situação. Teria que ouvir os longos sermões do pai, os olhares reprova- dores da mãe. Esse era o tipo de momento para o qual não se sentia nem umpouco preparado.

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Capítulo 16

Peso e Acolhimento

Júlio aguardava a tão temida chegada dos pais. Estava prestes a receber alta e, enquanto isso, pediu que o curativo da cabeça fosse

refeito. Não queria parecer mais debilitado do que de fato estava — menos por vaidade, mais para evitar o excesso de preocupação que sa- bia que viria no pacote.

Durante a troca da bandagem, percebeu pela primeira vez os cinco pontos na parte superior esquerda da testa, já bem perto da linha do couro cabeludo. Aenfermeira foi cuidadosa, mas ele não conseguiu evitar uma careta quando a gaze úmida tocou a pele machucada.

—Vai ficar só uma marquinha leve —comentou ela, com um sorriso que tentou ser reconfortante.

Júlio assentiu em silêncio,

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soltando umsuspiro que misturava alívio e cansaço. Pelo menos a cica- triz seria discreta.

O quarto, que momentos antes parecia um refúgio, agora se transformava numpalco de espera. Acada som de passos no corredor, seu coração acelerava umpouco mais. Imaginava a expressão do pai ao entrar —talvez mais contida, mas carregada de julgamento nos olhos. A mãe, ele sabia, viria com aquele olhar de dor que feria mais do que qualquer bronca.

Rafael e André já haviam se despedido. Disseram que era me- lhor deixá-lo com a família naquele momento.

—Vai dar tudo certo, irmão —disse Rafael antes de sair, com umleve aperto no ombro.

André, mais pragmático, apenas lançou um olhar cúmplice e desejou boa sorte. Nenhum dos dois queria estar por perto para teste- munhar o “fogo cruzado emocional” que estava prestes a começar. Poucos minutos depois, o celular vibrou com uma notificação

curta: “Já estamos no hospital. Indo pro seu quarto.”

Júlio sentiu o coração apertar. Levantou um pouco o encosto da cama e ajeitou os lençóis, como se isso pudesse suavizar o impacto da cena. Osom das passadas pelo corredor foi ficando mais distinto,

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até cessar bem diante da porta.

Ela se abriu devagar.

Seus pais entraram. Opai vinha à frente, com o semblante fe- chado e olhar severo, o mesmo de sempre. Uma expressão dura, mas que deixava transparecer um traço evidente de preocupação — como se a rigidez fosse apenas um escudo. A mãe apareceu logo atrás. Os olhos brilhantes não deixavam dúvida: ela já havia chorado no trajeto. Por um instante, ninguém disse nada. O pai lançou um olhar

rápido sobre o filho, como quem conferia se havia mais alguma lesão oculta. Amãe, sem resistir, avançou dois passos e oabraçou com força. Opai hesitou por umsegundo e, depois de ver o filho nos bra-

ços da esposa, se aproximou também. Passou a mão na cabeça do ga- roto com umgesto contido, mas sincero. Era o tipo de carinho que ele oferecia como quem entrega umpresente embrulhado em silêncio. Seu pai começou a falar assim que se sentaram. Avoz saía em

tom grave e contínuo, como se não houvesse espaço para interrupções —um fluxo de palavras represadas há tempos. Júlio, no entanto, não escutava tudo. Eracomose parte dele estivesse ausente —nãoem fuga, mas em suspensão. As palavras chegavam como fragmentos, soando como se viessem debaixo d’água:

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— “Responsabilidade... diabetes pode te matar... você não é mais criança... morando longe... não podemos ficar o tempo todo cui- dando de você...”

Enquanto ouvia as palavras que antes o irritavam ou entravam por um ouvido e saíam pelo outro, um sentimento novo —ou talvez esquecido —começou a nascer. Um calor discreto no peito, que não era raiva, nem vergonha. Era empatia.

Começou a imaginar seu pai recebendo o telefonema no meio da noite. A tensão no rosto ao comprar as passagens às pressas. O si- lêncio no voo, os olhos fixos na janela com pensamentos desordena- dos. Omedo, disfarçado em rigidez. Aangústia de ver o filho vulnerá- vel, novamente, por um motivo que tantas vezes ele já tentara alertar. Sensibilizava-se com as emoções do pai, e isso lhe permitia ver a situa- ção de forma mais profunda.

Júlio nunca tinha pensado por esse ângulo. Talvez fosse um vis- lumbre de maturidade, ou apenas o eco das palavras de Cecília ainda ressoando dentro dele. Mas, por uminstante, ele se viu no lugar do pai. “Como eu reagiria, se fosse meu filho naquele leito? ”

A culpa, que até então se manifestava como um peso difuso,

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tomou forma clara. Não era mais só o arrependimento por ter exage- rado. Era a dor de perceber o amor contido, frustrado, impotente — e, apesar de tudo, constante —que seu pai carregava por ele. Ador agora se tornava um indicador positivo de que Júlio estava iniciando o pro- cesso de se sintonizar com sua vida. Tentar bloquear aquele processo só o faria retornar com mais força em momentos posteriores.

Efoi aí que Júlio entendeu: aquela bronca, por mais repetitiva e dura que soasse, era uma expressão de cuidado. Uma forma de amar que ele começava, aos poucos, a decifrar.

As palavras continuavam ecoando na cabeça de Júlio quando, sem perceber, sentiu uma lágrima quente escorrer-lhe pelo rosto. Logo outra veio. Emais uma. Não eram lágrimas de revolta, nem de autopi- edade. Eram silenciosas, limpas, quase resignadas —comose, enfim, o peso estivesse encontrando uma saída.

Seu pai viu. Nomeio do discurso que entregava com tanta rigi- dez e convicção, viu a lágrima deslizar pela face do filho. E, por um instante… calou-se. Como se tivesse se esquecido da próxima frase. Comose o roteiro tivesse sido rasgado no meio por algo mais real.

—Júlio… —murmurou, a voz agora num tom mais baixo, desarmado. —Filho… o que aconteceu com você, meu menino?

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Foi a primeira vez em anos que o chamava assim. "Meu me- nino." Nãoo jovem médico. Nãoo estudante rebelde. Nãoo irrespon- sável. Apenas o filho desmparado.

A mãe de Júlio, que observava tudo em silêncio com os olhos já marejados, aproximou-se e oabraçou novamente. Umabraço calmo, protetor, comose tentasse juntar os pedaços que ofilho vinha tentando manter unidos sozinho há tanto tempo.

