Papai Noel acordou antes do sino da Torre Grande tocar. Não era comum. O Polo costumava respeitar seus horários, como se o próprio gelo tivesse firmado um acordo com o relógio. Mas naquela manhã, o corpo dele despertou por conta própria, como quem ouve um barulho que ninguém mais ouve.
Ele abriu os olhos devagar e ficou um tempo olhando o teto de madeira escurecida, acompanhando o vapor da própria respiração. Havia um silêncio que não era silêncio. Do lado de fora, máquinas trabalhavam. Havia sempre algum tipo de motor, alguma esteira, alguma prensa. O som vinha abafado, como se o mundo estivesse embrulhado em feltro. Mesmo assim, o silêncio de dentro do quarto parecia mais pesado, como se faltasse uma peça.
Papai Noel levantou a mão e apalpou a mesa ao lado da cama, procurando os óculos. Achou. Colocou-os. Depois esticou a perna para fora do cobertor e buscou o chinelo com o pé, no gesto automático de todas as manhãs. O direito encaixou de primeira. O esquerdo não respondeu. Ele moveu o pé no ar, raspando o chão, procurando o toque macio da lã, que havia sido adaptada nele. Sentiu apenas a madeira fria, lisa demais. Franziu a testa e tentou de novo, mais para o lado.
Nada.
Sentou na cama, agora totalmente acordado, e olhou para baixo. O chinelo direito estava ali, como um animal doméstico acostumado a esperar. O esquerdo havia sumido.
A primeira sensação foi ridícula, quase infantil. Uma indignação boba, como se o mundo tivesse quebrado uma regra simples e tradicional, um pecado. A segunda foi pior, porque veio carregada de memória.
Ele sempre dizia, em tom de brincadeira, que o pé esquerdo do chinelo era seu pé de coelho. Só que ninguém ria de verdade. Os duendes ouviam e concordavam com a cabeça, sem discutir. A Senhora Claus, quando ainda estava viva, apenas o encarava com um olhar que misturava ternura e reprovação, como quem sabe que certas crenças nascem para tapar buracos maiores.
Papai Noel ficou um tempo encarando o espaço vazio no chão. Depois levantou, com cuidado, e caminhou mancando até o armário. Abriu as portas. Dentro, casacos vermelhos alinhados, luvas, gorros, cintos, uma fila de botas que pareciam prontas para um desfile. Havia chinelos reserva. Havia muitos.
Ainda assim, ele não pegou nenhum. Porque não era isso. O pé esquerdo perdido não era só um objeto. Era um ritmo. Era uma ordem. Era a sensação de que o mundo, por mais estranho que fosse, ainda obedecia a algum tipo de lógica.
Ele vestiu o casaco e saiu do quarto.
O corredor já estava em movimento. Duendes passavam correndo com pranchetas, caixas e rolos de fita. Outros empurravam carrinhos com engrenagens, leds e embalagens de plástico brilhante. Havia placas presas nas paredes com frases motivacionais, escritas em letras grandes para não deixar ninguém pensar devagar.
O Natal não espera. Mais entregas. Mais alegria. A magia é produtividade.
Papai Noel caminhou entre eles. Recebeu cumprimentos apressados, sorrisos de canto de boca. As cabeças se inclinavam para ele, mas os olhos continuavam presos ao trabalho.
Ele parou o primeiro duende que encontrou, um dos mais antigos, orelhas levemente rasgadas de tanto usar protetores de ouvido.
Papai Noel pigarreou. O duende levantou o rosto. Papai Noel perguntou:
— Você viu meu chinelo esquerdo?
O duende piscou, como se precisasse traduzir a pergunta para um idioma que não se falava mais ali dentro.
O duende respondeu:
— Chinelo, senhor?
Papai Noel confirmou com a cabeça.
— O pé esquerdo!
O duende olhou ao redor, rápido, como se a palavra chinelo fosse uma falha no sistema.
O duende respondeu:
— Não, senhor. Posso acionar o rastreamento do estoque.
Papai Noel respondeu, sabendo que precisava se explicar melhor.
— Não é estoque. — Claramente, não sabia exatamente como fazer isso.
O duende engoliu em seco, assentiu e saiu correndo, sem entender e sem coragem de perguntar.
Papai Noel seguiu adiante.
