dehumildade—era umato deconfiança. Ummodosilencioso de dizer ao Universo: “Euaceito.” E, nesse aceitar, sem se dar conta, caminhava cada vez mais emdireção ao que buscava desde o início: paz.
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A
Capítulo 25
Ritmo de Luz
vida de Júlio agora se organizava em uma rotina da qual rara-
mente se desviava. Dividia seus dias entre as aulas teóricas da faculdade, os atendimentos práticos no hospital-escola, momentos de estudo ao fim da tarde, umahora deatividade física e, por fim, meditação e oração. Passou também a valorizar profundamente o sono — já não o via como tempo perdido, mas comoparte essencial de seu equilíbrio. Dor- mia bem, e isso se refletia em sua disposição e clareza mental.
Essa nova estrutura diária oferecia um duplo benefício: manti- nha-o alinhado com sua busca interior e o afastava das tentações recor- rentes do passado.
Noinício, Rafael e Andréainda insistiam comconvites para fes- tas e saídas noturnas. Mas Júlio,
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comdelicadeza e firmeza, aprendeu a dizer “não” —não apenas a eles, mas a tudo que não contribuía para seu crescimento. Estabeleceu limi- tes saudáveis, e isso o libertou.
Éverdade que, numprimeiro momento, seus amigos mais pró- ximos se ressentiram de sua reclusão. Mas, com o tempo, passaram a respeitar —e até a compreender —suas escolhas. Júlio, por sua vez, observava com uma satisfação silenciosa que tanto Rafael quanto An- dré, pouco a pouco, também começavam a adotar hábitos mais equili- brados e uma vida menos desregrada. Certa manhã, inclusive, surpre- endeu André sentado na varanda, de olhos fechados, emsilêncio abso- luto. Não quis interromper. Apenas sorriu, em reconhecimento.
Se era influência sua ou o efeito natural da maturidade que o curso de medicina inevitavelmente impunha, pouco importava. O re- sultado, por si só, já era umsinal de que algo bomestava se espalhando. Júlio agora exalava um amor calmo, silencioso e não julgador.
Não sentia mais necessidade de convencer ninguém de nada, nem de criticar os caminhos alheios. Seu foco estava em melhorar a si mesmo —e essa transformação interior irradiava, naturalmente, para os outros. Tornara-se uma presença acolhedora — alguém em quem se podia confiar, mesmo em silêncio.
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Com o coração mais leve, começou a se aproximar de novos colegas. Curiosamente, eram justamente aqueles que antes ele rotulava como "nerds" ou, de forma pejorativa, como “anti-sociais”, por rara- mente comparecerem às festas da turma. Percebia agora oquanto esses julgamentos eram superficiais —reflexos de umJúlio antigo que já não cabia mais emsua nova versão. Esses colegas, sempre mais introspecti- vos, revelavam-se pessoas sensíveis, inteligentes e profundamente hu- manas —e com eles Júlio encontrou o tipo de convivência e de con- versa que sua alma agora buscava.
Foi nesse novociclo que conheceu melhor Alessandra, uma co- lega de sala com quem já havia dividido algumas tarefas acadêmicas. Alessandra tinha uma serenidade contagiante, uma postura discreta e umolhar firme e curioso. Aconexão entre os dois surgiu devagar, sem promessas grandiosas, apenas como o florescer natural de duas almas que começavam a se reconhecer.
Outro efeito colateral —e dos mais bem-vindos —da mu- dança de postura de Júlio foi oimpacto direto emseu desempenho aca- dêmico. Com a constância nos estudos diários, percebeu que as maté- rias já não se acumulavam como antes. A ansiedade das vésperas de prova dava lugar a uma tranquilidade construída com disciplina e foco.
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Já não mais precisaria sacrificar os preciosos quinze dias de férias para “recuperar o tempo perdido”.
Aofinal de cada dia, Júlio não estava apenas vencendo os desa- fios do curso de medicina —estava, sobretudo, aprendendo a cuidar de si. Abraçou sua jornada contínua com paciência e autocompaixão, entendendo que ocrescimento verdadeiro não acontece aos saltos, mas no ritmo silencioso da persistência e da fé. Cada nova experiência era umpresente que recebia.
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Capítulo 26
Lição Silenciosa
Os anos na faculdade passaram mais rápido do que Júlio podia imaginar. Agora, já em seu último ano, sentia-se mais inteiro do que
nunca. Orelacionamento com Alessandra havia se solidificado. Ela era paciente, compreensiva e respeitava os silêncios —aqueles momentos emque ele se ausentava para dentro de si. Brincava com leveza sobre a diabetes dele, dizendo que se especializaria em endocrinologia só para tê-lo como paciente.
—Desculpa, Ale, mas não troco o Dr. Marcos por ninguém —respondia ele, com umsorriso sincero.
Foi então que se deu conta de que estava há muito tempo sem uma consulta. Com responsabilidade, agendou um retorno para dali a três meses.
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A diabetes ocupava cada vez menos um espaço ativo na vida de Júlio, tornando-se algo mais "passivo" —umaspecto presente, mas não dominante. Ele buscava manter uma zona de sensatez quanto ao seu controle e, com o tempo, passou a sentir que a verdadeira força vinha da calma —uma calma interior, cada vez mais inabalável. Não lógica, mas quase irracional —um ato de fé. Mesmo diante dos even- tuais picos ou das quedas ocasionais de glicose, decidiu firmemente: "A diabetes não me dominará."
