são perguntas.

Júlio permaneceu emsilêncio. Aquilo fazia sentido. Ele pensou nas vezes em que repetiu escolhas que sabia erradas, apenas porque ainda não sabia como escolher certo. Era exatamente isso: tentativa e erro —e dor.

—Afase da lagarta é necessária. Você não nasceu pronto para voar —ninguém nasce. Mas quanto mais consciência você adquire nesse estágio, menos peso carrega para a próxima fase.

—Em seguida, a lagarta se recolhe ao casulo —continuou a senhora, comumtom agora mais grave, mas ainda sereno. —Éo mo- mentomais desafiador. Équando osilêncio pesa, quando tudo por fora

86 APena Azul

se aquieta... e o barulho passa a vir de dentro.

Ela permanecia ao lado dele, enquanto ele observava, em silên- cio, uma borboleta pairando sobre uma flor. Continuou:

—Nocasulo, você não precisa mais experimentar omundo — precisa encarar a si mesmo. Começa a enxergar aspectos que antes pre- feria ignorar. Dores mal resolvidas, medos escondidos, escolhas repeti- das por medoda mudança. Você começa a ver coisas emsi mesmo que não queria ver… ou fingia que não existiam.

—Como se algo estivesse desmontando por dentro — mur- murou Júlio, mais para si mesmo.

—Exato —disse ela, com umleve aceno. —Éo que muitos chamam de "noite escura da alma". Umtempo emque a luz parece ter se apagado, em que você não sabe mais quem é, nem para onde está indo. Ainda não é quem deseja ser, mas também já não cabe mais na pele de quem foi.

—E se a gente não quiser sair do casulo? —Perguntou ele, com a voz embargada.

Ela parou e olhou nos olhos dele.

—O casulo é um lugar de preparo. Nada floresce sem antes passar pela escuridão da semente —disse a senhora, olhando adiante

Marcelo Rocha Nasser Hissa 87

como se enxergasse além daquele jardim. —Mas chega uma hora em que ele se rompe. Eentão, Júlio… você abre asas. Você voa.

Júlio olhava para o chão, os olhos apertados em dúvida. —Mas…como saber que estou pronto para isso?

Ela sorriu com ternura.

—Você não sabe. Mas sente. Quando a dor de permanecer onde está for maior do que o medo de voar, você se libertará. Suas asas estarão lá. Fortes. Esua visão será outra.

Júlio demorou a responder. Seu silêncio pesava mais que qual- quer pergunta.

—E... Acabaaí? —Arriscou, comoquemteme oqueseria dito em seguida.

—Não, querido —respondeu a senhora, pousando uma das mãos sobre seu ombro. —Borboletas não param de voar depois que saem do casulo. Elas continuam buscando, explorando, aprendendo. Sempre prontas para novos céus, novos entendimentos.

Odespertar não tempontofinal. Éumaprática. Umlongo pro- cesso de abandono de antigos padrões para se tornar uma versão mais autêntica e aprimorada de nós mesmos.

88 APena Azul


Capítulo 14

Encruzilhadas

Lentamente, Júlio ia percebendo que algo dentro de si come- çava a se reorganizar. Não era apenas a paisagem ao redor que lhe pa-

recia viva —era sua própria consciência que ganhava novas formas, novos contornos. Sentia-se mais lúcido, mais presente, mas, paradoxal- mente, mais inquieto.

Osensinamentos da senhora clareavam sua mente, iluminavam cantos escuros que ele nem sabia carregar. Noentanto, junto com essa luz vinham sombras novas: dúvidas mais profundas, perguntas mais ur- gentes. Ele já não podia ignorá-las.

Virou-se para ela com o cenho franzido, as palavras escapando numimpulso quase doloroso:

— Então... quem sou eu

Marcelo Rocha Nasser Hissa 89

nesse processo todo? Qual é o meu propósito?

Aquelas palavras não saíam mais como uma curiosidade ocasi- onal —vinham carregadas de urgência. Pareciam arder no peito como uma pergunta feita por toda a vida, só agora percebida.

Asenhora o olhou com doçura e firmeza.

—Atualmente, Júlio, você está em uma encruzilhada de várias rotas. Nem todas as respostas estão prontas. Algumas se revelam ape- nas quando se caminha. Adireção que você decidir tomar... essa, sim, é que vai lhe mostrar as respostas que agora tanto deseja ouvir.

Ela fez uma breve pausa e continuou:

—Propósito nãoé algo entregue embrulhado.Éalgo cultivado. Ele nasce quando você se permite caminhar com verdade. Às vezes, Júlio, o que você mais procura está justamente no lugar que você mais tem medo de olhar.

—Às vezes sinto que… quem eu penso que sou não encaixa direito emmim—Júlio falava devagar, comose precisasse provar cada palavra na boca antes de soltá-la. —Comose eu estivesse usando uma roupa apertada, feita para outro Júlio. UmJúlio estudante de medicina, diabético… perdido. Desconectado da minha luz interior. De Deus.