O pai respirou fundo e passou a mão trêmula nos cabelos já grisalhos. Sentou-se ao lado da cama e, agora com os olhos voltados para baixo, falou com uma sinceridade crua que Júlio jamais ouvira an- tes:

—Agente não sabe como lidar comisso tudo, filho… A gente erra também. Eu erro. Mas eu não te amo menos por isso… Só fico com medo. Um medo enorme de te perder. E, quando esse medo aperta, às vezes...

Sua mãe nada disse. E, ainda assim, disse tudo.

Oamor sublime de mãedespontava naquele momento, calado, semnecessidade de discursos. Bastava a presença, otoque, osolhos que diziam mais do que qualquer palavra. Júlio sentia aquilo com força —

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uma certeza que nascia no fundo do peito e aquecia até seus ossos can- sados: aquela mulher o amava desde sempre e para sempre.

Para ela, não havia desempenho a cumprir, notas a alcançar, gli- cemias a manter dentro de umalvo ideal. Para ela, não importava quan- tas vezes ele errasse, se desequilibrasse ou se perdesse —ele sempre seria seu filho. Sempre. Independente da situação. Daqueda. Do quarto de hospital. Dosangue na testa. Dodesmaio na pista de dança.

Ela apenas o segurava pela mão. Como o fizera quando ele aprendera a andar. Como talvez o fizesse, agora, para reaprender a ca- minhar de dentro para fora.

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Capítulo 17

A Reaproximação

Júlio aguardava a tão temida chegada dos pais. Estava prestes a receber alta e, enquanto isso, pediu que o curativo da cabeça fosse re-

feito. Não queria parecer mais debilitado do que de fato estava — me- nos por vaidade, mais para evitar o excesso de preocupação que sabia que viria no pacote.

Durante a troca da bandagem, percebeu pela primeira vez os cinco pontos na parte superior esquerda da testa, já bem perto da linha do couro cabeludo. Aenfermeira foi cuidadosa, mas ele não conseguiu evitar uma careta quando a gaze úmida tocou a pele machucada.

—Vai ficar só uma marquinha leve —comentou ela, com um sorriso que tentou ser reconfortante.

Júlio assentiu em silêncio, soltando um suspiro que misturava

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alívio e cansaço. Pelo menos a cicatriz seria discreta.

O quarto, que momentos antes parecia um refúgio, agora se transformava numpalco de espera. Acada som de passos no corredor, seu coração acelerava umpouco mais. Imaginava a expressão do pai ao entrar —talvez mais contida, mas carregada de julgamento nos olhos. A mãe, ele sabia, viria com aquele olhar de dor que feria mais do que qualquer bronca.

Rafael e André já haviam se despedido. Disseram que era me- lhor deixá-lo com a família naquele momento.

—Vai dar tudo certo, irmão —disse Rafael antes de sair, com umleve aperto no ombro.

André, mais pragmático, apenas lançou um olhar cúmplice e desejou boa sorte. Nenhum dos dois queria estar por perto para teste- munhar o “fogo cruzado emocional” que estava prestes a começar. Poucos minutos depois, o celular vibrou com uma notificação

curta: “Já estamos no hospital. Indo pro seu quarto.”

Júlio sentiu o coração apertar. Levantou um pouco o encosto da cama e ajeitou os lençóis, como se isso pudesse suavizar o impacto da cena. Osom das passadas pelo corredor foi ficando mais distinto, até cessar bem diante da porta.

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Ela se abriu devagar.

Seus pais entraram. Opai vinha à frente, com o semblante fe- chado e olhar severo, o mesmo de sempre. Uma expressão dura, mas que deixava transparecer um traço evidente de preocupação — como se a rigidez fosse apenas um escudo. A mãe apareceu logo atrás. Os olhos brilhantes não deixavam dúvida: ela já havia chorado no trajeto. Por um instante, ninguém disse nada. O pai lançou um olhar

rápido sobre o filho, como quem conferia se havia mais alguma lesão oculta. Amãe, sem resistir, avançou dois passos e oabraçou com força. Opai hesitou por umsegundo e, depois de ver o filho nos bra-

ços da esposa, se aproximou também. Passou a mão na cabeça do ga- roto com umgesto contido, mas sincero. Era o tipo de carinho que ele oferecia como quem entrega umpresente embrulhado em silêncio. Seu pai começou a falar assim que se sentaram. Avoz saía em

tom grave e contínuo, como se não houvesse espaço para interrupções —um fluxo de palavras represadas há tempos. Júlio, no entanto, não escutava tudo. Eracomose parte dele estivesse ausente —nãoem fuga, mas em suspensão. As palavras chegavam como fragmentos, soando como se viessem debaixo d’água:

— “Responsabilidade... diabetes pode te matar... você não é

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mais criança... morando longe... não podemos ficar o tempo todo cui- dando de você...”

Enquanto ouvia as palavras que antes o irritavam ou entravam por um ouvido e saíam pelo outro, um sentimento novo —ou talvez esquecido —começou a nascer. Um calor discreto no peito, que não era raiva, nem vergonha. Era empatia.

Começou a imaginar seu pai recebendo o telefonema no meio da noite. A tensão no rosto ao comprar as passagens às pressas. O si- lêncio no voo, os olhos fixos na janela com pensamentos desordena- dos. Omedo, disfarçado em rigidez. Aangústia de ver o filho vulnerá- vel, novamente, por um motivo que tantas vezes ele já tentara alertar. Sensibilizava-se com as emoções do pai, e isso lhe permitia ver a situa- ção de forma mais profunda.

Júlio nunca tinha pensado por esse ângulo. Talvez fosse um vis- lumbre de maturidade, ou apenas o eco das palavras de Cecília ainda ressoando dentro dele. Mas, por uminstante, ele se viu no lugar do pai. “Como eu reagiria, se fosse meu filho naquele leito? ”

A culpa, que até então se manifestava como um peso difuso, tomou forma clara. Não era mais só o arrependimento por ter exage- rado. Era a dor de perceber o amor contido, frustrado, impotente — e,

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apesar de tudo, constante —que seu pai carregava por ele. Ador agora se tornava um indicador positivo de que Júlio estava iniciando o pro- cesso de se sintonizar com sua vida. Tentar bloquear aquele processo só o faria retornar com mais força em momentos posteriores.

Efoi aí que Júlio entendeu: aquela bronca, por mais repetitiva e dura que soasse, era uma expressão de cuidado. Uma forma de amar que ele começava, aos poucos, a decifrar.

As palavras continuavam ecoando na cabeça de Júlio quando, sem perceber, sentiu uma lágrima quente escorrer-lhe pelo rosto. Logo outra veio. Emais uma. Não eram lágrimas de revolta, nem de autopi- edade. Eram silenciosas, limpas, quase resignadas —comose, enfim, o peso estivesse encontrando uma saída.