Essa serenidade não o tornava indiferente, mas o renovava. A confiança restaurava suas forças, ampliava sua energia para enfrentar os desafios, e lhe dava umaconvicção de invencibilidade. Sentia-se, enfim, imbatível —não por ausência de fraquezas, mas por ter feito as pazes com Deus e acreditar em seus propósitos maiores.
Certa noite, durante uma meditação mais profunda, lembrou- se da conversa que tivera com Cecília sobre o motivo de ter diabetes. Ecoava em sua mente aquela frase que antes lhe parecera enigmática, mas que agora começava a fazer sentido:
“Porque você pediu. ”
Entendia, com mais clareza, que esse "pedido espiritual" não era umamaldição, masuminstrumento de evolução. Talvez um pedido
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feito emummomento de sabedoria maior —comoumaescolha silen- ciosa. Deus o havia atendido. Não como castigo, mas como resposta compassiva a uma alma que desejava crescer. E Ele, em sua sabedoria silenciosa, jamais confia ao ombro humano umfardo maior do que sua alma pode suportar.
Um novo significado se abria diante de si. Omais curioso era perceber que toda a cadeia de acontecimentos que o levara à transfor- mação começara justamente comodescontrole da glicose. Perguntava- se: onde estaria hoje, se não fosse pela diabetes?
Ela era, afinal, umlembrete constante de que precisava se escu- tar. Um lembrete de que seu corpo era sagrado. Que sua saúde era o termômetro de sua alma. E que, no seu caso, o autocuidado era um caminho legítimo de espiritualidade prática.
Começou a entender que as experiências difíceis, aquelas que vibravam em frequências mais densas, não eram interrupções em sua trajetória espiritual, mas parte dela. Eram convites para descer às pro- fundezas de si mesmo e, com um novo olhar, reconhecer os aspectos que antes eram ignorados ou temidos. As dores não vinham para puni- lo, mas para revelar partes ocultas que pediam acolhimento e luz.
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Cada descida emocional, se enfrentada com consciência, tor- nava-se uma chance de renovação. Era como mergulhar em águas tur- vas e emergir, aos poucos, mais limpo, mais inteiro. Avida não seguia umalinha reta, massim umaespiral ascendente —onde mesmoos dias sombrios contribuíam para um amadurecimento invisível, porém con- tínuo.
Talvez o ego sofresse nesses momentos —e sofresse muito. Mas a alma, silenciosamente, celebrava. Porque a dor obrigava o orgu- lho a se calar, e nesse silêncio emergia a verdade. Não a verdade dos livros ou das doutrinas, mas aquela que brota de dentro e, umavez sen- tida, jamais pode ser esquecida.
“A diabetes é minha mestra silenciosa”, pensou.
“Ela não me impede de viver. Me ensina a viver. ”
Nãofoi semansiedade que Júlio aguardou a consulta como Dr. Marcos. Sentia-se tão ávido por esse reencontro que decidiu fazer uma breve viagem até sua cidade natal, só para garantir que a consulta fosse presencial —queria uma conversa de verdade, olhos nos olhos, sem a mediação de uma tela. Depois de tantos anos e de tantas transforma- ções internas, desejava mais do que um ajuste na dosagem de insulina. Aquele encontro poderia selar simbolicamente uma fase da sua vida —
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e abrir caminho para outra.
Umdia antes da consulta, embarcou para casa. Apesar da bre- vidade da visita, seus pais ficaram radiantes coma surpresa. No entanto, estranharam o motivo da viagem repentina:
— Mas como está sua glicose? — Perguntou o pai, visivel- mente preocupado.
— Está sentindo alguma coisa, meu filho? —Completou a mãe, com o olhar atento.
Júlio achou curioso como os três haviam construído, ao longo dos anos, uma espécie de cultura em que “ir ao médico” era sinônimo de “estar com problemas”.
—Calma, mãe —respondeu, sorrindo com leveza. — Estou indo porque quero apenas conferir minhas taxas. Mesinto muito bem. Quero apenas evitar surpresas desagradáveis no futuro.
Decidiu que, dessa vez, iria sozinho ao consultório médico — decisão que não foi aceita sem protestos da mãe.
—Meu filho, eu sempre o acompanhei. O que você está es- condendo de mim?
—Nada, mãe —respondeu Júlio, achando graça. —Eujá sou adulto. Pega mal chegar a toda consulta acompanhado. Eopróprio Dr.
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Marcos sempre disse que você precisava medar mais independência no manejo da diabetes.
A mãe, ainda aflita, acabou concordando com os argumentos. Mas, no fundo, sabia —com aquele instinto silencioso que só mães têm —que overdadeiro motivo para a ida solitária era outro. Júlio que- ria, mais do que qualquer coisa, provar a si mesmo que já era plena- mente capaz de cuidar da própria saúde e tomar, comfirmeza, as rédeas de sua vida.
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Capítulo 27
Na Sala de Espera
Júlio chegou mais cedo do que o horário agendado para a con- sulta. Tão cedo que nem mesmo o próprio Dr. Marcos havia chegado.
Ainda assim, era o terceiro na fila de espera.
A secretária o atendeu com uma cordialidade acima do espe- rado:
—Olá, Júlio! Quanto tempo não o vejo por aqui.
—Éque agora estou morando em outra cidade — respondeu ele, com um sorriso.
