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O Sal na Nossa Ferida

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Capítulo 1 · O Sal na Nossa Ferida

A Volta da Filha Pródiga

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LIA

O asfalto da SP-55 tremeluzia sob o mormaço das três da tarde. O ar-condicionado do sedã alugado estava no máximo há duas horas, mas não era o suficiente para combater a umidade que começava a vazar pelas saídas de ar.

Eu não precisava olhar o GPS. O meu corpo sabia que estávamos perto antes mesmo da placa indicando a divisa do município.

O cheiro chegou primeiro. Sal, algas secando nas pedras e asfalto derretido. É um cheiro específico que gruda no fundo da garganta e não sai com água.

Minhas mãos estavam apertadas no volante de couro com tanta força que os nós dos dedos pontuavam brancos contra a pele morena. Soltei a respiração devagar, forçando os dedos a relaxarem um por um.

Dez anos.

Eu ensaiei isso. Passei a última década inteira, sentada em salas de aula estéreis na USP, em escritórios com paredes de vidro na Faria Lima, ensaiando exatamente o que eu sentiria quando o pneu do meu carro cruzasse a linha imaginária que separava o resto do mundo de Maré Alta. Eu tinha um roteiro emocional planejado. Frieza. Distância clínica. A superioridade de quem volta com o poder de destruir.

Mas meu corpo não recebeu o memorando.

Meu maxilar travava até a base dos dentes doer. O estômago parecia ter engolido uma pedra de gelo, pesada e afiada, que arranhava a cada solavanco da estrada mal recapeada.

Baixei o vidro do carro dois dedos. O vento quente invadiu a cabine, violento, desgrenhando meu cabelo preso num rabo de cavalo estrito. O barulho do motor se misturou ao som distante da rebentação.

Março em Maré Alta. A entressafra.

A cidade não estava morta, mas estava de ressaca. Os turistas de verão já tinham ido embora, deixando para trás o rastro de lixo na areia, as faixas desbotadas de "Bem-vindos" e as pousadas com as janelas fechadas. Sobrava apenas quem pertencia ao lugar. Os que ficaram. Os que nunca conseguiram sair.

E eu. Que voltei.

A estrada serpenteou, cortando a mata atlântica espessa, e a primeira visão da baía se abriu à minha direita. A água era de um azul denso, quase chumbo sob o sol implacável, batendo contra as pedras escuras com a mesma fúria inútil de sempre.

Eu não mudei a marcha. Não reduzi. Apenas deixei o carro engolir a descida em direção ao centro.

As ruas começaram a se estreitar. O calçamento de paralelepípedo irregular tomou o lugar do asfalto. Passei pela igrejinha branca descascada. Pelo mercado do Seu Matias, que agora tinha uma fachada de alumínio brilhante e ofensiva. Pela rotatória onde uma âncora enferrujada servia de monumento.

A cidade estava menor. Ou eu tinha crescido.

Virei à esquerda na rua do cais.

O cheiro de maresia deu lugar ao odor denso de diesel, peixe eviscerado e madeira podre. O cais dos pescadores continuava exatamente igual. A mesma miséria orgulhosa. Os mesmos barcos com pintura lascada balançando preguiçosos na maré baixa.

Parei o carro perto das caçambas de gelo. Desliguei o motor. O silêncio repentino dentro da cabine zumbiu nos meus ouvidos.

Fiquei parada por um minuto inteiro, olhando para as próprias mãos no colo. Minha respiração soava alta demais. O suor frio pinicava a nuca.

Você é uma advogada ambientalista titular, Lia. Você derrubou liminares do governo estadual. Você não vai vomitar no estacionamento do cais.

Engoli a seco. Abri a porta e coloquei o pé no chão de cimento rachado.

O calor bateu como uma parede física. O ar aqui era pesado, sujo de sal e óleo. Fechei a porta do carro com um estrondo seco e travei o alarme.