Seu pai viu. Nomeio do discurso que entregava com tanta rigi- dez e convicção, viu a lágrima deslizar pela face do filho. E, por um instante… calou-se. Como se tivesse se esquecido da próxima frase. Comose o roteiro tivesse sido rasgado no meio por algo mais real.

—Júlio… —murmurou, a voz agora num tom mais baixo, desarmado. —Filho… o que aconteceu com você, meu menino?

Foi a primeira vez em anos que o chamava assim. "Meu me-

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nino." Nãoo jovem médico. Nãoo estudante rebelde. Nãoo irrespon- sável. Apenas o filho desmparado.

A mãe de Júlio, que observava tudo em silêncio com os olhos já marejados, aproximou-se e oabraçou novamente. Umabraço calmo, protetor, comose tentasse juntar os pedaços que ofilho vinha tentando manter unidos sozinho há tanto tempo.

O pai respirou fundo e passou a mão trêmula nos cabelos já grisalhos. Sentou-se ao lado da cama e, agora com os olhos voltados para baixo, falou com uma sinceridade crua que Júlio jamais ouvira an- tes:

—Agente não sabe como lidar comisso tudo, filho… A gente erra também. Eu erro. Mas eu não te amo menos por isso… Só fico com medo. Um medo enorme de te perder. E, quando esse medo aperta, às vezes...

Sua mãe nada disse. E, ainda assim, disse tudo.

Oamor sublime de mãedespontava naquele momento, calado, semnecessidade de discursos. Bastava a presença, otoque, osolhos que diziam mais do que qualquer palavra. Júlio sentia aquilo com força — uma certeza que nascia no fundo do peito e aquecia até seus ossos can- sados: aquela mulher o amava desde sempre e para sempre.

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Para ela, não havia desempenho a cumprir, notas a alcançar, gli- cemias a manter dentro de umalvo ideal. Para ela, não importava quan- tas vezes ele errasse, se desequilibrasse ou se perdesse —ele sempre seria seu filho. Sempre. Independente da situação. Daqueda. Do quarto de hospital. Dosangue na testa. Dodesmaio na pista de dança.

Ela apenas o segurava pela mão. Como o fizera quando ele aprendera a andar. Como talvez o fizesse, agora, para reaprender a ca- minhar de dentro para fora.

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Capítulo 18

Virgínia

Dois dias após a partida dos pais, Júlio encontrava-se novamente no aeroporto. Desta vez, não era despedida, mas reencontro. Esperava

de pé, próximo ao portão de desembarque, o voo de Virgínia. E, mais uma vez, aquela conhecida mistura de ansiedade e apreensão tomava- lhe o peito.

Ocoração não batia com a leveza de quem reencontra alguém querido, mas com o peso de quem aguarda um veredito. Não sabia ao certo o que esperar daquela visita. Talvez alívio, talvez mais cobranças. Talvez reencontros, talvez despedidas.

Ainda assim, enxergava nos próximos dias uma oportunidade rara: olhar comclareza para orelacionamento, para os sentimentos reais que o uniam (ou não) a Virgínia.

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Após tudo que vivera nos últimos dias —o hospital, a conversa com Cecília, o reencontro com os pais, o novo esforço com os estudos — algo dentro dele começava a mudar. Agora, perguntava-se com mais honestidade: o que, de fato, queria manter emsua vida?

Aovê-la surgir pelo portão de desembarque, Júlio foi lembrado de parte dos motivos que o haviam levado a se envolver com Virgínia. Sua beleza era inegável —e estonteante.

Com seus vinte anos recém-completados, Virgínia era uma jo- vem de presença marcante. Loura, esguia, dizia com convicção medir 1,75 m, embora a fita métrica sugerisse algo mais próximo de 1,72 m. Tinha uma postura firme, quase altiva, e umolhar que mesclava astúcia com um charme que sabia usar a seu favor. Apele alva, sem tatuagens nemadereços além de umdiscreto par de brincos nos lóbulos, contras- tava com a estética carregada que marcava tantas de suas contemporâ- neas.

Quando o avistou, abriu um sorriso largo, daqueles que costu- mavamderreter resistências. MasJúlio, agora mais atento aos sinais sutis do mundo ao redor —e de si mesmo —percebeu algo a mais. Havia rigidez no corpo de Virgínia. Um leve tencionar dos ombros. Aquele sorriso, embora genuíno, parecia carregar algo não dito.

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Após os beijos e abraços do reencontro, seguiram até o ponto de táxi. Virgínia falava sem parar —sobre o voo, a comida do aero- porto, os planos para os próximos dias —com aquele entusiasmo ha- bitual que Júlio conhecia tão bem. Ele sorria, assentia, reagia nos mo- mentos certos. Tudo como antes.

E, ainda assim, em algum ponto ali dentro, uma discreta sensa- ção de desalinho começava a se formar. Nada claro, nada definido e nem incômodo. Era mais como uma nota dissonante emuma melodia familiar. Algo não batia exatamente como antes, mas ele não saberia dizer o quê. Talvez fosse apenas o cansaço, talvez orecente susto ainda reverberando no corpo e na mente.

Virgínia, por outro lado, parecia intacta. Asmesmas expressões, os mesmos gestos, as mesmas certezas sobre como as coisas deveriam ser. Não havia se afastado dele —pelo contrário, parecia ainda mais presente. MasJúlio, mesmosemperceber conscientemente, já não ocu- pava o mesmo lugar de antes.

No táxi, ela entrelaçou os dedos aos dele e apoiou a cabeça em seu ombro. Ele correspondeu, sem esforço. Era confortável, conhe- cido. Mas, porumafração de segundo, pensouse aquele conforto vinha do afeto ou apenas do hábito.

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Logo descartou o pensamento. Era só o começo da visita. Tudo estava bem. Talvez estivesse apenas mais sensível do que o nor- mal. Talvez nem fosse nada.

A semana seguinte transcorreu estranhamente bem. Virgínia, com rara compreensão, respeitou o tempo que Júlio precisava para es- tudar, e ele soube aproveitar o silêncio produtivo que isso lhe proporci- onava. Apresença dela era, de certo modo, reconfortante —um lem- brete de normalidade em meio a tantas mudanças internas que ele mal compreendia.

Ainda assim, algo se movia em seu íntimo. Era como se, silen- ciosamente, ele estivesse se tornando outra pessoa, e Virgínia, embora a mesma de sempre, já não habitasse a mesma frequência que ele co- meçava a acessar. Assuntos que antes os faziam rir juntos agora soavam superficiais. Comentários que antes passavamdespercebidos agora cau- savam umincômodo sutil. Eessa distância, embora imperceptível para ela, crescia devagar dentro dele.

