ATLANTIS LULLABY

Universo da obra

ATLANTIS LULLABY

Capítulo 1 · ATLANTIS LULLABY

ATLANTIS LULLABY

ATLANTIS LULLABYUM CONTO DO UNIVERSO….SÉRIE CRÔNICAS DO AMANHÃ*Livremente inspirado na música Rock and Roll Lullaby, de 1972, do cantor

B.J. Thomas. Letra e tradução abaixo.

Aéli despertou. Lentamente abriu os olhos. O desejo de se espreguiçar até veio, porém, ela não tinha forças para isso. Ainda deitada no amontoado de trapos que usava como cama, espiou por uma fresta na parede feita de tábuas que usara para fechar o abrigo debaixo dos restos de sua antiga casa. O Sol estava se pondo. Havia dormido a maior parte do dia, coisa impensável um tempo atrás. Sua mãe a teria acordado cedo para as tarefas na fazenda. Mas ela se fora. Todos se foram. Seu pai e também seu amado Linhart. Aéli, no alto dos seus dezesseis anos, estava sozinha no mundo. Algo se remexeu entre os trapos, e ela se lembrou, de que não, não estava só. Afastou os panos e os olhos inocentes de um bebê a encararam. Seu bebê. Fruto do amor entre ela e Linhart. Os dois se conheciam desde crianças. As fazendas de seus pais eram vizinhas, ele um ano mais velho do que ela. Depois de suas tarefas, sempre se encontravam para brincar, correr pelos campos e florestas, nadar no rio. E foi no rio que aconteceu, em um dia quente de verão. Os anos haviam passado e eles já não eram tão crianças. Os toques, antes pueris, agora transmitiam outra coisa. Os olhares carregavam um desejo, uma ânsia que não sabiam de onde vinha. Um tempo depois ela se descobriu grávida. Não foi um grande choque para as famílias. As pessoas costumavam casar e ter filhos cedo ali naquele rincão do reino de Mordengaz. Com flores no cabelo e o vestido de noiva já não tão branco, que fora de sua mãe, ela e Linhart foram casados sob o frondoso carvalho que ficava próximo à entrada da fazenda, por um manach, um monge itinerante. Sua festa de casamento foi modesta e bonita. Os vizinhos trouxeram vinho, comidas e doces, dos quais ela se empanturrou e passou mal depois. Seguindo a tradição, Linhart veio morar na casa de sua esposa e passou a ajudar na fazenda, e Aéli, que sempre gostara dele, se apaixonou completamente pelo jeito alegre, bondoso e carinhoso do rapaz. A gravidez fora tranquila, assim como o parto, e ela ficara deslumbrada quando pegara em seu colo aquela coisinha rosa e lamurienta. Deixara suas bonecas há pouco, mas parecia ter ganhado outra. Era um menino e o chamaram de Erwan. Três meses depois, boatos, que até então eram só sussurros que vinham da fronteira oriental do reino, ganharam força. Invasores selvagens, destruição, guerra. Tsurganis. O medo se tornou mais palpável no ar, vindo junto com o cheiro, ainda que incipiente, de fumaça que o vento sul trazia, mostrando que a guerra se alastrava. Sua mãe e Linhart suplicaram a seu pai para que fossem embora, como alguns estavam fazendo, ir para mais perto da capital do reino. Mas ele era um homem teimoso. Dizia confiar no poderio de Mordengaz. Não mudou de ideia nem quando a notícia da morte do rei chegou. Linhart pensou em fugir com Aéli e Erwan porém, para onde iriam, como se manteriam? Ele então cavou um buraco em um barranco na orla da floresta, atrás de alguns arbustos e disse a ela que se escondesse ali caso algo acontecesse. E naquela noite aconteceu. Ela acordou no meio da noite com o berreiro dos animais, com a trovoada de cascos e gritos em uma língua que não conhecia.