—O Dr. Marcos comentou isso. E como só ele controla as consultas online, nós aqui da recepção nem sabíamos que você estava sendo atendido.
— Dessa vez, decidi por
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uma consulta presencial. As online, às vezes, parecem frias... distantes. Estou muito ansioso por essa.
—Concordo, Júlio —disse ela, e então se inclinou levemente para frente, baixando o tom com cumplicidade: —E, segredo entre nós... o Dr. Marcos tem falado em você ultimamente. Vez ou outra pergunta se você já agendou uma nova consulta. Quando soube que você tinha marcado sua fisionomia até melhorou, ficou mais animado. Parece que ele está tão ansioso quanto você. Chegou até a desmarcar alguns pacientes hoje para ter mais tempo.
Uma luz suave se acendeu no íntimo de Júlio. Um calor dis- creto, porém, profundo. Afinal de contas, parecia que Dr. Marcos não o tinha esquecido e ainda o fez se sentir mais especial.
Apósresolver as pendências burocráticas coma secretária, Júlio foi sentar-se na familiar sala de espera. Apesar de uma mudança aqui, umnovo móvel ali, tudo continuava exatamente igual desde a primeira vez em que estivera ali. Como aquelas paredes tinham histórias para contar.
Lembrou-se das incontáveis vezes em que esperou naquele mesmolugar, sempre acompanhado pelos pais. Muitas vezes viera con-
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trariado, tomado pela raiva; outras, mergulhado em tristeza ou decep- ção. Aapatia também já marcara presença.
Contudo, agora era diferente. Era uma rara situação em que se sentia animado. Sentia que, enfim, fizera as pazes com a diabetes. Por ter decidido viver em harmonia com ela, o peso sufocante que aquelas paredes já haviam exercido sobre seu ser agora se traduzia em leveza. Enquanto aguardava a chegada do médico, reparou em uma
criança com aproximadamente doze anos de idade —quase a mesma idade que tinha quando recebeu seu diagnóstico. Acriança parecia can- sada e magra, e os olhares aflitos dos pais —dolorosamente semelhan- tes aos de seus, tantas vezes naquela mesma sala —acionaram de ime- diato oalarme clínico emJúlio. Provavelmente, ali estava umcaso muito semelhante ao dele, mais de uma década atrás.
Sentiu-se impelido a falar com os pais da criança. Queria com- partilhar suas experiências, oferecer palavras de consolo, explicar que o início era difícil, masque, comotempo, tudo se tornava mais manejável —que o medo cedia espaço à rotina, e que o desespero do agora um dia se tornaria apenas uma lembrança distante. Mas desistiu.
Primeiro, porqueconfiava plenamentequeDr. Marcosfaria um trabalho melhor do que ele —fora assim consigo. Segundo, porque
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sabia que esse tipo de aprendizado demandava tempo. A curva era longa. Olhando para si mesmo, reconhecia que até bem recentemente também se encontrava em um estado tão precário de entendimento quanto aqueles pais cuidadosos. Nadasubstituía a experiência adquirida pela própria vivência. Oque variava de pessoa para pessoa era apenas a velocidade da assimilação —conforme o grau de aceitação das lições ofertadas pela vida.
Aoinvés de orientar, optou por rezar. Rezou para que, naquele núcleo familiar, as lições —quaisquer que fossem — encontrassem umaacolhida mais rápida, mais gentil, mais amorosa do que ele mesmo se permitira. Que houvesse amparo, paciência e fé suficientes para que aquela história começasse já com passos de esperança.
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Capítulo 28
Testemunhas do Mesmo Caminho
Ooutro paciente queaguardava na sala deespera Júlio já conhecia daquele mesmoambiente. Seunomeera Rogério, etantas vezes haviam dividido tempo e conversas ali. Rogério era cerca de cinco anos mais velho, mas naquele momento parecia ter vinte a mais.
Alto, sempre fora magro, mas agora uma saliência abdominal endurecida, denunciava uma vida com poucas regras. Ocabelo, antes volumoso e preto, apresentava agora uma coloração prateada, com as entradas típicas do envelhecimento masculino. Os olhos fundos e can- sados sob óculos de grossas lentes também indicavam que noites de sono bem dormidas não faziam parte de sua rotina.
Ao notar a presença de Júlio, Rogério abriu um largo sorriso e o cumprimentou:
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—Júlio! Quanto tempo, cara! Quase que eu não te vejo mais. Por onde você andou?
Júlio sentiu, naquele instante, o peso da própria ausência na- quele consultório ao longo dos anos.
—Estou indo bem. Agora que moro em outra cidade tenho tido dificuldades de manter minha assiduidade. Evocê Rogério, como você está?
—Também estive bem ausente —riu Rogério. — Voltando hoje depois de quatro anos sem consulta nenhuma! Eu e minha “di- aba”. —Disse Rogério, referindo-se “carinhosamente” à diabetes Aquilo assustou Júlio. Quatro anos era uma eternidade sem acompanhamento médico. E, a não ser que o paciente fosse extrema- mente disciplinado comsua condição —oque, visivelmente, não era o caso de Rogério —, aquela ausência poderia já estar cobrando seu preço.
—Estive umtempo afastado também —minimizou Júlio. — Aglicemia oscilava aqui eali, masrecentementetenho conseguido man- ter bons níveis.
