A neve ali era diferente da que aparecia nos cartões, nos comerciais e nas canções repetidas todos os anos. Não refletia luz, nem amasiava de forma limpa sob os pés. Era uma mistura de gelo, cinzas, óleo velho e restos de madeira quebrada. Papai Noel percebeu isso logo que saiu do caminho oficial e sentiu o chão ceder de maneira irregular sob o chinelo direito, enquanto o pé esquerdo, ainda desprotegido, recebia o frio direto, sem intermediação, não que não fosse algo que ele estivesse acostumado, apesar de fazer muito tempo a ultima vez que isso aconteceu
O som também mudou à medida que avançava. O zumbido constante das máquinas ficou para trás, assim como o tilintar mecânico de sinos decorativos presos às estruturas principais. No lugar deles surgiram tosses secas, passos arrastados, murmúrios que não formavam coro algum. Era um barulho disperso, sem ritmo, como se cada pessoa estivesse vivendo um tempo próprio, desconectado de qualquer calendário festivo.
As tendas surgiam aos poucos, improvisadas com lona reaproveitada, banners antigos virados do avesso e pedaços de embalagens costurados de maneira desigual. Papai Noel reconheceu slogans desbotados nas costuras, palavras que haviam prometido alegria, pertencimento e necessidade urgente. Agora serviam apenas para segurar o vento.
Uma mulher sentada perto de um barril improvisado de fogo foi a primeira a notá-lo. Ela não se levantou nem demonstrou surpresa. Apenas o observou com um olhar firme e cansado, daqueles que não pedem explicação nem oferecem julgamento. Outros perceberam aos poucos. Um homem virou o corpo com dificuldade. Uma criança puxou a manga da mãe e cochichou algo. O nome dele circulou em voz baixa, mais como referência distante do que como presença real.
Papai Noel parou no meio do caminho irregular. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se deslocado não por estar em um lugar estranho, mas por estar em um lugar onde ninguém esperava nada dele. Não havia pedidos, não havia listas, não havia expectativa organizada. Aquela ausência o deixou mais exposto do que o pé descalço afundado na neve suja.
Uma criança se aproximou primeiro. Tinha o rosto marcado pelo frio e por algo mais difícil de definir, um desgaste precoce que não combinava com a idade. O olhar dela desceu imediatamente para os pés de Papai Noel e se fixou no chinelo solitário.
— Você perdeu um! — disse a criança, com naturalidade.
Papai Noel confirmou com a cabeça e respirou fundo antes de responder.
— Perdi o esquerdo.
A criança inclinou a cabeça levemente, avaliando a informação, e respondeu sem ironia.
— Aqui sempre falta um.
Não havia provocação naquela frase. Era apenas uma constatação simples, dita por quem já aprendera a contar o mundo a partir da ausência. Papai Noel sentiu um aperto no peito e se abaixou com cuidado, apoiando o joelho no chão úmido, sentindo o frio atravessar o tecido da calça.
— Você viu um chinelo por aqui? Um só. Esquerdo — perguntou ele, tentando manter a voz estável.
A criança pensou por alguns segundos, como se organizasse mentalmente os objetos que apareciam e desapareciam naquele espaço.
— Vi sim. Achei ontem. Não sabia que era seu.
Antes que Papai Noel pudesse responder, uma voz mais grave veio de dentro de uma das tendas.
— Era quente — disse o homem, sem se levantar. Papai Noel virou o rosto na direção da voz, atento. — Não muito, mas melhor do que o chão — continuou, com um tom neutro, quase didático.
Não havia acusação nem pedido de desculpas. Apenas uma lógica direta, construída a partir da necessidade. Papai Noel permaneceu em silêncio, sentiu uma tensão naquela explicação mais do que qualquer reprovação possível. Ele percebeu, com desconforto crescente, que durante décadas ensinara o mundo a desejar coisas descartáveis, enquanto ali um objeto gasto se tornava abrigo.
Uma mulher se aproximou, carregando um bebê envolto em camadas desiguais de tecido. O casaco dela era fino demais para o frio que enfrentava.