Virgínia, que por tanto tempo fora seu porto seguro, agora pa- recia uma estrela distante —ainda visível, ainda brilhando, mas já sem calor. EJúlio, embora cercado de presença, sentia nascer uma sensação discreta de solidão. Não era tristeza, tampouco mágoa, mas um vácuo

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suave, um intervalo entre o que ele era e o que começava, aos poucos, a se tornar. Estava entrando emseu casulo?

Mesmo assim, Júlio manteve o relacionamento intacto. Parte dele acreditava que aquela mudança interior fosse apenas uma fase, fruto do susto recente, da crise, das reflexões passageiras. Não desejava, em seu âmago, retornar aos velhos padrões —mas tampouco sabia o que construir no lugar deles. E, em meio a esse terreno indefinido, Vir- gínia representava estabilidade, afeto antigo, memórias felizes. Talvez ainda houvesse espaço para os dois.

Tão focado estava com as provas finais que mal encontrava tempo para se entregar àqueles pensamentos perturbadores. Preferiu deixá-los repousar emalgum canto silencioso da mente. Quando enfim chegou o dia das provas, sentiu uma libertação genuína —não apenas por encerrá-las, mas pela certeza de que os estudos tinham valido a pena.

Mas a calmaria durou pouco. Um novo convite para a última festa do ano foi lançado, e, mais uma vez, Júlio se viu sem saída. Rafael e André, espertos, usarama velha tática: primeiro convenceram Virgínia —e, com ela a bordo, sabiam que a resistência de Júlio duraria pouco. Ele aceitou, não exatamente entusiasmado, mas sem forças para negar.

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Capítulo 19

O Barulho e o Silêncio

Foram ao mesmobar de sempre —o tradicional ponto de en- contro para celebrar o fim das provas. Mas, desta vez, Júlio mantinha

firme a promessa feita a si mesmo: não beberia uma gota, cuidaria da alimentação e aplicaria a insulina corretamente. Virgínia, satisfeita com a sobriedade dele, limitava-se a alguns goles discretos, talvez se sentindo mais confortável com aquele novo equilíbrio.

Logo ao entrar no bar, uma leve náusea tomou conta de Júlio. Nãoera física —era algo mais sutil, comose o corpo reconhecesse um lugar do qual a mente ainda tentava se afastar. A lembrança dos seres acinzentados de seu sonho ainda pairava em algum canto da memória, como um eco sombrio. Havia algo naquela atmosfera que parecia fora

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de compasso —uma vibração dissonante que contrastava com o es- tado interior que vinha cultivando nos últimos dias.

Prometeu, silenciosamente, que ao chegar em casa retomaria a meditação que já havia abandonado —apesar de ter jurado que faria dela umhábito diário. Sentia que precisava se reencontrar, se limpar da- quilo que, mesmo sem querer, talvez absorvesse ali.

Enquanto observava ao redor, Júlio começou a perceber um padrão de comportamento quase ritualístico entre os presentes: mesas abarrotadas, copos erguidos como troféus de um vazio celebrado, gar- galhadas altas, beijos apressados e lascivos, posturas agressivas aqui e ali, e outros gestos simplesmente patéticos. Era como se todos estivessem presos a uma coreografia automatizada de fuga e prazer momentâneo. Foi então que seu olhar recaiu sobre Rafael e André. Com suas respectivas namoradas, seguiam aquele mesmo roteiro repetido. Júlio os conhecia bem—mas, agora, os via comoutros olhos. Pela primeira vez, envergonhou-se ao perceber quantas vezes fora ele oator principal daquele teatro. Quantas vezes vestira aquele papel de forma tão natural, sem notar o quanto estava distante de si mesmo.

Não permaneceram por muito tempo. Após cerca de quarenta

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minutos, Júlio e Virgínia se levantaram, desculpando-se coma justifica- tiva de que precisariam acordar cedo para ir ao aeroporto na manhã seguinte. Rafael e André protestaram, tentando demovê-los, mas Júlio manteve-se irredutível.

Ao deixar o bar, um sentimento discreto, porém firme, conso- lidava-se em seu peito. Por mais que já tivesse amado aquele ambiente, por mais que ali houvesse acumulado memórias marcantes, agora com- preendia: aquele ciclo precisava ser encerrado. Era como abandonar uma casa onde já não se reconhece o próprio reflexo nos espelhos. Decidira, com um silêncio interno sereno, que deixaria o uni-

verso lhe apontar novoscaminhos—trilhas que oreconduzissem à sua essência, esquecida ao longo dos últimos anos. E, desta vez, estava dis- posto a escutar.

Virgínia mostrava-se satisfeita com o novo comportamento de Júlio —sóbrio, contido, mais centrado. E, embora não dissesse nada explicitamente, ele pressentia, nos gestos e nos olhares, um certo orgu- lho silencioso. Comose, no íntimo, ela atribuísse a si mesma os méritos por aquela transformação.

No entanto, Júlio sabia que as mudanças pelas quais passava vinham de um lugar mais profundo. Percebia, com certa tristeza, que

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Virgínia não compreendia a natureza dos processos internos que o atra- vessavam. Suas inquietações, seus silêncios, suas buscas pareciam invi- síveis para ela —como se falassem línguas diferentes em um mesmo idioma.

— Julim, vamos logo para cama... tô morrendo de sono. E amanhã a gente tem que acordar cedíssimo para pegar o voo — disse Virgínia, já recolhendo os cabelos num coque desleixado, os olhos se- micerrados de cansaço.

—Vi... podeir na frente. Temumacoisa que preciso fazer antes —respondeu Júlio, evitando o olhar dela.

—Uma coisa? Aessa hora? —Perguntou ela, arqueando uma sobrancelha com leve desconfiança. —Que tipo de armação você tá aprontando agora, hein, Julim?

—Nada disso —ele sorriu de lado, quase tímido. —Ésó algo que eu... preciso fazer. Sozinho.

—Ah, é? Agora que não me convence mesmo. O que é que você está escondendo de mim? —Insistiu, já cruzando os braços. Júlio hesitou. Baixou os olhos por um instante e respondeu

com voz baixa, como quem revela umsegredo envergonhado: —Eu... preciso meditar.

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—Meditar?! —Ela piscou algumas vezes, surpresa. — Desde quando você medita?

—Nãofaz tanto tempoassim... —respondeu ele, comum leve encolher de ombros. —Mas tem me feito bem. Me ajuda a acalmar a cabeça, sabe?

Virgínia pareceu não compreender completamente, mas tam- pouco queria discutir. Suspirou, comumcansaço resignado, e sorriu de leve:

—Está certo. Pode ir. Só não demora muito, viu? —Prometo que não. Boa noite, Vi.

