A convocação chegou rápido demais para ser coincidência. Papai Noel mal havia deixado a sala das listas quando recebeu o aviso de uma reunião extraordinária no auditório central, aquele espaço reservado para anúncios estratégicos, transmissões globais e alinhamentos narrativos. O tom da mensagem era cordial, mas o conteúdo deixava claro que não se tratava de um convite opcional.
O auditório já estava quase cheio quando ele entrou. Fileiras de cadeiras ocupadas por representantes de setores distintos, conselheiros externos, patrocinadores institucionais e observadores credenciados. Havia câmeras posicionadas em ângulos calculados, luzes ajustadas para favorecer expressões confiáveis e um painel ao fundo exibindo o selo oficial do Natal daquele ano.
Papai Noel sentou-se na primeira fileira, sentindo novamente o contato firme do chinelo esquerdo contra o chão, parecia um presságio. O remendo pressionava o calcanhar como um lembrete constante de que aquele não era mais um encontro protocolar qualquer.
O Mediador tomou a palavra com um sorriso amplo, desses que servem para atravessar conflitos sem tocá-los diretamente.
— Estamos aqui para alinhar expectativas — disse ele, com voz segura. — O Natal é um patrimônio coletivo, e sabemos que mudanças de rota podem gerar interpretações equivocadas.
Alguns murmúrios de concordância percorreram o auditório. Papai Noel permaneceu em silêncio, observando.
O primeiro a se levantar foi o Representante da Tradição, vestindo um casaco elegante em tons clássicos. Ele caminhou até o púlpito com passos calculados e falou sem consultar notas.
— O Natal sempre funcionou porque respeitou ordem, mérito e continuidade — disse ele. — Presentes são recompensa. Disciplina gera previsibilidade. Quando se começa a distribuir sem critério, perde-se o valor simbólico que sustenta tudo isso.
Alguns aplausos surgiram, firmes e rápidos.
Em seguida, levantou-se a Representante da Renovação, com roupas modernas e um broche chamativo preso ao peito. Ela ocupou o mesmo púlpito, mudando apenas a postura.
— O Natal precisa evoluir — afirmou. — Precisamos ampliar o alcance, falar de inclusão, diversidade e justiça. Não podemos manter estruturas excludentes sob o pretexto de tradição.
Os aplausos vieram novamente, semelhantes em intensidade e duração.
Papai Noel observava os dois discursos com atenção crescente. As palavras eram diferentes, os gestos também, mas havia algo familiar no ritmo, na segurança com que ambos ocupavam o espaço, na certeza de que estavam sendo ouvidos.
O Mediador retomou a palavra.
— Como podemos ver, há visões distintas, mas igualmente comprometidas com o espírito do Natal.
Papai Noel inclinou levemente a cabeça, sentindo um incômodo se formar.
Ele levantou a mão.
O Mediador hesitou por um segundo, surpreso, mas assentiu.
— Claro, senhor. Fique à vontade.
Papai Noel se levantou lentamente e caminhou até o centro do palco, sem púlpito, sem notas, sem preparação formal. As câmeras ajustaram o foco automaticamente.
— Eu ouvi os dois discursos — começou ele. — Ouço versões deles há anos. Um fala de ordem, o outro de mudança. Um fala de mérito, o outro de justiça. Ambos falam de valores.
Ele fez uma pausa breve, deixando que o silêncio se espalhasse.
— Mas nenhum dos dois falou das pessoas que não entram em discurso algum.
Alguns olhares se desviaram. Outros se fixaram nele com atenção cautelosa.
— Há quem não seja exemplo de mérito nem símbolo de inclusão — continuou Papai Noel. — Há quem não consuma tradição nem represente renovação. Há gente que só precisa não passar frio.
O Representante da Tradição franziu o cenho.
— Com todo respeito — disse ele —, o Natal não pode resolver tudo. Há limites estruturais.
A Representante da Renovação assentiu.
— Concordo. Precisamos de políticas sustentáveis, não de gestos isolados.
Papai Noel olhou para os dois, um de cada lado.
— É curioso — disse ele — como discursos opostos chegam sempre à mesma conclusão prática.
O auditório ficou em silêncio.
— Ambos pedem tempo. Ambos pedem cautela. Ambos dizem que agora não é o momento — continuou. — Enquanto isso, há pessoas usando sobras do Natal como abrigo.
O Mediador interveio, tentando suavizar.
— Talvez possamos formar um grupo de trabalho para avaliar... — Papai Noel levantou a mão novamente, interrompendo com gentileza.
— Eu já avaliei — disse ele. — Estive fora do mapa hoje. Vi o que não entra em relatório. Não estou propondo um novo discurso — afirmou. — Estou propondo olhar para quem não é público-alvo.
O Representante da Tradição cruzou os braços.
— Isso pode gerar insatisfação em quem sustenta o sistema.
— Já gera — respondeu Papai Noel. — Só não entre os mesmos.
A Representante da Renovação respirou fundo.
— E qual seria a sua proposta concreta.
Papai Noel pensou por um instante, lembrando do calor residual no chinelo, do remendo torto, do silêncio das tendas.
— Que o Natal comece onde ele nunca começou — disse. — Não como exceção, nem como campanha. Como prioridade.
O silêncio que se seguiu não era hostil, mas denso. Papai Noel percebeu que havia tocado em algo que nenhum dos lados queria nomear. Não era desacordo ideológico. Era convergência de limites.
O Mediador encerrou a reunião com frases neutras, prometendo análises futuras e alinhamentos técnicos. As pessoas começaram a se levantar, conversando em pequenos grupos, retomando papéis conhecidos.
Papai Noel saiu do auditório sem pressa. No corredor, longe das câmeras, sentiu o peso do próprio corpo novamente. Tocou o chão com o pé esquerdo, sentindo o remendo pressionar o calcanhar.
Ele sabia que não havia vencido nada ali. Mas também sabia que algo tinha sido exposto, e coisas expostas raramente voltam a caber perfeitamente no lugar.
O Natal, percebeu, não estava dividido entre dois lados.
Estava suspenso entre discursos que se anulavam enquanto caminhavam na mesma direção, deixando sempre os mesmos para trás.