—Pois a minha diaba não me deixa em paz. Desisti de ficar
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monitorando os níveis. Aquilo só me trazia sofrimento. Resolvi voltar ao Dr. Marcos porque mal estou conseguindo enxergar com o olho esquerdo, e o direito já aumentou três graus só no último ano. Minha urina está cheia de espuma, e sinto dormência na sola dos pés. Parece que estou com o “pacote completo” da diaba.
Com “pacote completo”, Rogério provavelmente se referia ao fato de que a diabetes já estava afetando seus olhos, seus rins eos nervos dos pés e das pernas. Umcenário que despertava de Júlio só de ouvir. Menos mal de não ter desencadeado uminfarto ou acidente cerebral. —Mas é assim mesmo —disse Rogério, com um sorriso re- signado —, a vida é rápida demais para a gente ficar se demorando na diabetes. Temos que aproveitar.
Quantas vezes, Júlio pensou, havia se encontrado naquele mesmo labirinto de possibilidades e fascinação —só para escolher a curva errada e voltar ao mesmoponto de partida dosofrimento. Agora, sentia-se imensamente grato por, enfim, estar escolhendo os caminhos que mais lhe pareciam conduzir à uma saída segura e salubre.
—Rogério, eutambémjá estive bemdescontrolado — respon- deu com empatia —, mas de uns tempos para cá consegui manter a diabetes nos eixos. E olha que nem foi com um grande esforço. Se a
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gente muda pequenas formas de contemplar a vida, muitas soluções aparecem quase espontaneamente.
—Júlio, com meus olhos do jeito que estão, eu não consigo contemplar é mais nada — retrucou Rogério, reforçando a palavra "contemplar".
Júlio sorriu com ternura:
—Não se desespere, amigo. Minhas melhores contemplações foram de olhos fechados. O importante é deixar o passado onde ele está e tentar viver o presente da melhor forma possível. Respeitando seus limites e responsabilidades.
Osolhos de Rogério brilharam comumacentelha quase imper- ceptível. O silêncio que se seguiu denunciava que ele havia absorvido profundamente o que fora dito.
Nesse momento, Dr. Marcos entrou na sala de espera e cum- primentou a todos com seu habitual sorriso acolhedor. Chamou Rogé- rio para ser atendido.
—Foi um prazer "quase te ver", Júlio. —Brincou Rogério, fazendo referência bem-humorada à própria dificuldade de visão.
Júlio sentiu umleve pesar pelo estado doantigo conhecido, mas
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também uma esperança. Tinha a sensação de que, naquela breve con- versa, havia conseguido lançar uma semente de luz. Se Rogério deci- disse regá-la, talvez o prognóstico da diabetes se tornasse menos som- brio.
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Capítulo 29
A Consulta
Dr. Marcos o recebeu com um sorriso largo e um caloroso abraço. Afrieza protocolar da última consulta parecia ter sido substitu-
ída por uma admiração genuína. Afinal, ali estava aquele jovem que ele vira ainda adolescente, agora prestes a se formar médico. Conversaram longamente. Falaram dos níveis glicêmicos, sim,
mas também sobre a vida social de Júlio, suas realizações na clínica-es- cola, os planos para o futuro, os receios com a nova fase que se avizi- nhava. Haviaumaleveza noar, comose aquele encontro marcasse mais do que uma revisão de exames —era quase umrito de passagem. Depois de ouvir atentamente, Dr. Marcos pediu os exames
mais recentes. Com os papéis em mãos, ajustou os óculos e analisou com cuidado.
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Aofolhear cada página —repleta de números que faziam mais sentido para omédicodoque para opaciente —oolhar de Dr. Marcos, que começara comuma leitura desconfiada, foi lentamente se transfor- mando em surpresa. Entre umexame e outro, soltava pequenos suspi- ros que Júlio não conseguia decifrar —seriam de admiração ou de de- cepção?
Lia uma página, voltava à anterior como quem precisava con- firmar um dado inesperado. Avançava para outra, comparava resulta- dos, fazia anotações cuidadosas noprontuário. Aqueles minutosde ava- liação pareceram eternos para Júlio.
Ele sempre foi o tipo de paciente que preferia não abrir os exa- mesantes da consulta. Confiava mais noolhar clínico doque na própria interpretação —não por ignorância, mas por receio. Acreditava que vinha se cuidando melhor. Quehavia conquistado mais consciência so- bre o corpo, sobre as escolhas e os próprios limites.
Mas... será que tinha sido suficiente? Ese todo aquele otimismo silencioso fosse drenado por valores laboratoriais desconcertantes? Se- ria capaz de lidar com mais umrevés? Teria forças para atravessar mais essa barreira?
Dr. Marcos interrompeu a leitura dos exames e o encarou com
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umsemblante atento:
—Eas dores nas pernas? Continuam?
Júlio franziu o cenho, surpreso. Levou alguns segundos antes de responder.
—Doutor… acho que… elas sumiram.
Foi só então que se deu conta: já fazia semanas —talvez meses —que não sentia mais aquela queimação persistente, nem os formiga- mentos noturnos, nem a dormência incômoda ao acordar. As pernas, antes umlembrete diário da negligência, agora estavam silenciosas. Mas não era umsilêncio de alerta. Era umsilêncio de paz.
Aquela constatação, tão simples eobjetiva, tocou Júlio de forma profunda. Mais do que os números no papel, era o próprio corpo di- zendo:
“Eu senti o que você fez por mim.”