Ela acenou coma cabeça eseguiu para oquarto, enquanto Júlio respirava fundo, sentindo o silêncio da casa envolver-lhe os pensamen- tos.

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Capítulo 20

Silêncio Dentro do Silêncio

Júlio decidiu que, naquela noite, faria diferente. Durante sua prática meditativa, não buscaria nada —não desejaria orientação, alívio,

tampouco respostas. Não pensaria na diabetes, nos pais, nos estudos ou em Cecília. Pela primeira vez, não invocaria ajuda espiritual nem se voltaria para dentro de si com expectativas. Apenas... observaria. Dei- xaria que a mente fizesse o que sempre faz, e ele, desta vez, seria apenas testemunha.

Sentou-se no chão do quarto, as costas eretas encostadas na pa- rede fria, os olhos fechados. A respiração profunda parecia ecoar em umespaço maior do que seu próprio corpo.

Nãofoi fácil. Pensamentos aleatórios invadiam sua consciência: Será que acertei a questão sobre

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insuficiência cardíaca na prova de hoje? Oque exatamente Virgínia es- pera de mim? Estou mesmo mudando ou apenas fugindo de quem sou?

Outros pensamentos, mais sutis, mais profundos, não vinham como palavras, mas como sensações: um aperto no peito ao lembrar do olhar preocupado do pai, umasaudade difícil de nomear da infância, umavontade inexplicável de chorar semmotivo. E, mesmoassim, Júlio permanecia quieto, firme na intenção de não controlar nada.

Ele apenas observava. E, aos poucos, algo curioso começou a acontecer: os pensamentos vinham, mas não o arrastavam. Passavam como nuvens. Permanecia ali, umpouco mais livre do que antes. Naquele breve esilencioso momento,Júlio percebeu que o sim-

ples ato de estar presente já era, por si só, um tipo de resposta. E por- ventura fosse o início de um novo tipo de escuta —mais profunda, mais honesta, mais real.

Como tempo, começou a experimentar algo novo. Um estado sutil de distanciamento entre o que sentia e quem o observava sentir. Era como se, por instantes fugidios, conseguisse se afastar o suficiente de si mesmo para assistir, de longe, à movimentação caótica de suas emoções e pensamentos.

126 APena Azul

Durante esses raros lampejos, percebia que ele não era aquilo que sentia, mas alguém que assistia àquilo. Uma consciência silenciosa, imóvel, que apenas via passar o medo, a ansiedade, o julgamento. Era estranho —mas libertador.

Contudo, esses momentos de clareza vinham como flashes — rápidos demais para se firmarem. Logo, comose puxado por uma maré forte, era tragado de volta ao torvelinho de sentimentos. Angústia, dor, vergonha. Observava a si mesmo e, naquela contemplação ainda ima- tura, via uma criatura que não o agradava. Não se reconhecia... ou pior: se reconhecia demais —e isso o machucava profundamente.

Não havia ali nenhuma euforia espiritual, nenhuma iluminação repentina. Apenas o peso de estar presente, como alguém que decide olhar no espelho sem filtrar o reflexo. Mas, mesmo nesse incômodo, havia algo diferente. Um tipo de coragem. E assim ansiava que fosse esse o primeiro passo real no caminho da transformação. Não a fuga, nema promessa de mudança —masa disposição de olhar, mesmo que doesse, para quem se é agora.

Então, repentinamente, emmeio ao silêncio rarefeito da mente que começava a se aquietar, Júlio ouviu.

Marcelo Rocha Nasser Hissa 127

Uma voz suave, sem origem aparente, mas estranhamente fa- miliar — Cecília.

Ela não falava comoalguém presente ao lado, tampouco como uma lembrança do passado. Era mais como umpensamento com vida própria, ou uma intuição sussurrada por dentro.

"Você não é seus pensamentos ou emoções..."

A frase se repetiu, quase como um mantra, com um ritmo calmo e compassado.

"Você não é seus pensamentos ou emoções..."

Júlio nãosoube dizer se aquilo era real, umalembrança, ou fruto de sua própria imaginação. Mas também não importava. Aquelas pala- vras não vinham para serem analisadas —vinham para ser sentidas. E, no breve instante em que as escutou, algo em seu peito pareceu se afrouxar.

Júlio sentiu-se aliviado ao fim da meditação. Uma leveza rara repousava agora sobre seu peito, como se tivesse deixado um peso in- visível no caminho. Levantou-se devagar, como quem não queria es- pantar aquele estado de calma. Trocou de roupa em silêncio e cami- nhou até o quarto.

Virgínia já dormia, coma respiração ritmadadequemestá alheia

128 APena Azul

ao mundo ao redor. Júlio deitou-se ao seu lado sem fazer barulho, co- briu-se e fechou os olhos. Sentia-se grato, embora não soubesse exata- mente a quem. Talvez a Cecília. Talvez a si mesmo.

Amanhã voltaria para casa. E talvez, no meio da rotina e das obrigações, pudesse guardar umpoucodaquela quietude que começava a reconhecer como necessária.

Não apenas a casa dos pais, não apenas a cidade natal. Mas um lugar mais íntimo, mais profundo. Um lar interior que começava, aos poucos, a ser lembrado.

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Capítulo 21

Entre Ondas e o Vazio

As férias corriam de forma relativamente tranquila. Depois da intensidade dos últimos meses, sentia que aquele tempo de pausa lhe

era mais do que merecido —era necessário.

Orgulhava-se de ter passado pelas festas de fim de ano com os níveis de glicose bemcontrolados, mesmodiante da abundância de co- midas e bebidas típicas da época. Pela primeira vez, parecia realmente entender a importância de cuidar de si —não apenas como uma obri- gação médica, mas como umgesto de respeito próprio.

Com o início de um novo ano letivo ainda distante no hori- zonte, estabeleceu umarotina simples, quase terapêutica: praia pela ma- nhã, leitura à tarde e reencontros com velhos amigos ao cair da noite, sempre acompanhado por Virgínia.

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Foi à beira-mar, contudo, que Júlio encontrou algo a mais. Des- cobriu que a prática da meditação ao som das ondas e sob o sopro constante da brisa marítima surtia um efeito profundamente restaura- dor. Ali, sentado na areia úmida, de olhos fechados, conseguia aquietar o fluxo de pensamentos como nunca antes.

Apesar da serenidade aparente, uma pequena nódoa se escon- dia emseu espírito. Noinício, era quase imperceptível —um incômodo sutil, facilmente ignorado entre as ondas do mar e as distrações das fé- rias. Mas, aos poucos, esse ponto escuro foi crescendo. Incomodava mais a cada dia, como uma coceira na alma para a qual não se encontra explicação.

