A sala das listas ficava no núcleo mais antigo do complexo, um espaço que sobrevivera a reformas sucessivas por insistência simbólica. Diziam que ali estava a essência do Natal, embora quase ninguém entrasse sem autorização expressa. Papai Noel atravessou o corredor estreito sentindo o ar mudar, mais seco, menos perfumado, como se aquele lugar resistisse a ser completamente modernizado.
As portas se abriram com um leve rangido mecânico, e o interior revelou fileiras de terminais alinhados diante de paredes tomadas por painéis luminosos. Não havia papel há muito tempo, mas a ideia de listas permanecia. Nomes surgiam, desapareciam, se reorganizavam conforme critérios que poucos compreendiam por inteiro.
Dois analistas trabalhavam em silêncio concentrado, os olhos presos às telas. Ao perceberem a presença de Papai Noel, endireitaram-se de imediato.
— Senhor — disse um deles, levantando-se parcialmente da cadeira. — Não esperávamos uma revisão hoje.
Papai Noel caminhou até o centro da sala e observou os painéis com atenção prolongada. Linhas verdes indicavam conformidade. Linhas amarelas, exceções. Vermelhas, casos arquivados por inviabilidade.
— Eu também não esperava — respondeu ele. — Mas algumas coisas mudaram.
O outro analista se aproximou, segurando um tablet.
— As listas estão atualizadas conforme os parâmetros definidos. Cruzamos comportamento, histórico de consumo, engajamento e padrões familiares.
Papai Noel assentiu devagar.
— E necessidade — perguntou ele. — Onde entra.
O analista hesitou por um instante antes de responder.
— Necessidade não é um critério objetivo, senhor. É difícil de mensurar.
Papai Noel se aproximou de um painel específico, onde os dados se condensavam em regiões densas e vazios evidentes. Havia áreas inteiras do mundo representadas por manchas quase transparentes.
— Difícil de mensurar — repetiu ele. — Mas fácil de ignorar.
O primeiro analista tentou manter o tom técnico.
— Trabalhamos com o que pode ser comprovado. Pedidos, registros, interações. Sem dados, não há como validar inclusão.
Papai Noel apoiou a mão no painel, sentindo a vibração leve dos circuitos sob os dedos.
— E quem não pede — disse ele. — Fica fora por falta de prova.
O silêncio se instalou na sala, interrompido apenas pelo som constante dos servidores. Os analistas trocaram um olhar rápido, como quem reconhece uma falha estrutural, mas não sabe onde tocá-la sem comprometer tudo.
— Temos protocolos para exceções — disse o segundo analista. — Casos humanitários, regiões críticas.
Papai Noel virou-se para ele.
— Quantos desses protocolos foram acionados este ano.
O analista consultou o tablet, rolando dados com rapidez.
— Três — respondeu. — Todos aprovados por instâncias superiores.
Papai Noel respirou fundo.
— E quantos foram recusados antes de chegar lá.
O analista demorou mais dessa vez.
— Não temos esse número consolidado — disse, finalmente.
Papai Noel voltou a olhar para os painéis. As listas se moviam, se atualizavam, se reorganizavam sem cessar. Crianças boas, crianças problemáticas, famílias engajadas, famílias de risco. Categorias que pareciam exatas até o momento em que se observava quem ficava sempre nos limites, nunca suficiente para entrar, nunca relevante o bastante para justificar esforço.
— Quero ver a lista inteira — disse ele. — Sem filtros.
Os dois analistas se entreolharam, visivelmente desconfortáveis.
— Isso não é recomendado, senhor — respondeu o primeiro. — O volume é grande e pode gerar ruído interpretativo.
— É exatamente isso que eu quero — disse Papai Noel. — Ruído.
Após alguns segundos de hesitação, o analista fez o ajuste. Os painéis mudaram. Nomes começaram a surgir em quantidade difícil de acompanhar, sobrepostos, desordenados, sem cores que facilitassem a leitura. Eram apenas pessoas, sem classificação clara.
Papai Noel sentiu um aperto familiar no peito.
— Essas listas nunca se cruzam — disse ele, mais para si mesmo do que para os outros. — A do que é visto e a do que é vivido.
O segundo analista arriscou uma pergunta.
— O senhor quer alterar os critérios.
Papai Noel permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o fluxo caótico de nomes.
— Quero que vocês incluam uma nova variável — disse, por fim. — Invisibilidade.
— Invisibilidade — repetiu o analista, confuso. — Como isso seria calculado.
Papai Noel respondeu sem olhar para ele.
— Pelo tempo em que alguém passa sem ser considerado.
O primeiro analista respirou fundo.
— Isso vai desestabilizar todo o sistema.
— Eu sei — respondeu Papai Noel. — Mas ele já está desestabilizado. Só não para quem está dentro.
Os painéis continuavam a exibir nomes que surgiam e desapareciam rápido demais para serem lidos com atenção. Papai Noel percebeu que, durante anos, confiara em filtros para manter o Natal funcionando, sem perceber que os filtros também decidiam quem merecia existir naquele dia.
— Façam o ajuste — disse ele, com firmeza. — E preparem um relatório separado. Quero ver quem sempre ficou fora.
Os analistas assentiram, ainda inseguros, mas cientes de que aquela ordem não poderia ser tratada como mais uma solicitação simbólica.
Papai Noel se virou para sair. Ao alcançar a porta, parou por um instante.
— E outra coisa — acrescentou. — Suspendam qualquer otimização que priorize visibilidade sobre necessidade.
O primeiro analista abriu a boca para argumentar, mas fechou novamente ao perceber que não havia espaço para negociação.
Papai Noel deixou a sala com a sensação incômoda de quem havia puxado um fio que não sabia até onde iria. No corredor, o som distante das fábricas parecia menos neutro, quase acusatório.
Ele sabia que mexer nas listas era mexer no coração do Natal moderno. E sabia também que, a partir daquele momento, o maior conflito não seria logístico, nem simbólico.
Seria político.