Ele estava encostado num dos pilares de madeira do galpão principal, fumando um cigarro de palha, com os olhos fixos na água.

Jonas.

A pele queimada de sol até virar couro, os ombros largos sob uma camiseta branca encardida, o boné enfiado na cabeça. Ele não pareceu ouvir meus passos de salto bloco contra o cimento, mas soltou a fumaça devagar e virou o rosto na minha direção antes que eu estivesse a cinco metros de distância.

Ele não sorriu. Eu também não.

— Pensei que não vinha mais — a voz dele era rouca, gasta pelo sal e pelo tabaco.

— Trânsito na serra — menti. Eu tinha parado num posto de gasolina por quarenta minutos, encarando o próprio reflexo no espelho do banheiro imundo, tentando convencer meu estômago a parar de revirar.

Jonas jogou a bituca no chão e pisou em cima com a bota de borracha. Ele me avaliou de cima a baixo. Os olhos escuros e afiados de quem passou a vida inteira lendo as mudanças do mar leram a minha postura rígida, o blazer de alfaiataria que era um absurdo naquele calor, a tensão travando meus ombros.

— Você tá com cara de quem veio fechar um necrotério, Lia.

— Eu vim trabalhar.

Ele soltou um som baixo pelo nariz, uma mistura de riso e escárnio. Desencostou do pilar e deu dois passos na minha direção. O cheiro dele era terra, fumo e mar. Familiar até doer.

Ele não estendeu a mão. Não me abraçou. Jonas e eu nunca precisamos disso.

— O processo andou? — ele perguntou, direto ao ponto.

— Protocolei o pedido de suspensão da obra ontem, antes de descer a serra. O juiz da comarca tem setenta e duas horas para despachar a liminar.

Jonas olhou por cima do meu ombro, na direção do lado leste da baía. Onde o manguezal se encontrava com a curva de areia. O lugar onde eles queriam construir o Maré Viva Resort.

— As dragas chegaram hoje de manhã — Jonas avisou, a voz caindo um tom. — Estão ancoradas perto da Ponta do Sol. Seis máquinas. Quatrocentos metros de praia fechada com tapume. Eles não estão esperando juiz nenhum, Lia.

Senti o maxilar travar de novo.

A Construtora Valente. Eles se moviam como uma doença incurável. Primeiro compravam as autoridades, depois fechavam o acesso, depois começavam a destruição antes que alguém pudesse gritar. Foi assim que tomaram a casa da minha família. Foi assim que me expulsaram daqui.

Mas, desta vez, as regras eram outras. O tabuleiro era meu.

— Eles podem botar as dragas que quiserem na água — respondi, a voz saindo fria e nivelada, exatamente como eu havia ensaiado. — O Estudo de Impacto Ambiental deles é uma ficção mal escrita. Eles omitiram a zona de desova no mangue. A Constituição federal e a Lei da Mata Atlântica não vão arredar o pé porque os Valente compraram uns tapumes.

Jonas me encarou. Havia uma ruga funda entre as sobrancelhas dele.

— Você acha que eles ligam pra lei? Seu Valdemar construiu metade dessa cidade por cima de lei.

— Seu Valdemar não é mais o CEO — eu disse. As palavras deixaram um gosto metálico na minha língua. — Quem assina a obra agora é o filho.

O nome flutuou no ar entre nós, não dito, envenenando o oxigênio.

Caio.

O sangue sumiu do meu rosto tão rápido que minha visão turvou nas bordas. Meus dedos, dentro dos bolsos do blazer, se fecharam em punhos com tanta força que as unhas cortaram a pele da palma. Instintivamente, desviei o olhar para o cimento sujo sob as minhas botas, forçando meus joelhos a não dobrarem. Três segundos. Foi o tempo que levei para engolir a bile e travar a expressão numa máscara de vidro à prova de balas.

Jonas me observou por um segundo a mais do que o necessário. Ele sabia. Ele estava lá, há dez anos. Ele era o único que restou.

