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Macunaíma

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Macunaíma

Capítulo 1 · Macunaíma

Macunaíma

1 de 19 ≈ 8 min de leitura
I

MACUNAÍMA

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma
heroi da nossa gente. Era pr~to retinto e filho do
medo da noite. Houve um momento em que o silên-
cio foi tão grande escutando o murmurejo do Ura-
'l'icoera que a india tapanhumas pariu uma -criança
feia. Essa cr.iança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De
primeiro passou mais de seis anos não falando. Si
o incitavam a falar exclamava:
- Ai I que preguiça 1...
e não dizia mais nada. Ficava no canto da
lnaloca trepado no girau de paxiúba espriando o
trabalho dos outros e principalmente os dois ma-

nos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na
fôrça do homem. O divertimento dele era decepar
cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os
olhos em dinheiro Macunaíma dandava pra ga-
nhar vintem. E tambem espertava quando a famí-
lia ia tomar banho no rio, fodos juntos e nus.
Passava o tempo do banho dando mergulho e as
mulheres soltavam gritos gosados por causa dos
guaiamuns diz que habitando a agua-doce por lá.

No mocambo si alguma cunhatã se aproximava
dele pra fazer festinha, Ma,c unaírna punha a mão
nas graças ·dela, cunhatã se afastava. Nos ma-
chos guspia na cara. Porêm respeitava os velhos .
e frequentava com aplicação a murúa a poracê
o torê a cucuicogue, todas essas danças religiosas
da tribu.
Quando era pra dormir trepava no macurú
pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como
a rede da mãi estava por debil'ixo do berço o heroi
mijava quente na velha, espantando os mosquitos
J;.>em. Então adormecia falando palavras-feias
imoralidades estrambolicas e dava paitadas no ar.
Nas conversas das mulheres no pino do dia o
assunto era sempTe as peraltagens do heroi. As
mulheres se riam, muito simpatisadas falando que
"espinho que pinica, de pequeno já traz ponta" e
numa pagelança Rei Nagô fez um discurso e avisou
que Macunaíma era muito inteligente.
Nem bem teve seis anos deram agua num cho-
ealho pra êl~ e Macunaíma principiou falando co-
rno todos. E pediu prá mãi que largasse da man-
dioca ralando na cevadeira e levasse êle passear
no mato. A rnãi não quis porquê não podia largar
da ..!!!.fü.1.:..1i.9S-~ -não. Macunaíma choramingou dia
inteiro. De-noite continuou chornndo. No outro dia
esperou com o ôlho esquerdo dormindo que a mãi
principiasse o trabalho. Então ,pediu pra ela que
largasse de tecer o paneiro de guarumá-membeca
e levasse êle no mato passear. A mãi não quis por-
::VIACUNAf}1A 11

quê não podia largar o paneiro não. E pediu prá
nora, companheira de Jiguê que levasse o menino.
A companheira de Jiguê era bem moça e chamava
Safará. Foi se aprmdrnando ressabia.da porêrn des-
1ta vez Macunaíma ficou muito quieto sem botar a
mão na graça de ninguem. A moça carregou o ipiá
nas costas e foi até o pé de aninga na beira do rio.
A agua parara pra inventar um ponteio o.e gôso nas
folhas do javarí. O longe estava bonito com muitos
biguás e biguatingas avoand.o na entrada do furo.
 moça botou Macunaima na praia porêm êle prin-
cipiou cho-ramingando, que tinha muita formiga 1. ..
e pediu pra Safará que o levasse até o derrame dÓ
morro lá dentro do mato. A moça fez'. Mas assim
que deitou o curumim nas tiriricas e trapoerabr.s
da serrapilhefra êle botou corpo num atimo e ficou
Quando voltaram prá maloca a moça parecia
muito fatigada de tanto carregar piá nas costas.
Era _que o hero
Nem bem deitou Macunairna na rede Jiguê já che-
gava de pescar de puçá e a companheira não tra-
balhara nada. Jiguê cnquisilo:u e depois de catar os
carrapatos deu nela muito. Safará aguentou a sova
sern falar um isto.
Jiguê não desconfiou de nada e começou tran-
çando corda com fibra de curauá. Não vê que en-
contrara rasto fresco de anta e queria pegar o bicho
na armadilha. Macunaima pediu um pedaço de
curauá pro mano porêm Jiguê falou que aquilo não