90 APena Azul

A senhora assentiu suavemente, sem pressa, como quem aco- lhe uma verdade que já sabia.

—Éexatamente por isso que você precisa se lembrar de quem realmente é —disse com voz tranquila, mas firme. —Remover esses velhos traços que já não servem. Deixar cair as vestes apertadas do per- sonagem. Só assim haverá espaço… espaço para que uma versão mais autêntica de você possa emergir.

Ela fez uma pausa breve, como se esperasse que ele absorvesse a ideia com o coração, não apenas com a mente.

—Não se trata de construir algo novo, Júlio. Trata-se de retor- nar. Retornar à sua essência. Aquela que sempre esteve aí, mesmo quando você esqueceu.

Júlio ainda se sentia confuso. Asperguntas continuavam emba- ralhadas dentro dele comofolhas aovento, semdireção exata. Mas, pela primeira vez, ele não resistia a isso. Começava a entender que a confu- são era parte de umprocesso maior —como o nevoeiro que antecede o amanhecer. Algo natural, até necessário.

Dentro daquela névoa interna, uma intuição suave sussurrava que era hora de desacelerar. De parar de tentar forçar respostas, e ape- nas... estar. Observar. Respirar. Viver o agora, sem se esconder atrás do

Marcelo Rocha Nasser Hissa 91

passado ou se antecipar ao futuro.

Respirou fundo.

Não precisava correr. Precisava se tornar presente.

Ali, naquele instante de silêncio e presença, algo emseu interior parecia se alinhar. Comoumabússola intrínseca reencontrando o norte. Nãosabia exatamente ocaminho, massabia onde ele começava: dentro de si.

E, pela primeira vez em muito tempo, isso parecia suficiente. De repente, Júlio começou a se sentir sonolento. Afadiga veio

como uma onda pesada, impossível de conter —não era um cansaço comum, mas sim aquele tipo que chega após várias noites mal dormi- das, umacúmulo de tudo o que se viveu e sentiu.

Asenhora ao seu lado o olhou com doçura.

—Parece que está na hora de ir, Júlio —disse ela com um ca- rinho quase materno.

Ele tentou lutar contra o torpor que se instalava, mas as pálpe- bras pesavam como chumbo. A sonolência vinha como uma onda morna, puxando-o para longe daquele jardim tão vívido. Ainda assim, reuniu forças para perguntar:

—Antes que eu vá…preciso saber. Isso tudo aqui… é real?

92 APena Azul

Asenhora o olhou com doçura, sem surpresa alguma.

—Júlio, me diga: o que seria mais importante para você agora —saber se isso é umsonho ou ouvir o que precisa ser ouvido?

—Eusei, eu sei… a mensagem, não omensageiro. Maseu sou humano, entende? Preciso de alguma prova. Alguma coisa que me ajude a acreditar depois que eu acordar. Umsinal. Memande algo... — ele hesitou, pensando rápido —...uma pena. Umapena azul. Assim eu saberei. Uma pena qualquer pode ser coincidência, mas uma azul…

Asenhora apenas assentiu levemente, com um sorriso misteri- oso, como quem guarda umsegredo antigo.

Já sentindo que o corpo cedia à sonolência, Júlio puxou mais uma vez:

—Só mais uma coisa… por que Deus me deu essa maldita diabetes?

Ela não hesitou.

—Ora, isso é fácil... porque você pediu.

As palavras se cravaram fundo. Júlio arregalou os olhos, mas já era tarde. Aconfusão mental se misturava ao sono como névoa em dia frio.

—Se algum dia precisar conversar comigo novamente, Júlio…

Marcelo Rocha Nasser Hissa 93

—disse ela com ternura —...basta pensar em mim.

Ele tentou responder, mas a voz não veio. Quis perguntar seu nome, mas o pensamento se perdeu na neblina da inconsciência. Antes que a escuridão o envolvesse por completo, um sussurro atravessou o ar como uma pluma flutuando no vento:

— Cecília.

Eentão tudo se apagou.

94 APena Azul


Capítulo 15

O Retorno

Júlio despertou em um leito de hospital. A cena lhe era estra- nhamente familiar —a luz fria do teto, o cheiro característico de antis-

séptico e plástico, os bip-bips ritmados das máquinas. Já havia estado ali antes, em situações parecidas. Mas algo, desta vez, era diferente.

Não estava em meio ao caos habitual de um pronto-socorro lotado. Estava em um quarto, silencioso, quase acolhedor. Uma más- cara de oxigênio suavemente cobrindo seu nariz e boca empurrava pe- quenas quantidades de ar enriquecido para seus pulmões. Viu fios co- nectados ao seu peito, conduzindo sinais para ummonitor cardíaco que piscava e saltava com regularidade à sua cabeceira.

