A reação não veio em forma de confronto direto. Veio diluída, técnica, espalhada em pequenas decisões que, somadas, tinham peso suficiente para frear qualquer desvio mais brusco. Papai Noel percebeu isso logo ao atravessar os corredores administrativos e notar a mudança sutil no comportamento das pessoas. Os cumprimentos continuavam educados, mas havia um cuidado excessivo nas palavras, como se cada frase precisasse passar por um filtro invisível antes de ser dita.
Nos painéis de aviso, novas mensagens haviam sido adicionadas. Falavam em estabilidade, responsabilidade, continuidade operacional. Termos neutros, difíceis de contestar, apresentados como consenso natural. O Natal precisava seguir funcionando, diziam, e funcionamento sempre foi um argumento difícil de enfrentar quando tudo depende dele.
Na sala de controle logístico, os mapas haviam sido reorganizados. As rotas que Papai Noel pedira para revisar continuavam visíveis, mas agora cercadas por alertas, notas técnicas e projeções de risco. Nada havia sido cancelado, mas tudo parecia suspenso em uma camada espessa de prudência calculada.
Um coordenador se aproximou, segurando um tablet com firmeza excessiva.
— Estamos avaliando os impactos das últimas diretrizes — disse ele. — Algumas mudanças exigem validação externa.
Papai Noel assentiu.
— De quem? — perguntou.
— Dos parceiros — respondeu o coordenador, evitando contato visual. — Eles precisam de previsibilidade.
Papai Noel olhou para o mapa e reconheceu, com desconforto, aquele padrão antigo. Sempre havia um terceiro ausente na sala, alguém que não precisava estar presente para decidir, mas cuja aprovação determinava os limites de qualquer ação.
— E as áreas fora da rota principal — perguntou ele.
O coordenador respirou fundo antes de responder.
— Estão sendo reclassificadas como pontos de observação.
— Observação não aquece ninguém — respondeu Papai Noel, sem elevar a voz.
O coordenador permaneceu em silêncio, os dedos tensos ao redor do tablet.
Papai Noel deixou a sala e seguiu para o setor de comunicação. Ali, a reação era ainda mais visível. Equipes inteiras trabalhavam em ajustes de linguagem, reformulando mensagens para acomodar qualquer mudança sem alterar a sensação geral. O Natal precisava parecer o mesmo, mesmo quando algo começava a se deslocar por dentro.
Uma redatora se aproximou, visivelmente nervosa.
— Estamos preparando versões alternativas do pronunciamento — disse ela. — Uma mais sensível, outra mais institucional. Caso seja necessário.
— Necessário para quem? — perguntou Papai Noel.
Ela hesitou.
— Para evitar problemas.
Papai Noel observou os rascunhos espalhados pela mesa. Palavras como cuidado, alcance, empatia apareciam em destaque, mas sempre acompanhadas de condicionais e ressalvas. Nada ali falava de urgência real. Tudo era passível de adiamento.
— Problemas já existem — disse ele. — Só não chega até aqui.
Ele saiu do setor sentindo o peso do movimento silencioso que se formava ao redor. Não era oposição aberta. Era contenção. A engrenagem não precisava atacar para se defender. Bastava absorver o impacto até que ele perdesse força.
No pátio externo, Papai Noel parou por um instante. O vento frio atravessava o espaço entre os prédios, levando consigo ecos de conversas, anúncios automáticos e sinos programados. Ele tocou o chão com o pé esquerdo, sentindo o remendo pressionar o calcanhar, lembrando-o de que aquela consciência não era teórica.
Ele percebeu então que o sistema não estava preparado para ser injusto nem para ser justo. Estava preparado para continuar. E qualquer coisa que ameaçasse esse fluxo seria tratada como instabilidade, independentemente do conteúdo.
Papai Noel respirou fundo. A engrenagem reagia como sempre reagira. A diferença era que, agora, ele estava dentro dela com os dois pés no chão, sentindo cada dente se mover.
E sabia que, dali em diante, qualquer passo fora do esperado exigiria mais do que discurso. Exigiria atrito.