Naquele instante, não havia mais dúvida: a mudança não era só de atitude — era também de resultado. Seu corpo começava, final- mente, a devolver com gratidão os cuidados que vinha recebendo.
—Vejo que você evoluiu muito no controle da diabetes — disse Dr. Marcos, comumbrilho noolhar. —Você não imagina como
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fico feliz por cada paciente que consegue atingir esse nível de equilíbrio. —É, doutor… muita coisa mudou desde a nossa última con-
sulta —respondeu Júlio, com umsorriso aliviado.
—Fica bem perceptível essa mudança. Você parece mais cen- trado. Mais inteiro.
Júlio respirou fundo antes de continuar:
—Antes, eu vivia emfunção da dor da perda: a perda da diver- são que achava não poder mais ter, das comidas que acreditava estarem proibidas, da liberdade que pensava ter perdido com as injeções diárias. Eumedefinia pela diabetes… comose ela fosse minhaidentidade. Mas algo mudou quando comecei a enxergar meu valor além da doença. Quando encontrei umponto de apoio dentro de mim, tudo ficou mais fácil. Agora que encontrei meu eu… só me resta fortalecê-lo. E, com isso, o controle da diabetes deixou de ser umpeso. Passou a ser apenas parte do caminho.
Dr. Marcos manteve o silêncio por alguns segundos, absor- vendo aquelas palavras. Sentia que, à sua frente, não estava apenas um paciente —mas umhomem desperto.
—Você agora virou a própria árvore que se segurou durante a tempestade… —disse, com umtom quase poético.
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Júlio assentiu, os olhos calmos e firmes:
—Já não me ancoro mais em elementos externos. A raiz está em mim.
Dr. Marcos sorriu, comovido. Sabia que aquele encontro não era apenas uma consulta. Era uma espécie de círculo que se fechava — e outro que, discretamente, se abria. Muito satisfeito com o que via, di- gitou algumas poucas anotações e concluiu, sorrindo:
—Acho que podemos remarcar sua próxima consulta só para daqui a um ano.
Júlio arregalou levemente os olhos, surpreso.
—Um ano?
—Sim. Você provou que está no controle —e mais do que isso, está em paz com o processo. Quando o paciente encontra esse equilíbrio, meu papel vira mais de espectador do que de guia. É claro, se precisar antes, estarei sempre aqui. Mas confio que tudo ficará bem. Júlio assentiu emsilêncio. Aquela confiança partilhada, vinda de alguém que acompanhou suas primeiras quedas e seus tropeços mais profundos, tinha um peso especial. A consulta não havia sido apenas umencontro médico, masummarcosimbólico de sua jornada. Saía dali não só com exames em dia, mas com a certeza de que sua caminhada
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estava no rumo certo.
AntesqueJúlio se levantasse, Dr.Marcosse recostou levemente na cadeira, como quem ainda tinha algo importante a dizer.
—Júlio... —começou, como olhar sereno —preciso me des- culpar. Naquelanossa última consulta, fui maisfrio doquedevia. Estava num daqueles dias em que deixamos o peso do trabalho interferir no que mais importa: o cuidado humano. Evocê não merecia aquilo. Júlio sorriu com gentileza, sem pressa para responder.
—Não tem do que se desculpar, doutor. Na verdade... aquela consulta foi um sinal. Eu precisava de um choque de realidade. De al- guma forma, sua atitude, mesmo sem querer, me fez perceber que era hora de mudar. Foi ali que minha jornada recomeçou. Então... eu é que agradeço.
Osdois trocaram umolhar sincero —daqueles que dispensam mais palavras. Dr. Marcos assentiu, tocado. E então, com a leveza de quem sabe que cumpriu bem seu papel, concluiu:
— Nos vemos daqui a um ano, Júlio. E, sinceramente, mal posso esperar para ver até onde você ainda vai chegar.
Júlio saiu do consultório comocoração empaz. Aetapa estava encerrada —mas sua estrada, ainda longe do fim.
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Capítulo 30
Velha Amiga
Asemana de Júlio e sua turma prometia ser intensa. Era a última semana do curso —dias marcados por despedidas, ensaios, formalida-
des e uma avalanche de emoções. Já sabia que seria difícil manter sua rotina habitual de meditação e oração.
Contudo, naquela que seria sua semana derradeira como estu- dante, decidiu que faria pelo menos uma meditação —mas faria valer. Ao invés dos habituais trinta minutos, reservou noventa. Queria silen- ciar por completo, observar sem pressa, agradecer com profundidade. Seria sua forma de honrar o encerramento de uma era.
Na manhã, levantou mais cedo, antes mesmo de o sol despon- tar com seus rubros raios. Sentou-se no canto do quarto, envolto pela penumbraepela expectativa deummomentoespecial. Respirou fundo.
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Estava pronto. Dessa vez, não usaria música, nem técnicas de relaxa- mento guiadas. Seria apenas ele... e o leve sussurrar da própria respira- ção. Nenhuma expectativa. Nenhum pedido. Apenas presença. Sentou-se emsilêncio, permitindo que otempo se diluísse. Aos poucos, os pensamentos vieram —e ele os acolheu, como velhos co- nhecidos que passavam pela sala apenas para serem vistos. Nãose agar- rou a nenhum. Não os afastou. Apenas os observou.