Ao tentar entender o que estava acontecendo, seus olhos en- contraram algo inesperado: Rafael

Marcelo Rocha Nasser Hissa 95

e André sentados juntos num banco ao lado do quarto. Ambos esta- vam em silêncio —umsilêncio pesado, como se houvesse muito a di- zer, mas sem coragem para começar.

“Mas o quê…? ”, pensou Júlio. “Já falei para eles que não pre- cisam ficar aqui nessas situações. ”

Tentou se mexer, mas uma dor aguda estourou em sua cabeça como uma sirene. Seu braço foi instintivamente ao couro cabeludo, onde encontrou um curativo firme, envolto por uma atadura mal ajus- tada que lhe dava a aparência de um gorro improvisado — daqueles ridículos que só se usam em festas temáticas ou no carnaval.

Aotatear, percebeu ocurativo ainda úmidode sangue seco. Es- tava malfeito, com gaze saindo pelas beiradas. Otoque era desconfor- tável, mas familiar: o típico esforço de umestudante de medicina bem- intencionado tentando imitar um profissional. Só podia ser obra de al- gum interno —ou pior, de Rafael ou André.

—Bomdia, Cinderelos —murmurou emmeio a umleve sor- riso contido pela dor.

Rafael notou o movimento e imediatamente se levantou, alivi- ado.

—Ei, ele acordou! Júlio, tá me ouvindo?

96 APena Azul

André aproximou-se devagar.

—Achei que você ia nos deixar, cara. Que susto você nos deu. Júlio, ainda com a cabeça latejando e o corpo pesado, piscou lentamente. Não sabia o que responder. Ainda processava tudo: a dor, os amigos ali, a lembrança do desmaio... e, principalmente, aquela luz. Amulher. Cecília.

Foi André, ainda com os olhos semicerrados, voz arrastada e hálito de álcool, quem se adiantou:

—Acho que exageramos um pouco na festa de ontem… — soltou, coçando a nuca com um ar de culpa. —A gente nem tava do seu lado quando aconteceu.

Rafael completou, com umtom mais contido:

—Você tava ali perto do palco, acho. Eu e André estávamos em frente ao balcão quando um calouro apareceu esbaforido, dizendo que tinha alguém caído no meio da pista. Disse que parecia apagado fazia uns dois minutos, e ninguém tinha feito nada —todo mundo achava que era só mais umcara desmaiado de bêbado.

Júlio apenas observava, os olhos piscando lentamente, tentando reconstruir o que lhe contavam como se encaixasse peças de um que- bra-cabeça.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 97

—Quando a gente correu até você… —André hesitou um pouco —...tinha sangue. Umcorte na cabeça. Devia ter caído em cima de umcopo de vidro.

Rafael assentiu:

— Foi só então que as pessoas em volta se mexeram. Um monte de gente veio tentar ajudar. Chamaram a ambulância logo de- pois.

—E aí... —André deu um sorriso sem graça, tentando aliviar o peso do momento —...o caos começou. Quando eu disse que você era diabético, metade dos futuros médicos da festa surtou.

—Pense, Júlio —completou Rafael —, nossos futuros médi- cos começaram a bater cabeça. Metade disse que tinha que colocar açú- car na boca a todo custo, a outra metade sugeriu aplicar insulina rapida- mente.

Júlio, mesmo fraco, deixou escapar umriso baixo.

—No fim das contas —falou André —, foi o Rafael quem disse que o mais seguro era te levar pro hospital urgente. Falou que po- deria ser coma por descompensação da diabetes. Hidratação venosa, suporte —nada de ficar tentando resolver ali no improviso.

—E cá estamos —completou Rafael, olhando ao redor do

98 APena Azul

quarto com umsuspiro. —Por pouco você não deu umsusto maior. Osilêncio se instalou por alguns segundos. Não era constran-

gedor —era apenas o tempo necessário para que os três assimilassem o que tinha acontecido.

—Quanto tempo eu fiquei apagado? —Perguntou Júlio, com a voz rouca, ainda tentando entender tudo.

—Algumas horas só —respondeu André, com um tom leve, quase tentando amenizar a situação.

Aresposta pegou Júlio de surpresa. Aconversa comCecília... o jardim, a borboleta, o banco sob a árvore… tudo parecia ter durado pelo menos um dia inteiro. Sentia como se tivesse vivido uma eterni- dade em outra dimensão. A noção de tempo definitivamente havia se dissolvido ali.

— Ah… — André hesitou um pouco, lançando um olhar cúmplice para Rafael antes de continuar. —Tem outra coisa. Ligamos para os seus pais. Eles já estão vindo. Chegam no próximo voo, em algumas horas.

—Ai, não…—sussurrou Júlio, fechando os olhos e apoiando a cabeça de leve no travesseiro.

Essa doeu ainda mais em Júlio —agora teria que enfrentar a

Marcelo Rocha Nasser Hissa 99