O caminho de volta parecia mais longo, embora fosse o mesmo trajeto percorrido por Papai Noel durante anos sem prestar atenção. A diferença agora estava no ritmo. Ele caminhava mais devagar, sentindo o peso irregular dos passos, como se o corpo tivesse aprendido algo novo e ainda não soubesse exatamente como lidar com isso. O chinelo esquerdo, recém-recuperado, ajustava-se ao pé com uma firmeza estranha, carregando calor e memória ao mesmo tempo.
À medida que se aproximava das estruturas principais, o cenário mudava de forma gradual, quase imperceptível. As tendas iam ficando para trás, substituídas por paredes bem acabadas, caminhos nivelados e luzes cuidadosamente posicionadas para refletir brilho mesmo durante o dia. A neve voltava a parecer limpa, como se fosse outra substância, menos disposta a revelar o que havia por baixo.
Os sons também retornaram ao padrão conhecido. Motores constantes, avisos automáticos, sinos programados para tocar em intervalos regulares. O Polo retomava sua forma oficial, organizada, previsível, confortável para quem sabia onde pisar. Papai Noel percebeu que, ao atravessar aquela linha invisível, o corpo dele reagia com um reflexo padrão, endireitando as costas, ajustando o cinto, retomando o papel.
No portão principal, dois supervisores conversavam enquanto observavam um painel com indicadores. Ao vê-lo se aproximar, interromperam a conversa e fizeram uma breve inclinação de cabeça. Um deles lançou um olhar rápido para os trajes do Papai Noel e pareceu hesitar antes de falar.
— Está tudo em ordem, senhor? — perguntou, com a voz ensaiada de quem pergunta esperando uma resposta específica.
Papai Noel assentiu de forma automática.
— Está — respondeu, mesmo sabendo que a palavra já não significava a mesma coisa.
Ele atravessou o portão e seguiu pelo corredor central. Telões exibiam mensagens de incentivo, gráficos em movimento e imagens cuidadosamente editadas de crianças sorrindo ao redor do mundo. Cada rosto parecia encaixar-se perfeitamente no enquadramento, como se a felicidade tivesse sido padronizada para facilitar a reprodução.
Alguns duendes pararam o que faziam ao vê-lo passar. Outros apenas diminuíram o ritmo, atentos à possibilidade de uma inspeção. Ninguém comentou o atraso, o pé descalço que ele tivera pouco antes, nem o fato de o casaco agora estar ausente. O sistema era treinado para ignorar o que não constava nos relatórios.
Papai Noel entrou na sala de planejamento, um espaço amplo, com uma mesa oval cercada de cadeiras ocupadas por coordenadores, analistas e estrategistas do Natal. Havia mapas projetados nas paredes, rotas destacadas em cores diferentes e blocos de dados se atualizando em tempo real. Assim que ele apareceu, as conversas cessaram.
O Chefe de Logística foi o primeiro a falar.
— Estamos dentro da margem, senhor. Pequenos ajustes na distribuição, mas nada que comprometa a narrativa principal.
Papai Noel apoiou as mãos na mesa e observou os mapas. Havia regiões marcadas com destaque especial, cercadas de atenção, enquanto outras apareciam diluídas, quase invisíveis, reduzidas a manchas neutras.
— E essas áreas aqui — disse ele, apontando para uma zona quase apagada no mapa — continuam sem previsão?
O Chefe hesitou antes de responder.
— Tecnicamente, sim. Não há demanda registrada suficiente para justificar a rota completa.
Papai Noel manteve o olhar fixo no mapa.
— Demanda registrada — repetiu, como se experimentasse o peso da expressão.
Outro coordenador interveio, com um sorriso controlado.
— Estamos focando onde o impacto é maior. Onde a entrega reforça o espírito do Natal.
Papai Noel levantou a cabeça lentamente.
— O espírito para quem? — perguntou.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Alguém pigarreou. Outro consultou o tablet sem necessidade real.
— Para o público — respondeu o coordenador, finalmente. — Para quem acompanha.
Papai Noel afastou-se da mesa e caminhou até a janela da sala, de onde era possível ver parte do complexo. De um lado, os galpões iluminados. Do outro, mais distante, o contorno escuro das tendas que não apareciam nos mapas oficiais.
— Eu estive lá fora hoje — disse ele, sem se virar.
Os presentes trocaram olhares rápidos.
— Lá fora onde, senhor? — perguntou o Chefe de Logística, com cautela.
— Onde a neve não brilha — respondeu Papai Noel.
Ninguém comentou.
Ele virou-se novamente para a mesa.
— Quero revisar as rotas — disse. — Todas.
O Chefe de Produção respirou fundo antes de falar.
— Isso pode comprometer os prazos, senhor. E os parceiros não vão gostar de mudanças tão próximas da data.
Papai Noel assentiu lentamente.
— Eu sei.
— A imagem do Natal também pode ser afetada — acrescentou outra voz. — Há expectativas.
Papai Noel olhou para os rostos ao redor da mesa. Viu competência, cansaço, medo de errar, medo de perder espaço. Não viu maldade aberta. Viu algo mais comum e mais perigoso.
— A imagem do Natal já está sendo afetada — disse ele. — Só não por quem decide.
O silêncio voltou a se espalhar pela sala, mais denso do que antes. Papai Noel sentiu o peso da escolha pressionar os ombros, como se o casaco vermelho ainda estivesse ali, mesmo ausente.
Ele firmou o pé esquerdo no chão, sentindo o chinelo ajustado, o remendo pressionando o calcanhar.
— Ainda temos tempo — disse, com uma firmeza que não usava havia anos. — Mas não muito.
Os coordenadores assentiram, alguns por convicção, outros por hábito. O sistema começava a se mover, ainda que com resistência.
Papai Noel saiu da sala sem olhar para trás. Enquanto caminhava pelo corredor, percebeu que algo havia mudado de forma definitiva. Não no Polo, nem nas fábricas, nem nos mapas. Mas no ponto exato em que ele decidira parar de tratar o desequilíbrio como exceção.
Do lado de fora, os sinos tocaram novamente, anunciando mais uma atualização de metas. Papai Noel seguiu adiante, consciente de que, a partir daquele momento, cada passo seria observado, medido e, possivelmente, contestado.
Mas ele também sabia que já não conseguiria fingir que caminhava inteiro se metade do caminho permanecesse invisível.