era brinquedo de criança. Macunaíma iprincipiou
chorando outra vez e a noite ficou bem dificil de
passar pra todos.
No ouitTo dia Jiguê levantou cedo pra fazer
armadilha e enxer,gando o menino tristinho falou:
- Bom-dia, coraçãozinho dos outros.
Porêm Macunaíma fechou-se em copas car-
rancudo.
- Não quer falar comigo, é?
- Estou de mal.
- Por causa?
Então Macunaima pediu fibra de curauá. Jiguê
olhou pra êle com odio e mandou a companheira
arranjar fio pTo menino. A moça fez. Macunaima
agradeceu e foi pedir pro pai-de-terreiro que tran-
çasse uma corda pra êle e assoprasse bem nela fu-
maça de ·petum .
. Quando tudo estava pronto Macunaíma pediu
prá mãi que deixasse o cachirí fermentando e le-
vasse êle no mato passear. A velha não podia por
causa do trabalho mas a companheiTa de Jiguê
mui sonsa falou prá sogra que "estava ás ordens".
E foi no mato com o piá nas costas.
_Quando o botou nos carurús e sororocas da
serrapilheira o pequeno foi crescendo foi crescen-
do e virou príncipe. Falou
bocadinho que já voltava pra brincarem e .foi no
bebedouro da anta armar -um laço. Nem bem vol-
taram do passeio, tardinha, Jiguê já chegava tam-
bem de prender a armadilha no rasto da anta. A

companheira não trabalhara nada. Jiguê ficou fulo
e antes de catar os carrapatos bateu nela muito.
Mas Sofará aguentou a coça com paC'iencia.
No outro dia a arraiada inda estava acabando
de tTepar nas árvo,res, Macunaíma acordou todos,
fazendo um bué medonho, que fossem! que fossem
no bebedouro buscar a bicha que êle caçara l ...
l>orêm ninguem não acreditou e todos principia-
ram o trabalho do dia.
Macunaima ficou mui,to contrariado e pediu
pra Sofará que desse uma chegada no bebedouro
só pra ver. A moça fez e voltou falando pra todos
que de fato estava no laço uma anta muito :grande
iá morta. Toda a tribu foi buscar a bicha, matu-
tand~ na inteligencia do curumim. Quando Jiguê
chegou com a corda de curauá vazia encontrou to-
dos tratando da caça. Ajudou. E quando foi pra
repartir não deu nem um pedaço da carne pra
1\facunaíma, só tripas. O herni jurou vingança .
. No outro dia pediu pra Sofará que levasse êle
Passear e ficaram no mato até a boca~da-noite.
N'em bem o menino focou no folhiço e virou num
Príncipe fogoso. Brincaram. Depois de brincarem
tres feitas, correram mato fora fazendo festinhas
um pro outro. Macunaíma pegou num tronco de co-
paíba e se escondeu por detrás da piranheira. Quan-
do Sofará veio correndo êle deu com o pau na cabe-
ça dela. Fez uma brecha que a moça caiu torcendo
de riso aos pés dele. Puxou-o por uma perna. Macu-
llaima gemia de gôsto se agarrando no tronco gigan-

te. Então a moça abocanhou o dedão do pé dele e
enguliu. Macunaíma chorando de alegria tatuou o
corpo dela com o sangue d.o pé. Depois retesou os
musculos, se erguendo num trapesio de cipó e aos
pulos atingiu num atimo o galho mais al<to da pi-
ranheira. Sofará trepava atrás. O ramo fininho ver-
·gou oscilando com o pêso do
nioça chegou tamhem no tope êles brincaram outra
vez balanceando no céu. Depois de brincarem Ma-
,cunaíma quis fazer uma festa em SofaTá. Dobrou
o corpo todo na violencia dum puxão mas não
poude continuar, galho quebrou e ambos despen-
caram aos emboleus até se esborracharem no chão.
Quando o heroi voltou da sapituca procurou a mo-
ça em redor, não estava. 'Ia se erguendo pra bus-
ca-la porêm do galho b.a ixo em riba dele furou o
silêncio o miado temivel da sussuar;rna. O heroi se
estatelou de medo e fechou os olhos p-ra ser comido
sem ver. Então se escutou um risinho e Macunaíma
tomou com urna gusparada no 'Peíto, era a moça.
Macunaíma principiou atirando pedras nela e quan-
do feria, Sofará gritava de excitação tatuando o
corpo dele em baixo ,c om o sangue espirrado. Afi-
nal uma pedra lascou o canto da boca da moça e
moeu tres dentes. Ela pulou do galho e juque ! tom-
bou sentada na barriga do heroi que a envolveu
com o corpo todo, uivando de prazeT. E brincaram
mais outra vez.
Já a estrêla Papaceia brilhava no céu quando
a moça voltou parecendo muito fatigada de tanto

carregar piá nas costas. Porêm Jiguê desconfiando
seg~ira o,s dois no mato, enxergara a transforma-
ção e o resto. Jiguê era muito bobo. Teve raiva.
Pegou num rabo-de-tatú e ' chegou-o com vontade
na bunda do heroi. O berreiro foi tão imenso que
t.'ncurtou o tamanhão da noite e muitos ,passaras
ea!iram de susto no chão e se transformaram em
pedras. \

Quando Jiguê não poude mais surrar, Macu-:
naíma ,correu até a capQ..eira, mastigou raiz de car-
deiro e voltou são. Jiguê levou Safará pro pa1 dela
e dormiu folgado na Tede.
Macunaíma

Sinopse

Leia Macunaíma, de Mário de Andrade, grátis no Literunico. Romance modernista brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikimedia Commons validada a partir da edição de 1928 e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
ISBN
9786554700160
LITEBN
LITEBN-978654992595268349548758
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