— Você sabe o que tá fazendo aqui, Lia? — Jonas perguntou, a voz raspando mais baixo. — Ou ainda não sabe?

O silêncio esticou entre nós, pesado como uma âncora.

Olhei para o mar. A água escura engolindo as pedras com violência contida. Senti um tremor muito fino começar nas pontas dos meus dedos. Travei a mandíbula de novo e fixei os olhos num ponto cego na água escura.

— Vou pra pousada deixar as malas — eu disse finalmente, virando as costas. — Te ligo quando o juiz despachar.

— Lia.

Parei com a mão na maçaneta do carro. Não olhei para trás.

— Não subestima ele — Jonas disse. — O Caio que você conhecia não é o homem que senta naquela cadeira agora.

Abri a porta do carro.

— Boa notícia — respondi, seca. — A garota que ele conhecia também não existe mais.

Entrei no carro e bati a porta. Liguei a ignição, sentindo o motor vibrar pelas solas dos meus sapatos. Engatei a marcha e acelerei, deixando o cais, o cheiro de diesel e o olhar afiado de Jonas pelo retrovisor.

O ar-condicionado voltou a cuspir vento frio. Minhas mãos estavam suadas de novo no volante.

Cruzei o centro histórico em direção à saída norte, contornando a baía.

A estrada voltou a subir. O sol começou a baixar no horizonte, pintando o céu de um laranja ferido e violento.

Liminar. Embargo. Audiência. Caio Valente desmontado peça por peça sob juramento.

Acelerei na subida. O motor rugiu.

Dobrei a última curva da estrada litorânea. A paisagem se abriu, um corte dramático no verde da serra, revelando o oceano vasto e furioso à minha frente, batendo contra as falésias. No fundo, quase engolido pela bruma, a silhueta solitária e morta do farol do Ponta Negra apontava para o céu.

Meus olhos tentaram desviar rápido para o asfalto. Falharam. Um frio rápido e afiado subiu pela minha nuca, e a base do meu estômago afundou sozinha, reconhecendo a arquitetura da pedra antes que eu pudesse impedir.

Meus olhos instintivamente foram para o retrovisor interno para checar o ponto cego.

Foi quando eu vi.

Na lateral da estrada, encravada no calcário, uma placa enorme, preta e prateada, refletia a luz do fim de tarde com a precisão de uma lâmina cirúrgica. Letras metálicas perfeitas em cima de um bloco de concreto.

CONSTRUTORA VALENTE.

FUTURAS INSTALAÇÕES DO MARÉ VIVA RESORT.

O SEU NOVO PARAÍSO EXCLUSIVO.

Senti a queimação subir pela garganta. O sal da minha própria saliva na boca seca. A placa era um testamento da arrogância deles. Uma declaração de guerra plantada na terra que costumava ser livre.

O carro continuou avançando, a placa ficando cada vez menor no reflexo do espelho até desaparecer na poeira da curva.

Afrouxei o aperto no volante. Senti a pele do meu rosto repuxar. Os cantos da minha boca subiram um milímetro de cada vez contra a minha vontade, num repuxo seco e involuntário. Encarei o asfalto vazio pelo para-brisa, pisei fundo no acelerador e deixei o rugido do motor afogar qualquer outro som.

O Sal na Nossa Ferida

Sinopse

Lia Cardoso voltou para Maré Alta com duas coisas na mala: um processo judicial e dez anos de raiva bem guardada. Caio Valente destruiu sua família quando os dois tinham dezessete anos. Agora ela tem as ferramentas legais para destruir o que ele construiu. O problema é que Caio voltou diferente — carregando culpa onde ela esperava arrogância, e um desejo que ela não sabe se quer mais matar ou alimentar. Entre audiências públicas e encontros que não deveriam acontecer, Lia precisa escolher: a vingança que a manteve de pé por dez anos, ou a pessoa que ela pode ser quando parar de carregar o ódio. O mar não escolhe lados. Mas o sal fica.

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