O primeiro sinal veio em forma de planilha.
Não houve alarme, nem reunião emergencial, nem comunicado oficial. Apenas um ajuste silencioso nos números projetados, uma linha que mudou de cor e passou a piscar com discrição excessiva. Papai Noel percebeu quando entrou na sala de monitoramento e viu alguns técnicos inclinados demais sobre as telas, falando baixo, como se o volume pudesse agravar a situação.
Ele se aproximou sem anunciar presença e observou por alguns segundos antes de perguntar.
— O que mudou?
Um analista se virou, claramente surpreso.
— Pequenas variações de tempo estimado — respondeu. — Nada fora do aceitável.
Papai Noel apontou para a linha piscando.
— Aquilo não parece aceitável.
O analista respirou fundo.
— Se mantivermos as simulações alternativas, há risco de atraso em entregas prioritárias.
— Prioritárias? — perguntou Papai Noel, sempre parecendo cansado dessas informações que antes eram triviais, mas, pareciam libertar pensamentos dentro dele, que mesmo na juventude não lhe inquietavam.
O analista não respondeu de imediato. Consultou os dados, como se a resposta estivesse escondida em algum gráfico.
— Para os centros de maior visibilidade — disse, por fim. — Onde qualquer atraso vira notícia.
Papai Noel assentiu lentamente.
— E onde não vira — disse ele. — O que acontece quando atrasamos.
Outro técnico respondeu, sem levantar os olhos.
— Nada mensurável.
Papai Noel sentiu o peso daquela frase se instalar na sala.
— Nada mensurável — repetiu. — Ou nada considerado.
O silêncio se espalhou entre as mesas. Ninguém discordou.
Ele caminhou até a tela principal, onde o cronograma da noite estava projetado com precisão cirúrgica. Cada minuto tinha função, cada segundo estava ocupado por uma entrega prevista, calculada para não haver sobra nem falha visível.
— Vocês sabem por que o atraso sempre assusta tanto — perguntou Papai Noel, sem se virar.
Alguns se entreolharam.
— Porque quebra a confiança — respondeu alguém.
— Porque gera insatisfação — disse outro.
Papai Noel virou-se.
— Porque expõe escolhas — disse ele. — Quando tudo acontece no tempo certo, ninguém pergunta quem ficou de fora.
Ele tocou o pé esquerdo no chão, sentindo o remendo pressionar o calcanhar, novamente, fechava os olhos por segundos a mais e aquelas crianças voltavam a sua mente, lembrando-lhe do calor improvisado que alguém precisara costurar ali.
— O atraso não é o problema — continuou. — O problema é decidir que alguns podem esperar para sempre.
Um supervisor se aproximou, tentando manter o tom equilibrado.
— Senhor, precisamos ser realistas. Não podemos atender a todos sem comprometer a estrutura inteira.
Papai Noel olhou para ele com atenção.
— A estrutura já está comprometida — disse. — Só não para quem sempre foi atendido primeiro.
O supervisor hesitou.
— Se houver atrasos visíveis, a reação será imediata.
— Eu sei — respondeu Papai Noel. — E se não houver, nada muda.
Ele se afastou da tela e caminhou até a saída da sala. Antes de sair, parou por um instante.
— Mantenham as simulações alternativas ativas — disse. — Quero ver o custo real do atraso.
— Mesmo que isso gere pressão externa? — perguntou o analista.
Papai Noel assentiu.
— Principalmente por isso.
Ao deixar a sala, sentiu o ar mais frio no corredor, como se o Polo reagisse à decisão. Os sinos tocaram novamente, anunciando ajustes de última hora, e ele percebeu que cada toque agora soava menos como celebração e mais como contagem regressiva.
O custo do atraso começava a se tornar visível. Não apenas nos números, mas nos olhares, nos silêncios, na forma como o sistema se preparava para atribuir responsabilidade quando algo saísse do previsto.
Papai Noel seguiu em frente, consciente de que, naquela noite, chegar um pouco mais tarde poderia significar chegar, finalmente, a lugares onde nunca se chegava.