Ele não saberia nomear exatamente o que sentia, tampouco como resolver aquilo. Mas sabia que havia algo. Umaespécie de vazio, umacrise existencial difusa, comose nãoestivesse cumprindoum papel que, emalgum nível profundo, sabia que deveria desempenhar. Lutava para que a confusão não se transformasse em angústia,

e que a angústia não transbordasse empânico. Questionava-se com fre- quência desconfortável:

"Quem sou eu?"

"Oque vim fazer aqui?"

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Tentava não se deixar capturar pela armadilha de tornar essas perguntas uma obsessão, mas elas retornavam. Sempre retornavam. Ossilêncios dameditaçãoofereciam umalívio momentâneo —

como um bálsamo temporário —, mas não resolviam, de forma defi- nitiva, aquilo que pulsava por trás do seu peito. Era como se estivesse diante de uma porta trancada, sentindo, do outro lado, algo essencial que ainda não sabia nomear.

Não ajudava o fato de Virgínia demandar cada vez mais aten- ção. Júlio compreendia —com empatia genuína —que a namorada desejava aproveitar ao máximo aquele mês juntos, antes de voltarem à rotina de cidades separadas pelos próximos seis meses. Mas, ainda as- sim, algo dentro dele se remexia.

Orelacionamento, que antes era umporto seguro, agora come- çava a incomodá-lo de forma sutil, porém constante. Sentia-se como se estivesse sendo afastado do silêncio necessário —aquele silêncio que permite ouvir a própria alma. Era nesse espaço interior que ele intuía estarem escondidas as possíveis explicações para suas angústias mais profundas.

Mas, coma presença constante, as conversas repetidas e os con- vites para distrações diárias, ele sentia-se impedido de acessar esse lugar

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de quietude. Não era culpa de Virgínia, ele sabia. Mas também não po- dia mais ignorar que o relacionamento começava a ocupar um espaço que ele desejava reservar ao seu despertar.

Sem esse espaço, percebia que não conseguia exercer a paciên- cia. Não sabia mais esperar pelas pausas que o universo, com sua sabe- doria silenciosa, oferecia como oportunidades de aprendizado. Era como se estivesse constantemente impedido de escutar o sussurro da vida entre os ruídos do cotidiano.

Enquanto isso, praticava silenciosamente o teste da fé — não aquela fé confortável, embalada pela certeza, mas a fé na escuridão, aquela que caminha sem ver o chão, sustentada apenas pela esperança de que há umsentido além do que os olhos podem alcançar. Aprendia, pouco a pouco, a trocar o "Que Deus faça o que eu desejo" pelo mais maduro "Que Deus faça o que é certo."

Testava sua resiliência diante da inquietação, mesmo sem saber exatamente o que buscava. Começava, no entanto, a perceber que algo emsi já nãocabia mais —e que velhos padrões, pormais familiares que fossem, precisariam ser deixados para trás. Ocasulo, afinal, não acom- panha a borboleta emseu voo.

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Pensava comfrequência emCecília. Desejava umnovo encon- tro, uma palavra, um sinal. Mas o silêncio era absoluto. Por vezes, sen- tia-se abandonado —até magoado. Tinha a sensação de que seus cha- mados não estavam sendo ouvidos —ou, pior, estavam sendo ignora- dos.

E mesmo assim, algo dentro dele o impelia a continuar, como se o silêncio, denso e cheio de sentidos, fosse a linguagem secreta do destino

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Capítulo 22

Fim de um Ciclo

Faltando dez dias para o fim das férias, Júlio iniciou sua conta- gem regressiva. Decidiu que, ao menos nesse período restante, medita-

ria duas vezes ao dia —pela manhã e à noite.

Firmara umcompromisso silencioso consigo mesmo: abraçaria a singularidade de seu novo eu, ainda que isso exigisse romper antigos laços. Compreendia agora que a jornada embarcada nesta orbe era, acima de tudo, sobre si mesmo.

A partir dali, escolheria cercar-se apenas de espíritos afins. Al- mas capazes de lhe oferecer alimento espiritual verdadeiro, nutrindo a fome interior que por tanto tempo ignorara. Se fosse necessário aban- donar antigas conexões para abrir umportal rumo a uma nova fase, ele o faria — não como fuga, mas

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como reconexão.

Júlio marcou um encontro com Virgínia em um restaurante próximo de sua casa. Olocal, raramente escolhido por eles para encon- tros, acendeu umalerta silencioso emVirgínia. Apesar de mantê-lo sob omesmotomcarinhoso de sempre, havia algo diferente emsua postura —como se, inconscientemente, ela também pressentisse o que estava por vir.

Sorria, fazia perguntas, mas seus olhos vagavam com frequên- cia. Seus gestos pareciam mais comedidos, suas palavras medidas. Era como se, por trás da cortina de afetos habituais, também desejasse — ainda que sem admitir —o mesmo desfecho que se desenhava no co- ração do namorado.

Júlio respirou fundo antes de falar. Manteve o olhar firme, mas gentil, nos olhos de Virgínia.

—Euprecisava te encontrar hoje porquenãoqueromais fingir. Nem para você, nem para mim. Gosto muito de você, de verdade..., mas não te amo. E acho que não vou conseguir te amar como você merece.

Virgínia abaixou os olhos, como se confirmasse silenciosa- mente algo que já intuía. Depois de alguns segundos, respondeu com

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honestidade:

—Euimaginei. Nessas férias... tentei mereconectar com você, tentei reviver o que a gente teve. Mas me senti exausta, Júlio. Cansada de insistir em algo que parece existir só porque temos medo de largar. – Falou com uma voz fraca e chorosa.

Ele assentiu, tocado pela franqueza dela.

—Aúltima coisa que eu queria era te ferir.

Ela tentou esboçar umsorriso triste, masas lágrimas lhe traíram. — Eu sei. E talvez por isso eu também me enganava. No

fundo, acho que os dois sabiam. Só faltava coragem para dizer em voz alta.

—Obrigado por dizer isso —murmurou ele.

—A gente se cuidou do jeito que deu, Júlio. Agora cada um precisa cuidar de si.

Por um instante, o silêncio entre os dois pareceu acolhedor. Não havia raiva. Só a aceitação comovente do fim de um ciclo.