Linhart a tirou da cama junto com o bebê e saíram pela janela, esgueirando-se pela escuridão em direção ao esconderijo improvisado. Ela perguntou por seus pais. Ele respondeu que voltaria para ajudá-los. Novos gritos e desta vez ela reconheceu a voz de sua mãe e quis parar, mas ele a arrastou dali, a fez entrar no buraco que cavara e implorou que ficasse quieta até que voltasse. No entanto, ele não voltou. Através das folhas das plantas que a escondiam, ela viu a luz do fogo incendiar a noite. Trotes de cavalos, mais gritos. Homens respirando pesadamente como animais passaram perto de seu esconderijo. Felizmente Erwan era uma criança tranquila e não acordou em nenhum momento, ou seu choro trairia sua posição. Depois do que pareceu uma eternidade, o silêncio se fez total, quebrado só pelo som de madeira crepitando no fogo. Ela, entretanto, não saiu. Só o fez quando amanheceu e então as lágrimas que segurara a noite toda, vieram de uma vez, diante do quadro que viu. A casa onde nascera e crescera, queimada. Sobrara apenas algumas colunas de madeira mais grossas que se erguiam como dedos enegrecidos em direção ao céu, e as paredes de pedra que compunham sua base. O paiol, o curral, todas as benfeitorias da fazenda ou estavam queimadas ou destruídas até ficarem irreconhecíveis. Aéli chorou quando encontrou seus dois amados cães mortos, assim como algumas galinhas que pareciam terem sido pisoteadas. Os demais animais, vacas, porcos, os cavalos e demais aves estavam desaparecidos. A horta e as plantações, que antes se estendiam em todas as direções também estavam devastadas. Era como se uma praga terrível tivesse passado devorando tudo, e o que não conseguira engolir, queimara. Não encontrou sangue, então teve a parca esperança que seus entes queridos estivessem vivos, mas onde? Enterrou os cães e as galinhas e procurou pensar de forma prática no que fazer. Procurar ajuda? Com os vizinhos, talvez? Mas as diversas colunas de fumaça que via no horizonte lhe diziam que não encontraria nenhuma. A barriga lhe lembrou que estava com fome, mas antes precisava providenciar abrigo. No canto inferior da casa destruída, entre duas das meias paredes de pedra que resistiram e utilizando madeiras e troncos, fez um tosco abrigo, o qual forrou com restos de tecidos que encontrara jogados por toda parte. Matou sua sede no poço que, felizmente, fora poupado. Agora, o que comeria, era uma incógnita. Precisava se alimentar, pois Erwan ainda mamava em seu seio e ela precisa gerar leite, sua mãe lhe ensinara isso; quanto melhor alimentada a mãe, mais saudável seria o bebê. Vasculhou os destroços e encontrou um pão meio queimado, que foi sua refeição naquele e nos outros dois dias. Nos outros dias revirou a terra da horta, achando algumas cenouras murchas e uma cebola. Caminhou pela borda da floresta procurando ninhos com ovos de pássaros nos arbustos. Localizou poucos e só a fome que sentia a impediu de sentir nojo de comê-los crus. Talvez se adentrasse a floresta achasse mais coisas, mas Aéli tinha medo da mata, pois sabia haver lobos e outros animais por ali. A escassa alimentação cobrou seu preço. Ela emagreceu e seu leite raleou e já não alimentava Erwan a contento. O bebê que antes chorava de fome, agora apenas choramingava devido à fraqueza. Aéli deitava em seu ninho de trapos, trazia o bebê para junto de si e o acalentava com uma canção de ninar que sua mãe cantava para ela: “Sha, na, na, na, na, na, na, na, na”

A canção era só isso. Uma música antiquíssima, que segundo sua mãe já era cantada pela avó. E pela mãe desta e por toda uma linhagem de mulheres, cujas lembranças se perderam nas brumas do tempo, que embalaram seus bebês com aquela singela melodia, enfrentando, talvez, as mesmas provações pelas quais a menina passava. “Sha, na, na, na, na, na, na, na, na” Aéli não sabia que língua era aquela, nem mesmo se eram palavras, mas o som delas lhe evocavam conforto, lembranças boas e a certeza de que tudo ficaria bem. Ela, assim como sua família e a maioria dos mordengaznianos, não era religiosa. Acreditava em Awen, uma força que não guiava, mas intuía aos homens o caminho que deveriam seguir, e para ela pediu ajuda. Mas, talvez fosse tarde. Ela não tinha mais forças. Deitada ali, sozinha naquele fim de tarde do fim do mundo, Aéli mirou os olhos inocentes de seu filho. Pareceu ver neles toda a compreensão e aceitação do destino que os envolvia com seus braços gélidos. Ela se recusou a partirem com frio, com dor e medo, então abraçou fortemente Erwan uma última vez e entoou, para espantar para longe tudo de ruim: “Sha, na, na, na, na, na, na, na, na” E adormeceram, esperando nunca mais despertar. Contudo, ela despertou, assustada. O som de cavalos e o tropel de passos pesados invadiram o abrigo. Os monstros haviam voltado? Porém, as vozes que ouviu não eram pronunciadas na língua áspera que chegara a seus ouvidos na noite em que seu mundo ruira Eram muito mais leves, ditas numa língua que ela conhecia. Era sua própria língua. Ressabiada, olhou pelas frestas. Havia anoitecido e a luz de fogueiras cintilou em sua íris, e ela viu o refulgir de armaduras de homens que se movimentavam para todos os lados. Teve o vislumbre de uma mulher loira entre eles. Devia sair? Awen estava lhe indicando um caminho? O que ela devia fazer? Um súbito impulso a fez se arrastar para fora com Erwan, mas ainda ficou entre os destroços, analisando a cena. Eram soldados de Mordengaz, com certeza, montando acampamento. Perto da fogueira principal viu a grande figura negra de um homem parado. Os soldados chegavam até ele, falavam algo, prestavam continência e se retiravam. Ele devia ser o líder. Sem escolha e sem esperança, Aéli saiu de seu esconderijo e se encaminhou com passos miúdos em direção ao homem. Soldados a viram, surpresos e consternados, mas nada fizeram quando notaram a quem ela se dirigia. Quando chegou perto, ela viu que a distância não dava o real tamanho daquele guerreiro. Era enorme. Tremendo, a garota segurou a capa dele e deu dois puxões tímidos: — Se….senhor? Ele se virou e Aéli pode ver seu rosto e se arrependeu no mesmo momento, sentindo vontade de fugir. A luz do fogo desenhava traços fortes, duros, implacáveis. Os olhos frios pareciam ter o poder de fazer um coração parar com uma mirada mais prolongada. Contudo, o mais assustador, era uma marca que ele trazia na testa, entre os olhos. Parecia uma espada que dançava viva na luz vermelha da fogueira, pronta para saltar dali e retalhar Aéli e Erwan. Ela não correu. Se jogou de joelhos ao chão. — Po….por favor, senhor!— bradou e com toda a força que conseguiu encontrar em seu corpo frágil, ergueu Erwan em seus braços, mantendo a cabeça baixa. — Tenha misericórdia! Salve meu bebê!