— Se quiser pegar, pode pegar. Ninguém aqui vai impedir — disse ela, sem desafio.
Papai Noel sentiu como um golpe aquela permissão. Não era generosidade. Estava mais para falta de poder para negociar qualquer outra coisa.
— Eu só quero entender — respondeu ele, após alguns segundos.
A mulher inclinou a cabeça, curiosa.
— Entender o quê?
Papai Noel olhou ao redor, absorvendo os rostos marcados, as mãos rachadas, os olhos que haviam aprendido a não esperar demais para não se decepcionar.
— Quando foi que isso virou parte do Natal — disse ele, com a voz mais baixa do que pretendia.
O homem mais velho soltou uma risada curta, sem humor.
— Sempre foi. Só não entrava na música.
O vento soprou mais forte, espalhando faíscas do barril. O cheiro de madeira queimada misturou-se a um odor azedo, difícil de identificar, mas impossível de ignorar. Nesse momento, uma criança saiu de uma das tendas segurando algo com cuidado excessivo.
Era o pé esquerdo do chinelo.
Estava sujo, a lã escurecida, a sola quase lisa de tanto uso. Havia um remendo torto perto do calcanhar, costurado com linha grossa. Alguém tinha tentado prolongar sua vida. A criança estendeu o chinelo.
— A gente colocou mais pano dentro. Esquentava melhor.
Papai Noel nem sabia que alguém poderia ter feito tudo isso em tão pouco tempo. Não fazia ideia de como seu chinelo personalizado tinha chegado tão longe. Teria dormido tantos dias assim? Pegou o chinelo com as duas mãos. Ao tocá-lo, sentiu algo que não soube nomear de imediato. Uma sensação estranha, como se o objeto tivesse absorvido histórias demais para voltar a ser apenas um amuleto pessoal.
Ele olhou para o chinelo, depois para o próprio pé descalço, e então para as pessoas ao redor.
— Vocês recebem presentes? — perguntou, com cuidado.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas denso.
— Às vezes sobra alguma coisa. Quando sobra — respondeu a mulher com o bebê.
— Ano passado jogaram um monte de coisa quebrada aqui — acrescentou outro homem. — Disseram que era melhor do que nada.
— Teve ano que veio discurso — completou uma voz mais jovem, vinda de trás.
Papai Noel fechou os olhos por um instante e, quando os abriu, calçou o chinelo esquerdo. A lã ainda guardava calor, não de magia, mas do uso humano recente. Aquilo o atingiu com mais força do que qualquer encantamento.
Ele se levantou devagar, sentindo agora os dois pés protegidos, enquanto a consciência permanecia exposta.
— Eu vou sair essa noite — disse ele.
Algumas pessoas se entreolharam, sem entusiasmo nem descrença. Apenas observaram. A criança perguntou, com simplicidade.
— Vai trazer alguma coisa?
Papai Noel hesitou antes de responder, medindo as palavras.
— Ainda não sei.
E, pela primeira vez em muito tempo, aquela foi a resposta mais honesta que conseguiu oferecer para alguém.
Antes de se afastar, ele tirou o casaco vermelho e colocou sobre os ombros da mulher com o bebê. Ela tentou recusar, por reflexo.
— Isso eu posso fazer agora — disse ele, balançando a cabeça.
Ela aceitou sem agradecer, porque agradecer também exige uma margem de segurança que ali não existia.
Papai Noel caminhou para longe das tendas sentindo o peso do corpo e do mundo. O chinelo esquerdo parecia mais apertado, não por ter encolhido, mas por carregar algo que não cabia mais apenas no pé. Ao longe, as luzes da fábrica piscavam, chamando-o de volta, como sempre haviam feito.
Ele sabia que teria de retornar. Mas também sabia, com uma clareza desconfortável, que depois daquela manhã não conseguiria mais caminhar do mesmo jeito.
O Natal, ele sentia, parecia que não estava mais no mesmo lugar.