Apesar do clima aquiescente em que o fim do relacionamento ocorreu, não foi um encerramento isento de dor. Ambos sentiam o peso da despedida. A zona de conforto onde haviam se abrigado du- rante tanto tempo era difícil de abandonar. Sabiam que sentiriam falta

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umdooutro —das ligações despreocupadas, das palavras de afeto, dos abraços que acolhiam e dos beijos que selavam a intimidade construída. Júlio, no entanto, fez uma escolha consciente: não fugiria da

dor. Sabia que silenciá-la seria apenas adiá-la, guardando-a num canto escuro onde, inevitavelmente, ela cresceria e retornaria mais intensa. Aochegar emcasa, permitiu-se sentir. Sentou-se sozinho e cho-

rou. Umchoro longo, sem pressa, que não buscava consolo imediato. Deixou que as lágrimas corressem livres, não como sinal de fraqueza, mas como ferramentas de limpeza, abrindo espaço para uma compre- ensão mais profunda de si mesmo. Experimentava algo dentro dele ser refeito —ainda em silêncio, mas com sinceridade.

Percebia agora que havia avançado alguns passos em direção a algo maior. Era como atravessar uma porta que, uma vez aberta, não poderia mais ser fechada. Seu antigo eu —com suas certezas frágeis e padrões repetidos —havia ficado irremediavelmente para trás. Não ha- via retorno. Mas, ainda que esse avanço fosse real, também era claro que a caminhada estava apenas começando. Uma longa estrada se des- cortinava à sua frente, cheia de perguntas ainda semresposta, mas agora com uma disposição diferente para enfrentá-las.

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Capítulo 23

Portas Entreabertas

Um novo ano letivo estava prestes a começar. O campus ga- nhava vida novamente com passos apressados, abraços nostálgicos e

vozes cruzadas pelos corredores. Como de costume, os veteranos or- ganizavam a tradicional festa de reencontro —aquela celebração baru- lhenta, carregada de promessas de um ano mais leve, euforia etílica e risadas sem filtro. Mas Júlio não compareceu.

Nãoquedeixasse deter saudade dosamigos. Nutria-a, sim. Mas aquela energia, antes tão familiar, agora lhe parecia estranha. Não havia mais prazer na repetição de velhos hábitos. Existia, sim, um chamado interior, quase como uma bússola sutil apontando para outro tipo de celebração: a da autenticidade, da escuta profunda, do caminho com propósito.

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Ainda assim, nem tudo era clareza. Embora tivesse certeza de que fizera o certo ao encerrar seu relacionamento, o vazio deixado por sua ausência ainda latejava em certos momentos. Não era arrependi- mento —era luto. Umluto discreto pela vida que não viveriam juntos, pelos planos que agora repousavam como cacos de vidro sob o tapete da memória. Ele sabia que não a amava como deveria, mas isso não impedia que sentisse falta da presença dela, das conversas cotidianas, dos gestos automáticos de carinho.

Era como tirar um anel usado por muito tempo: mesmo sa- bendo que não servia mais, o dedo ainda levava dias para esquecer o contorno. E mesmo com essa dor discreta alojada no peito, escolheu seguir. Sabia que há dores que, se acolhidas com verdade, acabam se tornando solo fértil. Por isso, aceitou o recolhimento em vez do baru- lho, a solitude emvez da multidão. Econfiava —ou ao menos tentava confiar —que oUniverso, emsua dança invisível, traria os sinais certos quando fosse a hora.

Estava decidido: procuraria Deus. Alimentava a esperança de que, ao encontrá-Lo, as respostas que o inquietavam viriam junto. Ou, ao menos, a paz para viver sem todas elas.

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Ainda se perdia, em pensamentos vagos, na pergunta que eco- ava como um sussurro de Cecília em sua mente: “Lembre-se de quem você é.”. Às vezes, a frase surgia no meio dos estudos; outras, durante uma caminhada solitária. E mesmo sem compreendê-la plenamente, entendia que havia ali umaverdade esperando para ser desvelada. Sentia que lembrar-se de quem era poderia ser mais importante do que desco- brir qualquer coisa nova.

Rafael costumava ir à missa todos os domingos. Júlio, embora católico de origem —como costumava dizer, “católico de protocolo: batizado, primeira eucaristia, crismado” —, não pisava numa igreja ha- via anos. Quando o fazia, era por algum evento familiar, casamento ou missa de sétimo dia. Afé que umdia habitou sua infância agora dormia sob camadas de ceticismo e distração.

Foi num domingo que decidiu acompanhar o amigo à missa. Gostou da atmosfera: havia uma paz discreta no ar, umtipo de silêncio carregado de reverência. O sermão o surpreendeu —o padre falava comclareza e atualidade, como se realmente dialogasse comos dilemas da juventude. Sentiu-se acolhido, mas não tocado. Quinze dias depois, retornou, esperançoso de encontrar algo mais. Noentanto, a repetição

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dos rituais e o tom protocolar da celebração soaram enfadonhos. Ad- mirava sinceramente aqueles que pareciam se nutrir daquele momento com devoção genuína, mas não conseguiu conexão da mesma forma. Era como se estivesse na frequência errada para aquela linguagem do sagrado.

Teve ainda a oportunidade de visitar umculto evangélico, con- vidado por um colega de classe. Foi com a mente aberta, curioso pelo que poderia encontrar. A abordagem mais direta e moderna agradou num primeiro momento. Havia uma energia viva, intensa — quase contagiante. Mas, conforme oculto avançava, Júlio sentiu certo descon- forto. Tudo parecia umpouco exagerado, como se as emoções fossem intensificadas até perderem a naturalidade. Emalguns momentos, che- goua perceber umtomdesúplica, comoumanegociação como divino. Não voltou. Percebeu que também não era ali que encontraria a chave para as respostas que tanto buscava.

Tentou, por fim, se aprofundar no espiritismo. Havia uma casa espírita a apenas duas quadras de onde morava, e o cartaz na entrada anunciava cursos e palestras semanais. Ao adentrar aquele espaço pela primeira vez, sentiu uma energia acolhedora, como um abraço silenci- oso. Havia ali uma paz promissora. Assistiu a algumas palestras e se

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surpreendeu com a profundidade das mensagens —sempre voltadas para o autoconhecimento, a caridade e o desenvolvimento espiritual. Era uma abordagem completamente diferente de tudo que já ouvira. Apesar de ter simpatizado e sentido umaenergia genuinamente acolhedora naquele espaço, Júlio não se deixou levar por rótulos ou convenções. Percebia afinidade com a proposta de evolução interior, mas evitava se declarar seguidor de qualquer doutrina. Intuía que, mais importante do que o nome do caminho, era a transformação que ele provocava. Decidiu, então, que sua fé não habitaria templos fixos, nem exigiria uma carteirinha espiritual. Oque buscava era essência, não per- tencimento. Talvez por isso tenha deixado de frequentar o centro pouco tempo depois, guardando, porém, tudo o que sentiu ali como algo precioso.