Passado algum tempo, sua mente foi se aquietando. As pergun- tas que antes o atormentavam —sobre o sentido da vida, seu propó- sito, a razão de sua condição —pareciam menos urgentes. Como se, naquele instante, a necessidade de saber se dissolvesse na simples expe- riência de ser.
Quando o vazio enfim acomodou-se em seu âmago, Júlio rela- xou e abriu os olhos.
Mas não estava mais no quarto. Estava novamente naquele jar- dim —o mesmo jardim de outrora, onde as flores pareciam respirar, e o céu tinha uma tonalidade que nenhuma paleta humana conseguiria reproduzir. Ao seu lado, Cecília sorria com ternura.
Sem pensar, Júlio a abraçou, apertado, como quem reencontra uma parte perdida de si mesmo. As lágrimas vieram antes das palavras.
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—Por onde esteve esse tempo todo?
—Eununca saí do seu lado —respondeu ela com serenidade. —Mas por que nunca mais conversamos? Por que me deixou
tão sozinho? Por que não me aconselhou, não me orientou? Cecília o olhou nos olhos com doçura e respondeu:
—Porque apenas os enfermos precisam de intervenção mé- dica.
Júlio hesitou, ofegante:
—Mas eu estive doente esse tempo todo… mal sei como so- brevivi.
Ela então pousou a mão sobre o peito dele, suave como brisa, firme como verdade:
—Ecá estamos nós —respondeu Cecília com umbrilho nos olhos, como quem sabe mais do que diz.
Júlio enxugou discretamente os olhos, tentando conter a emo- ção. Ainda sentia umnó na garganta.
— Achei que você tinha me abandonado — confessou. — Achei que nunca mais fosse te ver.
Ela oobservou poruminstante antes deresponder, sem pressa: —Ambos sabemos que sempre estive aqui.
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Ele não soube o que dizer. Apenas deixou as palavras ecoarem, como se carregassem mais do que seu sentido aparente.
—Mas eu estava... perdido —murmurou, quase comose con- fessasse a si mesmo.
Ela então olhou para o jardim, deixando o silêncio preencher o espaço com leveza, e comentou com suavidade:
—Até as sementes, quando estão prestes a florescer, parecem perdidas sob a terra.
Júlio não sabia exatamente quando havia mudado, mas agora sentia que algo dentro dele se acomodava de forma diferente. As pala- vras de Cecília —aquelas que antes pareciam enigmas —agora rever- beravam com clareza, como se fossem partes de uma linguagem que, aos poucos, havia aprendido a escutar. Não se tratava de entender raci- onalmente, mas de reconhecer por dentro. Como se a mensagem ti- vesse finalmente sido assimilada emsua verdadeira essência.
Cecília não falou mais nada. Nemprecisava. Júlio também per- maneceu em silêncio, mas seu coração pulsava em paz —como se, finalmente, houvesse parado de procurar com os olhos e começado a enxergar com o espírito.
A brisa leve balançava as folhas ao redor e, pela primeira vez,
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ele não quis decifrar o significado de tudo. Bastava sentir. Naquela qui- etude partilhada, compreendeu que há verdades que não se dizem — apenas se habitam.
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Capítulo 31
Reencontro com a Fonte
Foi Cecília quem rompeu o silêncio:
—Júlio, você está preparado para se lembrar de quem real- mente é.
—Sinto que sempre estive..., masnão tinha coragem de desco- brir.
—Então feche os olhos, me dê as mãos... e apenas sinta.
Júlio obedeceu. E, na escuridão dos olhos cerrados, começou a enxergar. Viu-se como o Júlio de alguns anos atrás — inconsequente, fatalista, enredado na vitimização da própria condição. Umser perdido em si mesmo. Avisão era dolorosa. Ador crescia lenta, porém inexo- rável, subindo do estômago em forma de náusea, encobrindo-o com
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umdesconforto quase insuportável.
Quando a dor pareceu prestes a transbordar, uma onda o atin- giu desúbito. Umatorrente de compaixão—porsi mesmo.Uma com- paixão tão intensa que lhe percorreu a espinha com calafrios e, quase sem transição, converteu-se em amor. Um amor inabalável, vasto, in- descritível. Umamorporsi, porseus amigos, sua família, seus pacientes, por estranhos nas ruas, por todos —até mesmo pelas entidades som- brias que umdia o apavoraram.
Era umamor tão profundo que não pedia explicações, não exi- gia condições —apenas pulsava dentro dele com uma força avassala- dora, clamando para ser vivido. Júlio não conseguiu conter: as lágrimas jorraram de seus olhos com a força de um rio represado, escorrendo livres, quentes, quase sagradas. Seu peito arfava, como se o corpo pre- cisasse reaprender a respirar emmeio àquelas visões. Nãoera um amor passivo, contemplativo. Era umamor que doía de tão vasto, de tão ab- soluto. Um amor que exigia transbordar. Um amor que não bastava sentir —precisava ser partilhado, atuado, encarnado. Umamorque im- plorava ação. Ação pelo bem. Pelo outro. Pelo todo.
Júlio enfim compreendia, com a alma escancarada, o que era o amor de Deus por cada criatura. Um amor absoluto, indivisível, que
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nãoexclui ninguém. Ninguémjamais foi, éouserá esquecido. Deus está com todos —sempre esteve, sempre estará.
Nada existe fora de Deus. Tudo vibra Nele e por Ele.