A porta dupla do galpão principal estava aberta, e o ar lá dentro tinha cheiro de plástico aquecido, cola e açúcar. Era uma mistura que grudava na roupa, no cabelo, no pensamento. Dentro, esteiras cruzavam o espaço como rios. Duendes ficavam em fileiras, cada um responsável por um gesto minúsculo, repetido até virar instinto.
Colar etiqueta. Fechar caixa. Dobrar papel. Passar scanner.
Os brinquedos pareciam mais inteligentes do que as pessoas. Alguns piscavam. Outros faziam sons que imitavam risadas. Havia bonecos que falavam frases prontas sobre amizade e aventura, sempre com o mesmo entusiasmo programado.
No alto, telões exibiam números. Meta diária. Meta da semana. Meta do espírito.
Havia até um gráfico que subia e descia, chamado Felicidade Estimada.
Papai Noel olhou para aquilo com uma sensação estranha, como se fosse um visitante de si mesmo.
O Chefe de Produção o notou e correu até ele com passos curtos e rápidos, sorriso largo, bochechas rosadas de quem não dormia há dias. O Chefe disse:
— Bom dia, senhor. Pequeno atraso nos lotes da Linha Dourada, mas nada grave. O engajamento está excelente.
Papai Noel perguntou, sem se importar direito com mais nada:
— Você viu meu chinelo?
O Chefe riu, achando que era brincadeira.
Papai Noel não riu.
O Chefe parou de rir:
— Eu posso mandar fazer outro igual. Em vinte minutos.
Papai Noel respondeu.
—Não é outro.
O Chefe assentiu novamente, sem entender, e desviou o olhar como se a conversa fosse perigosa.
Papai Noel caminhou mais para dentro do galpão, procurando entre pilhas de caixas, de fita, de laços. À medida que avançava, ia percebendo uma coisa que sempre estivera ali e que ele havia aceitado por cansaço.
As caixas não tinham nomes. Tinham códigos.
Os duendes não tinham rostos. Tinham turnos.
E ele, ali no meio, era um símbolo. Um logotipo com barba.
Perto de uma esteira, uma duende jovem deixou cair um boneco no chão. O boneco continuou falando mesmo caído, repetindo uma frase alegre. Ela se abaixou rápido, pegou, colocou na esteira e olhou para Papai Noel, como se tivesse sido flagrada cometendo um crime.
Papai Noel quis dizer algo. Quis perguntar se ela estava bem, se comia direito, se dormia. Quis perguntar quando foi a última vez que ela brincou de verdade.
Mas o galpão engoliu o impulso.
O Chefe de Produção já falava com alguém sobre uma embalagem nova, mais brilhante, mais desejável, mais vazia por dentro.
Papai Noel se afastou.
Do lado de fora do galpão, o vento era mais frio. Ele caminhou até uma varanda de madeira, de onde era possível ver uma parte do Polo que não aparecia nos cartões postais. Ao longe, havia estruturas baixas, montes de lona, fumaça subindo em fios finos.
Ele ficou olhando.
As pessoas que moravam ali não trabalhavam na fábrica. Algumas já tinham trabalhado, outras tinham sido substituídas. Havia idosos, gente machucada, mães com crianças pequenas. Eram como sombras na beira do mundo oficial.
Não havia canções ali. Não havia luzes. Só o vento e a necessidade.
Papai Noel sentiu um aperto no peito que não combinava com o casaco vermelho.
Ele percebeu que não sabia o nome de nenhuma daquelas pessoas.
E, no entanto, sabia todos os códigos das linhas de produção.
Ele fechou os olhos por um instante.
A falta do chinelo parecia agora uma falta maior, como se o pé esquerdo tivesse ido embora levando junto uma parte do que ele preferia não encarar.
Quando abriu os olhos, decidiu.
Se o chinelo não estava no estoque, nem na fábrica, nem nos corredores, então não tinha sido perdido por acaso. Alguém o tinha levado. Ou o mundo o tinha empurrado para onde ele nunca olhava.
Papai Noel respirou fundo, sentindo o ar gelado entrar como uma verdade.
Depois desceu os degraus da varanda e começou a andar na direção das tendas.
Com apenas um chinelo no pé direito e a madeira fria no esquerdo, ele deixou pegadas tortas na neve, como se o próprio caminho estivesse aprendendo a mancar com ele.