Emsuas tentativas de achar Deus, lhe fizeram crer que Ele era mais esquivo do que imaginava. Ainda assim, decidiu manter a fé mesmo em meio à névoa. Curiosamente, eram justamente os momen- tos difíceis que mais o aproximavam de uma dimensão mais profunda do divino. Passou a entender que a busca infrutífera por Deus não era umcastigo por sua antiga negligência espiritual, masuma oportunidade —uma lapidação silenciosa de suas crenças, preparando-o para o que

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ainda viria. Recusava-se a ceder à acomodação ou ao pessimismo. Pre- feria ver a ausência de respostas comoparte docaminho, não como seu fim.

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Capítulo 24

Aprendendo a Agradecer

Agora, Júlio estava decidido: não buscaria mais Deus em cultos religiosos nem emigrejas físicas. Compreendia que, para ele, a fé talvez

não estivesse entre paredes, mas entre pensamentos. Intuia que sua jor- nada era mais interna do que institucional.

Alimentava uma esperança quase inocente — ou profunda- mente madura —de que, se insistisse no silêncio certo, Cecília um dia retornaria. Talvez, se permanecesse fiel à escuta interior, o jardim vol- tasse a se abrir. Sonhava com aquele reencontro com uma ansiedade calma, como quem espera uma primavera inevitável.

Criou, então, um pequeno ritual: todas as noites, sentava-se à escrivaninha e preenchia umbloco de notas com perguntas. Eram dú- vidas sinceras, de um buscador

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que não se satisfaz com respostas prontas. Ali, rabiscava inquietações, reflexões —até mesmo silêncios em forma de palavras. Era como se preparasse o solo para uma semente invisível —uma ponte entre ele e Cecília, entre ele e algo maior.

Curiosamente, a cada novameditação, Júlio sentia sua presença. Nãoera explícita —não havia vozes nemimagens nítidas —,mas uma sensação serena e calorosa, comoosorriso de alguém que vela por você de longe. Como se Cecília estivesse ali, ao seu lado, silenciosa, obser- vando-o com ternura maternal. Ainda assim, nenhum diálogo se inici- ava, nenhumjardim se abria, nenhumtransporte para outro plano ocor- ria.

E, mesmo diante desse silêncio, Júlio não se deixava levar por frustração ouressentimento. Pelo contrário —havia algo naquele vazio que oconfortava. Passou a ansiar por esse silêncio comoquem aguarda otoque de umvento conhecido. Cada sessão meditativa tornava-se um abrigo, umpontodeancoragem, umespaço ondesuaalma, aos poucos, voltava a caber em si.

Foi então que, por intuição —ou talvez por uma sutil sugestão soprada do invisível —, decidiu que, ao fim de cada prática, faria uma prece. Nãoumaoração decorada, maspalavras simples, sinceras, vindas

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do coração. Algo que selasse aquele instante sagrado, mesmoque o céu não lhe devolvesse respostas claras. Porque, afinal, o que ele buscava já começava a florescer dentro de si.

Inicialmente, aquelas preces improvisadas eram recheadas de pedidos. Pedidos para si mesmo—saúde, resiliência, paciência, clareza. Às vezes, até mesmo ajuda financeira, quando as contas apertavam ou os medos sobre o futuro se tornavam maiores do que o bom senso podia conter. Eram súplicas tímidas, mas sinceras. Ainda buscava em Deus a mão que resolvesse, que fizesse por ele o que não sabia como fazer.

Mas o tempo —silencioso como Cecília —foi remodelando sua maneira de orar. Semque percebesse, otomdas preces mudava. As súplicas por si mesmotornaram-se menos frequentes. Oego, que antes ocupava o centro do altar, começava a ceder espaço. E, aos poucos, suas orações passaram a se expandir.

Passou a rezar pelos outros. Pelos pacientes que atendia na clí- nica-escola, cujos olhos traziam mais dor do que o corpo ousava mos- trar. Rezava pelas mães exaustas, pelos idosos solitários, pelos jovens feridos em alma. Pedia paz para os que estavam nos hospitais, para os esquecidos das ruas, para os invisíveis das calçadas e dos manicômios.

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E, semalarde, incluía tambémos amigos da faculdade —Rafael, André e tantos outros que o acompanharam em diferentes momentos da jor- nada. Entendia que, embora suas rotas estivessem se afastando, havia afeto genuíno. Desejava que encontrassem equilíbrio, clareza e alegria verdadeira. Rezava também para que eles, a seu modo, fossem tocados pela centelha do despertar. Pedidos que, mais do que palavras lançadas ao céu, eram sementes lançadas no próprio coração.

Comotempo —semanas que se tornaram meses — começou a criar uma pequena lista de nomes. Anotava com cuidado aqueles que lhe tocavam de modomais profundo. Alguns pacientes que havia aten- dido umaúnica vez; outros que voltavam comfrequência. Lentamente, aquela lista crescia. E, com ela, crescia também a compaixão. Cada nome era uma história, uma esperança, uma dor. Ao final de cada me- ditação, Júlio pegava o caderno ao lado do altar improvisado e lia, um por um, como se cada nome tivesse o poder de ecoar no silêncio do universo.

Ali, naquela prática solitária e silenciosa, Júlio descobria algo novo: que orar tambémera amar. Eque para amar bastava apenas lem- brar que o outro existe. Desejar, profundamente, que ele fique bem. Com o passar do tempo, suas preces deixaram de ser apenas

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súplicas. Os pedidos, antes protagonistas, começaram a dividir espaço comalgo novo—outalvez antigo, masaté então esquecido: a gratidão. Sem perceber, passou a iniciar e encerrar cada oração com um “obrigado”. Às vezes, agradecia por tudo. Outras vezes, por nada em especial. Agradecia apenas por estar ali, presente. Por estar vivo. Pelo ar que entrava em seus pulmões com facilidade, pela manhã de sol que atravessava as frestas da janela, pelo silêncio que o abraçava ao fim de cada meditação.

Agradecia pela jornada até ali, pelas alegrias e pelas quedas. Agradecia por tudo que aprendera —e, principalmente, por tudo que errara. Pois foramos tropeços quehaviamesculpido sua almacom mais profundidade. Começava a compreender que era justamente naquilo que chamava de ‘imperfeição’ que residia sua humanidade —e, por um paradoxo divino, também sua maior aproximação de Deus.

Até mesmoa diabetes —aquela antiga inimiga que antes amal- diçoava em segredo —passou a ser incluída em suas orações de agra- decimento. Já não a via apenas como umfardo, mas como parte essen- cial da sua história. Algo que o conduzia ao autoconhecimento, à disci- plina, à empatia pelos que tambémenfrentavam suas batalhas invisíveis. Júlio compreendia, enfim,quegratidão nãoera apenasum gesto

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