Aqueles que se sentem perdidos, abandonados, despedaçados, sofrem apenas por terem se esquecido da verdade mais essencial de to- das:
—Eu sou uma centelha de Deus — gritou.
Não adianta procurá-Lo apenas fora: em igrejas, cultos, tem- plos, paisagens, oceanos ou estrelas. Tudo isso pode refletir Sua pre- sença, mas Deus está mais perto do que qualquer dessas coisas.
Tão próximo… que se confunde com aquilo que somos.
Júlio compreendeu, com a clareza cortante de uma revelação, que Deus nunca esteve distante. Estava em cada inspiração, em cada gesto silencioso de ternura, em cada escolha que se faz com amor. Es- tava em si mesmo —no fundo de sua consciência, no centro de seu coração. Tão próximo que a busca externa parecia, agora, quase uma distração.
As lágrimas ainda corriam pelo seu rosto, mas agora não eram de dor, nem de arrependimento —eram de reencontro. Reencontro com a verdade mais simples e ao mesmo tempo mais escondida:
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—Deus está aqui.
—Eu sou parte Dele.
—Sempre fui.
Ao final do processo, Júlio estava completamente esgotado — exaurido até oúltimo fio de energia. Nãohavia mais forças para se man- ter em pé. Deitou-se ali mesmo, sobre o chão úmido e acolhedor. Vi- rou-se de lado e, num gesto instintivo de proteção e entrega, recolheu as pernas contra o tórax, como um feto em busca de abrigo. Sentia a brisa suave balançar seus cabelos como dedos maternos.
Era como uma criança que, depois de um longo pranto, re- pousa no colo da mãe e encontra conforto nos afagos silenciosos.
Osolo sob seu corpo parecia pulsar umaternura antiga. O con- solo da Mãe-Terra —vindo daquele contato direto com o chão — lhe dizia, sem palavras, que tudo sempre esteve bem. Esempre estaria.
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Capítulo 32
O Desvelar do Eu
Júlio acordou estremecido da meditação. As bochechas ainda úmidas de lágrimas, os olhos vermelhos. Olhou para o relógio: haviam
se passado cinco horas desde oinício daprática. Mesmoque já estivesse acostumado coma ideia de que, durante as meditações, o tempo perdia qualquer lógica —o que por vezes parecia durar horas não passava de poucos minutos —, dessa vez o oposto havia acontecido: mergulhara tão fundo que nempercebeu a longa travessia silenciosa. Ocorpo agora pedia repouso, mas a alma ainda vibrava em um silêncio denso e reve- rente. No dia seguinte, seus pais chegariam para as festividades, e ele desejava recebê-los com o coração inteiro e presente.
Enquanto caminhava devagar até a cama, um pensamento in- sistente se formava com clareza
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inédita: a iluminação não era uma conquista acumulativa, mas um esva- ziamento. Não se tratava de aprender algo novo, e sim de despojar-se das ilusões, uma a uma, até que nada mais restasse além do que sempre esteve ali —o Eu essencial. A verdade não precisava ser construída, mas desvelada.
Começava a entender comoa sociedade havia condicionado os seres humanos a buscarem fora o que só poderia ser reconhecido den- tro. Omundo fazia acreditar que cada ser era apena uma criatura mol- dada por umsistema material, que deve obedecer, servir, se conformar. Mas essa visão oprimia a alma. Era preciso transcender o sistema — e não apenas reformá-lo por dentro. Desapegar-se da ilusão da materiali- dade e retreinar a mente com afirmações que o reconectassem ao seu Eureal. Confiar no processo, sem ansiar por métodos ou atalhos. Ape- nas viver —com corpo, mente e alma —o agora. E, acima de tudo, tomar consciência da própria escuridão interior, pois somente reconhe- cendo-a poderia acolher e integrar a luz.
Percebia que os verdadeiros faróis da humanidade nunca quise- ram ser adorados, mas sim espelhos. Apontavam para o divino que existe dentro de cada ser. Não prometiam uma salvação distante, mas despertavam lembranças de umReino silencioso e interior, onde Deus
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habita sem necessidade de rituais, edifícios ou intermediários. A divin- dade não se aprende: se experimenta. Não está nos discursos mais elo- quentes, mas no gesto simples vivido com presença.
Por isso, a dor, a perda e a crise —antes percebidas como cas- tigos ou provações injustas —começaram a se revelar como convites silenciosos à transformação. Eramlembretes sutis de que a alma ansiava por retornar ao seu lar verdadeiro. Cada sofrimento carregava, em es- sência, uma chave: a oportunidade de reencontro com a centelha es- quecida que habita emcada ser. Era justamente nesses vales escuros da existência que a consciência despertava com mais intensidade.
Como tempo, a verdadeira força não nasce da resistência, mas da serenidade. Que a paz não era um reflexo do mundo externo, mas doestado interno docoração —da confiança profunda de que, mesmo no meio da tormenta, Deus está presente, conduzindo tudo com sabe- doria. A calma tornou-se, para ele, mais do que uma virtude: era um gesto de fé. Um repouso voluntário nas mãos do divino, mesmo quando tudo ao redor parecia desmoronar.