Aéli não soube por quanto tempo ficou ali, naquela posição, se foram segundos, horas ou anos. Talvez já estivesse morta e aquilo fosse uma ilusão provocada por aquele ser, que talvez fosse um demônio. Erwan foi retirado de suas mãos e uma voz fria como o inverno chegou até ela: — Não. Aéli esqueceu a fome. A fraqueza, o medo. Se pôs em pé em um pulo e arreganhando os dentes se voltou para o homem, demônio ou o que quer que fosse. Não entregaria tão fácil a vida de seu filho ou a dela. Porém, o que viu a desarmou. O guerreiro havia aconchegado Erwan na curva de seu braço esquerdo e com o dedo da mão direita enluvada acariciava o pequeno rosto do bebê que, tranquilo, tentava agarrá-lo. Os olhos dele mudaram. Não traziam mais o terror, mas sim, o quê…? Dor? Perda? Saudade? Aéli não sabia dizer. Quando ele se voltou e se dirigiu a ela, sua voz também era outra. Ainda grave, potente, mas infinitamente acolhedora: — Salvaremos vocês dois.

Rock 'N Roll de NinarRock And Roll LullabyEla tinha apenas dezesseis anos e estava totalmente sozinha She was just sixteen and all alone

Quando eu passei a existir When I came to be

Então nós crescemos juntos So we grew up together

Minha mãe criança e eu My mama child and me

Agora as coisas estavam ruins Now things were bad

E ela estava com medo And she was scared

Mas sempre que eu chorava But whenever I would cry

Ela acalmava meus medos e secava minhas lágrimas She'd calm my fears and dry my tears

Com esse rock 'n roll de ninar With that rock'n'roll lullaby

E ela cantava And she's sing Sha-na-na-na-na-na-na-na-na Sha-na-na-na-na-na-na-na-na Vai ficar tudo bem It will be all right

Sha-na-na-na-na-na-na-na-naSha-na-na-na-na-na-na-na-na Vamos apenas segurar firme Let's just hold on tight

Cante comigo mamãe Sing it to me mama

Minha, minha, minha, minha mamãe My my my my mama

Cante doce e claro Sing it sweet and clear Cante doce a claro Sing it sweet and clear

Oh, mamãe deixe-me ouvir Oh, mama let me hear

Aquele velho rock 'n roll de ninar That old rock'n'roll lullaby

Nós passamos os dias solitários Now we made it through the lonely days

Mas, senhor, as noites foram longas But, Lord, the nights were long

E nós sonhávamos com manhãs melhores And we'd dream of better mornin's

Quando a mamãe cantava uma canção When mama sang a song

Agora não me lembro mais das palavras Now I can't recall the words at all

Não tento entender It don't make sense to try

Porque sei apenas que havia muito amor 'Cause I just knew lotsa love came through

Naquele rock 'n roll de ninar In that rock and roll lullaby E ela cantava And she'd sing Sha-na-na-na-na, na-na-na-na Sha-na-na-na-na, na-na-na-na Vai ficar tudo bem It'll be all right Sha-na-na-na-na, na-na-na-na Sha-na-na-na-na, na-na-na-na Agora segure firme Now just hold on tight

Eu posso te ouvir, mamãe I can hear ya, mama

Minha, minha, minha, minha mamãe My, my, my, my mama

Nada move minha alma Nothin' moves (heals) my soul

Como o som do bom e velho Like the sound of the good old

Rock 'n roll de ninarRock and roll lullabyOuça: https://www.youtube.com/watch?v=Kq_Sl9G28EM

ATLANTIS LULLABY

Sinopse

Conheça a saga de Aéli, uma jovem mãe que, quando seu mundo desmorona, busca desesperadamente sua sobrevivência e de seu bebê.

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