A preparação para a noite de Natal sempre foi tratada como um ritual técnico, repetido com precisão quase religiosa. Cada etapa tinha horário, responsável e protocolo. Papai Noel conhecia aquele roteiro de cor, mas naquela tarde percebeu algo que antes lhe escapava: o ensaio não servia apenas para garantir que tudo funcionasse, servia para garantir que nada mudasse.
No hangar do trenó, equipes se moviam com eficiência silenciosa. As renas eram examinadas, alimentadas, alinhadas em posições exatas. Sensores eram testados, mapas recalibrados, cronômetros sincronizados com fusos horários que nunca dormiam. Tudo parecia em ordem, e ainda assim havia uma tensão leve no ar, como se o sistema estivesse atento demais.
O Mestre de Voo aproximou-se com uma prancheta digital nas mãos.
— Teste de rota concluído — disse ele. — Pequenas correções aplicadas para evitar desvios desnecessários.
Papai Noel ergueu o olhar.
— Que tipo de desvio? — perguntou.
— Os que não constam no planejamento principal — respondeu o Mestre, com cuidado. — Áreas sem confirmação de entrega.
Papai Noel caminhou até o mapa projetado no chão do hangar, onde linhas luminosas desenhavam o percurso da noite. Reconheceu imediatamente os vazios, as curvas suavizadas para contornar zonas que não rendiam indicadores positivos.
— Essas áreas continuam fora — disse ele.
O Mestre assentiu.
— Não por decisão nossa. Os parâmetros estão claros.
Papai Noel permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o mapa como quem observa um corpo conhecido à procura de sinais novos.
— Faça uma simulação sem os parâmetros — disse ele, por fim.
O Mestre hesitou.
— Isso não faz parte do ensaio oficial.
— Faça mesmo assim — repetiu Papai Noel.
Após alguns instantes de resistência contida, o Mestre ajustou os controles. As linhas no mapa se expandiram, tornaram-se irregulares, menos elegantes. O percurso ficou mais longo, menos eficiente, atravessando zonas antes ignoradas.
— O tempo de voo aumenta — alertou o Mestre. — Há risco de atraso.
— Para quem? — perguntou Papai Noel.
O Mestre não respondeu de imediato.
— Para os pontos de alta visibilidade — disse, finalmente.
Papai Noel assentiu lentamente.
— E para os outros? — disse ele. — Há risco de continuar igual!
O ensaio prosseguiu com a simulação alternativa projetada. Alguns técnicos se aproximaram, curiosos, outros se afastaram, desconfortáveis. Não era comum ver o mapa daquela forma. Ele revelava não apenas trajetos, parecia uma desorganização colorida, mais alegre, lembrava os piscas que iluminavam as casas.
Uma técnica mais jovem quebrou o silêncio.
— Nunca passamos por essas áreas — disse ela. — Achei que fossem zonas vazias.
Papai Noel olhou para ela.
— Vazias, realmente? — perguntou.
Ela pensou antes de responder.
— Não possuem dados.
— Exato — disse Papai Noel. — Mas gente, sim!
O ensaio foi encerrado sem anúncio formal. Oficialmente, nada havia mudado. Os registros indicavam apenas testes internos, sem impacto direto na operação. Ainda assim, Papai Noel sentia que algo havia sido deslocado, mesmo que apenas no nível da possibilidade.
Quando deixou o hangar, o céu já escurecia, e as primeiras estrelas apareciam acima das estruturas do Polo. Ele caminhou sozinho por alguns minutos, afastando-se do fluxo principal. O chinelo esquerdo rangia levemente na neve, o remendo lembrando-lhe, a cada passo, que aquela noite não poderia ser apenas uma repetição eficiente.
Ele sabia que o sistema esperava que, no momento decisivo, ele escolhesse o caminho conhecido. Sabia também que qualquer desvio seria atribuído a falha, erro humano ou instabilidade emocional. Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, aquela responsabilidade não lhe pareceu suficiente para justificar a omissão.
Papai Noel parou e olhou para o céu escuro, respirando fundo.
A noite de Natal se aproximava, e com ela a escolha que nenhum ensaio poderia neutralizar.