Agora olhava para trás, contemplando tudo o que havia vivido. Não sentia vontade de retocar nada —apenas uma profunda gratidão por cada passo dado. Percebia, com serenidade, que todas as escolhas,
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até mesmoaquelas que pareciam incertas, oconduziram exatamente até aquele instante. Cada porta aberta transformara-se em uma oportuni- dade. Cada porta fechada, por mais frustrante que tenha sido à época, revelava-se agora como umcuidado silencioso do destino — livramen- tos disfarçados, sinais de que era hora de mudar de direção. Deus, em sua sabedoria infinita —e discreta, o havia poupado de caminhos que o prenderiam em cativeiros sutis, e o reconduzido na direção da liber- dade interior.
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Capítulo 33
Uma Conclusão
Na manhã seguinte, Júlio recebeu seus pais no aeroporto. Vie- ramsorridentes, carregando consigo nãoapenas oafeto desempre, mas
também o único terno que ele possuía —há anos esquecido no fundo do armário. Apesar do tempo, Júlio confiava que ainda lhe serviria; afi- nal, o corpo havia mudado menos do que sua alma. Aproveitou o mo- mento para apresentar Alessandra. Os olhos dos pais se iluminaram coma mesma mistura de surpresa e encantamento que ele próprio sen- tira no início da relação —comose, por uminstante, também reconhe- cessem algo sagrado naquele encontro. Havianela umequilíbrio sereno, umadoçura discreta que inspirava confiança. Aaprovação foi imediata, e naquele instante, percebeu que as pontas da sua história começavam a se unir.
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Na aula da saudade, Júlio reencontrou velhos professores e fez questão de agradecer pessoalmente por cada ensinamento recebido ao longo da caminhada. Eramrostos que marcaram capítulos importantes da sua formação, não apenas como médico, mas como ser humano. Tambémse voltou a Rafael e André—companheirosde jornada desde os primeiros dias —e, com umabraço sincero, agradeceu pela paciên- cia, pelas risadas, pelos puxões de orelha e pela amizade que resistiu ao tempo e às mudanças. Sentiu orgulho genuíno ao lembrar de cada noite mal dormida, das provas difíceis, das dúvidas e até mesmodas festas — que agora pareciam ecos distantes de uma versão antiga de si, mas que, à sua maneira, também o moldaram.
Ligou também para Virgínia. Queria agradecer por tudo o que viveram juntos —pelas conversas, pelos carinhos, pelo amor sincero de um tempo que já não voltaria, mas que jamais seria apagado. Ficou genuinamente feliz ao saber que ela estava bem, emum relacionamento estável, complanos de casamento embreve. Encerraram a ligação com carinho e respeito.
Na noite da colação de grau, enquanto separava o terno que usaria na cerimônia do dia seguinte, Júlio se virou para o pai, quase por impulso:
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—Pai… tem alguém na nossa família chamada Cecília? Você conhece alguma Cecília?
Opai franziu a testa, pensativo.
—Cecília? Queeu melembre, não….Talvez aquela tia distante da sua mãe, já bem idosa?
—Onomedela é tia Carolina —interrompeu a mãe, rindo. — Nada de Cecília. Mas… agora que você falou, tinha aquela moça... aquela funcionária nossa, lembra?
—Ah, é verdade... Cecília —murmurou o pai, como quem reencontra uma lembrança antiga. — Ela cuidava de você naquela época, era uma espécie de babá.
—Ajudou muito quando você adoeceu —completou a mãe. —Foi ela quem notou os primeiros sinais da sua diabetes.
—Edepois —retomou opai —,umbelo dia foi embora. Sem aviso, sem cobrar nada, nem o salário. Deixou só um bilhete se despe- dindo.
Júlio sentiu um aperto no peito. Não chorou —não ali, não ainda —, mas uma gratidão silenciosa atravessou sua alma como um raio de sol entre nuvens. Silenciosamente, agradeceu. Sabia, agora, que as coincidências nunca foram apenas coincidências.
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No dia seguinte, uma hora antes do início da cerimônia, Júlio vestiu o velho terno que seus pais haviam trazido. Apesar dos anos guardado, ainda estava em excelentes condições, resultado do pouco uso que teve no passado.
Notou, no entanto, que o corpo não era mais exatamente o mesmo. A cintura do paletó pressionava discretamente seu abdômen, os joelhos sentiam certo aperto ao caminhar, e uma leve coceira se ma- nifestava em uma das coxas. Sorriu. Nada daquilo o incomodava de verdade.
Durante a cerimônia, pouco antes de chamarem seu nome para o recebimento do diploma, a coceira tornou-se insistente. Inicialmente discreta, agora parecia crescer em intensidade, até se tornar realmente incômoda. Nenhuma unha conseguia aliviar aquela sensação. Desconfiado de que poderia haver algum botão solto ou linha
do forro pressionando a pele, levou a mão discretamente ao bolso da calça, tentando manter a compostura. Mas, ao retirar os dedos, teve uma surpresa que o paralisou por um instante —e, em seguida, quase o fez gargalhar alto, não fosse o ambiente cerimonioso que o cercava. Pensou: “nem precisava mais”.
Segurou-a entre os dedos, ocoração batendo comforça mansa.
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Por dentro, uma alegria infantil misturava-se a um senso de maravilha profunda. Não havia mais dúvidas: ele estava pronto para lembrar quem era.
Lá estava ela.
Anil como o firmamento, brilhosa e bela como se tivesse per- tencido à mais magnífica ave que, em nome de uma mensagem maior, não hesita em sacrificar uma de suas plumas mais nobres.
Ali estava a pena azul.
FIM
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